Pequenas mudanças
1 Planos
As folhas de outono eram levadas pelo vento criando um pequeno ruído que misturava com os animados sussurros que os jovens estudantes trocavam na saída do ensino fundamental. O último assunto na boca de todos era o novo show de Yamato, um aluno do ensino médio, cujo o último havia sido cancelado por conta de um ataque de criaturas misteriosas.
Assim com as folhas, o vento fez balançar os cabelos de Hikari e Takeru que caminham rua a baixo em um passo vagaroso, diferente do resto de seus colegas que corriam afoitos para chegar em casa. Hikari empurrava sua bicicleta, sem sinal de que pretendia montar nela tão cedo. Moviam-se no próximo passo, como se o tempo estivesse passando mais devagar por eles. Não possuíam nenhuma presa de chegar em suas casas, aquele era o ponto ápice de seus dias. Depois que eles se separavam, Hikari subia em sua bicicleta e cantarolava para si mesma até chegar em casa. Aquele processo era tão natural que ela nem questionava se o seu dia deveria se suceder de alguma outra maneira.
Hoje eles riam e debochavam das constantes mudanças de nome da banda de Yamato, que cada vez superava-se com um nome mais ridículo que o outro. O atual era o “Moonlight Cry”. Estavam tão entretidos que mal perceberam um grupo de meninas da escola deles, paradas um pouco mais a frente, que cochichava entre si enquanto eles se aproximavam.
Ao ver eles chegando, uma menina de cabelos cor de mel levantou a pasta escolar até o rosto que estava corado igual a um sinal de trânsito. Uma das amigas dela percebeu isso e a empurrou na direção Takeru e Hikari quando eles passavam por elas, fazendo com que ela tropeçasse e quase derrubasse a bicicleta de Hikari. Takeru segurou Hikari pelo ombro para que ela não tombasse no chão.
— Ai perdão, Hikari! — Disse a menina verdadeiramente constrangida.
— Sem problemas, Megumi... — Respondeu Hikari, sem realmente prestar atenção na menina. A mão de Takeru ainda repousava em seu ombro. Ela não sabia dizer exatamente quando isso começou, mas os toques aleatórios de Takeru, que antes sempre foram tão comuns, agora faziam com que ela sentisse uma algo esquisito. Suas pernas fraquejavam como quando passasse muito tempo sem comer, mas sua barriga estava com aquela sensação de quando se acaba de comer uma comida quentinha.
Ela nunca admitiria para ninguém, mas sentia uma certa tristeza quando esses toques acabavam, como agora quando as mãos de Takeru se afastaram.
Megumi respirou fundo e assumiu uma pose que você pode ver espalhada na capa de milhares de mangás shoujos por aí. Olhos arregalados, boca em forma de biquinho, bochechas hasteadas e mãos unidas, sempre encarando de baixo para cima.
— Takeru-Kun, posso falar com você? — Hikari sentiu uma pontada bater nela ao ouvir aquela voz exageradamente fina e doce.
— Claro. — Ele concordou educadamente.
— Eu quero saber sobre o concerto de hoje a noite, você... Você já tem planos? Quero dizer... Já tem companhia? Por que caso você não tenha... Eu gostaria... Vo-Você gostaria de ir comigo? — A voz da menina falhou nessa última frase.
Hikari arqueou as sombracelhas como se tal ato pudesse acender um letreiro luminoso escrito “PLANOS” no meio de sua testa. Claro que ela não tinham verbalmente marcado com Takeru de irem juntos para o show de Yamato, mas era meio óbvio que eles iriam juntos. Eles faziam absolutamente tudo juntos. Por que dessa vez seria diferente?
— Claro, Sara. Seria ótimo.- Respondeu Takeru para a surpresa de Hikari. Ela sentiu um gosto amargo atingir a ponta da sua língua.
— Jura, Takeru-Kun? Obrigada! Nossa estou tão feliz. – Respondeu Megumi, elevando a pasta escolar mais uma vez até a altura do rosto na tentativa falha de esconder o sangue que concentrava-se em suas bochechas.
Megumi abriu sua pasta e retirou de lá um pequeno pedaço de papel e uma caneta. Ela anotou alguma coisa nele e estendeu para Takeru.
— Aqui está o meu telefone. Te encontro lá hoje à noite, ok? — A voz de Sara escapou quase como um suspiro.
— Okay. – Ele pegou o papel.
Takeru sorriu, acenou com uma das mãos e retomou seu caminho, deixando uma Megumi corada tentando equilibrar-se em cima de suas pernas trêmulas. O que ele não percebeu, foi o intervalo de tempo para que Hikari voltasse a segui-lo.
A portadora do brasão da luz não estava acostumada a sentir emoções negativas de nenhum tipo. Geralmente, era ela quem sempre via o lado bom de tudo e procurava manter-se sempre positiva. Entretanto, ela estava com uma sensação horrível que até mesmo a fez com que uma vozinha dentro dela repreendendo aqueles pensamentos negativos.
Ela voltou a caminhar lentamente ao lado de Takeru.
— Ah, esqueci de te falar. Não sei se gostei muito do episódio de ontem... Quero dizer, estava tão na cara que eles iriam ressuscitar ele, sabe? Acho que eles poderiam ter esperado pelo menos alguns outros episódios para fazer isso e... Hikari-Chan tá tudo bem?
— Claro que está tudo bem? Por que não estaria? — Ela respondeu ríspida.
— Sei lá, a meses você estava torcendo para ressuscitarem ele, mesmo ele sendo o personagem mais chato da série. — Takeru provocou esperando que as bochechas da morena corassem adoravelmente como sempre acontecia quando eles entravam em uma discussão.
— Bem ele tá vivo no final de contas, né? Não adianta discutir isso. — O assunto morreu por ali. Pela primeira vez, desde que eles começaram a voltar juntos da escola quando tinham onze anos, o silêncio entre eles tornou-se tão alto que Takeur pode ouvir com clareza o som do rodar da correia da bicicleta de Hikari.
Aquilo era estranho. Muito estranho. Bizarro quase. Há menos de três minutos atrás Hikari agia como sempre e do nada passara a andar em silêncio sem encara-lo diretamente. Ainda mais dando respostas tão agressivas para ele, isso realmente não era do perfil dela. Ele sabia que tinha feito algo que ela não gostara, mas não sabia dizer o quê. Muito menos tinha coragem de perguntar e correr o risco de tornar as coisas ainda piores.
— Eu tenho que passar em um lugar antes de ir para casa hoje. — Hikari disse quase em um sussurro enquanto passava uma de suas pernas por cima de sua bicicleta. Ela não teve coragem de encarar Takeru, mas ela conseguia sentir os olhos tristes dele pesando sobre ela.
— Te vejo mais tarde.
Hikari deu um impulso com uma das pernas e partiu sem responde-lo. Precisava se afastar de Takeru o mais rápido possível, ela sentia mil coisas passando pela sua cabeça ao mesmo tempo, não tinha noção do que esta sentindo naquela hora.
A sua vista ficava mais turva conforme aquelas nuvens em sua cabeça bloqueavam a claridade de seus pensamentos. Quanto mais confusa, mais irritada ela ficava, e quanto mais irritada, mais seu corpo descontava as descargas de adrenalina naqueles pedais. Isso fazia com a bicicleta seguisse o trajeto ocilante.
A sensação de ter seu coração esmagado contra o peito a consumia de tal forma que Hikari só reparou o estado que sua perna se encontrava quando viu o sangue começando a escorrer das partes da pele que ralaram diretamente contra o asfalto quando ela caiu.
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