Ponto de Vista de Percy

— Annabeth!! – tudo o que eu conseguia ver era o oceano a minha frente, e a imensa necessidade de mergulhar naquelas águas e puxar o amor da minha vida de volta.

— Atrás de você! – ouvi a voz de Nico di Angelo gritar.

Girei apenas para ter certeza de que não havia ninguém tentando impedir que eu fosse atrás de Annabeth. Mas era apenas mais um daqueles sujeitos indistintos, ávido por levar um soco.

Me livrei dele, com um chute. Meu desespero não deixava com que eu me concentrasse em mais nada, nem com o que acontecia ao meu redor.

Mas eu tinha consciência de Thalia gritando à mim para não ir. Assim como tomei consciência da saraivada de flechas, de origem desconhecida, que atingiam a carcaça metálica do negro helicóptero de guerra pairando acima de nós, quase acima do penhasco. E os inimigos correndo em direção a corda suspensa pelo helicóptero, ao som de uma trompa de caça vindo da floresta enegrecida há metros de Westover Hall.

E na minha tentativa de ir atrás de Annabeth, Thalia me parou, derrubando-me na neve.

— O que você pensa que está fazendo!? – eu tentava me soltar, mas a filha de Zeus havia imobilizado meus braços – eu preciso ir atrás dela, Thalia. Você sabe que eu preciso!

Ela parecia fazer força para não chorar.

— Eu sei! E vamos...

— Parem – ordenou uma voz feminina.

Parada ali em pé, perto de onde estávamos engarfados, havia uma garota bonita, 16 anos no máximo, com cabelos avermelhados em uma trança e os olhos com uma coloração quase dourada, como a lua cheia. Atrás dela havia uma dúzia de garotas da mesma faixa etária. Uma delas se desprendeu do grupo e se aproximou da garota de cabelos avermelhados, ela possuía cabelos castanhos e aparentava ser a mais velha de suas companheiras.

— Quem são vocês? – perguntei, quando Thalia afrouxou o aperto.

As duas se entreolharam, e a garota de cabelos avermelhados deu um passo à frente.

— Estas são minhas Caçadoras. E eu sou Artémis, a deusa da Lua e da Caça.

Ω

Eu já havia presenciado antes uma reunião entre os doze olimpianos para decidir o destino do mundo, mas definitivamente eu não havia prestado a devida atenção em Artémis. Talvez por ter a certeza de que, naquela ocasião, não havia nenhuma deusa de 16 anos.

Thalia foi a primeira a se levantar, curvando-se diante da deusa.

— É uma honra para nós, senhora Artémis...

— ...mas estamos em uma situação crítica agora – terminei o que ela deveria ter dito.

A garota de cabelos castanhos se colocou ao lado da deusa, a expressão rigorosa, quase como a Sra. Tengiz.

— Mostres mais respeito na presença...

— Tudo bem, Zoë. Os nervos dele só estão abalados – Artémis chegou mais perto – eu sei que você anseia por ir atrás de sua... namorada— ela disse essa última palavra como se fosse um insulto – mas seria uma busca em vão.

Meu ritmo cardíaco se alterou.

— O que você quer dizer com “em vão”? – perguntei. Eu não tinha a intenção de soar brusco, mas se tratava de Annabeth.

Zoë ficou rígida ao lado de Artémis. Thalia não parecia se opor à minha atitude.

— A filha de Atena está fora do alcance, mas não se preocupe...

— Ei! – era Bianca – eu exijo saber o que aconteceu aqui!

Ela parecia muito abalada, assim como seu irmão.

— Exige? – perguntou Zoë.

— Ela quis dizer que gostaria de saber o que aconteceu aqui – corrigiu Thalia – e nós também. Quem eram aquelas pessoas? Elas estavam atrás dos di Angelo?

Caramba, eu não tinha tempo para isso... Annabeth...

— Ser uma deusa não me traz esse conhecimento. Mas estou curiosa em relação à estes dois – Artémis caminhou para o lado dos di Angelo – quem são seus pais?

