Pequena Loja de excentricidades do Senhor Tusspoth

5 Leve sempre uma peça de roupa por garantia.


Notas iniciais
Desculpe a demora. Senhor Tusspoth até colaborou comigo, porem a minha vida esta demasiadamente agitada. Prestar vestibular e arrumar documentação, ficar na fissura a espera de resultados é realmente exaustivo mentalmente, então minhas mais sinceras desculpas. Aproveitem!

As vezes o dia amanhecia frio, mais frios que os outros. Eu tentava me manter positiva nesses dias, mas nem tudo na vida é um caminho de rosas.

Acordei com uma preocupação estranha. O fim de semana tinha sido perfeito, mas eu simplesmente não conseguia afastar a sensação. Tentei pensar nas coisas boas como eu e meus amigos um tanto bêbados. Nossas danças sem ritmo e os risos completamente involuntários das piadas sacanas do James. Mas nada afastava o frio na espinha daquela manhã. Talvez tenha sido o sonho que eu tive ontem…

“Me vi em um labirinto. E não era confortável, pois estava frio e eu quase semi-nua. Apenas uma fina seda me cobria nas minhas ancas. Meu peito estava nu, apenas meus cabelos cobriam meus seios miúdos. Eu tinha uma adaga em uma das mãos, e terra e sangue nas unhas. O ar cheirava a cinzas. O labirinto era de pedra e uma relva queimada e várias heras venenosas.

—Me escute bem… -a voz era um eco estranhamente familiar- Você já esteve aqui antes. Sabe o caminho todo, não vai ser fácil… Se quiser fazer parte tem que dar seu sangue por isso…

—Por que dar meu sangue? -sussurro em resposta- Eu mereço estar aqui tanto quanto qualquer um… Você me assegurou disso Bas… -sacudo a cabeça- Me desculpe, não posso revelar seu nome não é mesmo?

—Exatamente. -um breve silencio desconfortável se segue- Sei que merece… Mas, meu bichinho… Veja o meu lado, estou de mãos atadas, você é a única que pode prosseguir... Minha proteção só se estende até esse ponto… Não posso te abraçar, mas sinta meu abraço; não posso te beijar, mas sinta meu beijo… Querida, estou te esperando do outro lado. -fico segurando meu riso bobo de cabeça baixa, como se a voz estivesse bem ao meu lado- Uma última coisa: tema os inimigos por sua força, mas lembre-se de sua astucia. Heras venenosas queimam, mas não vão causar o seu fim por mais que lhe pareça o fim...

—Eu sei.. Eu sei… -sorrio com as ultimas frases, fecho os olhos e é como se eu o imaginasse bem na minha frente- Eu sei me cuidar…

—Não se esqueça… Eu te amo… Eles Não! -abro os olhos novamente- Comece a correr!

E lá vou eu quinhentos metros para dentro do labirinto, com os pés descalços, sentido o vento frio e as feridas no meu corpo ficarem geladas. Ando pelas bifurcações como se já me pertencessem. Eu sei o caminho, é como se minha vida toda eu tivesse passado por lá.

Um Troll aparecem, devia ter mais de dezoito, dezenove metros de altura. Ele tinha uma clava e não me deixaria passar, com toda a certeza me esmagariam. Sem medo algum pulo assim que a clava atinge o chão e me agarro na madeira rustica e toscamente talhada, estava escorregadia por causa do sangue fresco de outras criaturas mortas. Escalo com dificuldade e percorro a sua pele e consigo chegar ao pescoço lutando contra sua mão grandalhona a me perseguir. A adaga parece um alfinete, mas assim que eu começo a rasgar sua pele o sangue escorre como um mar de rubro-negro, suas veias não suportam o rojo que me faz voar longe com o sangue quente até outro ponto do labirinto mais a frente. Caio sobre um muro de pedras, o Troll tomba ao lado. Retiro um pedaço de um medalhão pesado que ele usava no pescoço, e isso se torna meu escudo.

