Percy Jackson Filmes
23 Thalia - Parte 2
Ponto de Vista de Luke
Ela foi o um dos motivos. Ela trouxe a faísca para o fogo que começaria. Não, ela não sabia de nada disso. Não sabia da revolta contra os deuses que estava para se erguer. Como poderia saber? Estava morta por causa deles. Algo que eu não deixaria passar tão fácil.
Eu estava em meus aposentos do iate Princesa Andrômeda, cansado depois de elaborar com meus aliados uma encantadora visita ao Acampamento Meio-Sangue. Gosto de ficar sozinho um pouco. Praticar um pouco de xadrez. Me ajuda a pensar. A reviver os tantos motivos que tenho para colocar um fim à hierarquia do Monte Olimpo.
Thalia...
Eu não tinha parado de sentir a dor de sua ausência. Sentir a falta dela.
Queria dizer muitas coisas a ela. Coisas que deveria dizer para ela, mas não disse porque não entendia o que era ou não tinha certeza. Algo que se chamava... amor? Era isso? Isso que as filhas de Afrodite falavam no Acampamento?
Mas ao mesmo tempo, eu estava confuso porque outra pessoa também ocupava minha mente de vez em quando e tenho quase certeza que não era nada sobre amor. Um vislumbre de olhos azuis topázio passou pela minha cabeça. Resolvi ignorar. Pensar nessa outra garota não me ajudaria.
Precisava manter meu rancor aceso. Precisava pensar na filha de Zeus. Agora.
Por que a deixaram morrer? Por que ele a deixou morrer?
O rei dos deuses deveria salva-la, ele tinha o poder para isso e ela era sua filha. Deixa-la passar por tudo o que passou durante aqueles dias só para morrer nas mãos de um ciclope e depois transforma-la em uma árvore, como se isso compensasse a falta da paternidade divina imposta por ele.
Se ela ainda estivesse ao meu lado...
Ela entenderia. Porque éramos iguais. Ignorados pelos nossos pais divinos, forçados a ouvir e sentir o rancor que nossas mães carregavam depois do abandono, cansados demais de viver desse jeito e dispostos a largar tudo e correr até onde a raiva, a mágoa e o sentimento de rejeição não nos alcançaria.
Mas ela se foi... e eu estou aqui, onde o que existe dela são apenas recordações, como a época em que nos conhecemos.
Flashback On – Há seis anos – Westport, Connecticut
— Você não deveria ter pegado, não é sua, Luke, amanhã na escola você vai devolver essa bicicleta ao dono dela e pedir desculpas – May Castellan, minha mãe, me repreendia em um tom de voz que deixava claro que estava cansada de passar por isso.
— Não vou! Além de que, eu não roubei a bicicleta para mim, peguei ela porque o dono dela e os garotos que estavam com ele me provocaram dizendo que não tenho pai e que sou um bastar...
— Chega! Não me interessa isso, Luke. Isso não justifica o que você fez. – Ela começou a andar de um lado para o outro como sempre fazia quando perdia a paciência – Eu já não aguento mais, você só me traz problemas, o que eu já deveria esperar sendo filho daquele ... – Ela não precisava terminar, eu já tinha ouvido isso tantas vezes que memorizei.
...daquele cafajeste deus dos trapaceiros, ladrões, arruaceiros.
Ainda me perguntava internamente porque ela se envolveu com Hermes se claramente o odiava. Só que no fundo eu sabia a resposta: os deuses e deusas, usam o charme, conquistam e se envolvem com os mortais, geram crianças como eu, para depois sumir no mundo e depois regressar mais ou menos lá pro mês de... nunca.
Mesmo assim, eu gostaria que ela olhasse para mim e visse o filho de May Castellan e não o semideus filho de Hermes.
Foi por isso que decidi apenas... ir. Eu não precisava de um lugar fixo. Mesmo sendo um garoto de quase 12 anos eu tinha meus meios de sobrevivência, minha criatividade em encontrar abrigos, minha eficácia em conseguir mantimentos, e inteligência em saber o suficiente que como semideus não poderia ficar em um lugar só por muito tempo. Por causa deles... os monstros. Nunca me deparei com nenhum pelo caminho, sempre os evitava, mas procurava saber sobre eles usando o livro que Hermes deixou para minha mãe pelo correio logo depois que eu nasci, no intuito de informa-la dos perigos do mundo mitológico. Era mais um lance tipo: “Ei meu amor, então, não posso proteger você e o pequeno semideus, mas aqui está um exemplar contendo todos os perigos que vocês vão correr, então é isso, e huh... boa sorte”. Muito paternal.
Então a cada dois dias me mudava para outro lugar, geralmente em florestas e pântanos, mas com certa proximidade das pequenas cidades, e foi quando estava voltando da mercearia depois de uma saqueada básica, que eu a vi.
A garota com as roupas de couro preto, e a expressão decididamente mortal, a expressão de um semideus que está sendo caçado a muito tempo e só quer que isso pare. Atrás dela vinham pássaros negros com garras bem afiadas, eu contei quatro com o que a garota tinha acabado de cortar com uma lâmina.
