Notas iniciais
Demorei quase um século, mas cá estou... Não vou aqui me lamentar para vocês sobre a estressante e agitada vida de universitária, mas deixe me retratar-me com este capítulo:

Eu tive aquele sonho novamente. Mas novamente eu acordei aos cântaros. Perdi a conta de quantas vezes o tive durante a semana. Simplesmente me preparo o café mais forte que posso e espero amanhecer. Já era a oitava semana.

Eram duas e meia da madrugada e como eu tinha sono. Mesmo assim o espantava com a memória de Toni comigo e me preparo um café. Tudo parece normal até Midnight arranhar minha janela. Eu o abro e ele pula para os meus braços e depois pula de volta para a janela. Foi quando a noticia se tornou clara. o senhor T. precisava de mim. Me enfiei nas minhas botas e peguei meu casaco. Não dava tempo de me trocar, sai correndo de pijamas no meio da rua. Estão completamente vazias, não pego o metrô, nem nada... Não é necessário. Apenas corro.

Eu devo ser louca. Correndo deste modo, semi-nua pelas ruas de Londres. Mas não conseguia evitar. Ele precisava de um abraço. Um abraço forte. Senhor Tusspoth não merecia essa dor.

Desço as ruas, está tão frio em Londres (como se aqui fizesse algum calor em Londres na madrugada). Corro como se fosse uma prostituta fugindo de um cafetão, lutando pela própria vida.

Eu limpo as lágrimas que queimam meu rosto por que o frio inevitável da cidade combina com a dor. É necessário sentir a dor. A chuva começou logo após eu dobrar a esquina. Eu me atrapalho com a chave, quase deixo ela cair diversas vezes.

Eu caio na porta. Estou encharcada. De chuva, de suor, não importa. Eu estava lá, na sua frente. Me atrapalho com as chaves que se recusam a destrancar a porta. Quando ela finalmente se abre eu tropeço e caio. Eu o vejo sentado no pé das escadas. Um rastro preto passa para um lado da estante. Midnight já havia chegado. Finalmente seu mensageiro trouxe a remetente ao destinatário.

—Catherine? -ele levanta os olhos vermelhos na escuridão. Seu corpo estava imerso nela, devia estar em sua verdadeira forma, eu vi seu rabo de gato se movimentar na penumbra.

Eu apenas me levanto e corro para abraça-lo.

—Não precisava vir aqui. -ele me abraça com suas mãos enormes e peludas, provavelmente maiores que minha cabeça- Era para ele te chamar quando despertasse...

—Eu já estava acordada a muito tempo. -eu sorrio fungando- Melhor aqui que em meus sonhos senhor T.

Eu abracei seu peito. Seu pelo grosso se molhava com minhas lágrimas. Sua respiração é pesada. Mas ele não me larga, se entrega ao sentimento. Suas lágrimas poderiam inundar a sala se fosse preciso.

—Esta maluca menina? -ele põe as mãos em meus ombros- Vindo aqui desta maneira... Deve estar morrendo de frio. Olhe suas pernas estão azuis!

—Não importa. Gaya disse que sou uma vadia e vadias não sentem frio... -eu sorrio e aperto seu abraço- Quando foi?

—Ah dez minutos. Vinícius veio até aqui... A pouca luz que me restou morreu mais um pouco em mim. -ele diz hesitante em mostrar emoção na voz- Suspeitei quando houve silêncio na porta. A passagem ficou tão silenciosa que parecia-me um prelúdio de guerra. Então chega aqui o homem falcão voando com suas asas mordazes trazendo-me a notica de minha perda. -Senhor T era um poeta na dor. Poucas vezes o vi triste, mas nunca o vi destruído. Este era o pema de um homem cujo coração estava aos cacos- Haverá um cortejo pela cidade. A tradição manda que o corpo volte aos lugares que amava...-sua voz tinha a gravidade das rochas do Kilimanjaro.

—Ela virá para cá. -eu suspirei com lágrimas nos olhos- Vai vir visitá-lo.

—Não... Ela vai voltar para sua casa. Vai voltar a pertencer a ela uma vez... -ele não aguenta mais.

—Ela esta em um lugar melhor agora. É um anjo... Ao menos para mim. -seu corpo é quente, mas eu continuo a tremer de frio de forma tola. Eu só estava preocupando ainda mais um velho cansado.

—Esta com frio e molhada, precisa de agasalho. Uma cama quente. -ele me coloca na palma de sua mão- Interrompi seu sono. Não posso fazer isso a uma dama...

—Eu já disse... Já estava acordada a tempos. -eu limpo o rosto- E eu sou uma vadia...