‘Já esteve aqui, consegue passar por isso.’ — penso.

Ando a esmo tranquilo até chegar em um mar de heras, não tem outro caminho se não atravessar, tento me lembrar do que ele tinha me dito. Saio cortando algumas touceiras de heras pelo caminho, elas me atingem sobre a pele desnuda, como pequenas lambidas de chamas.

Mas meus joelhos estão pesados, minha pouca roupa empapada de vermelho escuro e minhas pernas inchando de veneno. Era como se o peso da morte estivesse recaindo sobre mim. Estou prostrada no chão, arfando, engolindo ar desesperadamente enquanto as heras me envenenam rápido, pesada demais para resistir. Encho meus pulmões com o que posso de atmosfera cheia de fumaça de cinzas. Grito por pura adrenalina desesperada, sinto minhas lágrimas no rosto, o gosto do sangue na minha boca, não tenho medo, só vontade de continuar. Sinto o cheiro de abutres. Chegou minha hora.

—Pronta? — uma voz na minha frente me faz olhar para o alto.

—Estou… -me levanto e vejo um homem morcego do jeito que eu sempre imaginei: olhos vermelhos, orelhas de morcego e todos os dentes afiados, seu corpo era coberto de finos pelos negros que as vezes se fundiam com pele humana, as asas tão grandes quanto poderiam ser planavam sobre mim e suas garras de morcego atingem minha cabeça me mantendo presa ao chão.

Aquele sorriso, aquele frio, eu já tinha sentido tamanho terror antes. Ele beija meu pescoço de leve e eu sinto o frio invadir meu ser. Então vem a dor. Meu pescoço sendo rasgado e então o frio.”

Acordo suando cântaros. Não existe parte seca no meu corpo, dormir novamente aquela hora da manhã não era mais uma opção. Tomei uns dois ou três banhos e um café, e liguei a televisão, adormeci. Acordei cedo ao mesmo modo. Não sonhei mais desde então. Levanto tomo outro banho e me vesti para sair. Pego as chaves e saio sem tomar meu chá morno.

Fico repassando minhas memórias tentando afastar o frio dentro de mim: conheci um homem esses dias, seu nome era Anntoni. Nós vamos sair no próximo sábado.

Percebo que não lembro muito daquela noite, teria que esperar o Midnight me ajudar com isso.

Faço minha rotina normal, embora com o metrô e as ruas um pouco mais vazias que de costume. Eu abro a porta da frente e nem a familiaridade com o local afastou o frio dentro de mim. Ouço vozes de cima das escadas, uma é do senhor T. Outra de uma visitante.

—Eu não o perdoo! -ela grita histérica- Sabe muito bem da situação e se faz de desentendido!

Adentro a loja e tento ficar quieta como um camundongo. Amarro meu cabelo, penduro o casaco no paradouro e ando devagar. Me encosto no pé da escada principal e ouço o que eu posso lá de baixo.

—Saldus skorpionas*… -eles estavam discutindo em lituano, algo um tanto estranho para mim já que geralmente o pessoal da Laurezina soa mais como uma mistura de latim com holandês, nem de perto parecido com lituano- Vai me torturar até quando sem esse seu veneno em cima de mim, me incendiando querida, até quando?

— Para sempre! Te matarei! -ela fica ainda mais brava- Picarei você com minhas próprias mãos e jogarei seus pedaços no Mar de Ekebrilon! Você sabe o quanto o meu ferrão doí em criaturas comuns, posso matar-te com duas doses do meu verdadeiro veneno! Não vai querer sentir minha cauda!

—Então me mate… Mate-me agora Lucy! Uma picadinha bem direto no meu peito velho e cansado de guerra! Liquide essa existência apaixonada se isso lhe satisfazer… Mas não se vá, minha hera venenosa! -Senhor Tusspoth sempre foi um amante fervoroso, mas nunca o vi como o cachorrinho de ninguém. Talvez essa Escorpica-dracon fosse diferente.

