Perículo
1 Capítulo 1
Encostei minha cabeça sobre a vidraça de minha janela, fiquei esperando por um tempo, apenas para ver se algo deixaria minha vida normal novamente. Tinham assassinado minha melhor amiga. Nada voltaria a ser igual, minha vida estava mudada, e isso era um fato que eu teria de aceitar. Minha mãe e meu pai já tentaram de tudo para me animar, mas a verdade é que nada pode fazer isso. Começou a chover, por mais que eu gostasse de chuva, não estava no clima. Tudo me lembrava Juliett, tudo. A chuva principalmente, lembro quando ela e eu ficamos na chuva por horas e horas, foi super legal.
- Hey!- veio ela correndo com um de seus casacos da GAP em minha direção, este era lilás com o nome listrado de preto e com fundo rosa. Era um dos mais bonitos, por isso mesmo eu que havia escolhido.
- Tá tudo pronto? — perguntei prestando atenção em meu celular, havia recebido um torpedo de Luke. Ela ainda estava tentando me fazer prestar atenção nela.
- Está sim, — falou. — mas cuidado, se meus pais virem eles vão me matar!
- Ah, sei.
- Sim, vamos começar ou não? — ela colocou o capuz do seu casaco sobre a cabeça. — Está chovendo muito, e meu cabelo vai ficar uma merda.
- Fez escova? — perguntei ás gargalhadas. Ela começou a rir, se jogou sobre a grama igual uma maluca. Ri de sua cara, mas ela não parecia se importar, estava ligando mais para a graça toda, essa era uma das coisas boas de Juliett, ela ria do que ninguém mais acharia graça. Ela fez um não com a cabeça para me responder, em seguida se virou, puxou uma sacola que estava em seus ombros desde que chegou, ainda rindo, é claro. Retirou onze velas de sua bolsa, uma cartolina bem grande, com uma estrela gigante de onze pontas feita caprichosamente. Ela pôs uma vela em cada ponta, e um telefone no meio.
- Agora temos que decidir pra quem ligar! — ela disse.
- Sei-lá, — falei sem entusiasmo. — ligue pra Holly.
- Avá, — ela começou. — se fosse matar alguem mataria a Holly? — perguntou.
- Sim, é. — respondi friamente. — Ela tirou uma nota mais alta que a minha na aula de francês, por culpa dela tive que ouvir um sermão de minha mãe durante 3 dias e 5h. — houve uma pausa pequena para nos entreolharmos. Em seguida continuamos gargalhando.
- Aqui diz que só funciona depois de uma semana. Bom, já que você disse... — ela falou dramaticamente. — a Holly é uma boa vítima para fazer o teste. Vai ser ela mesmo. — ela deu uma pausa. — Mas e ... — ela gaguejou. — e... se ... funcionar de verdade? Não seria bom deixar pra lá?
- Juliett, voce acredita mesmo? — eu disse, rindo muito. — isso é impossível.
Na tarde seguinte, quando Juliett voltava para a aula, dois caras barraram ela e a seqüestraram, pediram dinheiro, mas os pais dela não tinham o suficiente. Eu até tentei ajudá-los, dando minha mesada, mas não deu certo, eles tinham pedido bem mais do que eles queriam juntar. A perícia revelou que não haviam apenas a sequestrado, também haviam abusado sexualmente dela. Chorei ao saber de sua morte. Nunca poderia ter ficado tão triste. Eu sabia que nunca veria minha amiga novamente, agora o que me restava era apenas as lembranças e alguns retratos. Ouvi minha mãe me chamar, já estava na hora de ir ao enterro da Julliet, eu precisaria aguentar. Entrei no carro, estava vestida com minha calça jeans-preta, minha bota de couro, minha blusa cinza-escuro regata, e meu casaco de couro preto.
- Pai, eu não quero ir. — falei a ele enquanto entrava no carro.
- Ela é sua melhor amiga. — ele disse.
- Era. — resmunguei. — Eu não vou fazer mais nada agora que estou sem ela. Ela tinha os melhores planos, e fora ela, nenhum de meus amigos se importa de verdade comigo.
- Blair, você vai entrar neste carro, — ele berrou. — e ver se presta um pouco de respeito por sua melhor amiga.
- Tá. — falei em tom ignorante.
