Penumbra da tarde
3 Ficando escuro
Notas iniciais
Ficando escuro

Não sabia se estava acordada, sonhando ou delirando. Observei em câmera lenta, enquanto ele cumprimentava o professor, e entrava na sala. Ele era tão...perfeito! O cabelo escuro estava meio bagunçado, deixava mexas caídas no rosto, os olhos verdes pareciam cintilar, e a pele era clara e lisinha, sem nenhuma mancha ou espinha. Devo confessar que fiquei com um pouquinho de inveja. Usava vários cremes para pele, e nenhum me dava um resultado como aquele! Afastei o pensamento e continuei a admirar o corpo alto e forte.
Era impressão minha, ou ele estava procurando alguém? Meu coração quase saiu pela a boca quando seus olhos pararam em mim. Ah, meu Deus. Ele estava vindo em minha direção! O que faço? Respirei fundo e pensei: '' Não. Não pode ser pra mim. Pra qualquer outra pessoa menos pra mim.'' Comecei a fingir que lia o livro, quando ele parou na minha frente e perguntou:
– Com licença, tem alguém sentado ao seu lado?
Seu sotaque era diferente. Não parecia ser brasileiro. Tímida, evitei contato visual.
– Não.- respondi.
Levantei os olhos, e visualizei a boca. Não conseguia parar de olhar, devo ter parecido uma idiota, olhando pra boca de um cara que eu nem conhecia. Os lábios eram avermelhados e carnudos, em contraste com a pele clara. Fiquei imaginando que gosto teriam...acho que ele ouviu meus pensamentos, pois deu um leve sorriso.
– Se importaria se eu sentasse?
Ele com certeza não era brasileiro! Um gatinho brasileiro jamais faria essa pergunta, simplesmente sentaria e puxaria assunto. Adorei o jeito que ele pareceu tímido ao me perguntar isso. Parece que com a timidez dele eu fiquei mais a vontade, e ainda consegui dizer:
– Claro que não! — para parecer educada, acrescentei — Fique a vontade.
Ele demorou um pouco para sentar, parecia que ele queria que eu dissesse alguma coisa, mas como viu que eu fiquei muda, sentou. Adorei o perfume e a roupa também! Um dia vou ser estilista, amo desenhar roupas. O garoto usava uma camisa verde manga pollo, que combinava com seus olhos. Uma calça jeans azul e um all star preto. De canto de olho, percebi uma correntinha prata. O professor Carlos virou para a classe e falou:
– Pessoal, esse é John. Ele é novo aqui, e espero que o tratem bem.
Ele levantou, deu bom dia pra classe e disse que era uma honra fazer parte de uma universidade tão destacada em todo o país. Pensei '' Caraca! Além de ser um gato, o cara é ótimo com as palavras.'' Percebi que Pedro estava o encarando, e ele devolvia o olhar, com a mesma cara de maus amigos. Será que já se conheciam? Se fosse Pedro teria que me apresentar.
Passei a aula quase toda o encarando de canto de olho, algumas vezes ele me olhava de volta, mas voltava o olhar pra frente. Quando finalmente a aula acabou, ele levantou e me olhou com seus olhos profundos.
– Olha, não pretendo ficar ao lado de mais ninguém durante as aula, então, acho que devo saber seu nome.
Demorei um pouco para assimilar o que ele queria dizer, porque estava dando pulinhos de alegria dentro de mim, mas me contive. Então ele mesmo fez a pergunta.
– Como se chama?
Procurei manter a calma, e disse com a maior simplicidade:
– Júlia.
Ele ia dizer mais alguma coisa, quando senti dedos me puxando. Pedro. Nunca me senti tão triste ao vê-lo.
– A gente precisa ir. Agora.
E lá estava de novo. Os dois se encarando como se já se conhecessem de muito tempo. Percebi o tom em sua voz, e soube na mesma hora que ele falava sério Murmurei um '' até mais.'' E saímos da sala.
John continuou parado no mesmo lugar.
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