Pepper Poison
2 A Oferta
Londres, Inglaterra
Seis meses antes
O Inspetor Lambert estava particularmente mal humorado naquela manhã nublada de domingo. Não porque era o seu dia de folga e ainda assim ele fora obrigado por seu superior a comparecer em seu escritório na divisão de homicídios da Scotland Yard para receber uma "visita especial", mas porque a visita em questão era Samson Ryder – sim, o famoso e estupidamente invencível detetive Ryder. Um estereótipo arrogante, autoritário e convencido de um Poirot ou um Holmes pouquíssimo convincente, pensou Lambert, enquanto apontava um lápis de maneira incessante até a ponta quebrar, para então recomeçar e repetir o processo até o lápis sumir. Aquela era uma mania que ele havia adquirido há alguns anos, e nunca se dava conta do que estava fazendo enquanto sua mente imergia em um mar de pensamentos. Naquele momento, os pensamentos giravam em torno de Ryder, que chegaria em exatos cinco minutos, se ainda fosse o homem neurótico e perfeccionista que Lambert sabia que ele era.
Embora não admitisse sequer a si mesmo, sentia em seu subconsciente mais profundo que todo aquele ódio não passava de pura e irrevogável inveja, com raízes firmes no passado. Samson Ryder parecia ter tudo na vida: era rico e bem sucedido, no auge de sua carreira brilhante como detetive, que não contava com um único – nem um só, qualquer que seja – fracasso no currículo. Era considerado irresistível pelas mulheres – entre suas admiradoras, estava inclusa a própria esposa de Lambert! – e, agora, seria reconhecido internacionalmente por seu infalível trabalho. Nada para o esforçadíssimo Inspetor que virava as noites na Scotland devorando arquivos e queimando os neurônios, liderando a equipe com mão de ferro e supervisionando a investigação minuciosamente para que nada saísse errado e o criminoso tivesse a punição condizente com o seu crime. Nem mesmo um simples "parabéns" ou um tapinha nas costas amigável quando tinha sucesso em um caso. Somente Ryder, Ryder, Ryder o tempo todo. E Ryder nem mesmo trabalhava para a maldita Scotland Yard.
Lambert o conhecia desde sempre. Ali, sentado em sua poltrona de couro por trás da mesa imponente e uma plaqueta dourada com os dizeres "Inspetor Nathaniel Lambert", refletindo sobre a infância, sua mente divagou espaço-tempo afora e trouxe de algum lugar as empoeiradas memórias de seu primeiro contato com o mundo dos mistérios.
– — -
A noite londrina era fantasmagórica no inverno. Havia um nevoeiro acinzentado, de uma algidez polar, que assombrava os becos e as sarjetas da cidade com sua aparência confusa que assumia faces de monstros e visagens na escuridão da luz alaranjada e circular dos postes enferrujados. Sombras se formavam nas paredes das tavernas e estranhos ruídos que se assemelhavam a risadinhas malévolas ecoavam em direção ao nada. Nathan perambulava pelas calçadas, afundando-se na neve e soluçando fortemente. Tinha apenas oito anos de idade, usava trapos fétidos imundos e carregava uma criança de dois anos no colo, que, aparentemente, era mais corajosa do que ele, pois não chorava nem soluçava, apenas apoiava a cabeça sobre o ombro do irmão e encarava o silêncio como se este fosse palpável e assustador. Mas além da coragem, poderia ser a hipotermia, que secava as lágrimas de Nathan antes que elas atravessassem o caminho lânguido de sua face pálida. Todos os estabelecimentos estavam fechados, o que indicava que provavelmente a madrugada se tornaria manhã em pouco tempo. Havia mendigos desfalecidos sobre pedaços de papelão velho (podiam estar mortos), e de vez em quando algum homem insano passava próximo às duas crianças, dizendo coisas incompreensíveis, socorrendo a própria embriaguez.
Nathan queria morrer. O frio o estava matando aos poucos, mas era sua responsabilidade contrariar a melancolia e lutar contra a foice eterna. Havia uma criança em seus braços que precisava que ele permanecesse vivo. Seu irmãozinho, Luke. Uma inocente criaturinha vitimada pelo destino. E tornava-se uma pequena pedra de gelo a cada minuto. Nathan apressou o passo, pois devia chegar à estação de trem o mais rápido possível. Era o único lugar que provavelmente estaria aberto àquela hora e no qual eles poderiam se aquecer. Alguém haveria de ter misericórdia daqueles meninos, e oferecê-los uma moeda que fosse. Esta era sua esperança mais otimista.