Fomos direto para o cemitério, parei e comprei rosas azuis, as preferidas de Julliet. Saí do carro, estava chovendo, desmanchando completamente minha prancha, meu cabelo era escorrido, ou seja, muito liso, mas tinha algumas ondulações. Ele começava liso, e quando chegava no meio, ficava bastante ondulado, não, não é cacheado, é ondulado! Vi parados sobre o caixão o Sr. e a Sra. Hefroy.
- Sinto muito. — falei.
- Não tem que sentir nada, — ela respondeu. — não foi culpa sua. — comecei a chorar não consegui me controlar, a Sra.Hefroy me acolheu em seus braços e chorou juntamente comigo. Ela saiu para pegar água após enxugar as lágrimas de meus olhos. Senti algo alisar meus cabelos quando sentei no banco.
- Oi Blair! — gritou uma voz animada.
- Oi. — falei de cabeça baixa.
- Hey, — falou. — pare de chorar, se anima. — ela começou a cantar Till the world ends
Sussurrei o refrão para mim mesma. Só então fui perceber uma coisa, essa música, a música mais viciante de todos os tempos, era o meu hino com a Julliet. Olhei para o lado e vi seus cabelos louros totalmente ondulados, diferentes dos meus, eram de um dourado tão lindo e intenso, que parecia mais vivo ainda agora que estava morta. — Julliet?!
- Sim, sim. — respondeu
- Mas como... Peraí, você está viva?- perguntei.
- Porque não estaria? — ela perguntou de novo. — Estou mais viva que nunca!
- Mas você tá ali no caixão. — respondi.
- Estou? Acho que não.
- Você está sim, — falei a puxando para o caixão. — está bem aqui ó!
- Ai, pensa sua louca. — falou ela — Meu corpo está aí, eu não.
- Sim, mas seu corpo é você! — falei. — Meu deus, isso não está acontecendo, isto é apenas um sonho irreal, minha melhor amiga está morta, minha vida tá uma merda, e vai continuar assim. Todos que estão aqui são personagens fictícios desse sonho, sim eles são. Vou me beliscar e quando acordar, ela vai ter sumido, e eu estarei no meu quarto.
- Não vai fugir de mim. — ela disse. — Vai ?
- C-claro que não. — respondi a ela sem êxito. — Estas pessoas também podem te ver?
- Acho melhor não tentar falar com elas. — respondeu.
Ela continuou me olhando, estava estranha, Julliet não estava mais como era antes, por mais que parecesse generosa, eu conseguira ver algo maléfico atrás de seus olhos brilhantes e verdes. Ela estava com a mesma roupa que aparecia em seu caixão, sua jaqueta preferida, uma de couro lilás, uma blusa branca e saia xadrez com a cor igualada a da jaqueta. Todos estavam lá, inclusive Holly, a garota que tínhamos usado como vítima no ritual.
- Vai falar com a Holly. — Disse Julliet. — Ela deve estar preocupada, tinha que fazer um trabalho de química com ela.
- Tá bom. — falei. — Só porque está me pedindo. — saí andando calmamente sobre os corredores de paredes vermelhas daquele velório, conseguia enxergar muita gente do colégio. Todos paravam para falar comigo mas eu continuava andando, sem respondê-los, não estava de bom humor para escutar as pessoas sentirem pena de mim. Olhei para trás e vi que Julliet estava andando atrás de mim, talvez tivesse algo que ela gostaria de dizer a Holly, eu não imaginava o que, mas eu tenho certeza que ela estaria lá para alguma coisa. Ela continuou a me seguir, entrei no banheiro feminino e escutei a voz de Holly dentro de uma das cabines, estava chorando, e gaguejando bastante.
- Holly, — falei. — É você?
- Q-quem é? — ela falou ainda gaguejando, podia escutar um tom fraco de sua voz, que normalmente era tomada por um tom forte, perfeito, e bastante científico.
Olhei-a, ela deveria estar muito confusa, claro. Eu nunca a vi andando muito com Julliet, mas sabia que ela era muito amiga de todos, me deu até pena, mas eu não poderia fazer nada, ela não conseguiria enxergar-la mesmo.
Ela abriu a porta da cabine, já que não citei meu nome, provavelmente abriu a porta para ver quem era o dito cujo que a incomodava enquanto estava em seu momento de desespero, vi minha melhor amiga, que agora estava morta olhando para ela, e revirando os olhos. Não que Julliet fosse falsa, mas apenas acontece que ela nunca falou tanto com Holly antes para esta garota estar se banhando em lágrimas. Eu olhei para Ju, e ela me olhou, em seguida olhamos para Holly, já estávamos nos entre olhando a bastante tempo.
