Notas iniciais
Desculpa pessoal se eu demorei um século a postar. Não sei se eu já tinha dito que iria demorar um pouco a postar (problemas com a faculdade e falta de tempo de refinar o texto). Voltei com este capitulo (ainda será mais espaçado a postar) e espero que estejam gostando. Provavelmente terminarei a história em alguns capítulos.

Eu tive aquele sonho novamente. Mas novamente eu acordei aos cântaros. Perdi a conta de quantas vezes o tive durante a semana. Simplesmente me preparo o café mais forte que posso e espero amanhecer. Já era a oitava semana. Eu sempre sou morta pelo homem morcego do sonho. Aquilo havia se tornado um padrão.

Eram duas e meia da madrugada e como eu tinha sono. Mesmo assim o espantava com a memória de Toni comigo e me preparo um café. Tudo parece normal tirando pelas horas que não passam. Me dou conta que não exite mais monótono e chato que a TV nas madrugadas. Tento então tentar esboçar alguma peça de arte. Como toda as pessoas insonies na face da Terra acabo na internet olhando pessoas felizes no Facebook, os reclamantes da madrugada no Twitter e acabei nos fóruns sombrios do Reddit discutindo sobre o ultimo episódio de Doctor Who que acabei perdendo.

Tomo um banho quente, na verdade estava me banhando até mais que a média ultimamente , tamanho o meu suor noturno. Algo me dizia que tinha algo muito errado. Assim que pude coloquei um robe, desci e peguei o jornal. Li a primeira página: “Vila na Irlanda é massacrada, policia da região ainda não tem suspeitos”. As noticias não era nada boas, como sempre. Mas me assustaram.

Quando o relógio bate as seis eu me espreguiço dando aleluias para a jornada de trabalho que vai começar. Começo minha rotina matinal: Coloco minha calça, faço a maquiagem e o cabelo, decido pelo sutiã preto e coloco a camisa branca do The Clash, enfio-me em minhas minhas botas e pego meu casaco. Dava tempo de fazer milhares de coisas. Ando devagar, ainda é cedo e a cidade mal acordara. Ruas vazias, um tanto melancólicas. Apenas ando, poderia pegar o caminho mais longo e tomar um café no caminho.

Ficava acariciando as chaves da loja. Eu tinha um prazer indescritível em ouvir o barulho metálico que elas faziam no meu bolso. Torcia para pegar as chaves e colocá-las na porta. Eu estaria indo para o meu lugar feliz.

As horas tinham que passar. Logo. Eu ainda estava com o jornal em mãos e um pouco em choque, eu tinha visto as fotos do vilarejo e vi que o conhecia. Não faz nem um mês que a excursão irlandesa deles havia ido a loja em busca de proteção. Tinha uma foto lá, um detalhe de uma mão de uma jovem mulher que segurava um crucifixo e uma medalhão. A mesma pedra que havia saído da loja, por que eu havia atendido á aquela mulher. Não é todo dia que meio vilarejo é dizimado do dia para noite. Eu vendi o medalhão para uma jovem de 18 anos virgem e cristã. Que agora estampava a primeira página estripada e sem sangue. Eu me lembro de seu rosto repleto de medo, mas não um medo comum. Um medo de algo desconhecido e paranoico. Eu lhe dei paz por um momento. Eu passei o medalhão deslizando até os seus dedos,seu medo tremia, dei minha pedra da lua a ela e instantaneamente ela começou a se recompor internamente.

Fico sentada na frente da loja de cabeça baixa desejando que houvesse uma dose bem forte de whisky junto do meu café. Faço hora e me levanto quando começo a ver gente nas ruas. Destranco a porta um pouco nervosa com o jornal debaixo do braço. Senhor T. me parece igualmente tenso e disperso. Varria o mesmo canto da loja a dois minutos. Nem notará que eu estava lá.

Olho para os cantos da loja dou um leve suspiro. Pesado. O ar estava com um peso de morte. Meu pulmão chegava a doer, tudo tinha um ar empoeirado e sujo. Tossi um pouco ao abrir o caixa. Como se o velho gato tivesse um estalo ele se vira assustado e me localiza meio estupefato no meio da loja.

—De onde você surgiu? Dormiu aqui em baixo garota? -ele finge uma expressão confusa e surpresa exagerada que ele faz sempre para encobrir o que esta pensando.

