Pepper Poison
1 Prólogo
Delilah Belle sabia que o seu destino não era o céu.
Por mais tentador (embora um tanto quanto aterrorizante) que pudesse parecer, ela tentava não pensar no que seria de sua alma após a morte. Se haveria algum tipo de julgamento, quem o conduziria, quantos erros apontaria, que acusações bradaria em indignação e que sentença dar-lhe-ia pela eternidade. Contudo, em relação à sua estrada póstuma, de uma coisa ela tinha certeza: o pior castigo seria encontrar Samson Ryder em algum lugar – fosse onde fosse. É claro que ela duvidava que eles pudessem acabar partilhando da mesma destinação, dadas as circunstâncias dos recentes acontecimentos; ainda assim, temia mesmo esbarrar com o detetive em um corredor transitório qualquer. Nada doeria mais em seu espírito beirando a arrependido do que reencontrar as acusatórias íris verdejantes que lhe diriam que sim, ele sabia o que ela fizera. E a abominava por isso. Nunca mais sorriria para ela com a expressão hesitantemente divertida que o permitia esquecer seus problemas de profissão. Nunca mais permitiria que seus lábios se tocassem em um ímpeto de prazer que fosse, e decerto se deliciaria com cada centelha de sofrimento crepitando na pele pálida e doentia de Lilah, em seus cabelos agora ralos e desgrenhados, em sua boca descolorida e mórbida. Toda aquela beleza, preservada durante anos com orgulho e breves acessos de superioridade, ela podia prever, sucumbiria à asquerosidade dos seus erros. Em especial, o seu último. Então que assim fosse. Mas que as vidas – ou as mortes – de Samson e Delilah jamais voltassem a se cruzar em qualquer ponto do infinito.
A pequena chave do inferno pesava em sua mão como um quilograma de chumbo. A mulher tinha uma bolsa pendurada no ombro, e ainda assim insistia em carregar o pacotinho de plástico com uma substância arenosa bem forte na palma da mão – se era medo de perdê-lo ou vontade secreta de deixá-lo cair por acidente, nem a própria Lilah sabia dizer. Mas ela mantinha o semblante frio feito mármore, pois qualquer recaída poderia significar desistência, e desistência, por sua vez, implicaria num destino pior do que a morte. Os passos nunca haviam sido tão prepotentes e o barulho do salto batendo no chão nunca fora tão intimidador. Ela queria criar dentro de si mesma uma atmosfera de autoridade que lhe daria forças para fazer o que tinha que fazer. Durante 28 anos permanecera forte, não permanecera? Não seria aquela a noite que destruiria tudo o que ela havia construído em quase três décadas de vida.
À medida que se aproximava da porta do apartamento de Ryder, sentia sua respiração apressada, o coração acelerado e as mãos tremendo de súbito. Coragem, Lilah, coragem. Coragem era necessária para que ela pudesse concluir a sua missão e pôr fim ao drama que vinha vivendo nos últimos meses. Mas, principalmente, era necessária porque ela precisava se manter de pé e não falhar, em hipótese alguma, não falhar, não falhar, não admitir sequer a possibilidade de falhar. Ela sabia que estava sendo ouvida e observada.
– — -
Delilah Belle tocou a campainha.
Aramisa Andrews foi quem abriu a porta, no mesmo instante. Parecia que já estava de saída, ajeitando o casaco no corpo e deslizando a bolsa em direção ao ombro enquanto sacudia os cabelos para trás.
— Belle. — disse ela ao ver Lilah, em um tom indiferente de saudação.
— Andrews — disse Lilah, surpresa. Não esperava encontrá-la. Aquilo mudava tudo.
— Sam está no quarto. Está passando mal, preocupado com você. — disse Aramisa, e então se afastou para o lado, para que a outra pudesse passar. Com isso, Lilah avistou a sua salvação – como um milagre, Deus ex machina, que chamassem do que quisessem. Ironicamente, tratava-se de um tabuleiro de xadrez sobre uma mesinha de madeira esculpida, com as peças espaçadamente distribuídas pelas casas. Aquela era, mínima como fosse, a última chance de salvar a sua vida e a de Sam sem chamar a atenção de seus observadores. E tudo o que precisava fazer era manter Aramisa Andrews com ela por tempo o suficiente...
