Penny Jackson E O Resgate Do Tártaro
8 Eu engano o homem que enganou os Deuses
Notas iniciais
Uma das grandes dificuldades de se estar no mundo inferior é saber como medir o tempo. Eu sabia que não poderia ter passado mais do que horas, mas mesmo assim, quando Tales finalmente acordou, parecia que eu havia ficado uma eternidade de vigia. Harriet cuidava dele, de vez em quando ela dirigia uma palavra ou olhar preocupado para mim.
Felizmente, ela parecia entender que eu estava perdida em pensamentos, confusa demais para dar atenção a ela, e fazia silêncio, enquanto eu apenas observava suas mãos ágeis cuidando da fogueira que eu havia feito.
-Penny- diz Tales
Corro até onde ele está deitado.
-Ei, como você está se sentindo?-
-Pode se dizer que aquela Fúria não fazia as unhas há anos, mas acho que vou sobreviver.
- Tales eu...
-Ei deixa para lá, está bem? É o que os amigos fazem não é?
Não sei o que dizer, então apenas dou um sorriso fraco. Há muito com o que lidar agora. Simplesmente não consigo pensar em algo como arranjar um namorado no meio do mundo inferior. Parece que Tales também entende isso. Além disso, ele está certo. Nem todos os amigos fazem isso, mas nós sim, nós daríamos a vida para proteger um ao outro sem pestanejar.
-Que bom que você está bem Tales. Acho bom vocês se apressarem- diz Harriet nos fazendo lembrar da missão.
-Harriet tem razão. Ainda temos o frasco com a água não é?- Pergunta Tales se levantando.
-Sim- digo feliz por voltarmos nem um pouco que seja a normalidade ( Porque perguntar se você tem um frasco com água do Rio Estige em pleno mundo inferior é algo perfeitamente normal)
-Ótimo. Qual é a próxima tarefa mesmo?- Pergunta Tales se levantando.
Seguro sua mão, o ajudando a se levantar. Ele me olha e sorri, sinto meu rosto esquentando mas prefiro ignorar essa sensação.
- Hum, acho que temos que encontrar Sísifo- digo o mais depressa possível- Mas não faço a menor ideia de como chegar lá.
-Se eu estou certo, Sisífo está cumprindo sua pena perto daquelas montanhas, mais ao leste do Estige- diz Tales pensativo.
Ele aponta um amontanhado de terra que parecia estar um pouco longe de onde estávamos. Apesar de parecer distante, eu sabia que não seriam mais do que 20 minutos de caminhada.
-Tudo bem. O que você acha Harriet?
- Tales tem razão, é por ali mesmo. Eu irei até lá com vocês. Vou acompanhá-los até conseguirem cumprir as próximas tarefas.
- Harriet, nós agradecemos o que está fazendo por nós. Você não precisa fazer isso- Falo enquanto ela se prepara para ir conosco.
-Penny é a minha missão ajudar heróis como você. Vamos, o tempo está passando. Precisamos ir.
Avançamos em direção ao monte. Eu sinceramente não fazia ideia de como faria para obter a arma de Perséfone de volta. Eu sabia que estava lidando com um adversário inteligente e muito astuto, eu tinha que conseguir superá-lo. Não seria fácil, já que ele enganara a própria morte e os deuses. Pensando pelo lado positivo, ele não tinha acabado muito bem. Carregar uma pedra morro a cima pela eternidade não era bem minha ideia de diversão.
-Sabe, eu soube de uma história envolvendo Sísifo e seu pai.
-Sério? Meu pai já esteve várias vezes no mundo inferior, mas eu nunca soube que ele havia lidado com Sísifo também.
-Sim. Ele, Nico e Thalia.
Ás vezes eu ficava surpresa com a quantidade de coisas que eu não sabia sobre minha família. Eu ainda estava pensando naquele pesadelo, ainda estava pensando na cicatriz do meu pai. Ela a ganhou tentando me proteger, fora o que Eris dissera. Sinceramente, eu estava morrendo de vontade de chutar o traseiro da deusa.
-Penny está tudo bem? Você está estranha desde que lutamos contra as fúrias- diz Tales me olhando atentamente.
