Penumbra da tarde
2 Um Perfeito Estranho
Notas iniciais
Um perfeito estranho

Aconteceu de novo. Parece que quanto mais eu adianto o despertador, mais eu acordo tarde.
Estou precisando de um novo, o coitado do Tictac só tem um olho e uma orelha, coloquei esse nome porque, eu estava sem ideia. Não sabia que nome colocar num relógio em forma de elefante! Então, coloquei o som que um relógio faz. E pode ficar tranquilo, você não está lendo um livro infantil. Ganhei do meu pai dois anos antes dele morrer, quando eu tinha oito anos. Hoje, guardo como um de meus objetos mais preciosos. Enfim, só contei isso tudo para explicar a história do Tictac.
Levantei da cama soltando vários xingamentos, como sempre faço. Nem escovei o cabelo direito, fui correndo pra faculdade, pois com certeza o ônibus já tinha passado. Quando abri a porta da sala, dei de cara com o professor Carlos, que já estava explicando o conteúdo. Tentei entrar sem fazer barulho, mas o professor tem uma ótima audição e não perdeu a oportunidade de me expor diante da classe.
– Bom dia, Júlia. Já estou no meio da explicação, e não vou recomeçar por causa de você. Depois você pega com um de seus colegas. Pode ir sentar.
Murmurei um '' Não quero nenhuma explicação, seu velho escroto! '' Tive a leve impressão que ele escutou, então sentei o mais rápido que pude atrás de Pedro. Ele virou pra mim e cochichou:
– Tictac te acordou tarde?
Revirei os olhos.
– É. — respondi – Acho que ele já se acostumou em fazer isso comigo.
Pedro é meu melhor amigo. A gente se conhece desde sempre, então ele conhece a história do Tictac. Ele é mais que um amigo pra mim, ele é como um irmão. Depois que mamãe e papai se separaram, fiquei muito triste, entrei em depressão e tinha apenas seis anos. Foi quando Pedro e sua família se mudaram pra casa ao lado. Tínhamos a mesma idade, e entre muitas conversas e brincadeiras, viramos melhores amigos. Passava a maior parte do dia com ele. Ele era minha única companhia quando papai saía para trabalhar.
Ele estava lá quando ganhei minha primeira bicicleta, estava lá quando tive minha primeira paixonite, e estava ao meu lado, quando fiquei sabendo que o carro de papai tinha capotado. Isso só serviu para deixar nós dois mais próximos ainda.
Pedro riu com meu comentário, e voltou a atenção à aula. Foi quando a porta se abriu e eu o vi.
Um deus grego. Estava vendo um deus em carne e osso.
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