Nico e Bianca se entreolharam, sérios.

— Não os conhecemos. Eles morreram.

— Não tenho tanta certeza disso – Artémis parou à frente dos irmãos – vocês são semideuses.

— Semi... semideuses? – Nico franziu a testa.

— Um dos seus pais é um deus ou deusa – esclareceu Thalia.

Bianca nos olhou como se fossemos loucos, o que fez com que eu lembrasse de mim ao descobrir a metade de minha origem.

Nico ameaçou dizer algo, mas no final se calou.

Eu esperava que eles lidassem com esse fato o mais rápido possível, pois eu precisava, apesar das palavras de Artémis, ir atrás de Annabeth.

— Bianca, você precisa acreditar em nós. Vamos explicar tudo à vocês – suavizou Thalia.

— Sim. Mas por ora, vamos descansar nossos nervos – a deusa olhou direto para mim, sua voz era autoritária – e assim trataremos de assuntos mais urgentes – ela se virou para a garota de cabelos castanhos – Zoë, peça à Phoebe e as outras que armem as tendas – ela olhou diretamente para Thalia – quero ter uma conversa com você e... – ela olhou para Bianca – você.

Zoë, depois de um “Sim, minha senhora”, se juntou ao resto das companheiras. Thalia assumiu uma expressão confusa, e Bianca parecia com medo. Nico se adiantou para a frente, tenso.

— O que queres com minha irmã?

Artémis olhou corretamente para ele.

— É um assunto particular. Não se preocupe – a deusa olhou para mim – fique um tempo aqui com Percy Jackson e... eu sugiro que acordem o seu amigo sátiro, antes que ele congele até a morte.

Havia me esquecido de que Grover deveria estar por aqui em algum lugar. Ele estava atirado na neve, há 9 metros de onde estávamos, depois de ter levado um golpe na cabeça.

Caminhei até Grover, com Nico atrás de mim, enquanto as garotas se afastavam.

— Hey! – cutuquei meu amigo – Grover, acorde!

Ele apenas resmungou alguma coisa ininteligível. Olhei mais à frente, para perto da beira do penhasco. Um pequeno objeto vermelho se destacava na neve branca.

Me virei para Nico.

— Acorde ele para mim, preciso checar uma coisa.

Ele assentiu.

Andei depressa até o ponto vermelho, esperando que talvez fosse uma gota de sangue, mas o que eu encontrei fez meu coração doer mais do que já estava doendo.

Era o cordão com pingente de coral vermelho que eu havia dado à Annabeth.

Talvez tenha caído quando ela...

Olhei para o Oceano infinito, escuro e gelado.

Não importava onde Annabeth estivesse, eu iria encontrá-la.

Ω

— Cara... eu nem sei o que dizer – Grover havia acabado de recobrar a consciência, e pela expressão em seu rosto depois de ouvir o que tinha acontecido, acho que ele preferia ter continuado desacordado.

Havíamos sentado no banco que estávamos antes, retraídos pelo vento noturno e gelado.

Demorou um tempo para fazê-lo reagir aos meus pedidos de “acorda logo, cara”, tempo suficiente para contar à Nico quase tudo o que ele precisava saber sobre o Acampamento e os deuses. Ele ainda estava processando tudo, é claro, mas teve sorte de não precisar fazer isso enquanto era acusado de roubar um artefato poderoso de um deus. Ou seja, ele teve sorte de não ter sido como eu.

— Não se preocupe, Grover. Eu vou trazê-la de volta – “nem que isso me custe a vida”.

— Por que elas estão demorando tanto? – perguntou Nico, olhando para a direção das tendas recém erguidas das “Caçadoras”. Haviam se passado uns vinte ou vinte e cinco minutos, mas Nico parecia nervoso de estar separado tanto tempo da irmã.

Grover também olhou para aquela direção, franzindo a testa ao notar algumas das garotas andando por ali. Em qualquer ocasião, ter múltiplas garotas por perto deixava Grover animado, mas ele parecia preocupado ao vê-las.

