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"It's a new dawn, it's a new day

it's a newlife for me

And I'm feeling good"

Feeling Good — Aviici


AMNÉSIA

Cris Scott

Estávamos sentados em uma poltrona numa mesa ao canto do salão de festas do hotel. Tocava uma música eletrônica qualquer, tinha algumas pessoas na pista de dança outras conversando, as luzes estavam apagadas e a única iluminação eram aquelas utilizadas em boates. Nossos copos se tocaram em comemoração, tínhamos sobrevivido aquele fim de semana turbulento, não para mim, mas definitivamente para o senhor Ward.

Além de ter sido obrigado a vir nessa conferência, ele havia terminado com a senhorita Logan. Lembro do rosto dele descontente ao chegar no escritório na sexta-feira e dizer que eu iria com ele e não a noiva, bem agora ex-noiva. De acordo com ele, o relacionamento não estava indo bem e aquela briga tinha sido o fim. Eles eram o que chamamos de casal perfeito, se completavam e eu sabia bem disso, mas minha mente traiçoeira e sonhadora acreditava que ainda tinha alguma chance com ele. Chegava ser engraçado pensar nisso.

— Do que está rindo? — ele perguntou me fazendo pular assustada.

— Nada — respondi pegando minha taça de Martini e virando o resto da bebida. — Provavelmente devo estar bêbada — dei de ombros.

Ele acabou sorrindo amplamente com o meu comentário.

— Então somos dois — ele disse levantando a taça na minha direção e virando o conteúdo.

Resolvi pegar a azeitona que vem dentro da bebida e comer. Levei o palito na direção da minha boca e estranhamente meu querido chefe acompanhou todo o trajeto. Expulsei esse pensamento da minha cabeça, provavelmente eu devia parar de beber. Percebi a boca dele se mexer, mas não escutei, pois o DJ havia escolhido esse momento para pegar o microfone e falar algo.

— Não entendi — disse o mais alto que consegui.

Ele então se aproximou mais de mim com a taça na mão.

— Quer a minha? — ele perguntou ao pé do meu ouvido. Os pelos do meu corpo se eriçaram na hora. Olhei para o seu rosto que possuía um sorriso brincalhão, mas havia algo diferente no seu olhar.

— Sim — respondi engolindo em seco.

Com a maior naturalidade do mundo, ele pegou o palito com a azeitona, a retirou com a boca e a deixou ali. Ele levantou a sobrancelha. Obviamente minha boca se abriu chocada. Soltei o ar que prendia e umedeci os meus lábios, movimento que ele acompanhou. Geralmente era nessa hora que eu acordava dos meus sonhos.

— Preciso ir ao banheiro — disse me levantando um pouco atrapalhada.

O plano era me afastar, respirar por alguns minutos, inventar uma desculpa e ir direto para o quarto. O que o destino resolveu me aprontar? No meio do caminho, as pessoas começaram a se aglomerar. O DJ havia mudado o ritmo, colocou algo mais envolvente e transformou a atmosfera elétrica em algo mais profundo e sensual. A voz de uma mulher tomou conta do ambiente. Uma mão me puxou para trás, bati com as costas em algo macio, a outra mão livre retirou os meus cabelos deixando o meu ouvido direito livre.

— Lado errado — ele sussurrou e felizmente ele segurava minha cintura, porque eu teria caído. Com rapidez, ele me virou e ficamos frente a frente, quando as primeiras palavras da música começaram.

— O que você está...? — comecei a perguntar, porém ele colocou o dedo nos meus lábios e deslizou lentamente pelos meus lábios.

— "It's a new dawn, it's a new day, it's a new life for me — ele disse me puxando para mais perto e segurando meu rosto com a outra mão. — And I'm feeling good" — ele tocou nossos lábios.

Uma explosão de coisas se passara na minha mente naquele momento: ele era o meu chefe, ia me arrepender disso depois e eu estava muito bêbada, porém joguei o restante de bom senso para o alto. Coloquei minhas mãos no seu cabelo o puxando para mais perto de mim. Se ainda fosse possível, ele me apertou mais.