A neve era espessa. Nathan tropeçou várias vezes, e resistiu à tentação de deitar-se sobre a brancura e dormir até o frio congelar seus batimentos, levantando-se bravamente e seguindo adiante com o irmão. Não sabia o quanto havia andado até ali, mas tinha certeza de que a estação de trem ficava ao leste, e que ele estava no caminho certo. Em determinado momento, teve a impressão de enxergar um filete de claridade leve sobre a linha do horizonte, e rezou para que o Sol viesse às pressas e aquecesse-os com o seu calor. A visão prendeu seus olhos, e ele tropeçou novamente. Ao chão, foi quando ouviu vozes. Vozes diferentes, não os risos diabólicos dos monstros da névoa ou os murmúrios dos bêbados e mendigos. Eram vozes comuns, que conversavam normalmente, mas, ainda melhor, vozes de crianças. Nathan lutou contra a neve para se reerguer, mas, antes, ergueu os olhos e a viu. Não alguém qualquer. Ela.
Era a menina mais linda que já estivera diante dele. Tinha longos cabelos louros e cacheados como os de um anjo, que reluziam mesmo à noite, como um segundo sol. Os olhos eram castanhos como chocolate ao leite, o que fez o estômago dele roncar. Sua pele cândida e láctea era rosada nas bochechas, seus lábios eram da vermelhidão adocicada de uma flor de cerejeira, e ela usava um vestido azul florido sobre a meia-calça marrom grossa, coberto por um agasalho estilo sobretudo preto, luvas escuras de couro e botas apropriadas para uma caminhada na neve. Mas uma caminhada na neve à madrugada em uma ruela suja e apavorante?
— Ei, menino — chamou a loura garotinha com uma voz angelical — Você está vivo?
Era uma pergunta válida. Nathan havia entrado em uma espécie de transe ao avistar tamanha beleza, e, parado ali como uma estátua, poderia muito bem ter congelado e morrido. Mas ele estava vivo, muito vivo. Um misterioso Deus atendera suas preces. O sol viera às pressas aquecê-lo. Era um sol em forma de anjo, mas um sol, que cumprira sua promessa e trouxera-lhe calor.
Ele assentiu com a cabeça, ainda mudo, encantado. A menina sorriu, mas Nathan não pôde admirar seu sorriso pelo tempo que desejava, pois ela rapidamente se virou e chamou seus amigos, os quais a névoa escondia, mas que, a julgar pela posição do anjo, vinham do leste.
— Sam, Derek, ele está vivo, corram aqui! — disse ela, e então se virou novamente para Nathan, aproximando-se e ajudando-o a levantar. Ele não pôde sentir sua pele devido às luvas, mas estremeceu ao toque e à aproximação da menina. Estava apaixonado. Ela certamente tinha a sua idade, e seria perfeito quando se casassem e pudessem cuidar de Luke juntos.
Dois garotos se aproximaram. Nathan os fitou com cuidado, e uma pitada de ciúmes. Eram aqueles garotos bem arrumados e cheirosos que andavam por aí com seus pais ricos, esnobando os que não tiveram a mesma sorte. Usavam camisetas de lã espessa e elegante, calças impecáveis, sapatos italianos e sobretudos e luvas iguais aos da lourinha. Os cabelos estavam desgrenhados, mas fortalecidos e luzidios. Um deles era mais bonito que o outro, por ser mais encorpado e ter um rosto menos infantil, embora claramente não tivesse mais do que nove anos. Mas, independente disso, eram garotos que faziam Nathan parecer uma ameba.
— Q-q-quem são... v-vocês? — ele perguntou, começando a ficar assustado. Luke, por sua vez, parecia confiante, e afrouxara os braços que antes apertavam o pescoço do irmão nervosamente.
Foi o garoto mais velho quem respondeu. — Eu sou Derek. Esta é a minha irmã, Aramisa, e nosso melhor amigo, Sam. Qual o seu nome?
Nathan notou que os olhos de Derek eram castanhos como chocolate ao leite, iguais aos de Aramisa, mas ele não era louro como ela. Seus cabelos eram castanho-escuros que, apesar do escuro, pareciam claros comparados ao do outro garoto, de cabelos negros intensos. Nathan respirou fundo e balbuciou seu nome, cheio de timidez.
— N-n... N-nathan.
Nesse momento, o garoto chamado Sam fez a pergunta mais estranha que Nathan já ouvira em oito anos de vida.
— Você viu algum homem usando capa de chuva amarela e botas de couro preto passar por aqui naquela direção? — disse, apontando para o oeste, de onde Nathan viera.