—Seu encontro com ela foi mais que o inevitável… Eu sabia que ela o abandonaria! -sinto um ar de pedância no ar que me diverte tanto- O destino foi gentil… Me trouxe aqui para colher os louros da vitória e rir de ti! Na tua cara!

—Os deuses sabem o que eu sacrifiquei por ela… E valeu a pena assim como vale por você minha Dieffenbachia seguine**

—Adeus T.! -eu ouço pés marcharem sobre as escadas e saio correndo para me esconder debaixo do balcão.

Quando eles pousam no chão, sinto eles indo até a porta vermelha e subitamente pararem.

—Lucy… -senhor Tusspoth vem logo atrás, ficando de joelhos ao que me parece- Só mais meia horinha, eu juro que ela vai chegar mais tarde hoje…

—Não vai não… -ouço os saltos finos aumentando o tom enquanto estou escondida. Subitamente uma mão agarra minha gola com toda a força que chego a sentir meus seios sendo comprimidos, perco o ar subitamente- Ela já chegou!

—Catherine! -ele grita, vejo seu rosto perplexo e espantado.

—Em que posso servi-lá senhora… -digo completamente sem ar, pois ela me ergue a quase vinte centímetros do chão pela minha camisa, ainda apetando meu seios.

—Eu gostaria do anel de diamantes rosa mais caro que você tem… -ela me puxa para o outro lado do balcão e eu caio prostrada tentando retomar o ar.

—M-m-mas é uma, uma… Uma relíquia meu bichinho! Sabe o quanto me custou achá-lo? Vinte e dois humanos passaram trinta anos escavando e acabaram todos morrendo por essa pedra... -ele sai atrás dela que anda pela loja.

Eu agora vejo seu rosto enquanto me arrasto e massageio o local dolorido: alta, olhos amarelados, cabelo curto e castanho, trajava um vestido vermelho sangue, senti o seu rabo batendo em minhas costas quando ela se virou, carregava um veneno mortal.

—Não importa, eu quero… -ela arrebita o nariz e lança um olhar de desdem, nossa esses olhares eram os melhores. Ela levanta a mão até o nariz de um jeito fino e diz — Ela cheira a humana...

—Assim como toda essa loja… -ele olha para mim como se eu fosse um criança que fez besteira- Tudo bem… Eu te dou o anel. -ele suspira longamente e sai buscando a pedra, no caminho me puxa de uma pilastra até o fundo do balcão. Gritar não seria uma opção, meu peito ainda doía muito apenas me deixei ser levada sentindo a madeira dura entre as minhas coxas puxar os fios da minha meia calça.

—Eu sei… Eu sei… “Depois conversamos”. -eu olho a sua cara semi-furiosa querendo me atravessar um soco com uma mão, enquanto com a outra abria o cofre dos diamantes- Mas foi você que confundiu os horários…

Ele aponta para o relógio na parede. Depois comprime os olhos como se fuzilasse com olhar.

—Como assim cheguei meia hora mais cedo… -começo a sussurrar em tom nervoso- O que você planejava fazer em apenas meia hora?

Ele abre um meio sorriso e revira os olhos. Eu lhe dou um tapa.

—Seu velho malandro… Não ia conseguir arrancar isso só meia hora de uma mulher da Laurezina! -sorrio- Eu ia chegar aqui e ia pegar vocês dois… -apenas olho de cima a baixo. E ele pega o diamante e balança a cabeça de um lado para outro como se tentasse encontrar as palavras certas.

—Se me deixasse terminar, ela sairia por aquela porta antes mesmo de você cruzar a esquina. -ele começa a se levantar- Não que eu não quisesse mais é claro…

Apenas o olho com um sorriso safado no rosto.

