Pequenos Momentos Winchester e Cia
20 Por que seus dedos não se tocam?
Notas iniciais

“Estranho, muito estranho.” Dean pensou ao avistar seu irmão de dezessete anos sentado na mesma cadeira em que o deixara há pelo menos quatro horas atrás.
O rosto do mais novo quase enfiado no livro exibia uma concentração esquisita... Muito mais do que Sammy normalmente era, com todo aquele lance de estudar/estudar, andar/estudar, comer/estudar, caçar/estudar, dormir/estudar... Por que tudo o que Sam fazia ultimamente era se dedicar a entrar na faculdade... Todo o seu pensamento era deixar a vida de caçador para trás.
Obviamente, olhando para a face triste e preocupada, percebiasse que aquela obsessão já está passando do limite.
“Se continuar desse jeito você nunca vai perder a virgindade meu irmão” Dean pensou balançando a cabeça, assaltando a geladeira, arrancando de lá uma cerveja, abrindo a maldita sem piedade ou educação e sentando todo espalhado à mesa, em frente ao jovem magricelo, que já o tinha ultrapassado em altura uns bons oito centímetros.
— Playboy ou G-Men?
— Não enche!
Resposta rude, sem movimentos, sem o olhar: Por favor, Dean me deixe em paz, eu quero estudar?... Opa! O alerta vermelho “Sammy com problemas” disparou enlouquecido na cabeça do mais velho.
Aflito, Dean deu um gole na bebida, olhando de soslaio para o irmão. Geralmente teria dado uma resposta malcriada e irônica, abusado e pentelhado o caçula até esgotar seu repertório, ou até a situação perder a graça... Para ele claro, não para o Sam... Mas algo na postura das costas retesadas do irmão, no modo como seus dedos apertavam o livro, a mandíbula cerrada e o olhar vidrado nas páginas, o fez perceber que o que quer que estivesse preocupando o outro, era importante.
— Quer ajuda? – Se prontificou agarrando um dos livros sobre a mesa e folheando suas páginas criticamente.
A pergunta pegou o mais novo de surpresa, para logo em seguida fazê-lo rir pela primeira vez no dia.
Dean o ajudando a fazer o dever de casa possivelmente era a idéia mais absurda e hilária que já ouvira em anos.
Erguendo um pouco o rosto observou o olhar de tédio do outro, sua testa vincada, sua mão largando a cerveja sobre a mesa para coçar a nuca, um sinal claro de que algo o aborrecia, intrigava ou pior, o deixava sem graça.
Sam suspirou, balançando a cabeça daquela piada.
— Obrigado Dean, mas acho que você não conseguiria.
Um profundo silêncio se instalou do outro lado da mesa assim que as palavras foram ditas.
Dando-se conta da imobilidade do irmão... E Sam sabia que Dean quieto era sinal de perigo ou problemas... Ele por fim compreendeu a enormidade do que dissera.
Seu rosto ficou vermelho e suas mãos começaram a suar. Desconfortável, ergueu o olhar para encontrar um par de olhos verdes onde nada podia ser lido: nem dor, nem mágoa, nem raiva.
— Desculpe cara, eu só...
— Só acha que sou um idiota ignorante.
— Não Dean... Eu não quis dizer isso.
— Mas disse.
Uma bofetada, um tapa, um soco, não teria doído mais que o tom na voz do outro.
— Droga Dean. Eu só estou... Olha para isso. – Disse baixando e virando o livro, enquanto afastava o caderno todo rabiscado, para que Dean pudesse ter uma visão total da imagem que, colorida e brilhando levemente, tomava as duas páginas.
— Achei que quisesse ser advogado.
— E quero! Esse trabalho que o Sr. Lindemberg passou pode me ajudar muito a melhorar minhas chances... Preciso de todas que puder conseguir, já que nos mudarmos o tempo todo atrapalha tudo.
E o que estava em jogo ali, para o irmão, não eram pontos em um trabalho que não conseguia fazer, mas seu descontentamento em alcançar o mais rapidamente às metas que criara para si mesmo.
Escondendo seu desgosto, Dean se refugiou na ironia e no sarcasmo. Esquecendo por um momento, talvez até por completo, a ofensa que o irmão lhe fizera
— Como um trabalho sobre um cara pelado, sem muito... – Dean observou as partes intimas e ínfimas da figura -... Dotes masculinos pode te ajudar a cursar direito?
Apesar de arrependido por ter insultado o irmão, Sam realmente achava que estava lançando pérolas aos porcos ao tentar explicar alguma coisa ali. Para ele, Dean não era e nem nunca seria um exemplo de inteligência... Pelo menos não para atividades acadêmicas.
— O Sr. Lindemberg é meu professor de Língua inglesa Dean. E o que ele nos desafiou a fazer foi dissecar essa pintura de Michelangelo e encontrar um novo ângulo, uma nova idéia...
Sam suspirou enquanto apontava para as figuras da pintura.
— Esse é Adão. – Falou apontando para o rapaz nu e sem muita “bagagem”. — E o outro é Deus... Deus está dando vida ao homem... Olhe para as mãos quase se tocando... A de Deus retrata o poder e a mão do homem a aceitação respeitosa.
— Não estou vendo nada de respeitoso nesse cara nu.
— E eu ainda tento!... Isso é importante Dean... Meus estudos significam muito para mim... Pequenos trabalhos como este contam na soma geral quando se deseja entrar para a Universidade... Você não entende... Você e o papai... São iguais... Nunca vão entender.
Sam tentou puxar o livro no que foi detido.
— Posso te entender muito mais do que imagina Sammy.
Dean olhou para a o livro e depois encarou o irmão apertando a mandíbula.
— Quer dissecar essa pintura como se fosse um sapo maninho? – Perguntou Dean sem esperar que Sam realmente respondesse. Sua voz soava baixa, calma, mas profundamente doída. – Pois aqui vai um novo ângulo sobre isso. – Falou batendo um dedo na pintura.
— Isso aqui não é sobre criação... Não é sobre poder divino e aceitação... Não é sobre o sublime encontro entre Deus e o homem... Isso é pura e simplesmente a imagem de alguém que se esforça para alcançar quem ama... Um pai que se estica e tenta de todas as formas e maneiras se aproximar, enquanto seu filho babaca, revoltado e rebelde, talvez até mesmo se achando melhor do que realmente é, não quer o entendimento, mas chega a estender a mão, para poder dizer todo orgulhoso depois, que a falta de aproximação não é culpa sua... Ele estende o braço, mas sem a menor intenção ou vontade de fazer isso. Por que prefere o prazer de satisfazer seus próprios desejos... Por que só pensa em si mesmo... Por que “Adão” acredita que não precisa de “Deus”... Quer saber?... Uma porra que não precisa!
Dean se ergueu olhando fundo para o garoto à sua frente a quem dedicava um amor irrestrito, mas não cego. Alguém que colocava acima de si mesmo, apesar de saber que não deveria esperar receber um sentimento igual em retribuição... Nem ele e nem o pai... Por que Sam se afastava mais e mais da família a olhos vistos... Sam se isolava e se evadia... Sam já havia partido a muito e ainda não sabia...
— E sabe por que seus dedos não se tocam? – Perguntou olhando fundo dentro dos olhos consternados do outro, sabendo que o irmão iria remoer tudo o que dissera, sem levar nada em conta. E sua voz saiu triste, vencida.
— Por que um deles não quer Sammy... Eles nunca vão se tocar, nunca vão se entender, por que um deles, já desistiu.
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