— É mesmo? — comentou Lilah, simulando uma emoção qualquer. — Bem, ele não costuma passar mal por minha causa com muita frequência. Quero dizer... Eu só me atrasei cinco minutos.
Estava feito. Fora um movimento displicente, parecendo quase involuntário, como quem brinca com os objetos para manter as mãos ocupadas. Delilah se moveu graciosa em direção ao tabuleiro, apanhando a Rainha Branca como se nem percebesse que peça tomara, dando uma olhadela desinteressada e colocando-a de volta no lugar – exceto que não era bem o mesmo lugar de antes. Fora rápido, sem muitos rodeios, coisa de um ou dois segundos, apenas um passatempo aos olhos de quem enxergava através de cada canto daquele apartamento. Certamente não veriam qualquer ameaça numa movimentação ínfima.
Aramisa permaneceu em silêncio por alguns segundos – felizmente, não o bastante para que os observadores desconfiassem –, com o olhar fixo naquela Rainha Branca, de modo que Lilah quase podia ver as engrenagens trabalhando em sua mente, fazendo perguntas e obtendo respostas. Então ela desviou a atenção com uma rapidez espantosa, agora como quem não vê nada de alarmante ou mesmo digno de interesse. Mas Lilah sabia que ela entendera, e lutou contra a vontade de dar um profundo suspiro de alívio. Jamais pensara que um dia o raciocínio rápido de Aramisa Andrews, sua eterna rival, salvaria tudo o que ela temia perder com sua última jogada.
— É... Eu não sei o que ele tem. Veja você mesma.
E Aramisa saiu, batendo a porta lentamente, sem dizer adeus.
– — -
Samson não estava se sentindo bem naquela noite. Um tipo muito peculiar de mal estar o vinha assolando há algumas horas. Não era o mero enjoo comum, de quando comia alguma coisa estragada ou passava muito tempo em um avião. Era uma sensação que costumava sentir antes de algo muito ruim acontecer. Seu estômago revirava e ele se via obrigado a rejeitar qualquer tipo de comida por, bem, bastante tempo. O abdômen comprimia e lhe causava dor. Uma indisposição infernal o segurava na cama, e de repente era como se uma sombra demoníaca o estivesse seguindo por todo lado. Sua mente criava caos onde não existia – uma brisa leve poderia causar pneumonia, um som natural poderia indicar que um criminoso armado tentava invadir o apartamento, qualquer toque de telefone poderia ser um pedido de socorro de um ente querido em apuros. Ele não conseguia dormir, por mais exausto que estivesse. Era raro sentir aquele tipo de mal estar, que se assemelhava terrivelmente à ideia de uma premonição. Samson o sentira apenas três vezes em 32 anos de vida. Na primeira vez, perdera seus dois pais em um acidente de carro. Na segunda, um incêndio consumira o castelo escocês que pertencera à sua família durante séculos, ferindo gravemente todos os seus empregados. E na terceira, quase perdera sua ex-namorada e muito querida amiga de infância, Aramisa Andrews, para um sequestrador psicopata. Que poderia ser daquela vez?
Ele se limitou a ingerir duas aspirinas, enquanto andava de um lado para o outro de seu quarto no apartamento alugado em Las Vegas, suando frio e atentando a cada som, aroma ou visão que pudesse indicar um perigo maior. Volta e meia encarava seu relógio Cartier e rezava pela segurança de todos aqueles que amava. Em especial, Delilah. Pensar nela lembrava-o de que não deveria tê-la envolvido em seu trabalho. Apesar de corajosa, inteligente e perfeitamente capaz de cuidar de si mesma – segundo seus próprios termos – ainda assim era extremamente perigoso para ela interferir de tal maneira numa investigação federal, e não apenas por razões legais. O "inimigo" (no momento, a facção criminosa autointitulada Pepper Poison) poderia encontrá-la, descobrir a relação que existia entre ela e Sam, usá-la para extorquir informações e chantagear o FBI. Mas francamente, que se danasse o FBI: Samson jamais se perdoaria por causar qualquer mal a Delilah Belle. Sentimento que o fez se sentir profundamente aliviado quando, de repente, a loura apareceu na porta do quarto, sã e salva.