—Crianças precisam de sono... -ele sorri, vejo seus dentes brancos como pérolas, mas afiados como agulhas se estendendo trinta centímetros de cada lado da boca.

—Você diz que eu sou seu anjo... Anjos estão sempre vigiando. Deixe-me velá-lo um pouco. -eu rio.

—Sem mais discussões sua espertinha... Até anjos tem seus dias de folga. -ele estica o indicador da outra mão e o encosta em minha testa.

Eu desmaio com o toque. E então, como se meu corpo flutuasse em um rio, eu sigo o fluxo. O sono me leva de volta a minha terra dos sonhos. Era lá que eu rezava para não estar.

Eu abro os olhos devagar e me vejo em uma sala estilo vitoriano, mas ao mesmo tempo com um toque tropical e selvagem. Estou imersa em água. Água aromatizada com flores e oléos de especiarias. Olho para meu corpo nu na água. Tão humano, frágil, cheio de hematomas e cortes. Estou tão relaxada que me sinto segura.

A porta vermelha da sala se abre.

—Foi muito bem lá Angélique. Sobreviveu as provas... Todas elas. -a voz entrou e eu me agitei na água, preciso me cobrir.

—Eu não... Eu... -ele coloca a mão em meu ombro.

—Não, não se mova. -eu paro no estante que ele massageia-me -Relaxe... Não precisa salvar o mundo.

Eu suspirei, tento olhar para cima, apenas fecho os olhos relaxando os músculos.

—Só precisa enfrentar um baile. -ele ri- Todos os maiores aristocratas de nosso País estarão aqui.

—Por que preciso ir? -suas mãos descem até minhas costas- Aqui está perfeito.

—Política, minha cara, política é o que rege este e todos os mundos... -suas mãos continuam descendo e massageando meu corpo- Não foi um filósofo de seu mundo que disse que: "O homem é um animal político"?

—Sim... Mas pensei estar no mundo dos loucos... -rio quando ele toca meus lábios- O único animal que quero ser é uma criatura de seu País.

—Aqui vocês são as criaturas... -eu engulo a seco e abro os olhos. Ele já está com a mão enluvada na porta saindo- Vista-se... Esta na hora... Não vai querer se atrasar para sua festa. Amor de minha vida.

Olho para a cadeira quando a porta é fechada. Existe um vestido repousando de forma majestosa lá. Volto a olhar para o meu corpo, limpo de feridas e dores.

—Estou indo!

E então acordo. O calor do sol em meu rosto me desperta. Me levanto de forma desengonçada, o lugar me é estranho. As cobertas pesadas sobre meu corpo revelam que estou de pijamas. O ambiente é um quarto. O estilo é mais moderno, inicio do anos 20.

Eu me levanto e olho para uma cadeira encostada na porta e nele vejo o mesmo vestido de meu sonho: branco cheio de babadinhos na saia e pontos de brilho dourado. Nele repousa um bilhete: "Vista-se".

Encaro o bilhete e o vestido. Desço da cama e depois de tirar a roupa molhada olho melhor para o quarto. Me meto no vestido e abro a porta. Logo a frente vejo as caixas de bugigangas mágicas e a estante repleta de livros.

Estou na casa do senhor T. Eu me senti perdida por um tempo até sentir o cheiro de chá de ervas, torradas e bolo. Olho para o fim do corredor e lá esta a sala de jantar recheada de guloseimas. Ando instintivamente até lá. Outro bilhete na mesa: "Sirva-se a vontade". Então farto-me de alguns pães de ervas e saio logo, não queria abusar da boa vontade do Senhor Tusspoth.

Desço para a loja. Tinha muita gente lá. Muito burburinho. Olho as horas, era tarde, muito tarde, e estávamos na Irlanda. A porta transbordava de gente tentando entrar e gritando palavras de ordem contra o velho homem da Loja.

Eles atravessaram os portais! Você é o guardião senhor Tusspoth! -gritavam alguns

—Arruinaram as colheitas! Sujaram as ruas de sangue! -ouros bradavam mais forte.

—Você nos prometeu! — gritavam enfurecidos outra grande maioria.

—O que quer que tenha acontecido, não foi culpa dele! -eu berro abrindo uma fresta da porta- Vocês são extremamente superstisciosos! Acreditam em tudo que lhe contam! Ademais, a loja se encontra fechada por motivo de luto!