- Porque está chorando, Holly? — perguntei sem êxito, mas tentando fazer o melhor tom de piedade possível, mas estava começando achar que meu tom não estava funcionando muito bem.
Ela me olhou, estava com um pano em sua mão, e com um copo na outra, ela fez uma cara ligeiramente estressada, parecendo botar tanta força em cima do pano e do copo, que o copo se quebrou em suas próprias mãos. Ela me olhou, seus olhos estavam extremamente vermelhos.
- Ai meu deus! — berrei. — Andou se drogando?
- Não! — ela gritou e arremessou o pano contra a parede. Ela só parecia simpática. — Me deixa em paz, saia daqui!
- Olha, eu não sei se você percebeu, — falei calma e fria.- mas isto é um banheiro público, de um velório, se alguém quiser usar tem todo o direito de entrar aqui, seja pra fazer qualquer coisa. Capice?
Ela me olhou parecia mais nervosa ainda, ela saiu andando pelos corredores, bastante estressada.
- Tá bom. — falei. Em seguida olhei para Julliet. — Não foi culpa minha.
Ficamos nos entreolhando, em seguida ela pegou minha mão e foi me arrastando pelo corredor atrás de Holly, ela andava como se estivesse bêbada, o que tinha dado naquela garota? Não que eu estivesse preocupada, claro que não, tive mais de dez anos para me preocupar com ela, e no entanto nunca estive preocupada. Apenas queria saber o que Julliet queria com ela. Só isso. Todo mundo parecia me olhar, claro ninguém deveria vê-la provavelmente, e eu lá, pagando uma de maluca. Eu tava mesmo ferrada, minha mãe iria pagar um psicólogo pra mim, e ele não iria entender porque eu estava com um braço esticado no corredor andando como se estivesse sendo guiada por alguém — e bom, eu estava- mas ninguém conseguira ver esse alguém. Deus, o que faria agora? Alguém me mata!
- Ei, — sussurrei para o espírito da minha melhor amiga que estava bem a minha frente. — não acha que estão percebendo que eu estou louca? Não que eu esteja mas tipo, eu devo apenas estar com a mão reta em direção a frente andando sozinha assim por um corredor. — olhei para ela. — Quer me largar e fazer eu não me passar por louca? — ela me soltou na mesma hora. Olhei para o lado e vi minha mãe parada ali.
Ela ficou me olhando durante um bom tempo. A encarei enquanto Ju, de braços cruzados, resmungava por ter perdido Holly de vista graças a minha mãe. Garanto que se ainda estivesse viva ela não faria isso. Sorri estranhamente para minha mãe, que ainda me encarava como se eu fosse um E.T. Fiz um gesto pra ela, um gesto com os ombros e subindo as mãos, perguntando o porque de ela estar me olhando daquele jeito. Um de seus pés começou a bater no chão vagarosamente.
- Você está louca? — ela perguntou. — Eu sei que está triste pela Julliet, mas não vai enlouquecer, vai?
- Talvez eu vá. – falei resmungando. – Olha mãe, se você estava ocupada de mais dando atenção a sua empresa, e não ligando pro que acontecia em minha vida, muitas das pessoas, ou melhor, todas elas, nunca ligaram pra mim. Você nem se quer sabia disso porque nunca prestou atenção no que eu fazia ou deixava de fazer. Sinto muito dizer isso pra você assim do nada, mas estou realmente sincera hoje. A propósito vou começar a ficar de luto.
Saí andando normalmente, vi minha mãe me olhando ali paralisada. Ela provavelmente não tinha idéia do que dizer. Eu estava me sentindo mal pelo que tinha acabado de dizer. Mas era a verdade. E ela teria que aturar. Por mais que doesse.
Fui para o lado de fora do velório, sentei em um dos bancos do jardim que havia ali. Os seguranças altamente refinados esperavam os convidados na porta. Eu realmente não sabia o porque de colocar guardas ali. O que um assaltante faria num velório? Tipo, eu sei que ele poderia pedir o dinheiro, mas sinceramente? Depois de estar perto de um cadáver ninguém vai sair para um restaurante ou algo parecido, com certeza iria para casa tomar um banho quente. Por isso mesmo que ninguém sairia de carteira pra um enterro. O que um bandido poderia fazer? Entrar e tomar um drink? Qual o mal que tem isso? Bom, eu realmente não sei, não estávamos pagando mesmo por aquela bebida.