Nossas bocas se moviam com o ritmo da música e eu nunca mais na minha vida iria querer acordar desse sonho. Pela necessidade de respirar, ele separou nossos lábios afastando o meu rosto lentamente. Sem dizer mais nada, saímos da pista de dança, com ele me puxando para a direção do elevador. Ele apertou o botão.

Meu coração batia freneticamente, o calor me envolvia, a cabeça um turbilhão de pensamentos, certo e errado entrando numa batalha sobre o que devia ser feito. A porta se abriu e entramos e o que posso dizer é que se havia alguma chance de desistência minha, ela se foi quando as portas se fecharam. Pois não há pessoa coerente das suas ações dentro de um espaço minúsculo. Bryce apertou o nosso andar e se virou na minha direção, engoli em seco pela forma que ele me fitava e sorria.

Ele deu três passos lentamente na minha direção e assim que sua mão foi para a minha cintura, a porta se abriu nos assustando e um casal de idosos entrou, o fazendo se afastar como uma criança pega no flagra, isso acabou me fazendo soltar uma gargalhada involuntária, logo acompanhada por ele. Os dois velhinhos nos olharam seriamente, o que tornou a situação mais cômica. Felizmente eles saíram três andares depois.

Quando a porta se fechou foi a minha vez de beijar Bryce, seu corpo bateu na parede do elevador, ele sorriu entre o beijo e nos virou. Sua mão prendeu as minhas ao alto da minha cabeça e a outra começou a percorrer o caminho da minha perna. O barulho do nosso andar se fez presente e nos afastamos, com a mão direita retirou o cartão chave do terno, ele torceu a maçaneta e entramos.

O quarto estava sendo iluminado pela luz da lua, sua mão retirou o meu cabelo do pescoço e ele depositou um beijo ali. Me arrepiei. Ele agarrou a minha cintura e foi nos guiando na direção da cama. Rapidamente fui virada de frente e sua boca veio de encontro a minha. Sem cortar essa conexão, começou a retirada do paletó, logo a blusa ele a arrancou. Comecei a desabotoar as suas calças que caíram com facilidade e foram chutadas para longe. Virei as costas para facilitar o zíper do vestido. O mesmo caiu e Bryce pela primeira vez tocou a minha pele sem o tecido.

Gentilmente fui empurrada e caí deitada na cama vestindo apenas a calcinha já que minha roupa não era necessário uso de sutiã. O olhar que recebi era diferente de qualquer coisa na minha vida, ele se aproximou da mesma forma que um leão se aproxima de uma presa, a respiração já estava ofegante.

Quando a distância foi mínima o puxei para um beijo e pela primeira vez me dei conta do volume que se encaixou entre as minhas pernas. Interrompendo nosso beijo, seu rosto desceu por toda a extensão do meu corpo e sua boca foi fazendo uma trilha até parar na minha calcinha. Não desviei o olhar e pude apreciar o sorriso lascivo que ele mostrou ao colocar um lado da minha roupa íntima no dente e com a ajuda da mão puxar para baixo.

— Sempre quis fazer isso — ele disse voltando para a minha boca. Senti que sua cueca já não se encontrava e ajeitei o meu corpo promovendo maior contato entre nossos corpos.

— Bryce — disse ofegante. Eu o queria agora naquele momento.

— Calma, senhorita Scott — ele pediu ofegante também. — A noite nem começou. Definitivamente ela não havia iniciado.

O sol entrava pela janela e seus raios tocavam o meu rosto, abri os olhos e tive a visão do Central Park, creio que naquela correria não tinha percebido a paisagem. Apreciei por mais alguns minutos sorrindo. O sonho que eu havia tido naquela noite tinha superado qualquer outro poderia dizer que havia sido real, ainda bem que as pessoas não podiam ler a mente das outras, porque se fosse possível o senhor Ward iria me demitir.

Sorrir mais ainda ao lembrar que no meu mundo imaginário eu o chamava pelo primeiro nome. Creio que devia trocar a profissão e em vez de advogada ser escritora. Olhei para o relógio do criado mudo e não eram nem oito da manhã, ou seja, ainda podia dormir um pouco mais. Virei para o lado e vi o senhor Ward dormir tranquilamente. Fechei meus olhos, iria fazer o mesmo. Afinal só iríamos sair na hora do almoço.