Eu tranco a loja com a minha chave por dentro. Nunca tinha feito isso antes. Varro a loja como sempre, faço meus deveres esperando que o senhor T saísse de algum lugar. Talvez esperando que eu vá causar boa impressão limpo meus rastros de lama seca do topo da escada, tomando cuidado redobrado com o vestido. Olho novamente para cimadas escadas e vou até lá apagar meu rastros. Sinto cheiro de comida, algo quente saindo da cozinha. Ando instintivamente até lá embora não quisesse abusar da hospitalidade do Senhor T.

—Croissants? -eu sinto o cheiro da massa fina recheada com chocolates e logo vejo a mão enluvada com um pano de prato o carregando até mim- Esteve aqui o tempo todo?

—Sim Catherine, meu anjo… -sua voz queria desabar em pesar, embora sorrisse- Estou fazendo as comidas preferidas dela. Claro, que com adendos sobre todas as criaturas que ela vai trazer consigo… Eu não tocaria neste se fosse você, os Lobos-elfos utilizam esta outra erva com esses doces… -ele mostra um maço crescente de hortelã e menta próximos a janela.

—Mas menta eu posso comer… -eu digo aspirando um pouco mais daquele magnifico cheiro. Me dou conta de que estou sendo um tanto inconveniente e me calei enquanto ele ia por os croissants na mesa do café da manhã, do qual me servi mais cedo- Bem… Eu fechei a loja, ninguém vai entrar aqui. Se você quiser posso reabrir, não sei, por algumas horas, ou posso ajudar você a organizar tudo...

—Quer mesmo ir trabalhar? Por que para mim não importa mais...

—Melhor eu ir embora, não é? -eu abraço-me o vejo entrar para dentro da cozinha- Reabriremos na próxima semana? Nunca li direito as condições sobre luto. Eu devia mesmo ir embora, não é?

—Catherine, é meu dever como familiar dela fazer tudo sozinho… -ele coloca a mão sobre meu ombro e eu entendo, dou meia volta e me dirijo as escadas- Espere! Não me compreendeu! -ele corre e me abraça por trás, o sinto afundar sua cabeça no meu ombro- Te quero comigo! Preciso do teu apoio! Mas, não precisa me ajudar com o trabalho pesado…É minha única família depois de Vinícius! Preciso do teu amor mais do que nunca neste momento…

Por um momento quis desmoronar. Certas palavras tem um peso muito grande sobre nós. Família é uma delas. Seu conceito esta embasado em uma instituição que é virtualmente indestrutível. Ser a família de alguem, mesmo sem laços de sangue significa estar sempre ao lado dela mesmo no piores momentos, e neste exato momento eu estava ao seu lado.

Os poucos no final da tarde que pareceu perigosamente lenta, tudo estava em seu lugar, a loja agora parecia-se mais como quando eu a adentrei nela pela primeira vez. os poucos todos foram tomando seus lugares. Vi rostos conhecidos, outros nem tantos, eu os servia Chocolate quente, café e chá. A loja nunca esteve tão lotada. Eu não vi o caixão entrar, o que entrou foi uma caixa pequena contendo suas cinzas, e mesmo assim não vi a porta vermelha se abrir. Apesar de ser um espaço de condolências, todos parecia celebrar a vida que um dia já preencheu aquelas cinzas todos tinham algo a dizer:

—Ela realmente era a alma deste lugar, aquela garota nunca um ponto sem nó! -ria Giovanne visualmente bêbado- Ela nunca aceitou meus pedidos de casamento… -ele joga seu olhar de coruja a mim- Como um certo alguem!

—O que me mais me marcava era com certeza o jeito que ela andava… -Vinícius principiou- Se eu gostasse deste tipo carne fresca com certeza me envolveria naqueles quadris! -ele fez uma forma com as mãos no ar, dando a entender que ela tinha formas volumosas.

—Seus tolo! Desprezam o conhecimento! -foi a vez de Cinthia dizer bebericando seu chá especial- Foi a pessoa mais sábia que já conheci!

—Foi uma honra estar no mesmo palco que ela… -Dann Montéquio, o Homem panda vermelho disse erguendo uma taça com Cinthia. Ambos estavam na mesma companhia de teatro, embora eu não o conhecesse.

—Ela dançava como ninguém! -Yasmim sorriu mordiscando e sugando o vermelho dos morangos de sua torta- Foi uma honra ter dançado com ela nos salões imperiais!

—E trabalhar ao seu lado nas reformas daquele tenebroso Maio no congresso! -dizia uma mulher que parecia bem jovem, ela era uma India-suricato. Uma raça que geralmente segue carreira em quase todas as áreas por ser bem versátil. Esta se apresentava como Gabrielly Martinez- Ela limpou a corrupção de tal forma que… Ninguém faria igual!

