Pequeno Segredo

2 Testando Positivo


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"I scream and shout

So what I'm gonna do now

is freak the freak out (Hey)"

Freak the Freak Out — Tribute to Victorius Cast and Victoria Justice

TESTANDO POSITIVO

Cris Scott

Vamos lá Scott dizem que na quinta vez dar mais sorte — pensei olhando para o quarto teste de gravidez de farmácia que estava dando positivo.

Fazer mais um não iria ser o fim do mundo. Iria apenas confirmar minhas suspeitas de não estar grávida. Havia, de acordo com o teste, 1% de chance da minha pessoa não estar grávida, então tinha que pertencer a essa porcentagem. Novamente fiz os mesmos procedimentos e eu não podia estar grávida. Acordar enjoada todas as manhãs, minha menstruação atrasar, tontura e cansaço eram apenas sinais de que estava muito estressada pelo meu trabalho. Sendo secretária de uma grande empresa e estar no último ano da faculdade de Direito estava contribuindo para o desenvolvimento desses sintomas.

Os minutos passaram e eu finalmente o peguei. Mais uma vez aqueles dois riscos me encaravam, zombando de mim. Fiquei branca e batendo os pés no chão com raiva joguei todos aqueles testes no lixo do banheiro. Eu não podia acreditar nessas coisas compradas na farmácia, nem sei, porque me dei ao trabalho de comprar essas coisas, já que o resultado do exame de sangue que eu havia feito iria sair hoje.

Respirei fundo e decidi tomar um banho para ir trabalhar. Debaixo da água morna, meu mundo imaginário começou a aflorar. Como eu com um salário de secretária, com pais já falecidos e terminando a faculdade poderia ser uma boa mãe? Obviamente era uma pergunta hipotética, afinal eu não estava grávida. Mas continuando o meu dilema, eu não estava com as melhores condições de me tornar mãe.

Isso é algo que eu sempre quis, tive ótimos pais que me ensinaram a valorizar tudo na vida e gostaria que meu filho ou filha tivesse, porém minha vida teria que estar o mais normal possível e não esse descarrilamento de trem que estava se tornando. Coloquei a cabeça na parede do banheiro sentindo aquela dor de cabeça se formar. Esses testes tinham que estar errados, era a única coisa que eu conseguia pensar. Demorei no banho o que resultou num pequeno atraso e consequentemente não pude tomar café da manhã. Até tinha ligado para Emm e pedido que ela fosse embora aquela manhã.

Saí do meu apartamento e tranquei a porta. Joguei a chave dentro da bolsa e de lá tirei os meus sapatos enquanto ia na direção do elevador. Assim que ele chegou comecei o ritual para colocá-los. O sino informou que estava no térreo, saí de lá e o novo porteiro já se encontrava segurando a porta principal para mim. Dei um sorriso na sua direção e apertei o passo para chegar ao metrô. Pelo horário não consegui um lugar para sentar-se, por isso fiquei encostada na parede batendo os dedos no metal impaciente. Depois de algumas estações cheguei na minha e quando olhei no relógio do celular arregalei os olhos. Caso eu não andasse rápido iria chegar atrasada na reunião.

Subi pelas escadas rapidamente e um trajeto que leva mais ou menos uns quinze minutos eu fiz em cinco. Respirei aliviada quando vi o prédio do trabalho. Retirei o crachá da bolsa e entrei pelas portas giratórias. Passei pela catraca e voei na direção do elevador que estava se fechando.

— Segura — falei mais alto e uma mão o impediu. — Obrigada — disse sem olhar para a pessoa não por falta de educação, mas sim pela imagem do meu reflexo.

Esse meu atraso impediu que eu arrumasse meus cabelos, o que significa que eles secaram no vento e agora estavam semelhantes a de um cientista louco.

— O que aconteceu com você? — perguntou a pessoa. O ia responder de forma rude, porém não fiz.

Meu lindo e irresistível chefe me encarava com um brilho divertido nos olhos.

— Ah não — disse colocando a bolsa na frente do meu rosto, derrotada.