—Sabe que isto é impossível! Ainda não tenho um teleporte, você não me deixa ter um! É claro que eu dormi aqui, quem você acha que comeu os chocolates belgas -sorrio encobrindo a mesma preocupação.

—Oras bolas! -ele larga a vassoura e dança pelo ar se agarrando a corrente no teto e me pega pelo braço nos sacudindo pela loja- Aqueles chocolates eram um presente para a rainha dos montes Lua Nova! Agora que terei que dar os vermes-besouros carmesim! E você sabe que eles tem gosto horrível!

—Oras senhor Tusspoth! Não me culpe se ela é metade lagarto!

Ele se solta e me joga no ar, eu dou um grito. Seus reflexos felinos o fazem pular a mesma altura e caímos ambos nos sacos de feijões saltadores. Rindo como loucos.

—Olhe o que eu achei -ele tira do chapéu uma caixa de chocolates- Sua ladra! Escondendo essas coisas em um lugar onde só você saberia!

—Chocolates são para humanos! Apenas para humanos! -eu sorrio abrindo a caixa e pegando um em formato de coração passando bem perto de seus lábios e então vorazmente o comendo.

—Oras que eu sou meio humano! Tenho só 50% de chances de morrer! -ele pega a caixa de volta, se senta, coloca três na boca e depois mostra a língua.

Por um breve momento pareceu que aquelas nuvens negras nunca existiram. E jamais voltariam a existir. Porem a loja jamais voltaria a ser a mesma.

Nos olhamos longamente deixando o riso morrer devagar saboreando o chocolate meio amargo.

Me levanto devagar quando ouço uma batida vinda da porta da frente. Era estranho, já que as pessoas entravam sem bater agitando o sino pendurado acima da porta. Vou abrir ainda com um sorriso residual no rosto, uma lembrança de vários momentos em que eu passava ao lado do velho.

Um homem num sobretudo, tossindo adentra a loja completamente em silêncio. Meus lábios se abrem querendo fazer a clássica pergunta, mas a voz morre. Algo naquele homem que cobria o rosto sobre o seu chapéu roto e o cachecol cinza escuro, me fazia transpirar, tinha algo de obscuro nele. “Um objeto que faça mal, é o que ele procura...” penso.

Senhor T. se levanta e fica completamente ereto. A postura tensa e o rosto com a expressão rija, me assusta.

—Não se preocupe minha querida Cate… É só um velho amigo. -ele me lança um sorriso e anda até o balcão com passos comedidos e cuidadosos.

Não era um velho amigo, se fosse o senhor Tusspoth não estaria tão nervoso. Eles se conheciam, era evidente, mas não se gostavam.

—Nova companheira? Elas são cada dia mais novas, senhor T. -ele olha para mim e sinto um vento gelado me acompanhar enquanto ando até o outro lado da loja.

—Gosto de juventude… Não percebe o quanto sou jovem? -ele ri de um jeito automático, se esforçando para parecer natural -O senhor veio até mim, acredito que veio em busca de algo. Adiante-se, por mais que aprecie sua companhia… Tenho muitos afazeres.

Pego a vassoura que deixei no mesmo rumo que eu seguia e começo a varrer um canto da loja. De forma que pudesse escutar atentamente a conversa sem atrapalhar a ambos.

—Vim por um objeto sim… Você sabe qual, você o guardou para mim. -o homem misteriosos parece sorrir.

—Oh, sim. Me lembro disto. -ele torce no nariz e seu bigode enorme se eriça. Ele se vira para mim que finjo estar distraída- Catherine, meu amor… Poderia gentilmente adentrar a biblioteca dos livros raros da loja e me trazer o livro preto de fechadura dourada e runas nórdicas na capa?

—C-claro… -eu me espanto largando a vassoura e andando até ele, precisava da chaves da biblioteca.

Ando devagar, parece que cada passo dura mil anos. Ele nunca, jamais, me deixou chegar na biblioteca de livros raros. A biblioteca dos livros raros ficava em uma pequeno alçapão debaixo da bancada. Nele todos os livros perigosos de magias e outros tão raros que só tem uma única edição eram guardados. Senhor Tusspoth tinha cuidado extra com eles, apenas ele os tocava.

