Notas iniciais
Este capítulo é uma história independente e finalizada. Para quem não conhece a personagem mencionada aqui, aconselho assistir o episódio 1x12 - Faith... Um dos mais tristes do seriado.

A semente da fé



Ele estava demorando. Há horas rezara para que ele aparecesse. Implorara pela sua presença angelical com todo e qualquer poder que ele possuísse.


Nunca pensara em reencontrá-la novamente. Nunca imaginara que ainda pudesse estar viva depois de tanto tempo. E quando lera seu nome na lista do hospital durante mais uma de suas caçadas, não quisera acreditar.


Olhou para a figura na cama frágil e indefesa. E todos os tubos e fios que foram introduzidos em seu corpo, as máquinas que lhe mantinham com vida e sentiu aquela velha sensação de volta.


Sentira a mesma coisa três vezes em sua vida, maior e mais forte do que sentia normalmente. Aquele vazio lá no estômago, a certeza de que pessoas mais merecedoras tinham sido usurpadas de algo que fora dado a ele sem que tivesse algum mérito.


Da última vez fora quando lhe arrancaram do inferno e Deus e anjos se tornaram coisas reais e palpáveis. Apesar de não saber com clareza, foi lhe dado um propósito de vida. Mesmo assim, sentia-se tão pequeno, machucado e sujo para ser abraçado assim pelas forças celestiais. Sentia-se imerecido daquela graça e nova oportunidade, mesmo que não tivesse sido lhe ofertado pelos motivos mais puros.


Da segunda vez fora a pior, pois tinha custado a vida da segunda pessoa que mais amava nesse mundo. E saber seu pai no Inferno sofrendo tantos tormentos por que o amava, era uma tortura indescritível.


A cada dia o buraco em seu estômago aumentava mais e mais. Por que simplesmente não tinha seguido em frente? Por que tinha aceitado aquele presente, mesmo sem saber o quanto ele tinha custado? Por muito tempo, e tinha que ser sincero até aquele momento ali, em pé junto ao corpo na cama, sentia a mesma coisa e tinha a mesma convicção: Preferia que lhe tivessem deixado ir. Preferia ter morrido.


Mas a primeira vez fora a mais triste. Não por que se salvara à custa de outra vida, apesar disso ser outra dor agregada... E sim por que era para ser. Aquela primeira vez deveria ter sido a única.


Se Sam simplesmente tivesse deixado a vida, ou a morte, seguir seu fluxo normal, todo o resto teria sido o exato, o certo, o real. Como estava, tudo tinha sido modificado. A morte de seu pai, a quebra do primeiro selo nada disso teria acontecido... Pelo menos achava que não.


Até mesmo Sam não estaria aqui hoje. Deus! Se tivesse morrido há quatro anos, seu pai veria o que Sam está se tornando e por mais que lhe doesse o coração admitir, o velho já teria feito o que lhe pediu antes de morrer, e que ele, Dean, jamais pensou em fazer.


Seu pai teria tido a coragem e o sangue frio de matar seu filho. Por mais que o amasse, Dean tinha plena convicção de que ele o faria. Mesmo que depois tirasse a própria vida.


Agora estava ali. E aquela pobre figura de um passado recente sobre a cama, conseguira trazer todas aquelas terríveis sensações de volta.


Mesmo sem acreditar, mesmo sem fé, tinha rezado por ela, como poucas vezes fizera. Por ela tinha se dirigido pela primeira vez em sua vida adulta a algo que estava além de sua capacidade entender ou acreditar. Era um cético orando por uma cura.


Sabia que o remorso mais que qualquer outra coisa o tinha movido. Remorso por ter lhe roubado a oportunidade de cura, quando ela precisava mais e merecia mais que um cara desbocado, descrente e promíscuo.


Ainda lembrava a sensação de ver os seus olhos bondosos e puros, tão cheios de fé na última vez que se viram. Da paz que se depreendia de seu corpo e de suas palavras. Da segurança e confiança que ela possuía no ser superior, bom e justo.


De todas as pessoas que tinham passado por sua vida, ela tinha sido a única a realmente lhe mudar um pouco. A única a plantar a semente da fé em seu coração.


Não sabia como ela tinha conseguido sobreviver durante tanto tempo. Da última vez que a vira, ela atravessava uma porta e por mais que desejasse que ela ficasse bem, que seu destino mudasse, que ela se curasse, sabia que em pouco tempo ela morreria.


Fechando os olhos ainda de frente para a cama e sua paciente, sentiu a presença dele.


- Você estava aí há muito tempo? – Dean perguntou para o anjo.


- Tempo suficiente para entender seu propósito em me chamar aqui.


- Pode fazer, não pode?


- Sim... Mas não farei. Layla está bem, ela não tem dúvidas.


Silêncio. Dean se virou encarando o anjo e a profundidade de seus sentimentos, toda a culpa que sentia, podiam ser lidos em seus olhos.


- Não posso mudar a ordem do Universo Dean. Certas coisas têm propósito, é a vida, são suas imperfeições. Não foi dada a mim autorização para alterar o curso normal da existência.


- Preciso implorar Cass? Preciso dizer que ela merece um milagre?


- Desculpe Dean... Ela já recebeu seu milagre. – Ele disse e se foi.


E a pequena semente plantada por Layla em seu coração há tanto tempo, não chegara a germinar. Talvez nunca chegasse. O solo estava muito árido ali e nenhuma mão amiga o regara, nem uma única vez.


Sentindo-se impotente virou-se para a cama e apertou a mão dela levemente. Deixou que seu olhar vagasse pela figura tão serena e só então notou o porta-retratos no criado mudo, onde a foto de Layla, sua mãe e uma garotinha, de não mais que três anos, sorriam felizes.


Subitamente sentiu algo muito forte aquecer seu coração e apertou com mais força a mão fria sob a sua. E no escuro do quarto do hospital, sozinho como sempre, ele pela segunda vez em sua vida lhe disse adeus.