Ele entrou em transe novamente. Talvez porque tivesse medo daquele trio de crianças luxuosas que surgira em um local pouco característico de sua visível condição social no meio da madrugada, e ainda por cima fazendo questionamentos loucos. Mas provavelmente porque, assim que Derek terminara de falar, Aramisa se aproximara de Sam e segurara-lhe uma das mãos carinhosamente. O que Nathan estava pensando? É claro que uma menina elegante, rica e bonita como Aramisa já deveria ter um namorado. E, aparentemente, era aquele garoto de olhos verdes como musgo e expressão investigativa intensa.
Foi esse o histórico, porém estranho momento em que Nathaniel Lambert declarou Samson Ryder como seu arqui-inimigo.
Nathan não sabia se eles haviam percebido como o seu olhar fulminava sobre as mãos entrelaçadas de Sam e Aramisa, mas a loura rapidamente interveio, quebrando o silêncio que se instalara à espera de sua resposta.
— Pobre menino, Sam, deve estar morrendo de frio. Dê seu casaco a ele, vamos. Veja só o bebê. — disse, cheia de piedade, olhando docemente para Luke. Nathan queria esperar que Sam recusasse, abominando o ato de compartilhar uma vestimenta tão superior com um menino de rua, garantindo assim um motivo além do ciúme para odiá-lo, mas não pôde evitar desejar ter aquele tão atraente aquecedor em suas mãos. Felizmente, Sam pareceu nem mesmo ponderar sobre a questão socioeconômica. Tirou seu sobretudo e colocou-o gentilmente ao redor do corpo definhado do sem-teto e seu irmão, enquanto Derek dizia:
— É melhor levarmos esses meninos pra casa. — e então se dirigiu a Nathan e Luke. — Onde vocês moram?
Nathan levou algum tempo para responder. — Não... eu... nós... não temos casa. Fomos expulsos. Da casa. Quer dizer... morávamos... trabalhávamos em uma casa. Mas não... mais. — complicou-se, intimidado.
— Talvez possa trabalhar na sua casa, Sam. Seus pais não precisavam de alguém para polir as pratarias? — sugeriu Aramisa.
— Não, não — disse Sam. — Era que o Jamie tinha ido embora, mas ele já voltou. Acho que meus pais não precisam de mais ninguém.
— Bem, vamos levá-lo para a nossa, então. — concluiu Derek. — Mamãe vai encontrar alguma coisa para ele fazer. Mas não sei quanto ao bebê. É muito novo para qualquer trabalho.
— O bebê fica com a Hannah. Ela pode criá-lo até que ele tenha idade suficiente para trabalhar. — disse Aramisa.
— A Hannah já não cuida de três bebês? — perguntou Sam.
— Acho que cinco anos não é mais bebê. — retrucou Derek.
— Pensamos nisso depois. Se for o caso, podemos falar com a Ophelia, do orfanato. — sugeriu Aramisa. Orfanato?, pensou Nathan, assustado. — O importante é tirá-los daqui. É errado deixar duas pessoas morrerem de frio. Venham, ajudem-me. Se dermos sorte, talvez possam nos dizer alguma coisa sobre o homem da capa amarela.
— Mas e a investigação? — perguntou Sam, desapontado.
— Investigamos a noite inteira, Sam. Vai amanhecer, nossos pais vão saber que saímos. — disse Derek. — Vamos voltar pra casa.
— Nos reunimos mais tarde no Quartel para discutir o próximo passo. — disse Aramisa, que parecia entender melhor do que o irmão a aflição de Sam em continuar a "investigação". — Às quatro, que tal?
— Às quatro. — disseram os três em uníssono, e desapareceram na névoa, carregando um menino de rua e seu irmãozinho até o condomínio de luxo chamado Villa Firenze.
– — -
"Mas e a investigação?", imitou Nathan, afinando a voz do pequeno Samson e adicionando à frase um tom escarnecedor. Só se preocupa com a sua maldita investigação, desde pequeno. Estúpido Ryder, insensível, convencido, ladrão de mulheres... Nathan continuou a xingá-lo em seus pensamentos, ignorando o fato de que, voluntariamente ou não, Samson Ryder lhe dera seu sobretudo infantil e ajudara os amigos a levar Luke e ele à mansão da família Andrews.