Senhor Tusspoth sempre foi um ser misterioso. Nunca questionei o que me pedia para fazer, ele é o tipo de homem na qual temos uma confiança instantânea.Se cumpre suas regras ( que não são muitas), ou não se trabalha com ele. Ir a um lugar onde ele normalmente não me deixa ir é como atestar que certamente ele estava em apuros.

Estendo minha mão tremendo, tudo acontece em câmera lenta. A chave cai em minha mão, ergo o rosto, o olhar do comprador misterioso cruza com o meu por um breve segundo. Minha alma se encolhe. Seus olhos não são humanos. Ele sussurra algo tão rápido enquanto pego as chaves, que adentra minha mente. Senhor Tusspoth me pega pelos ombros de forma abrupta e abre a escotilha. Minha cabeça continua tentando processar a frase que o homem havia me dito.

Nas escadas velhas de madeira carcomida e inchada eu tento respirar. Tinha algo naquele homem, algo que não parecia certo.

“Deus” minha cabeça girava entorno da palavras. Embora “Entidade” ou “Deidade” parecesse de certa forma mais adequado.

Ouço passos acima de mim, são os passos do senhor T. e o homem misterioso que veio o ver.

— Prospero… A quantos milênios não o vejo… -senhor T. bate a cauda no chão impaciente.

—Acho que desde a ultima vez que usei este nome… Eu estava bebendo com o meu amigo poeta. Lembra de Edgar? — o homem responde.

Eu posso ouvi-los de forma baixa. Me ajeito na escada e colo meu ouvido no alçapão para conseguir ouvir melhor.

—Sim, eu estava lá no dia que ele veio a falecer. Diferentemente de você. Como devo lhe chamar então, prospero?

—Tantos nomes…Todos os nomes interpretações um pouco errôneas nas épocas em que foram desenvolvidas. A verdade é que sempre fui “O Prospero”* o príncipe esbanjador e alheio ao mundo. Minha irmã “A eloquência” ainda espera sua visita, caso queira saber. -o homem misterioso diz isso entre tosses- Hoje pode me chamar do que quiser...

—Tal vez eu prefira o chamar de “Tolo”. — a voz do senhor Tuss é mais encorpada e nervosa, parece ter saído de si por um momento- O que quer?

—Não mate o mensageiro por que odeia a mensagem T. Você sabe que apenas o visito quando tempestades estão por nascer…

—Você não consultaria as Runas de Odin por uma guerra humana... Você sabe de todas as guerras que existem em cada linha temporal. É outra coisa então… Aquilo?

—Você sabe a bagunça que fez no passado. E agora no futuro a conta chegou. Preciso do livro, pois você que não pode mais protegê-lo. Tem uma boa razão para você não poder mais de uma única noite no Outro Pais… Uma maldição autoimposta pelas mortes que causou. -o homem responde.

—O que eu fiz não é justificável.

—Ela esta ouvindo, você tem ciência disto, não é? -por um momento me levanto e corro até o fim do corredor com medo de que o senhor T. entre abruptamente.

A respiração que eu precisava queima meus pulmões. Estou caída próximo a porta, escorregando até o chão amedrontada. Quero chorar, estou trêmula meus braços e pernas moles. O que eu ouvi parecia verossímil. O homem ao qual o senhor T. chama de “Prospero” havia dito uma frase para mim: “Ele mente”. Mordo os lábios. Sacudo a cabeça em negativa. Olho o fundo do corredor que corri o máximo que pude.

Respiro o mais fundo o que posso para evitar as lágrimas, me viro e me levanto escorando na porta de madeira pesada cheio de adereços dourados cravados de pedras misticas. Afundo a chave na fechadura e a porta se abre com um rangido seco e poeirento. Vou andando pelas prateleiras apinhadas de livros grossos e olho para algum que bata com a descrição tentando evitar Prospero em minha mente. Ouço um miado estridente vindo das estantes próximos a um lugar iluminado parcamente.

—Midnight! -reconheço o miado. Ele corre até mim e trepa em meu cabelo pulando de uma estante menor. Ele morde meu cabelo e o coloco no meu colo -É aqui que se esconde então…

“É aquele”. Pego um livro que esta fechado sobre um porta livros. Ele bate com a descrição.

Saio olhando para Mid e me perguntando se o que e tinha escutado era real. Abro o alçapão e vejo os dois homens distintos se encarando em silêncio. Entrego o livro ao Tusspoth e Midnight pula no balcão olhando o visitante com curiosidade, embora se mantivesse frio.

