Pequenos Momentos Winchester e Cia
14 Aquele momento oculto no divã
Notas iniciais
Essa é uma visão do que Sam poderia ter conversado com o psiquiatra no episódio "Asylum" da primeira temporada (SPN 1x10).
Aquele momento em que sabemos que ele deve ter exposto seus sentimentos ao médico, mas não foi mostrado a nós fãs.
Se soubesse que teria que se submeter realmente a uma consulta, que o médico com aquela voz calma e rosto sincero e amigável iria deixá-lo tão assustado e com vontade de se abrir não teria se submetido e teria desobedecido ao Dean.- Normal, acho. Ele é meu irmão mais velho... Praticamente me criou... É o meu herói na verdade. – Sorriu sem graça — Sempre foi, mesmo quando acho que ele... – Sam parou e encarou o médico que o observava atento. – Ele é meu irmão e eu o amo. - Mesmo quando acha o que Sam?- Isso não é muito importante... Digo... Irmãos sempre têm desentendimentos, brigam, discutem, não significa que não se amem... Ou que não se gostem...- A questão aqui não parece ser falta de amor Sam. Não precisa provar para mim que o ama, nem se justificar a respeito. Mas você parece guardar outros sentimentos que teme encarar.Sam olhou para o outro lado, mordendo o lábio com apreensão e meditando em tudo o que vinha sentindo ao longo daqueles seis meses em que vagava pelas estradas ao lado do irmão atrás de um pai que não queria ser encontrado. Todos os sentimentos de raiva e desgosto que sentia pelo pai e... Pelo Dean, abafados demais por muito tempo.E a verdade escapou dos seus lábios sem que pudesse se controlar. E uma sensação de alívio pareceu lhe preencher.- Nosso pai nos criou como soldados. Queria que cumpríssemos suas ordens sem questionamentos, sem queixas, com uma obediência cega...Diante da pausa demorada o psiquiatra arriscou uma pergunta.- Você parece ter se rebelado a isso?- Sim, eu... Sempre batíamos de frente ele e eu... Eu não queria, não queria realmente... Sabe o amo muito. Mas não poderia deixar de viver meus sonhos, minha vida, por causa das regras estúpidas e das escolhas que ele fez. Eu não podia deixar ele me controlar também.- E seu irmão, como ele reagia a essa situação?Sam riu se recostando na poltrona passando a mão pelo cabelo.- Ele é o soldado perfeito. “Sim pai” é tudo que ele consegue dizer. Bate continência a cada ordem por mais absurda que seja, sem questionamentos, sem dúvidas. Mesmo que não seja o que ele queira. – O sorriso morreu em seu rosto e seus olhos ficaram mais duros, como as palavras que pronunciou a seguir — O Dean não têm vontade própria, sonhos, nada. Uma ordem do papai é como um mandamento bíblico para meu irmão.- E você sente o que sobre isso?Sam considerou a pergunta com vagar fechando os olhos.- Em duas palavras: Raiva e decepção. – Suspirou cerrando os dentes e flexionando o maxilar antes de continuar – Raiva por ele não dizer não, quando deve dizer. Raiva por ele ser tão cego e não perceber que o papai é tão humano como qualquer outro e erra muito mais que muitos. Raiva dele sempre se curvar às ordens dadas quando ele sabe... Deus, ele sabe que estão erradas. Decepção por que...- Por quê? Sam lembrou um pouco de sua infância. Do Dean lhe contando histórias antes de dormir, lhe dando a melhor porção do almoço, lhe mostrando como limpar as armas, mantê-las carregadas, fazer a mira correta e tudo o que deveria saber sobre monstros e fantasmas. Do irmão a quem recorria sempre em qualquer situação. Do irmão alto e forte por muito tempo, até que cresceu mais que ele... E mesmo assim, ele ainda lhe pareceu como um gigante, até o dia em que preferiu ficar ao lado do pai e não lhe apoiar... Até o momento em que John fechara a porta para ele e Dean preferiu ficar do outro lado e não do seu.- Por que ele não é herói que eu pensei que fosse. Por que além de obedecer ele quer que eu obedeça também.- E como você reage a isso?- Eu questiono, eu luto, eu falo, eu grito, mas ele nunca me escuta. Ele é igualzinho ao papai. Ele manda e eu tenho que obedecer... Todas às vezes, todo o tempo. Sam faça isso... Sam nós vamos por aqui... Sam você tem que fazer aquilo... Eu... Eu estou cansado, cansado de tudo isso. E tem uma coisa aqui crescendo... E uma hora eu vou...Sam parou assustado com a raiva que queimava em seu peito. Aquilo era forte demais e nunca se dera conta. Ou, sendo honesto, reprimira e não quisera analisar aquele sentimento que crescia em seu peito a cada nova e pequena ordem que Dean lhe dava.
Não era por falta de amor... Talvez o amor que sentisse por ele alimentasse ainda mais aqueles sentimentos negativos. Por que a cada momento que Dean abaixava a cabeça seu amor por ele fazia sua raiva maior. E a admiração pelo irmão que tudo podia fazer, diminuía ao vê-lo agir como uma marionete nas mãos paternas. - Uma hora você vai? – Perguntou o médico com mansidão.- Explodir!... Deus! – Sam se jogou para frente e colocou o rosto entre as mãos — Isso só vem piorando e até agora eu não tinha me dado conta de que eu não... Não vou suportar por muito mais tempo.Pronto tinha falado. Tinha se permitido olhar para seus sentimentos sombrios a respeito do irmão e da vida que ele o obrigara a viver quando tudo o que queria era encontrar o assassino de Jess e depois voltar para a vida que escolhera e queria usufruir... E, principalmente, deixar Dean para trás... Por que ele era um constante lembrete da vida horrível em que crescera... Porque ao lado dele não conseguiria esquecer que sua existência não era normal. Envergonhado enxugou às lágrimas e olhou para todos os lados antes de encarar o médico.- Em algum momento Sam, terá que se abrir com seu irmão. Terá de enfrentá-lo.- Eu sei... Sam respondeu abrindo seu melhor sorriso. Sabia que teria que enfrentar Dean assim como enfrentara o pai. O que ele não poderia imaginar é que isso seria da forma mais trágica e difícil. Nunca poderia prever que toda a raiva aprisionada em seu peito, o faria apontar uma arma e apertar o gatilho quatro vezes em direção ao rosto do irmão naquela mesma noite- Agora doutor, me conte sobre o motim do Roosevelt.
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