Ele entrega o diamante e quando consigo me levantar ela me olha enquanto beija-o demoradamente. Aquele olhar frio me assusta, mas ao mesmo tempo obriga minhas pernas a agirem. Assim que ela travessa a porta eu me encosto no balcão e cruzo os braços:

—Pode soltar os raios e trovões senhor T. Sei que você quer muito isso…

—Pois a senhorita adivinhou muito bem o que quero fazer… -ele diz isso num tom de voz impecável. Caminha até a área dos pergaminhos e puxa uma lata de tempestade engarrafada.

—Em minha defesa, cumpro o meu dever… -bato no meu relógio de pulso e constato que ele quebrou- Chego sempre no horário estipulado, um funcionários exemplar chega até mais cedo quando é estimulado a trabalhar direito.

—Sua defesa é falha mocinha! -ele puxa a rolha devagar- Um funcionário normal sempre enrola o suficiente até chegar exatamente em cima da hora! -ele bate o fundo da garrafa no balcão e nuvens de tempestade e um vento horrivelmente frio invadem a sala. Trovões ressoam na sala pequena, tão altos que tapo os ouvidos.

Eu corro por todo o canto mas a tempestade me segue, e quando me dou por vencida estou no meio da loja chovendo sobre mim.

—Ok… Ok… -eu suspirei- Eu mereço isso! -ele me entrega joga toalha e volta para a área dos pergaminhos — Você é mau!

—Você que é que extremamente exemplar! -ele puxa outra garrafa , desta vez Sol do Pacifico sul- Chegando sempre na hora… Limpa, asseada, de cabelos penteados. Não exite um defeito na senhorita!

—Vejo que não fui a única a ter um bom fim de semana… -puxo a rolha e bato delicadamente no fundo da garrafa. Os raios engarrafados começam a me aquecer.

—É sempre bom amar… -ele suspira- Mas o coração partido é pior…

—Quem partiu seu coração?

—Minha segunda amada… -ele suspira com os ombros caídos- Mas não foi por desamor… Ela esta muito doente… Tenho certeza que o barqueiro logo ira levar sua alma para o descanso eterno… -ele quase chora.

Eu o abraço. Não nos largamos por quase dois minutos. De repente ele faz um malabarismo e escorrega de dentro do meu abraço, quase caio com meu próprio peso.

—Bom… Mas são coisas da vida… Não há tempo para chorar! Tenho uma loja para administrar! -ele faz um voleio com a mão e uma varinha de condão voa ate ele como uma libélula- Aqui vamos nós! -ele começa a mudar os potes de lugar e faz o violino aparecer do nada.

Esse era o senhor T… Fazendo o sol aparecer mesmo em um dia nublado.

O dia passa devagar, eu tinha trocado de roupa, a outra continuava úmida demais para o frio que eu sentia por dentro e por fora.

Hoje uma excursão de irlandeses veio até a loja, uns vinte no máximo, procuravam coisas diversas. Eu odeio atender esses povos supersticiosos, eles sugam todo e qualquer conhecimento que se tem sobre objetos mágicos. Fico pensando se esta tão perto assim do dia de São Patrício…

—É verdade sim… -ouço um grupo deles falar com o senhor Tusspoth- O vimos a estrada outro dia mesmo… Os dentes afiados, o olhar mortal. Era ele.

—Impossível! -senhor T. ergue a sobrancelha para o mais idoso- Bobagens, bobagens e mais bobagens… Sempre tive o controle deste local! E vampiros, chupa cabras ou qualquer outra lenda que vocês acreditem realmente existe… -nesse momento quase rio na cara de uma mulher que quer comprar o medalhão de uma deusa Wicca.

—São 42 euros senhora… -tento me manter atenta nas duas conversas.

—Se não existissem não estaríamos aqui… -outro esbraveja. Onde estávamos na idade média?

—Talvez tenham arrumado outra porta… -um deles levanta a questão que me deixa curiosa.