—Faz muito tempo que não vejo um destes… Ele é um daqueles, não é Tuss? -ele olha para o Mid que fica eriçado em posição de ataque e pula de volta para a sombra das escadas.

Me encolho andando devagar para trás olhando o rosto impassível do senhor T. Me encosto nas escadas principais.

—Vou manter isto a salvo. -ele retira uma chave de ouro bem pequena e destranca um pequeno cadeado na lateral da capa de couro do livro e retira pequenas peças brancas, runas feitas de ossos- O seu pagamento gato. -ele deita sobre o balcão uma maleta.

— Adeus Prospero. -senhor T. se despede recolhendo a maleta sem olhar.

Prospero sai batendo a porta atrás de si. Ele era do meu mundo, mas não era humano. Meu corpo inteiro ainda tremia, nunca havia sentindo tanto medo em minha vida. Não desde a ultima visita dos homens-morcego de Saint-Marine.

—O quanto ouviu, minha criança — Tusspoth volta seus olhos caridosos até mim.

—N-não muito. -digo com sinceridade- Estou com medo… E-ele…Você! -minha mente começa a ficar confusa. Tinha sentido o mal daquele homem encarnar minha pele.

—Confia em mim Catherine Deboir? -ele pergunta com o rosto duro- Confia firmemente no que digo? No que peço?

Aceno a cabeça ainda em choque.

—Então me abrace. -eu engasgo e começo a chorar sem querer.

—Quem era ele? -indago soluçando violentamente.

—Um mensageiro. Um oráculo. Ele vê quando o mal esta chegando… E infelizmente, passaremos por momentos difíceis, minha querida Catherine.

—Eu vi nos jornais… Aquela vila na Irlanda que sempre atendemos... Ela foi dizimada e... -ele coloca um dos seus dedos enluvados em meus lábios.

—Infelizmente este é um sinal das más noticias que ele trouxe a mim. Mas não se incomode senhorita, não é assunto teu.

Ele me oferece um lenço e limpo minhas lágrimas. Só ele sabia me confortar. Eu tinha pouquíssimas crises de pânico em minha vida. Esta foi de longe a pior. Nesse momento minha cabeça se voltava ao homem cujo Prospero acusou de mentir. Como ele poderia ser mentiroso? Sua parte humana era pura. Alegre, extrovertido, duro nas horas certas, dotado de um certo humor negro… Nunca desconfiaria dele.

Estranho homem era o senhor Tusspoth, um gato solitário. Vivia sozinho, tinha apenas a sua empregada como companhia nos dias. Jamais adivinharia o que o velho gato esconde quando não se esta olhando. Eu não o conhecia como um todo, mas ele me conhecia por inteiro. Talvez esta fosse a razão do estranho homem que levou o livro, o colocar sob suspeita. O gato velho tem mais anos que se pode contar. Para ele sou um suspiro, um piscar de olhos, jamais saberia nem uma pequena porcentagem de sua história. Minha natureza discreta nunca fez perguntas.

Melhor parar de pensar. De que me adianta desconfiar dele, se nada de mal ele fez a mim?

Ele me solta depois de alguns minutos. Salta até as escadas, sobe até o andar de cima e pega o violino.

—Que tal ouvirmos uma história? -ele toca notas alegres e dançantes- Pegue uma cortina de teias! Vamos espantar a tristeza e o terror minha bela dama!

Eu sorrio animada. Só aquele velho gato e seus bigodes para me fazer sorrir. Pego duas cortinas de teias e coloco sobre a janela da loja enquanto ela passava por Amsterdã que amanhecia a essa hora.

Nos sentamos no chão da loja enquanto ele toca o violino que ajuda a narrar a história.

Por um bom tempo eu esqueci que isto havia ocorrido e sem perceber dois anos inteiros se passaram. Prospero jamais retornou. Nenhuma morte sob circunstancia suspeita ocorreu. Simplesmente se instaurou a calmaria antes da guerra.

Notas finais
N.A: *Prospéro é um personagem de Edgar Alan Poe,do conto "A máscara rubra da morte" na qual o personagem diz ter inspirado o próprio autor quando vivo. . . Muito obrigado por estarem me apoiando mesmo eu demorando tanto
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.