— Ei! – Tentei chamar a atenção dela, o que deu certo pois tenho certeza de que ela só levou aquele golpe no braço infligido pelas garras do pássaro porque a distraí.
— Ah! Que ótimo, mais um mortal pra perguntar o que diabos são esses pássaros...
— ...da Estinfália – Terminei sua frase, enquanto ela abatia mais um. Faltavam dois. – Me deixe te ajudar. – Puxei um canivete do bolso e corri para um dos pássaros.
— Não! Não vai funcionar – disse ela, cortando mais um pássaro – Armas comuns não funcionam com eles, eu já tentei.
E como ela estava certa. O canivete não só falhou como também se partiu na minha tentativa de perfurar o último pássaro. Boa tentativa Luke! Quer biscoito?
Esquece o biscoito, eu corri, tipo, corri muito. O pássaro estava voando atrás de mim e a garota gritava algo que eu não conseguia ouvir. Então eu senti o vento de algo passando ao lado do meu rosto só para ver que era uma adaga, cravando-se na árvore a minha frente. Olhei para trás, sem sinal de pássaro negro ou garras afiadas. Apenas uma garota curvada em uma posição que deixava bem claro o que tinha acontecido. Ela arremessou aquela adaga. Ela quase me matou.
— Falei pra você se abaixar – disse ela. Depois caminhou até a árvore para arrancar a faca que havia cravado.
— Você perdeu a noção? Eu podia tá morto agora!
— Tem razão, podia mesmo. A sua sorte foi eu ter arremessado essa adaga. De nada. – replicou ela. E fiquei pensando quanta marra essa garota ainda tinha pra mostrar. – Qual seu nome?
— Qual o seu?
— Perguntei primeiro – respondeu ela.
— “Perguntei primeiro”? nome estranho, não acha? No que sua mãe estava pensando...
— Já chega! – Interrompeu ela. – Thalia, me chamo Thalia.
— Luke
— Luke – ela pensou um pouco – certo. Semideus?
— Hermes – respondi deixando bem claro no meu tom de voz que o deus era meu progenitor, não meu pai. Ela pareceu entender isso.
— Hermes então? Ok – ela já ia se afastando pra pegar uma mochila estirada no chão quando a chamei de volta.
— Espera! Você não...
— Zeus. Meu pai é Zeus – esclareceu ela, já de costas viradas — vem comigo. Precisamos sair daqui.
Enquanto a seguia pelo meio da floresta eu fazia perguntas que fortaleceriam nossa conexão construída à poucos minutos.
— O que faz por aqui? Está fugindo de quem? Por que? Pra onde vai? Por que armas comuns não funcionam nos monstros? Por que...
— ...você não cala essa matraca? – perguntou ela.
— Foi mal, é só que... sei lá.
— Sei como é. Vou responder as perguntas mais importantes. Armas comuns não funcionam nos monstros, só armas como esta – ela puxou a adaga que praticamente me escalpelou, ela era feita de bronze e tinha detalhes antigos no cabo, a lâmina bem polida era toda desenhada com símbolos gregos – feitas a partir de metais celestiais. Quanto pra onde eu vou... ainda não sei, nenhum lugar definido por enquanto. E você?
— Abrigos ali, outros aqui, sabe?
— Sei, mas planejo ir para o norte – revelou ela.
— Por que? – questionei.
— Um pressentimento, não sei explicar, é como se indo para o norte eu fosse encontrar algo.
— Tudo bem. Mas você não respondeu as outras perguntas.
Ela olhou para mim, me avaliando com seus olhos azuis elétricos.
— Você pode ser um bom parceiro de viagem...
— Hermes é o deus dos viajantes, e eu sou, hã, prole dele.
— ...se for comigo, posso te dar minha arma reserva que guardo comigo, e ajudar você a praticar. E talvez responder suas perguntas.
— Tudo bem – apertamos nossas mãos – só nunca mais arremesse uma faca perto da minha cabeça.
Ela sorriu pela primeira vez e então seguimos caminho.
Depois de dias trilhando um caminho desconhecido juntos nos tornamos parceiros... amigos. E eu meio que desenvolvi uma certa admiração por ela. A primeira pessoa que entendia como era difícil viver nesse mundo em que fomos jogados.
Com o tempo ela se abriu comigo, eu a conheci.
Ela estava viajando a bem mais tempo do que eu, considerando que era de Los Angeles, onde a mãe dela, Beryl, trabalhou como atriz, e como eu, tinha que ouvir as reclamações sobre um certo deus não aparecer em casa mais. A mãe dela tinha problemas com bebidas e já não demonstrava muita importância ou responsabilidade com o fato de ter uma filha. Thalia se encheu de tudo e foi embora.
Algumas semanas depois encontramos outro meio-sangue.