—Pela segunda vez… Não passa de crendice senhores… -ele revira os olhos, porem sinto uma certa tensão.

Depois de duas horas de negociação eles se vão.

—Esses irlandeses... católicos até os ossos… — digo massageando os pés dentro das botas. Senhor T. desse com o bule de chá fervendo- Mas na primeira noite de chuva forte correm para mim…

—Acho-os um povo pitoresco… -ele ri- Só um tanto fanáticos quanto a sorte… Não todos, mas a maioria de cidades tão pequenas quanto essa…

—Acho que pisam demais nos meus pés! -eu tiro a bota e acho um besouro de aço dentro dele- Achei ele senhor T. -besouros de aço são criaturas são adoráveis, ficam como pedras quando você os deixa presos, mas ganham vida quando abrem o pote. Tem uma cor metálica única, e são duros (como o nome diz) aço.

—Então ai estava você! Seu danadinho! -no meio da confusão da loja, os besouros de aço fugiram do pote estavam com as criaturas raras, ao lado da prateleira de caudas de lagarto manga. Um desavisado resolveu abrir o pote que eu separei- Volte para os seus irmãos! -ele recoloca no pote.

Tomamos o chá em silencio comendo um delicioso bolo de banana que eu comprei no dia anterior em uma feira em Bali.

Continuo a varrer a loja vazia, agradecendo por não aparecer mais ninguém pelo resto do dia.

Eu quase não tenho dias extensos...Geralmente meu expediente acaba as 18:00. Mas as vezes se estende as 19:00. Hoje foi um desses casos. Uma garota tinha que chegar quando eu já estava colocando o casaco.
Fui atender uma garota brasileira que sofre de mal azar. A garota realmente se corta e tropeça em todos os cantos.
Dei a ela um livro de invocações para ajudá-la a trazer o espírito de um ser místico para melhoria da sorte. Espero que ela não se estabane toda e destrua o ritual…

Saio e esta tão frio e escuro que me amedronta. O frio interior voltou. Fico pensando no meu encontro com Antoni. Tento me lembrar da noite de sábado. Volto a pensar nele enquanto não ouço o miado tranquilizador de midnignt.

Lembro me das circunstâncias do nosso encontro, de tudo: Toni era o homem que curiosamente eu conheci no Sábado caindo de bêbada, e que no domingo eu sai para um encontro romântico na London Eye. Jantamos juntos e depois nós dormimos tarde. Eu ainda não dormi na casa dele. Foi estranho a forma que nos encontramos: Eu estava saindo de uma loja 24hs. e o colar da atração estava enrolando no meu cabelo. E como minha coordenação motora não era o meu forte acabei dando uma cotovelada no queixo dele. Mas tinha mais...

—Miau! — midnight aparece lambendo as patas e depois aponta com a cabeça.

—Sim vamos…. -andamos um tempo em silencio- Posso te contar meu fim de semana?

Ele parece acenar com a cabeça. Porem me lança olhares reprovatórios.

—Eu sei que estava lá ok? -eu suspirei- Não sei o que te deu esse mês para vir me perseguir até nas minhas folgas…

Ele cruza a rua na minha frente e continua seu caminho silencioso.

— Vou contar mesmo que não queira… -chegamos ao metrô- Como foi mesmo? A sim! Claro, me lembrei de tudo agora…

Pego novamente o metrô, mas é só por que estou com preguiça de andar muito. Midnight pula na minha bolsa e eu começo baixinho:

—Você estava na minha porta quando eu terminei de me arrumar. Depois me segue até o pub, compro o meu cigarro e tomo uma dose de uísque com cerveja preta a moda irlandesa… Novamente encontro Mary, Thomas, James e Gaya para o nossa esquenta da balada…

Somos amigos desde a faculdade de artes e isso ainda é algo fora do comum. Nunca fui muito boa com amizades, sempre fui uma criança calada e com poucas interações.