— Oi, Sam.
— Lilah! Graças a Deus! — disse Samson, encarando-a de cima a baixo com uma expressão que tentava não parecer desesperada demais. Ela, a mulher mais linda que ele já conhecera, parecia especialmente confiante naquela noite, e a confiança era o ingrediente mais presente na receita da sensualidade de Delilah, sendo superada apenas por sua beleza incomparável. Claramente vinha da boate Pepper Poison (em homenagem à cuja fama e tradição a facção criminosa denominara a si mesma), pois ainda usava uma espécie de corselete listrado branco e rosa com um grande laço preto como adorno e um short também preto bastante curto, que deixava à mostra suas longas e belíssimas pernas. — O que é isso agora? — ele perguntou, encarando aquela roupa com um olhar pouco surpreso.
Delilah sorriu e adentrou o aposento com o mesmo andar confiante que impusera a si mesma há alguns minutos.
— É pra remeter à embalagem de um bombom. — ela disse, sentando-se na cama de Samson e cruzando as pernas lentamente. — Jennifer disse que se fantasiar de comida atiça o desejo dos homens. Como fantasiar-se de hambúrguer ou pizza parece broxante demais, ela escolheu essa roupa porque, em suas palavras, "representa a suavidade, a leveza e ao mesmo tempo o sabor inconfundível de um bombom de luxo".
Samson riu.
— Parece ridículo pra mim. Desculpe, nunca vou me acostumar com estas vestimentas excêntricas. — ele disse, sentando-se ao lado dela. — E eu nunca vi um bombom com essa embalagem, sabe.
— Nem eu. Mas quem vai dizer isso a Jennifer? Ela é uma verdadeira tirana. — disse Delilah, esforçando-se para sorrir espontaneamente. O olhar divertido e ao mesmo tempo aliviado de Samson provocou nela uma sensação inexplicável, algo como "para o inferno (literalmente) com as consequências". Pôde sentir o choro subindo por sua garganta e teve que desviar o olhar para que Samson não percebesse a umidade em seus olhos. De repente, repetir seu mantra clássico "anti-momentos de baixa autoestima" não funcionava tanto quanto deveria. "Você é linda, inteligente e poderosa. Linda, inteligente e poderosa. Linda, inteligente e poderosa. Linda, inteligente e p..."
Uma voz zumbiu no ouvido de Delilah, irritada, através do ponto eletrônico. "Seja rápida, Torre Vermelha. O Rei Branco está cercado."
— Algo errado? — perguntou Samson. Aproximou-se de Delilah lentamente e pôs uma das mãos no ombro dela, acariciando-o gentilmente. Naquele momento, ele pensou em como era irônico que ele pudesse tanto amar uma mulher com uma profissão que por muito tempo lhe parecera indigna. Strippers! (Embora Lilah negasse com veemência, insistindo que não se tratava de strip tease se a roupa inteira não fosse tirada. Sam não estava bem certo se concordava com isso.) Entretanto, após conhecer Delilah Belle, pôde perceber que mesmo uma mulher que chegara àquele ponto podia ter muito a mostrar por trás da beleza e da sensualidade.
— Não... — disse Delilah, virando-se novamente para ele. — Eu estava pensando que deveríamos comer alguma coisa. E já que estamos falando de bombons... — ela pareceu se recuperar rapidamente e puxou a bolsa Marc Jacobs dourada do ombro. — Eu trouxe chocolate derretido. Amargo, o seu preferido. Também vodca e... — dizia, enquanto tirava da bolsa uma bisnaga de chocolate derretido, uma garrafa de vodca ainda não aberta e um saquinho plástico transparente com cerca de nove ou dez... — pimentas pouco ardentes. Foi a Sapphie quem me ensinou, e segundo ela, reúne três ingredientes extremamente afrodisíacos. Quer tentar?