Villa Firenze, aos olhos de Nathan e seu irmão, era um pequeno pedaço do paraíso que escorregara através das nuvens e caíra em uma pontinha de Londres como quem não quer nada. Mas qualquer coisa bela que cai em mãos humanas é rudemente transformada em símbolo de status e poder, de que os bem-nascidos fazem uso em detrimento dos esfomeados e sedentos. Villa Firenze tinha as mais belas mansões da cidade, algumas que pareciam verdadeiros palácios e reluziam em pontinhos visíveis a anos-luz de distância da Terra. Consequentemente, apenas a nata londrina residia em tais maravilhas: grandes empresários, políticos, ex-primeiros-ministros, pequena realeza, celebridades e socialites eram encontrados naquele condomínio em tarefas rotineiras, como comer e dormir. O resto ficava a cargo de seus inúmeros empregados (entre eles, crianças também, prática muito mais comum do que se imaginaria – os endinheirados adoravam criar seus empregados como legumes de uma horta, que nascem, crescem e morrem a serviço do fazendeiro), e a vida era, aparentemente, um glamoroso mar de rosas.
Os Ryder e os Andrews eram "vizinhos". Diz-se entre aspas, pois não se aplica a Villa Firenze a imagem tradicional de vizinhança, em que um morador, ao abrir a janela de seu quarto, pode cumprimentar o conhecido da casa ao lado. Os vizinhos do condomínio de luxo eram aqueles de residência consecutiva, mas seus lares eram tão grandiosos que, mesmo de uma mansão a outra, seria mais vantagem ir de bicicleta do que a pé. Eram casas suntuosíssimas, cercadas por áreas verdes que abrigavam seus pequenos hobbies: estábulos para os cavalos puro-sangue, saunas particulares e piscinas olímpicas. As famílias de Villa Firenze não achavam higiênico dividir qualquer coisa com qualquer pessoa – como piscinas e saunas –, nem mesmo o que, por definição, deveria ser público – como centros de compras e salas de cinema. Mesmo que fossem do mesmo nível social.
A mansão Andrews lembrava muito o Palácio de Buckingham, e Nathan suspeitava que houvesse sido construída baseando-se neste. Era um adorável retângulo de largas bases, todo de tijolinhos beges como chocolate branco um pouco desgastado pelo tempo, e possuía forte influência greco-romana, visível nas colunas erguidas sobre a parte central, com detalhes arredondados e artísticos nas extremidades. As janelas eram de vidro, bem cuidadas, e, no jardim em frente à mansão, havia flores mais belas do que as do Éden, e algumas árvores com frutos que consequentemente Nathan achava perigoso comer. Os Andrews claramente gostavam muito de botânica, pois o jardim se estendia por toda a área verde frontal e tirava o fôlego mais do que a própria mansão. Havia chafarizes encantadores e estátuas de anjos e animais como leões e cavalos. Um largo caminho asfaltado levava à garagem, e, embora nunca tivesse tido a oportunidade de vê-la, sabia que a família possuía mais de um carro importado.
Quando chegaram à mansão pela primeira vez, Nathan e Luke desejaram ter entrado pela porta da frente, a principal, grande demais para um único andar. Contudo, mesmo na companhia da doce e amigável Aramisa, tiveram que entrar pelos fundos. Adentraram uma cozinha, pequena, mas aconchegante. Era a cozinha dos empregados. Dos empregados, pensara Nathan, paralisado. Achava que isso significava que, na mansão Andrews, serviçais seriam tratados como parte da família. Mas aquilo era apenas porque Daphne Andrews, a matriarca, não queria que sua comida sagrada fosse preparada no mesmo lugar que a daquela gente.
Na cozinha dos fundos, em que tudo era feito basicamente de uma madeira rígida e marrom como um tronco de árvore polido, Aramisa sentou Nathan e Luke em um banquinho, e deu a eles comida e bebida, que, fosse qual fosse – proletária ou burguesa –, tinha um gosto maravilhoso. Era o início de uma nova vida para os irmãos Lambert, que, até então, mal sabiam o próprio sobrenome. Lambert? Esse era o sobrenome de Hannah, a cuidadosa, porém rígida aia que amamentava os bebês-futuros-empregados como se estivesse em uma senzala, criando escravos. Não era uma vida diplomática, tampouco transbordava justiça, mas, naquela idade, tudo o que Nathan queria era um lugar para morar, com comida e bebida o suficiente para mantê-lo vivo. E na mansão Andrews, desprezando o tratamento dos empregados como animais de cela, ele recebia tudo isso e um pouco mais, como um quartinho especial para ele, seu irmão e mais duas crianças.
Velhos tempos, pensou Lambert, trocando o lápis que destruíra apontando-o até a morte por um novo. Daria tudo para saber se aqueles tiranos filhos da puta dos Andrews ainda criam seus empregados daquela forma, sob desculpa de caridade barata.