Franzi a testa e abri novamente os olhos. O que o senhor Ward fazia ali? Pisquei algumas vezes confusa. Já tinha acordado que a única explicação plausível era eu ter desenvolvido a habilidade de sonhar de olhos abertos. Era a coisa mais lógica de todas. Entretanto minha atenção foi desviada para o abajur que havia ao lado dele no criado mundo e a minha calcinha que se encontrava nele.

Meus olhos se arregalaram à medida que a situação se encaixava. Mesmo sabendo a resposta, olhei por debaixo do lençol para constatar que ambos estavam sem roupa. Coloquei a mão na minha boca abafando o grito, não era o momento para me apavorar. Era a hora de pegar as minhas coisas e me mudar para o México.

Foi com esse pensamento que "gentilmente" levantei da cama, em outras palavras, me enrosquei no lençol, caí no tapete igual a uma bomba. Porém o senhor Ward não acordou, outra coisa que havia descoberto sobre ele: além de beijar bem e ser bom de cama, ele tinha o sono pesado. Sacudi a cabeça expulsando aqueles pensamentos, não era o certo no momento. Me levantei do chão e joguei o lençol sobre ele de qualquer jeito.

Peguei a blusa dele de ontem, coloquei a cueca ao contrário e comecei a recolher as minhas coisas que estavam espalhadas pelo quarto. Vestido ao lado da cama, calcinha no abajur, sapatos perto da poltrona redonda e sobre ela a minha bolsa. Todavia na hora de pegar o último item da lista acima, uma lembrança se formou, eu sentada nela com ele ajoelhado no chão, seu rosto no meio das minhas pernas e minhas mãos em seu cabelo.

Olhei envolta abismada lembrando das áreas do quarto que foram batizadas. Cama, poltrona e a enorme janela do quarto. Me sobressaltei com um barulho vindo da cama, nem pensei duas vezes, corri na direção da porta no estilo pantera cor de rosa e saí. No corredor não havia ninguém, para minha sorte, consegui chegar ao quarto. Quando fechei a porta, minhas pernas cederam e meu corpo tremia, seja de medo ou adrenalina.

Não fazia ideia do que fazer e de como agir. Só havia uma pessoa para quem pedir auxílio. Peguei meu celular dentro da bolsa e nas chamadas favoritas o telefone da minha melhor amiga. Cinco toques depois ela atendeu com a voz de sono e irritada.

— Emm, eu fiz uma besteira — disse começando a chorar e a narrar os acontecimentos. Meia hora depois.

— Eu só não entendi a parte da janela — ela disse confusa.

— Emilly quer parar de brincadeira e me ajudar — pedi nervosa. — Preciso pensar em algo.

— Cris, primeiro respira fundo — ela disse. — Segundo, já aconteceu, não têm como voltar atrás. — Terceiro, não existiu traição de ninguém, eles estão separados.

— AÍ MEU DEUS! — gritei. — Eu sou a garota da copiadora.

— Amiga sua vida não é o seriado Friends — ela disse e pelo tom parecia sorrir. — Vivemos no mundo real onde homens e mulheres fazem sexo e são adultos o suficiente para lidarem com isso — falou mais seriamente.

— Emm eu vou perder o meu emprego — disse nervosa. — Isso não pode acontecer faltando alguns meses para a formatura.

— Cris a culpa não foi só sua — ela disse calma. — E caso o senhor Ward não tenha consciência disso, ele não é o homem que eu pensei que fosse.

Ficamos conversando por mais alguns minutos, logo desliguei. Emilly estava certa, somos dois adultos e temos que lidar com as consequências, foi ele que começou, obviamente não ofereci muita resistência, porém podíamos ter evitado isso. Com que cara que eu iria encarar ele e a senhorita Logan, eu traí a confiança deles, todavia por qual motivo o meu chefe tinha quer ser irresistível.

Resolvi tomar um banho para relaxar e ali embaixo da água quente meu corpo se mostrou dolorido em algumas partes. Isso que dá fazer maratona de sexo selvagem com o chefe. Terminei o banho e comecei a arrumar as coisas, a blusa e a cueca dele coloquei dentro de uma sacola de mão.