Sei que muita gente ficou do lado de fora. O velório durou a noite inteira e quase não consegui chegar próximo ao senhor Tusspoth. Quando finalmente a manhã veio, eu me encostei em um canto, vendo muitos ainda rindo em volta da mesa de jantar dele. A sala tão grande que do lado de fora parecia pequena, ali estava em sua confusão de proporções, era grande pois cabia um mar de gente comendo sem parar, mas ao mesmo tempo tão minúscula, pois mal cabiam todos. Senhor T. se sentou no mesmo canto e sorriu com um porta-retratos em mão.

—Esta cansada minha criança? -ele pousa o porta-retratos numa mesinha de canto ao meu lado.

Eu vejo uma mulher linda de cabelos louros e olhos heterocromáticos: verde e castanho. Seus traços me lembravam um pouco os da minha avó: finos e delicados, tinha diversas sardas no seu rosto.

—Um pouco... -admito e pego o porta retratos- Era ela?

—Sim.. -ele pega um cachimbo e o preenche com tabaco, depois acende enquanto eu continuo a admirar.

—Queria vê-la… De verdade, entende… Como ela era no seu país.

—Eu até a chamava de segunda amada, mas por que seu amor era diferente dos demais… Ela foi a primeira a chegar em meu coração. -ele divaga enquanto a fumaça que exala brinca com seus grandes e longos bigodes de Salvador Dalí- Separei meu coração entre dois amores, o primeiro que é passageiro, e o segundo que é eterno… Por isso a chamava de segunda amada. Pois seu amor era o mais duradouro que um coração primitivo como o meu pode sentir...

Eu sorri.

—Existem milhares de formas de amar, e pouquíssimas tão duradouras quanto esta. Esta foto foi tirada no seu aniversário de 17 anos. E ela não mudou nada em si desde então. -ele solta outra baforada e me entrega o cachimbo- Ela era minha filha… E não era do meu País. Assim como a mãe dela, tantos anos antes… Ela conquistou o direito de viver entre nós.... — ele me olha embasbacada com a noticia- Espero que um dia possa ser digna de estar em meu País…

Acabo derrubando o cachimbo. Ele o pega e o coloca em minha boca.

—Fume querida, beba do meu vinho! Aproveite! E vera que o que estamos fazendo aqui é recebendo minha amada de volta a seu lar!

A festa dura até próximo as dez da manhã. Giovanne e Vinícius são os últimos a sair. O primeiro por que pede novamente a minha mão, o segundo por que continua a dar suporte ao irmão que agora ri.

Eu varro toda a baderna de comida, talheres, e copos quebrados ao lixo. Depois volto ao senhor T. para pegar minhas roupas e trocar o vestido.

—Melhor eu lavá-lo e te devolver… -ele me olha embrulhando as roupas em numa das sacolas da loja.

—Não… -ele diz sonoro enrolando os bigodes- Fique com ele, é meu presente para ti. Quero que use em seu próximo aniversário.

—Como quiser senhor Tusspoth… -desço as escadas e pego minhas chaves para abrir a porta.

—Espere… -ele desce as escadas num pulo me entrega a caixa decorada em estilo vitoriano com as cinzas de sua filha- Quero que faça-me mais uma coisa. -ele olha em meus olhos, desta vez feliz- Não posso passar desta porta, mas você, você pode. Jogue suas cinzas de um lugar alto, bonito e próximo a água. Como ela queria que fosse. E por favor… -ele me entrega um papel preto com as letras brancas- Diga esta frase no exato momento que ela for carregada com o vento.

Realizo seu desejo. Espero bastante tempo. Cai a noite, lavo o vestido e o visto novamente com minhas botas de montaria. Prendo meus cabelos lilases em um rabo de cavalo e vou. Pego um metrô e um ônibus até o bairro de South Bank e fico bem próximo ao Tâmisa. Espero amanhecer, fico lá sozinha por horas. Quando os primeiros raios da manhã aparecem eu abro a caixa e grito a plenos pulmões:

—Bem vinda novamente a sua casa Angel!

E é como se as cinzas ouvissem, elas tomam o vento e percorrem a ponte com velocidade. Até sumirem para dentro das nuvens.

Eu volto para minha casa pensando em como o Tusspoth como homem era humano.

Parte do meu trabalho é lidar com aquilo que me é leigo. Saber lidar com todos os tipos de sentimento, mesmo os mais contraditórios como a dor e o amor. As vezes me esqueço dos meus próprios sentimentos nisso tudo. E percebo que as vezes o ser humano é mais animal que os seres do outro país poderiam ser...

Notas finais
Novamente me desculpe pelo atraso.