— O telefone desejado está desligado ou fora da área de cobertura. Por favor, tente novamente. — Takeru abaixou a cabeça em frustração e contraiu os lábios. Já era sua terceira ligação para Hikari e todas haviam caído na caixa de mensagens. Ele provavelmente deveria deixar sua linha livre, pois Megumi deveria estar ligando a qualquer momento. Mas os pensamentos dele ainda estavam nebulosos por causa do estranho episódio mais cedo. Ele e Hikari nunca brigavam, aquilo era novo entre eles. Por isso aquela sensação de que algo estava errado estava o incomodando tanto como um zumbido de um mosquito na beira do ouvido.

— Não se preocupe, Takeru-Kun. Ela deve estar se arrumando. Aposto que ela vai te ligar de volta. — Sora estava sentada em um pequeno sofá logo atrás dele. Seu cabelo ruivo estava puxado para trás das orelhas, o que destacava seus grandes olhos cor de âmbar.

— Eu não estou preocupado. É só que... A Hikari-Chan não costuma se atrasar e...

— Hikari? — Disse o Yamato para a surpresa do irmão mais novo. Sempre que o músico sentava para afinar sua guitarra, ele parecia se transportar para um outro universo. Takeru não achava que o irmão estava prestando atenção no que ele e Sora estavam fazendo. — Achei que você tinha me dito que reservar o ingresso da sua acompanhante no nome de uma menina chamada Megumi.

— E eu disse. — Defendeu-se TK.

— Então, porque você está preocupado com uma menina que nem vai ser a sua acompanhante hoje a noite? – Yamato tirou os olhos de sua guitarra para lançar um olhar desafiador para Takeru.

Yamato sorriu triunfante quando o rubor subiu no rosto do caçula. Ele era a única pessoa do mundo que sabia dos sentimentos de Takeru por Hikari. Na verdade, qualquer pessoa que passasse alguns minutos com os dois poderia perceber que os sentimentos ali eram muito maiores que só amizade. Entretanto, Yamato era a única pessoa a quem Takeru confidenciara essa informação. O irmão mais velho não perdia uma chance de provocar o mais novo em relação a isso. Takeru sempre fora tão calmo por isso muito difícil de se implicar. Esse era o único tópico que o afetava e geralmente extraia dele uma reação hilária, por isso Yamato sempre se aproveitava dele.

O telefone de Sora tocou. Ela olhou para o visor da chamada e deu uma breve olhada para Yamato. Ela hesitou, mas atendeu:

— Oi, Taichi-Kun. — Disse sem cerimônia. Yamato lançou um olhar sem muita expressão na direção dela. Ela franziu a testa e seu rosto moldou-se em uma expressão confusa — Taichi, fala mais devagar, não estou entendendo nada!

Ela passou alguns segundos em silêncio e do nada a mandíbula dela se enrijeceu e as linhas do seu rosto ficaram mais evidentes.

— Hospital? Mas... Tá, tá entendi. — Ela debatia com o moreno do outro lado da linha. — Mas a Hikari-Chan vai ficar bem?

Sabe a sensação quando você pula de cabeça em uma piscina gelada? Quando todas as células do seu corpo se arrepiam com o choque da água fria enquanto o seu pulmão fica enrijecido para manter o oxigênio?

Takeru só sentirá seu o seu coração dessa maneira duas vezes antes. A primeira no dia em que seus pais se divorciaram, a outra no dia que acho que tinha perdido Angemon para sempre na batalha contra Devimon.

— HIKARI!? — A voz dele saiu mais alta do que ele pretendia. Talvez porque fosse a única maneira dele de ouvi-la por cima do som do seu coração que batia acelerado.

Sora não olhou na direção do menino. Ela encarava o chão, concordava com a cabeça e falava muito baixo para que Takeru não decifrar o que saia da boca dela. Aflito, ele se levantou para chegar mais perto. Quando a alcança ela se despede de Taichi e desliga o celular em um único golpe.

— Takeru, eu preciso que você fique muito calmo agora.

— Calmo como? Por quê? O que aconteceu?

— A Hikari sofreu um acidente. – Takeru hesitou um pouco para o lado como se por uma fração de segundos o chão tivesse desaparecido — De bicicleta. Hoje mais cedo. – Ele sabia que não deveria ter deixado Hikari se afastar dele daquela maneira mais cedo, aquilo era culpa dele. Se tivesse insistido em seguir Hikari como sempre fazia, ela estaria bem. Sora ficou aflita ao ver o rosto do menino ficando gradualmente mais pálido. – Calma. Ela já está bem. Ela só torceu o pé e se ralou um pouco. Já está em casa. — Sora vira-se para Yamato — O Taichi-Kun só ligou para avisar que nenhum deles vai poder vir hoje para o show.

— Não, claro. Com certeza. — Disse Yamato genuinamente preocupado.

Takeru fitou o nada por alguns segundos. Ele não sabia o que fazer. Na verdade, sabia exatamente o que queria fazer. Entretanto, não sabia se aquilo seria o certo a se fazer considerando aquela situação.

— Você deveria ir ver ela. — Yamato simplesmente soltou aquela frase antes de dedilhar algumas notas em sua guitarra, mostrando claramente que aquilo não era algo que ele pretendia debater.

Takeru voltou-se para Sora que pousava um olhar compadecido sob ele. Ela mostrou um meio sorriso, apoiou a mão no ombro dele e acenou com a cabeça. Ele lança mais um sorriso para Yamato antes de sair do camarim. Takeru fica a porta atrás de si e sente o celular vibrando no bolso. Ele olha para tela e vê o número de Megumi no visor.

Notas finais
Espero que gostem do segundo capítulo! Ainda vem mais por aí...