— Não acho que precisemos de afrodisíacos. — disse Samson, sorrindo.
— Não veja como um estímulo, veja como aperfeiçoamento. — disse ela, levantando-se do sofá com os ingredientes em mãos e dirigindo-se até a cozinha. Pôs as pimentas, a bisnaga e a garrafa sobre o balcão. Samson a seguiu e se posicionou ao lado dela enquanto a via pegar três copos e dizer: — É fácil de preparar, também. Basta encher dois copos com vodca... Pode abrir pra mim?... Obrigada. E então colocamos o chocolate no terceiro copo. — ela pressionou a bisnaga sobre o copo e rapidamente o encheu com chocolate meio amargo. — Cada um pega uma pimenta. Pode escolher a sua, e então inserimos metade dela no chocolate e a mesma metade na vodca. — Delilah puxou um pote de açúcar e uma colher, preenchendo-a consideravelmente e despejando-o sobre os dois copos de vodca. — O açúcar não é obrigatório, mas eu vou adicionar porque você sabe que eu detesto chocolate amargo.
— Não acredito que está me convencendo a fazer isso. — Samson sorriu. — Tenho a séria impressão de que não vai me fazer bem. Eu acordei com aquele mal estar hoje. Não como nada desde cedo e acho que ficaria assim até amanhã se não fosse você e suas experiências eróticas, Lilah.
Ela estremeceu.
— Por "aquele" mal estar, você quer dizer o que você sente quando parece que algo ruim vai acontecer?
— É. — disse ele. — Mas não se preocupe. A minha maior preocupação era você, e agora você está aqui, onde eu posso protegê-la. — Lilah sentiu que ele estava prestes a acrescentar Aramisa à lista de maiores preocupações, mas que mudara de ideia fosse porque estivesse certo de que Aramisa podia proteger a si mesma, fosse porque não achasse sensato mencionar Aramisa diante de Lilah.
"O Rei Branco tenta convencê-la a não atacar, mas não dê ouvidos! O tempo corre, Torre querida!"
Querida? Isso vindo da pessoa que ameaçou me matar, pensou Delilah. Ela sentiu a raiva subir por seu tronco até a garganta. Sentia uma vontade enorme de gritar: "Não sou uma maldita torre. Vá para o inferno com seu xadrez estúpido, sua..."
— Acho que meu celular está tocando, pode ver pra mim? — disse Lilah, engolindo o choro e tentando controlar os súbitos calafrios que lhe atingiram. Samson foi até o quarto, verificar o celular dentro da Marc Jacobs, o que deu à mulher tempo suficiente para despejar o conteúdo arenoso do pequeno pacote que trazia consigo sobre apenas um dos copos de vodca. Ela apanhou a pimenta que Samson havia escolhido e a sua própria, mergulhando metade delas no copo de chocolate e então cada uma em um copo de vodca diferente. Sustentou-as dentro da bebida por algum tempo, tentando controlar a tremedeira das mãos.
— Não está tocando. — disse Samson, ao retornar.
— Ah. — disse Delilah, forçando um sorriso. — Aqui está a sua. — e lhe estendeu uma das pimentas. — Então... Um brinde a... Hum, você.
— Eu e você.
Samson sorriu, e ambos morderam cada um sua pimenta ao mesmo tempo. A voz no ponto eletrônico auditivo soltou uma risada mórbida e disse, enigmática, em sua língua-mãe: "Bilo koji izbor je u moj korist. Šah-mat, tamno toranj izdajnica!"
Delilah não falava aquela língua (de fato, nem fazia ideia de que língua poderia ser – talvez algum dialeto nórdico?), mas de alguma forma sabia, fosse por conhecimento empoeirado ou intuição, que "šah-mat" significava xeque-mate.
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