As horas foram passando e a cada instante mais agoniada ficava, ele ainda não tinha dado sinal de vida, até cogitei a possibilidade de ele ter ido sem mim, se isso fosse verdade, ficaria muito decepcionada com ele. Peguei o celular para ligar ao senhor Ward, quando uma mensagem chegou. Com todos esses acontecimentos perdi a noção do tempo e já estava na hora que havíamos combinado de sair do hotel.

Saí do quarto e ao passar pelo corredor, encontrei o carrinho da camareira, entreguei a bolsa com as roupas para ela e pedi que jogasse fora, pois não tinha como utilizá-las mais. Respirei fundo três vezes antes de continuar meu caminho, a camareira devia estar me achando estranha, porém não ligava tinha que me preparar e ser corajosa. Eu era uma mulher adulta. O meu momento "Roar" Katy Perry durou até eu virar no corredor e o encontrar parado na frente do elevador. Minha mente ficou em branco e congelei por alguns segundos.

— Cristina? — ele me chamou sacudindo a mão na minha frente. — O elevador chegou.

Assenti sem dizer uma palavra e entramos. Assim que as portas se fecharam me encostei do lado oposto e fiquei olhando de relance. Ele parecia despreocupado olhando o celular com um óculo escuro pendurado na blusa. Ele tentava parecer esconder sua aflição, mas quanto mais o assunto fosse evitado mais estressada ficava. Logo mais lembranças apareceram do elevador me fazendo apertar a bolsa com as roupas dele nervosamente.

— Senhor Ward? — chamei baixo. Ele franziu a testa incomodado. — Podemos conversar?

— Sim, mas me chame de Bryce — ele pediu. — Quase cinco anos trabalhando comigo e ainda não consegue falar o meu nome — ele disse brincando.

Abrir a boca para iniciar o delicado assunto quando o elevador parou num andar, as portas se abriram e um casal de idosos surgiu, porém eles nos olharam e fizeram uma cara descontente.

— Vamos no próximo — a senhora disse, deixando as portas se fecharem.

— Sabe me dizer o motivo? — ele perguntou confuso.

— Ia perguntar a mesma coisa — respondi.

Ele deu de ombros e se voltou para mim.

— Cris, você tem algum remédio para dor de cabeça? — ele perguntou.

— Não — respondi. — Mas posso comprar na farmácia.

— Eu agradeço por isso — ele disse. — Nunca mais vou beber daquele jeito, isso se eu lembrar disso — ele disse sorrindo na minha direção.

— Como assim? — Perguntei confusa.

— Lembro de bebermos e após o décimo copo tudo é um borrão — ele respondeu. — Nem sei como fui parar no meu quarto ou o que aconteceu com as minhas roupas — ele disse envergonhado.

— Você está me dizendo que não se lembra de nada? — perguntei chocada.

— Passei vergonha? — ele perguntou.

O senhor Ward me olhava com o rosto ansioso, esperando minha resposta e se fosse possível uma lâmpada apareceu ao alto da minha cabeça ao mesmo tempo em que o barulho da porta do elevador.

— Você considera ser carregado pela secretária uma vergonha? — perguntei e ele colocou a mão no rosto fazendo um rosto derrotado.

— Talvez — ele respondeu rindo e saímos do elevador. — Seria pior se você tivesse tirado minhas roupas — ele disse despreocupado.

— Quando te coloquei deitado você estava vestido — disse tentando parecer menos nervosa.

— Então nunca saberemos o mistério do sumiço das minhas roupas — ele disse dando de ombros.

— Alguns mistérios são melhores quando não resolvidos — disse e ele concordou.

— Vou fechar a nossa conta para voltarmos — ele disse se afastando.

Olhando-ose afastar eu pude respirar mais aliviada. Talvez o destino tivesse voltado aomeu lado. Minha rotina normal não ficaria abalada, exceto que agora nãoprecisaria mais sonhar com algo que já havia se tornado realidade. Esse era umsegredo que carregaria até o túmulo e conviveria com ele. Durante um mêstudo foi dentro dos parâmetros, até que percebi que a minha visita mensalestava atrasada, o que poderia complicar um pouco.