Ele se virou para mim.

— Aquelas são as Caçadoras de Artémis?

— Sim, por que? Você as conhece?

— Já ouvi histórias sobre elas no Acampamento.

— Que tipo de histórias? – perguntei. Até Nico havia se concentrado em ouvir.

— Que Artémis recruta garotas para se juntar à ela e caçar monstros com arcos e flechas pela flora.

— E... é só isso? – não estava tão curioso assim, mas Nico praticamente implorava com os olhos por mais informações.

— Ah, eu não sei dizer quais versões das histórias contam os verdadeiros fatos. Mas dizem que as Caçadoras, ao se juntarem com a deusa, se tornam imortais.

— Imortais? – perguntou Nico.

Grover olhou para ele.

— Sim, à menos que quebrem o voto.

— Voto? – perguntei.

— A deusa Artémis é uma deusa donzela, então suas servas também são submetidas a esse estado. Se elas deixam de ser donzelas, o voto está quebrado – o sátiro explicou.

Ainda não processei.

— Donzela? O que isso deveria significar?

Grover reprimiu um sorriso, estreitou os olhos e mordeu o canto do lábio em uma expressão zombeteira, o que me deixou ainda mais confuso. Para mim, donzela era um termo aplicado às aquelas garotas de contos que esperavam seus “príncipes” virem em seu salvamento. Daí a expressão “donzela em perigo”.

— Sabe quando você... você está com uma garota em uma noite e... no dia seguinte, ela não é mais donzela – Grover me lançou um olhar cheio de significado, parecendo recear que Nico entendesse a referência – não é mais pura.

Abri a boca em um “Ah” de entendimento. Mas só na técnica, porque na prática eu me consideraria tão puro quanto aquelas Caçadoras.

— Então, espera. Será que Artémis quer recrutar Thalia e Bianca? – perguntei.

— É bem possível – Grover olhou para mim — Supondo que... você sabe...

Assenti. Supondo que Thalia e Bianca fossem “donzelas”.

Nico estava fitando a neve.

— Bianca não faria isso – afirmou ele – minha irmã não me deixaria para – ele olhou para a direção das Caçadoras – se juntar à elas.

Dei um tapinha amigável no ombro dele.

Ω

Meia e torturante hora depois, Thalia e Bianca deixaram a tenda de Artémis, com a deusa caminhando atrás delas, em nossa direção.

— A conversa acabou – anunciou Artémis – espero que tenham esfriado seus nervos.

Com aquela neve toda ao nosso redor, e o vento gelado perpassando por nossos casacos, a deusa não deveria ter se dado o trabalho de usar a expressão “esfriar os nervos”.

— Eu vou continuar seguindo caminho, atrás dos rastros sombrios dos acontecimentos de hoje – a deusa se virou para mim – se a filha de Atena puder ser encontrada, eu a encontrarei.

Levantei-me do banco, e no mesmo instante, todos os olhos por ali se fixaram em mim. Figurativamente, é claro.

— Eu vou com você – declarei à Artémis.

— Eu sei que você está aflito, mas terá que aceitar que irei à essa busca sozinha. Sem protestos, rapaz – asseverou Artémis.

Eu estava prestes a entrar em uma séria discussão com uma deusa, mas Thalia se colocou na minha frente.

— Senhora, por favor, se me permite perguntar: por que está indo ao resgate de Annabeth? Quero dizer, ela é uma semideusa, e nem sequer é sua filha.

Era uma questão válida. Os deuses, em geral, não davam a mínima para os mortais, e principalmente para os semideuses.

— Isso não é tudo sobre o desaparecimento dessa jovem filha de Atena. Algo está errado, os olimpianos sentem isso – Artémis olhou para Bianca e Nico – preciso que escoltem os di Angelo até o Acampamento. Minhas Caçadoras encontrarão vocês lá – ela se direcionou à Thalia – lembre-se de tudo que conversamos.