Vi Julliet chegar do meu lado. Ela me olhava com um certo tom, não parecia ela, parecia que estava pronta para matar o primeiro que aparecesse, a expressão dela estava realmente maligna. Olhei para ela, enxuguei as lágrimas.
- O que você está fazendo aí ainda? – perguntei. – Não era pra você estar em um outro lugar, outro plano, sei lá, algo parecido?
- Porque eu não terminei as coisas aqui. – ela disse com um tom que soou extremamente mal. – Você vai terminá-las pra mim.
- Terminar? Eu? O que? – perguntei. – Quero dizer, o que eu poderia fazer? Acho que nada de mais, sou apenas uma criança. Uma adolescente, mas os adultos me considerariam criança.
Ela me olhou, tapou minha boca e continuou falando:
- Shh... – ela sussurrou. – Você vai saber o que eu quero na hora certa.
- Olha Ju, — falei. – Não posso fazer nada por você. Sinto muito. Muito mesmo. Mas você está morta. Não há nada que eu diga ou faça que valha a pena.
Senti minha cabeça explodir, foi como se alguém a espremesse. Conseguia sentir o meu coração parando, não conseguia mais respirar. Ela me olhou fixo com um olhar maíligno.
- Já disse, — ela falou em tom berrante. – Você vai fazer o que eu mandar. – ela colocou as unhas em meu rosto e as arrastou até meu pescoço com um pouco de força. Soltei um gemido bastante baixo, mas sim, significou que doeu.
- Você está louca? Pirou? – perguntei. – Você era minha melhor amiga. Não pensava que você fosse assim.
Saí correndo. Chamei meu pai, infelizmente, o chamei chorando. Ele me perguntou o que foi mas eu não respondi, apenas disse que queria ir pra casa. Entrei no carro, estava tocando Halo, um clássico de Beyoncé. E u olhava a paisagem que se encontrava do lado de fora da janela do carro, apenas pensando, passei todo o caminho calada, estava meio deprimida. Nunca pensei que minha melhor amiga faria aquilo comigo.
- Querida, — disse meu pai. – o que é isto em seu rosto?
- Nada pai. – falei. – Não foi nada. Eu só caí e arranhei.
- Mas isto não estava no seu rosto quando chegamos no velório. – ele falou. – Ou estava?
- Não, — respondi. – Eu apenas... Apenas... – falei gaguejando. O que eu poderia dizer? “Pai, o fantasma da minha melhor amiga estava no velório, ninguém a viu, apenas eu. Ela me mandou seguir Holly – que parecia meio drogada -, mas ela saiu correndo. Então ela disse que eu teria que fazer uma coisa pra ela, uma coisa que ela não terminou, e que se eu não a fizesse iria me matar”. Isso com certeza o convenceria, pensei em tom irônico. – Eu apenas caí e me arranhei. Foi no jardim.
Chegamos em casa, subi correndo as escadas e tranquei a porta do quarto. Peguei um caderno com a capa enfeitada com minhas fotos e de meus amigos. Mesmo que eu não tivesse muitos, ainda assim tinha. Comecei a escrever mais uma página, já estava usando ele como diário a muito tempo.
16 de janeiro de 2012,
Querido diário,
Já reclamei sobre o quanto minha vida está uma merda? Acho que sim... Mas de qualquer maneira, aqui vai outra de minhas filosofias: Eu não aguento mais. Minha mãe está sempre ocupada. Meu pai nunca ligou para minha existência, vem me dar um "oi" uma vez ou outra no dia — e olhe lá hein. Minha melhor amiga morreu, e virou uma psicopata antisocialmente ativa. O que me restou? Quero dizer, eu tinha mais amigos, mas eles me deixaram. Já estou tão sozinha que nem consigo mais aceitar companhia. Ano passado foi o maior inferno de minha vida, brigas, desilusões, e gente indo embora cada vez mais. Quando isso vai parar?
Assinado, Blair.
Deitei na cama. Senti algo me cutucar. Olhei para o lado contrário do meu.
- Quem é você? – falei assustada pegando um travesseiro e colocando como escudo a minha frente.
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