Meus amigos sabem sobre o senhor Tusspoth, porem nunca senti a necessidade de contar a parte mágica da situação, até por que eles sempre acreditaram que eu tinha muita imaginação. E trabalhar em um antiquário de excentricidades abre margem a imaginação. Lembro dos comentários de sábado:

—Olha lá… -Thomas comenta olhando para ele na janela- Sempre vigiando… Isso me da medo.

—Tem certeza que esse gato não é seu Cathe? -Mary ri da cara de Thomas- Por que você age como se você fosse dele… Cadê a maldita garçonete com os peixes com fritas***?

—Talvez eu seja Mary… Talvez eu seja… -suspiro — Ele é como o meu pai! Não descansa até eu chegar em casa… E ela esta chegando sua mal humorada esfomeada!

—Mas isso é tão estranho… Ter alguem te seguindo por todos os cantos… -James, monossilábico como sempre beberica a cerveja e observa. A garçonete deixa duas bandejas de peixe com fritas na mesa.

—Eu até gosto… Midnight me protege.

—Se ele tem um nome é seu… — Thomas ri.

—Será que vai nos seguir até o clube? -Mary termina a cerveja dela.

—Tenho certeza que vai… -respondo colocando as notas na mesa.

Nós saímos até a boate e ele me seguiu. Me sentia tão segura com ele ao meu lado. Por alguma razão era como se eu o conhecesse de muito tempo. Essa era uma das grandes maravilhas de se viver num mundo semi-mágico. Não conheci ninguém muito especial naquela noite até o momento… Em um certo momento eu e meus amigos paramos em uma loja vinte quatro horas para nos embebedar mais. Por alguma razão paro de ver Midnight por um tempo. Eu entro com minha nota de cem libras pegando alguma vodka e vários saquinhos de salgadinho. Como estou tonta esbarro em um armário de homem, ele esta muito bem vestido.

—O que a bela dama faz aqui tão tarde? -ele me segura para eu não cair em cima dele.

—O que o belo moço faz de smoking a essa hora da madrugada? -retruco olhando em seus olhos claros azuis e hipnóticos.

—Vim de uma festa de casamento… -ele sorri. Ele me mantem em seus braços, sinto o coração bater forte.

—Vim de uma festa com os amigos. -olho para o meu relógio- Eu tenho uma folga amanhã, -rio dando um pequeno salto para trás- Bom… Quer dizer... Hoje… Quer tomar um café comigo? Acho que tem uma padaria no fim da rua que abre em duas horas…

—Direta você? Gosto disso… -ele ri- Sim antes que me pergunte estou solteiro. E quero sair com você… -ele vira a cabeça levemente para o lado- Sabe o que é mais interessante? Meu horóscopo disse que eu poderia esbarrar com alguem especial hoje… Nunca fiz isso, convidar alguem que conheço a menos de dez segundos para sair.

—Aproveite oportunidades… -eu reviro os olhos sorrindo- Eu aproveito todas.

—Então me encontre amanhã… Vou te levar para jantar… -ele se vira e me lança um ultimo sorriso- Aproveitadora…”

—Por um momento achei que eu estava Possuída Mid… -termino- Nunca fui tão atirada… -rio e as pessoas me olham estranho, já que estou falando com um gato na minha bolsa- Aquele colar que o senhor Tusspoth me deu é realmente miraculoso!

Midnigth mia quando chegamos a minha estação. Subo as escadas, ele pula da bolsa, destranco a porta e mais um dia termina.

Por que por mais que eu tente conter minha curiosidade, sempre volto da loja com mais perguntas que respostas. E essa é a melhor parte de se ter o trabalho que eu tenho: as vezes descobrir que a mágica funciona....

Notas finais
*Do lituano Doce escorpião. **Nome científico da planta "Comigo-ninguém-pode " ***Prato tipico Inglês amplamente consumido em pubs e bares: "Fish and Chips" é peixe e batatas fritas. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ Comentem se estão gostando da história.