Estávamos caminhando pela Athens Avenue em Dayton, Ohio. Eram cerca de 11 horas da noite, e nós dois tínhamos que ficar atentos por monstros e policiais. Por que policiais? Bom, ter 11 anos e não ter hora pra voltar pra casa ainda era um problema pra nós. Depois de sairmos de uma lanchonete, tentamos encontrar um lugar onde passar a noite, prédios abandonados ou em construção eram nossos alvos. Foi quando ouvimos o barulho de lixeiras caindo em um beco próximo, ficamos alertas. Correr era sempre o nosso primeiro impulso, mas algo naquele beco chamava a nossa atenção, e não ignorávamos essas sensações. Foi quando uma faca passou voando perto da minha cara, por pouco me acertando.
— Mas que merd...
— Quem são vocês? – uma voz de garota soou. E logo depois, da escuridão, a dona daquela voz surgiu.
Nós nos apresentamos. Uma filha de Atena. Annabeth. A primeira coisa que eu notei nela definitivamente foram seus olhos azuis brilhantes como faróis, a segunda foi sua arrogância em processo de evolução. Ela parecia ter um gênio difícil e ser muito orgulhosa, mas parecia ter um bom coração também. Porque não esperou muito tempo e nos contou para onde estava indo, que havia um Acampamento para semideuses, um lugar seguro e protegido. Perguntamos como ela sabia disso, e a resposta foi inesperada:
— Minha mãe me disse.
— Sua... sua mãe? Tipo a sua mãe Atena? – perguntei atônito.
— Não! Minha mãe Medusa! – respondeu ela sarcástica. – é claro que foi Atena – ou essa garota tinha cheirado pó ou Atena era bem diferente dos outros deuses, porque quando olhei para Thalia conclui que ela pensou o mesmo que eu: os deuses são egoístas, e definitivamente não perdem seu tempo divino falando com semideuses.
— Hã... então Atena falou com você? – perguntou Thalia
— Bem, não pessoalmente – quando ela viu a expressão de ceticismo em nossos rostos acrescentou rapidamente — mas ela disse na minha mente, que eu deveria ir para Nova York e encontrar o...
— Acampamento Meio-Sangue? – ofereci.
— Sim! – aceitou ela.
— Fala sério! – Thalia e eu exclamamos juntos.
— É sério! Acreditem ou não em mim, estou indo pelo caminho certo, enquanto vocês ficam andando em círculos sem rumo...
— Temos um rumo – interrompeu Thalia.
— É mesmo? – perguntou Annabeth, colocando as mãos na cintura, um gesto arrogante que eu tinha observado ela fazer umas 3 vezes desde de que nos encontramos, tipo 35 minutos atrás – Qual?
— Ah, você sabe, um rumo assim que não envolve vir parar em um beco com uma faca e arremessa-la na primeira pessoa que entrar – respondi.
— Primeiro: eu achei que vocês fossem monstros. Segundo: estou me guiando pela voz da minha mãe...
— Sua mãe te mandou em um beco? – perguntou Thalia.
— Ela me disse para vir até aqui, que eu encontraria o que faltava para continuar minha viagem.
— Monstros e ah... – olhei rapidamente em volta – lixo?
— Vocês! – respondeu ela.
— Mas você arremessou uma faca em mim porque achou que eu era um monstro – rebati.
— Só porque eu não tinha certeza – devolveu ela.
— Você diz uma coisa e depois se contradiz...
— Chega vocês dois! – Interrompeu Thalia – faremos o seguinte: vamos com você até Nova York... Luke, não me interrompe, de todo jeito estávamos indo para o norte. E se não acharmos nada então, uh, bem, não achamos – ela olhou pra mim – Luke, quantos quilômetros até nosso destino?
— Você quer dizer o destino dela? – perguntei, indicando com a cabeça Annabeth que apenas olhou pra mim com seus olhos de topázios azuis. Intimidantes.
— Luke! – pediu Thalia.
— Tá bom – peguei o mapa do país na mochila e chequei a trajetória – hã, vamos ter que ir por Bethel Township depois continuar até Express Dr S/Long Island Expressway South Service Rd em Hauppauge, daí depois...
— Luke! – exclamou Thalia, de novo. Annabeth apenas observava, como se esperasse que eu dissesse algo que ela já sabia com três anos de idade.
— Tudo certo, temos ainda... – comecei.
— 1’054 quilômetros para percorrer – interrompeu Annabeth. Ela olhou pra mim. – Francamente garoto, aprendi a consultar mapas mais rápido do que isso com três anos, não sei como vocês dois ainda estão nos Estados Unidos...
— Tá, tá, seremos grandes amigos, apertem as mãos ou não apertem, mas vamos embora.
E partimos.
Flashback Off
Bons tempos aqueles, sinto falta delas. Das duas. Da liderança de Thalia. Do egocentrismo de Annabeth.
Mas pelo menos agora, não sou mais caçado, eu caço.
Deuses. Aguardem. Vou vingar Thalia...
Mas por hora, estou morrendo de fome.
E...
Eu não farei nenhuma oferenda com o jantar.
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