Mas havia uma coisa na família Andrews que fazia todo o resto valer a pena: ela se chamava Aramisa. O anjo sem asas que salvara Nathan e seu irmão da morte por hipotermia, fome, desidratação e tudo mais que poderia ter acontecido. Aramisa era diferente, era uma ilha de sinceridade e inteligência em um mar de futilidade e arrogância. Aramisa não se parecia em nada com a mãe, Daphne, uma mulher superficial preocupada demais com as aparências, e também não era como o pai, Harold, um homem ganancioso e essencialmente voraz por libras. Aramisa era caridosa, gentil e estudada, como uma verdadeira princesa, e ainda por cima era linda como uma pintura renascentista. As pessoas diziam que Aramisa era uma criança problemática, que vivia dando trabalho aos pais, mas isso era porque volta e meia ela se encrencava com suas aventuras investigativas. A investigação era sua maior paixão, e ela estava disposta a correr qualquer risco para desvendar os pequenos mistérios do dia a dia em Villa Firenze: onde estavam os rubis da Sra. Goldstein, quem manchara propositalmente o vestido de festa da herdeira dos Tramplin, onde ficava a passagem secreta que (rezava a lenda) existia na mansão Ryder, e assim por diante. Lambert sabia que Aramisa se tornaria uma grande detetive algum dia, e que deixaria de devorar livros de assassinatos misteriosos para punir os criminosos de verdade.
Infelizmente, alguém era tão apaixonado por mistérios quanto a lourinha herdeira dos Andrews: o filho único dos Ryder, Samson. E vê-los juntos a todo instante, compartilhando experiências emocionantes e trabalhando juntos em "grandes casos" da infância deixava Lambert fervilhando de inveja e ciúmes. Fora esse o motivo pelo qual iniciara sua própria carreira investigativa: desejava imensamente mostrar a Aramisa como poderia fazer melhores deduções do que seu namoradinho mimado.
Mas, ao que parecia, o espírito investigativo não se manifestava em Lambert como em Ryder e Andrews. Apesar de suas tentativas, nunca tinha sucesso em igualar-se ao rival ou mesmo superá-lo. Na maioria das vezes, Lambert chegava a conclusões equivocadas e acabava por atrapalhar as investigações do casal ao invés de auxiliá-las. Para seu infortúnio, tal sina o acompanharia durante toda a sua infância, adolescência e vida adulta. Os deuses pareciam dizer "desista, você não serve para isso", mas Lambert se sentia cada vez mais motivado a desafiar as forças da natureza. Eu posso ser melhor do que ele e eu serei, dizia, antes de cada um dos seus fracassos.
Nathan frequentemente tentava procurar defeitos e imperfeições no rival Samson, mas na maioria das vezes tudo o que podia fazer era felicitar-se com o fato de que a mansão Ryder não era tão majestosa quanto a mansão Andrews, e que, claramente, Samson Ryder não era tão popular e adorado pelas meninas de Villa Firenze quanto Derek Andrews, irmão mais velho de Aramisa. Mas Sam não parecia muito preocupado em competir com o irmão da namorada. Pelo contrário, eram amigos, com interesses diferentes, mas amigos. Derek não possuía aquele apreço inesgotável por mistérios, embora ajudasse Sam e Aramisa em suas investigações quando queria. Mas o fazia por diversão, pois seu verdadeiro sonho era tornar-se um astro do rock, e, como isso não impressionava Aramisa, também não era interessante a Nathan, embora – bem lá no fundo – esse também amasse mais a música do que o mistério. O que não fazia diferença quando, de qualquer maneira, ele amava Aramisa mais do que ambos, e faria qualquer coisa para conquistá-la.
Aramisa, querida, pensou Nathan, em sua mesa à espera do "aminimigo". Se me pedisse para deixar Miriam por você, eu deixaria. Era um pensamento triste, pois Nathan amava Miriam, sua esposa, à sua maneira – mas não podia negar que a paixão por Aramisa Andrews nunca desaparecera. Talvez, em alguns momentos, houvesse sido bem guardada, mas jamais destruída ou esquecida.
A infância com a família Andrews fora árdua e divertida, fortemente agridoce para as impressões do Inspetor. E, à exceção da presença do intrometido Ryder, Lambert quase podia dizer que haviam sido os melhores anos da sua vida. Vivera experiências que daria tudo para retomar, em tempos em que a investigação "criminal" era simples e divertida.
Houve uma batida na porta. Nathan encarou rapidamente seu relógio de parede: nove horas em ponto. Patético. Mesmo para um inglês.
— Entre — disse ele, contrariado.
Samson Ryder adentrou o escritório. Trazia os mesmos cabelos muito pretos, embora desta vez estivessem bem penteados, e os olhos cor de esmeralda profundos. Vestia um casaco marrom escuro sobre uma camiseta de lã azul.