Eu não conseguia aceitar o que Artémis falava. Eu, acima de todos, precisava encontrar Annabeth. Mas Thalia me puxou de lado, adivinhando minha objeção.

— Ei, vamos fazer o que ela diz, precisamos chegar até o Acampamento – ela baixou a voz, para que a conversa permanecesse apenas entre nós dois – mas não significa que não vamos fazer nada à respeito.

Encarei Artémis. E, com certa relutância, assenti.

A deusa se afastou de nós, reunindo suas Caçadoras para lhes ditar suas ordens. Percebi a expressão de Zoë endurecer mais do que em qualquer momento antes, mas ela, com a mesma relutância que eu, também assentiu.

— Vamos – saí andando depressa pelo terreno de Westover Hall, na direção que ficava os altos portões escuros – eu não posso perder mais tempo.

Ω

A cada 5 minutos, percorrendo o caminho que levava de volta para Nova York, eu sentia a imensa vontade de dar meia volta, e procurar por Annabeth. E quando eu chegava a conclusão de que eu nem sequer sabia por onde começar a procurá-la, eu socava com força o painel do carro, ato que agora não assustava os demais passageiros, isto é, Thalia, Grover, Bianca e Nico, pois eles já haviam se familiarizado com os meus ataques nervosos.

Eu estava me segurando para não dizer que de todas as missões mal sucedidas existentes, essa foi de longe a pior. Os di Angelo estavam bem ali. Mas eu cravaria Contracorrente em qualquer um que dissesse que o acontecimento com Annabeth foi um efeito colateral.

Sinceramente, eu não sabia se meus olhos estavam ardendo de raiva ou o acumulo das tantas lágrimas que eu reprimia.

Chegamos ao Acampamento com Thalia no volante. O dia estava amanhecendo. O carro de minha mãe ficou perto da colina, em uma parte onde não poderia mais seguir adiante com tantas árvores no caminho.

— Eu preciso de uma missão, Quíron. Agora – eu praticamente invadi o escritório da Casa Grande, com Thalia atrás de mim, enquanto Grover, muito abatido, mostrava o Acampamento e acomodava os di Angelo.

O centauro estava ao lado do Sr. D, checando alguma coisa em um dos pergaminhos. O deus do vinho ergueu os olhos na minha direção.

— Você precisa aprender a bater na porta, Perry.

“Você precisa aprender o meu nome” – pensei.

— Acalme-se, Percy. Conte-nos o que aconteceu – pediu Quíron, sério.

Depois de contar tudo à ambos, Quíron e Sr. D, nenhum deles se manifestou ao meu favor. O centauro assumiu uma expressão reflexiva, enquanto Dionísio apenas despejava suas impressões sobre Artémis.

— Eu vivo dizendo que ela se preocupa demais. Quero dizer, foi apenas um ataque...

— Ainda sim, isso é importante. Se ela acha que Zeus e os outros deuses possuem um pressentimento...

— Possuímos vários pressentimentos, meu caro centauro. Eu saberia de algo, afinal eu faço parte do conselho olimpiano...

— Ei! – Quíron e Sr. D se viraram para mim. Ao meu lado, Thalia deu um passo à frente – Annabeth desapareceu! Vocês ouviram algo do que eu disse!? Eu preciso ir atrás dela! Preciso dessa missão!

Quíron interviu antes que Dionísio dissesse qualquer coisa ou me colocasse de castigo por elevar minha voz.

— Percy, eu sei que você quer ir atrás de Annabeth, pelo fato de ela ser sua amiga...

“Namorada. Mas obrigado, Quíron, por ignorar a relevância de meu desespero”

— ...só que simplesmente não posso lhe encarregar de algo assim. Eu...

— Não precisa dizer mais nada!!

Saí da Casa Grande mais rápido do que entrei, ouvindo Thalia me pedindo para não ir.

“Ela que se resolva com Quíron. Eu vou atrás da garota que eu amo”