A sonora gargalhada que ele deu tomou conta do ambiente.

— Você sabe que eu ainda vejo o seu cabelo — ele falou entre risos.

Abaixei a minha pseudo capa de invisibilidade lentamente.

— Não tive como secar os cabelos — disse, evitando de o olhar nos olhos.

— Então preferiu ao natural? — perguntou divertido.

— Isso não tem graça senhor Ward — respondi.

— A situação do seu cabelo tem graça — ele disse risonho. — O que não é divertido é você continuar me chamando de "senhor Ward". Como você se sentiria se eu te chamasse toda hora de "senhorita Scott?

Essas palavras foram um gatinho mental para aquela noite de um mês atrás.

— Por favor, isso não — disse mais para mim do que para ele. Afinal as lembranças estavam voltando.

— Enquanto você não me chamar pelo meu nome eu não chamo você pelo seu — ele disse como um decreto.

Abrir a boca para retrucar, mas não tive tempo. Chegamos no último andar e o senhor Ward me deu um tchau debochado. Provavelmente na cabeça dele me chamar por "senhorita Scott" era um tremendo incômodo para mim, entretanto, não era, só ficava um pouco difícil me esquecer da nossa aventura de um mês atrás.

Saí e fui na direção da minha mesa, guardei minhas coisas rapidamente no armário que havia atrás dela, peguei apenas o necessário para tentar dar um jeito no desastre que estava o meu cabelo. Entrei no banheiro e comecei aos poucos a tentar cuidar da minha aparência. Felizmente consegui prender o cabelo no alto, não era o penteado, mas bem melhor do que antes. Quando retornei, o senhor Ward saiu de sua sala e fomos para o compromisso daquela manhã.

A reunião durou quase uma hora e eu como uma boa secretária anotava tudo para não me esquecer de nada, estava concentrada que "quase" havia me esquecido dos eventos mais cedo no meu apartamento. Digo isso, porque assim que eu e outras secretarias fomos liberadas da reunião que continuou com os "chefes", fui arrastada pelo braço por Emilly para o banheiro mais próximo

— Então o que deu? —ela perguntou ansiosa.

— Olha Emm não sei o motivo de me mandar comprar aqueles testes — respondi. — Só me deixaram mais ansiosa que o normal — disse tentando desviar o assunto.

Claramente ela entendeu, porque cruzou os braços e levantou a sobrancelha.

— De acordo com as informações na caixa, todos deram positivo — disse baixo.

O grito de felicidade misturado com nervosismo dela teria feito qualquer mulher grávida entrar em trabalho de parto naquele momento. Se não bastasse isso, ela começou a pular e sacudir as mãos.

— Quer para com isso — pedi segurando-a sem sucesso.

— Cris, eu estou feliz — ela disse com os olhos brilhando. — Minha melhor amiga está grávida.

— Eu não acredito que aqueles testes estejam certos — disse e até eu senti a descrença na minha voz.

— Amiga, 99% dos casos dão positivo — ela disse um pouco debochada.

— Claro que não Emm, estou com sintomas clássicos como: tontura, enjoos e minha menstruação atrasar — argumentei igual na aula de simulação de julgamento da faculdade. — Mas deve ser pelo estresse e o cansaço —afirmei.

— Então essa situação não tem ligação com a noite de sexo selvagem que você teve com o seu chefe — ela disse sarcástica. Apertei os olhos em sua direção.

— Quer falar baixo — disse irritada. — Assim o prédio inteiro escuta.

— Amiga — ela diz suspirando. — Você está com os sinais clássicos de uma gravidez indesejada. Primeiro passo a negação — ela disse. Abri minha boca para negar, mas Emm me calou.

— Quando pegarmos o resultado, saberemos a resposta — ela disse como uma forma de desafio.

— Eu não preciso de um pedaço de papel, pois não estou grávida, mas vou só para ter a satisfação de jogar na sua cara o resultado —disse sorrindo. Ela olhou com pena, mas antes de falar algo outra pessoa entrou no banheiro.