— Bom dia, Lambert. É bom vê-lo novamente. Como vai o caso do assassinato de Mary Paisley? — perguntou Sam ao entrar. Nathan cerrou os punhos com força. Arrogante e arrogante, pensou a respeito do colega. Pra começar nunca me chama de Inspetor Lambert. E como não consegue passar um minuto sem falar de trabalho, ainda pergunta sobre o caso que ele sabe que está indo de mal a pior. Maldito.
— Estamos dando o nosso melhor. — respondeu, com rispidez.
— Claro que estão. Mas deveriam investigar a colega de quarto da moça. — Sam se sentou na cadeira diante da mesa do Inspetor. — Dei uma olhada nos arquivos e ela me parece realmente suspeita.
— Já fizemos isso. Ela tem um álibi.
— Confirmado por quem mesmo?
— O psicólogo. A colega de quarto estava numa consulta na hora do assassinato. Acho que isso é bem definitivo, Ryder.
— Claro que é. Um psicólogo que atende os pacientes em sua própria casa. Muito conveniente.
— Conveniente pra quê? — Lambert estava começando a ficar muitíssimo irritado com aqueles comentários prepotentes e pouco reveladores.
— Pra um álibi, é claro. Eu sempre gosto de considerar que o álibi só é bom o bastante se mais de cinco pessoas não relacionadas puderem confirmá-lo. Se a tal sessão com o psicólogo tivesse se dado em um consultório, a recepcionista ou os outros pacientes poderiam garantir que viram a moça naquele horário. No entanto, o momento se deu na casa do psicólogo. Já interrogou os vizinhos? Perguntou se costumam ver muita gente entrando e saindo da residência? Se viram a colega de quarto naquele dia, por volta daquele horário, ou se já haviam visto a moça antes por aquela região? É importante que a curva do gráfico "Testemunhas do álibi vezes depoimento do suspeito"–
— Ryder — Lambert interrompeu, contendo a fúria. — Ryder — disse mais uma vez, para mostrar que tentava mascarar uma hostilidade cortante. — Posso garantir que estamos fazendo um bom trabalho. Agora, creio que a razão pela qual marcamos esta reunião seja para discutir alguma outra coisa bem mais importante, não? Do contrário, não teriam me tirado de casa no meu dia de folga.
Samson não pareceu incomodado pelo desvio do assunto. Aparentemente, desde que a conversa se mantivesse no âmbito da investigação criminal, ele ficaria feliz em falar sobre qualquer caso.
— Ah, sim. De fato. Como você sabe, o FBI, dos Estados Unidos, me chamou para auxiliar numa investigação. Parece que uma facção criminosa está aterrorizando uma cidade, Las Vegas, e eles não conseguem localizar os chefes da gangue. A coisa toda se monta e desmonta como quiser. Estão desconfiando de que há uma personalidade realmente influente envolvida. Um empresário muito rico, talvez, ou um funcionário do governo. A batalha entre a polícia e a gangue já dura uns três anos, e rendeu uma porção de assassinatos, sequestros, violência e até terrorismo. É uma situação complicada.
— Ah, sim? Bem, meus parabéns por ter sido chamado. — resmungou Lambert entre dentes, num tom de voz que revelava o quão pouco ele estava feliz pelo suposto amigo. Já havia sido informado de que a fama de Samson Ryder como investigador invicto havia chegado até o outro lado do oceano, e vinha remoendo a notícia com rancor desde então.
É claro que havia certo apelo no fato de que Sam, apesar de ser um detetive brilhante, não trabalhava para nenhuma instituição em especial. A Scotland Yard vivia oferecendo-lhe emprego – o próprio cargo de Inspetor já fora sugerido ao homem diversas vezes, e fora numa delas, por sinal, que ele indicara Nathaniel Lambert, um "velho amigo", para o trabalho – e ele vivia recusando, dizendo que não se acorrentaria a salários (não que precisasse – herdara o dinheiro da família no acidente de carro que matara seus pais) e que, caso se interessasse por um ou outro caso, limitar-se-ia a ser fonte de "auxílio"" nas investigações, o que Nathan considerava de uma prepotência sem precedentes. No geral, Samson Ryder era um detetive independente.
— Obrigado. Partirei na segunda-feira de manhã e, na verdade, estou, hum, montando uma equipe, por assim dizer.
Lambert arregalou os olhos, surpreso pela primeira vez naquela manhã.
— Uma equipe? Para investigar com você?
— Sim. Bem, mais ou menos. A verdade é que tenho estudado bastante o caso dessa tal facção criminosa, se é que se pode chamar assim. Para mim, parece mais uma organização muito bem estruturada, pela maneira como agem. Não tenho certeza se estamos lidando apenas com crime organizado... Talvez trate-se de crime realmente muito bem organizado e minuciosamente planejado, quase empresarial, com intenções determinadas e maiores do que eu me permiti imaginar até agora. Se eu estiver certo, talvez o próprio FBI tenha agentes infiltrados da facção, que chama a si mesma de Pepper Poison, em homenagem a uma boate famosa em Vegas. Então, eles me disseram que colocariam policiais federais à minha disposição, para atuar como guarda-costas. Mas eu não confio em quem quer que eles venham a escolher. E sei que é uma tarefa perigosa, então quero levar a minha própria gente.
— Seus próprios guarda-costas, é o que quer dizer. — cuspiu Nathan com desdém.
— Na verdade, não. É claro que a minha equipe deve estar preparada para confrontos físicos, mas isso é tanto quanto eu. É preciso que as pessoas que me acompanhem também tenham grande habilidade investigativa. Assim, será possível observar todos os cantos na penumbra desse mistério, mais do que eu sozinho poderia fazer.
— Sei. E o que eu tenho a ver com isso?
— Naturalmente, Lambert, eu estou o convidando para fazer parte dessa equipe.
Nathan deu uma risada de satisfação, embora em seguida tenha retomado o seu tom sério e enérgico. Quem diria que um dia o imponente e supostamente independente Samson Ryder bateria em sua porta, pedindo ajuda. Estava claro que percebera o quanto o caso de Las Vegas era grandioso demais para ele, que não seria capaz de resolver o mistério por si só, como fizera nas últimas décadas. E no entanto, não queria recusar uma oportunidade tão boa de dar brilho à sua reputação maravilhosa e inflar o próprio ego, era o que Lambert pensava.
— Ah, claro. Bem... Não sei se tenho tempo, sabe, Ryder. Ao contrário de você, que fica vagando pelos becos da investigação criminal à procura de alguma coisa que desperte o seu interesse, eu tenho um emprego, tarefas, deveres de verdade, responsabilidades para com a sociedade londrina. Não posso simplesmente largar tudo para servir a um capricho seu. Além do mais, há Miriam.
— Eu entendo, é claro, Nathan. Imaginei que Miriam seria algo a se considerar. Caso você aceitasse, eu não aconselharia a trazê-la conosco, devido ao perigo, mas garantiria a você que não tenho a intenção de passar mais do que dois meses na América. E naturalmente, eu o pagaria pela ajuda, e muito melhor do que a própria Scotland Yard provavelmente o paga. Andei conversando com Anthony Stewart, e ele me deu a sua palavra de que, caso eu o levasse nessa jornada comigo, ele cuidaria muito bem do seu cargo como Inspetor, de modo que você poderia voltar ao fim da viagem. Talvez até recebesse uma promoção, se formos bem sucedidos e eu fizer uma recomendação satisfatória a ele. O que acha de se tornar Inspetor Chefe?
Nathan ficou em silêncio. Anthony Stewart era o superintendente, dois degraus acima de Lambert na hierarquia da Scotland Yard. O homem tinha muita influência por ali e era, não surpreendentemente, um grande amigo de Samson Ryder. No entanto, por mais que aquela parecesse uma grande oportunidade, o orgulho de Nathan Lambert era maior do que qualquer aspiração profissional. Ele jamais se sujeitaria a mais uma guinada na carreira graças a Ryder.
— Parece bom. Ainda assim, eu devo recusar. Detesto deixar as coisas pela metade, e no momento estou concentrando todas as minhas forças na investigação do assassinato de Mary Paisley.
— Eu entendo. — Sam deu um sorrisinho conformado, e então começou a levantar da cadeira. — Bem, obrigado pelo seu tempo, mesmo assim. Eu confesso que a única razão pela qual eu solicitei uma reunião aqui no escritório e não simplesmente fui até a sua casa fazer o convite é porque tive certeza de que aceitaria o trabalho, e que gostaria de começar a analisar os documentos da investigação agora mesmo. Afinal, o voo para Las Vegas está marcado para amanhã de manhã.
— Bem, parece que você não está sempre certo, não é mesmo, Ryder? E obrigado por ter me feito sair de casa em pleno domingo para isso.
— Eu peço desculpas. Sendo assim, eu deveria deixá-lo voltar para casa e aproveitar o resto da sua folga. De qualquer maneira, eu não pretendia ficar por muito tempo. Tem um jatinho me esperando para decolar em meia hora com destino a Portugal. Aramisa quer ver os documentos também, e ela diz que leva muito mais tempo para fazer um trabalho melhor com eles. Vai entender. — e Ryder deu uma risadinha amigável, enquanto se dirigia até a porta do escritório.
— Ar... Aramisa?