Não quis sua companhia quando fui para a clínica buscar o resultado, tudo que precisava era ficar sozinha pensando, isso pareceu ser uma boa ideia, mas logo me arrependi. Ao chegar lá, tudo parecia tranquilo, algumas mulheres na minha frente, peguei a minha senha e entrei na fila e assim a sessão de cinema começou.

A primeira mulher que aparentava ter a minha idade quase arrancou o papel da mão da secretária que entregava, ela rasgou o papel violentamente e literalmente o semblante dela congelou e o que devia ter se assemelhado com um sorriso, mas ficou algo parecido com o Coringa do Batman. A segunda mulher mais calma, pegou o envelope e despreocupadamente o abriu, leu, suspirou e guardou dentro da bolsa. Pegou o celular.

— Sim, amor grávida de novo! — ela disse saindo pela porta.

A leveza dela me impressionou, mas definitivamente a moça mais nova que estava na minha frente se tornou a inspiração do dia.

— NÃO ESTOU GRÁVIDA! — ela gritou começando a pular de felicidade. Seus olhos brilhantes encontraram os meus e ela me abraçou me fazendo sorrir com sua alegria. — Me desculpe moça — ela disse.

— Sem problemas — disse despreocupada.

— Eu preciso contar para o meu namorado — ela disse sorrindo largamente.

— Eu sabia que testes de farmácia não eram 100% confiáveis — ela disse dando tchau com o celular no ouvido.

Isso definitivamente iria acontecer comigo, testes farmacêuticos podiam gerar "falso positivo". Assim que eu abrisse o teste, estaria livre igual àquela garota. Muito mais confiante, peguei o papel e olhei por alguns minutos. Mesmo sabendo a resposta, queria ter o prazer de esfregar o resultado na cara da Emm. Ela iria me pagar por ter me feito quase surtar.

Tranquilamente voltei para o escritório, parecia que o dia tinha ficado mais belo, o ar mais puro, o teste na bolsa nem parecia pesar. Tinha tudo voltado ao normal. Cheguei mais cedo do almoço e após chegar a minha mesa fiz minha higiene no banheiro. Quando saí ainda me restavam alguns minutos, sentada na minha cadeira, tirei o envelope e coloquei em cima das minhas anotações da reunião. Fiquei o encarando e soltei o ar que havia prendido inconscientemente quando o sino do elevador se fez presente.

— Não importa o que a promotoria quer — o senhor Ward disse falando no celular. — Eles sabem que o caso está ganho, por isso usam esse artifício — disse parando na minha frente mexendo a boca sem emitir nenhum som.

Concordei e entreguei as anotações da reunião na mão dele que me respondeu com uma piscada de olho. Meu coração acelerou algumas batidas, mas precisava me controlar. Se eu soubesse que aqueles seriam os dez minutos mais calmos que teria durante a minha vida, talvez tivesse aproveitado mais, porém as confusões iriam começar. A minha mesa ficava ao lado da porta do meu chefe, porém aquele andar não era apenas dele. Havia mais duas salas: do senhor Adams e de Mike Stanford, diretor financeiro e chefe da minha melhor amiga. Emilly retornou do seu almoço e literalmente parou na minha mesa antes de ir para sua.

— Então Cris e os resultados? — ela perguntou sem rodeios. Esse era o meu momento de brilhar.

— Aqui está —disse apontando para a minha mesa.

— Sem gracinhas Cris onde está? — ela perguntou procurando.

— Está bem aqui — respondi olhando para a minha mesa e não encontrando o envelope.

— Onde está Cris? — Emm perguntou parecendo zangada.

— Juro que estava aqui — respondi apontando para a mesa onde minutos atrás estava o envelope junto com as anotações da reunião

— O que foi? Está me assustando — ela perguntou.

Levantei-me rápido e sem ao menos bater entrei na sala do senhor Ward com ela no meu encalço. Mesmo daquela distância pude perceber o envelope amassado e completamente aberto. Ele, assim que me viu meio sorriso, saiu de seus lábios.

— Parabéns, mamãe — ele disse.