Nathan se sentiu de volta ao primeiro encontro, tantos anos atrás, petrificado e sem controle das batidas do próprio coração.
— Ah, sim. Ela está em Portugal, visitando o irmão e a sobrinha. Creio que ainda não teve a oportunidade de conhecer a filha de Derek, Nathan? É uma menina realmente encantadora. Acabou de fazer 13 anos, eu acho.
Lambert sabia que Samson havia planejado aquilo. Cada palavra fora previamente calculada. O brilhante, o inteligentíssimo, o invencível Samson Ryder sabia desde o início que Nathan podia não aceitar o emprego de primeira, e estava o tempo todo guardando a "carta Aramisa" na manga, apenas para humilhar o amigo de infância. E agora, quando enlaçara Lambert sem volta, e o fizera perguntar pela mulher, ainda tinha a audácia de responder com um comentário casual, como se não tivesse entendido o que o "velho amigo" realmente quisera dizer:
— Então... Aramisa vai para Las Vegas... com você? Investigar o caso... também?
— Com certeza. Você sabe que eu não sou de formar equipes de trabalho, Lambert. Se decidi fazer isso agora, quero apenas os melhores ao meu lado. Será como nos velhos tempos, não? Eu e Aramisa investigando juntos novamente. Pena que Derek não tenha seguido a carreira de investigação criminal como nós. Mas se eu tivesse conseguido convencer você, seríamos o time do Villa Firenze novamente.
Nathan Lambert se sentia paralisado.
Do "time do Villa Firenze" – Sam, Aramisa, Derek e Nathan – apenas Sam e Nathan haviam mantido contato com o passar dos anos, o que era irônico, uma vez que os dois nunca haviam se dado muito bem. Como tudo acontecera? Aos 14 anos, os irmãos Andrews foram "deportados" pelos próprios pais para os Estados Unidos, após uma das investigações infantis terem acabado realmente mal. Nesse episódio, também se dera o rompimento de Samson e Aramisa, cujo namoro já era, há um bom tempo, sacudido em suas bases pela intensa competição que crescia entre o casal. Eles simplesmente não conseguiam aproveitar a companhia um do outro sem estarem constantemente sentindo a necessidade de provar que eram um ou outro o melhor investigador, o melhor detetive, o melhor solucionador de mistérios. Tentavam manter a relação de afeto ao mesmo tempo em que rivalizavam. Era quase engraçada a maneira como conviviam. Sam jamais considerara Nathan um rival (e de fato, Nathan jamais estivera suficientemente à altura de Sam para se adequar como competidor), de maneira que os dois não se davam bem unicamente por amarem a mesma garota. Mas Sam e Aramisa – eles estavam empatados em habilidade, inteligência, astúcia e coragem, e queriam muito mostrar que lideravam aquela disputa. Um dia, as brigas haviam ido longe demais. Eles tinham métodos diferentes e cada um queria deixar claro que o seu era a melhor maneira de solucionar um mistério. Acabou que o método de um ficou no caminho do método de outro, e a investigação explodiu. Derek e Aramisa foram embora. Sam e Nathan ficaram.
Samson e Aramisa voltaram a se ver algumas vezes depois que ela entrou para a universidade, e até tentaram resgatar o namoro, eventualmente. Mas a ferida do episódio do Villa Firenze ainda estava aberta, bem como a rivalidade entre os dois. Aquilo simplesmente não ia funcionar. Eles romperam de vez, e lourinha de olhos castanhos como chocolate ao leite decidiu que terminaria seus estudos cada fase em um país diferente, e daria início à sua trilha de detetive independente. Afora alguns encontros casuais, Samson e Aramisa nunca mais foram próximos ou sequer mantiveram contato. Com isso, Nathan também a perdera.
E agora...
— Então você e Aramisa... reataram? — perguntou Nathan, temeroso.
— Não. — disse Sam, parecendo abalado por tocar naquele assunto. — A verdade, Lambert, é que Aramisa e eu nunca daremos certo. Somos parecidos demais. O relacionamento que tínhamos acabou há muito tempo, e não vamos reatar. O que não me impede de chamá-la para o meu time. Afinal, ela é uma brilhante investigadora.
— Claro que é. Então, hum, bem... Deixe os documentos para eu dar uma olhada, afinal. Pensando bem, uma promoção a Inspetor Chefe seria interessante para a minha carreira. E Miriam pode esperar por dois meses. Vai valer a pena.
Samson deu a volta, se afastando da porta, com um sorriso vitorioso no rosto. Enquanto abria uma pasta e tirava o dossiê da investigação de dentro dela, disse, satisfeito com o sucesso de seu plano:
— Vai mesmo.
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