-Eu estou bem. Não é nada.
-Penny apenas está lidando com seu destino – diz Harriet numa voz fúnebre.
Eu já disse que odeio o quanto as pessoas parecem saber mais sobre a sua vida do que você mesmo nesse mundo meio-sangue? Esses avisos já estão começando a me irritar.
-É, seja lá o que isso for- digo caminhando o mais rápido que posso.
Tales apenas me olhou desconfiado mas não diz nada. Sem querer, eu percebi que, se fosse Alex, ele já estaria me pressionando por uma resposta. Simplesmente odiei pensar nisso. E odiei mais ainda a falta que ele me fazia.
Assim que chegamos perto do local onde Sísifo estava carregando sua pedra, arrastei os dois para um esconderijo próximo dali.
-Ok, e agora? Temos que pensar em algo para conseguirmos de volta a arma de Perséfone.
-Teremos que negociar- diz Tales espiando o homem.
-Não, Sísifo é astuto demais. Temos que pensar em alguma forma de encurralá-lo.
-Podemos lutar com ele – diz Tales com a mão passando perigosamente sobre o arco.
-Não. Lutar nem sempre é a resposta para tudo.
- O que você pretende fazer? Chegar lá e dizer “Ah olá Sísifo, que dia lindo! Por que você não me empresta o Lírio de Perséfone enquanto eu o ajudo a subir esta pedra?”
-Tales, deixa eu pensar ok- digo irritada- Espera, essa ideia não é de todo o mal.
-O que? – Tales me olha como se eu estivesse ficando louca- Penny eu estava sendo irônico. Essa é a ideia mais ridícula que alguém poderia ter.
-Eu sei. É por isso que pode funcionar.
Tales me olha preocupado, mas eu apenas sorrio de volta.
-Escuta, se demonstrarmos estarmos irritados com Perséfone, irritados com os deuses e com pena dele, quem sabe ele por preguiça, não nos empresta a arma de Perséfone?
-Penny...isso pode dar muito, muito errado.
-Com certeza. É por isso que temos que estar preparados para lutar.
Tales dá um logo suspiro.
-Ok, mas só por que não tenho outra ideia melhor mesmo- diz ele rolando os olhos.
-Você disse que nunca mais iria duvidar dos meus planos.
-Bom, as pessoas sempre se arrependem do que dizem, mais cedo ou mais tarde- diz ele enigmaticamente.
Rolo os olhos para ele e sigo em frente. Sísifo estava na ponta da montanha, praguejando, xingando os deuses e reclamando de seu destino. É, mais um dia normal no mundo inferior. Cautelosamente me aproximo do homem.
Ele parece com um homem de meia idade comum. Pouco cabelo, uma barriga proeminente. A única coisa que o distinguia de um homem comum de 50 anos eram suas roupas (uma túnica branca tapando a região inferior do corpo) e seus olhos. Eles tinham uma astúcia que me deixava assustada. . Ele demora um tempo para nos notar.
-O que são vocês? O que querem aqui
-Er... olá senhor Sísifo. Na verdade somos semideuses. Estamos aqui cumprindo mais uma missão para os deuses.
-Vocês não vieram tentar me tirar o Lírio de Perséfone não é? Porque os últimos tolos que tentaram acabaram ficando no mundo inferior para sempre.
Meu estômago parece ter virado panqueca mas, mesmo assim, tento manter a calma.
-Ah é mesmo? Não, não senhor, não queremos a arma.
-Bom para vocês. Que tipo de missão vocês estão cumprindo?
-Ah, o senhor sabe, o de sempre. Pegando água do Rio Estige, matando alguns monstros. Essas coisas.
-Interessante. Então... vocês não querem a arma?
-Não senhor.
-Bom, então acho que vocês devem seguir seu caminho.
-Ei, não tão depressa – digo rapidamente- Ficamos interessados nessa arma. Conte para nós. Por que Perséfone a quer tanto?
O homem me olha desconfiado. Trato de fazer a maior cara de desinteressada possível.
- Por que você quer saber?
-Por que sou uma neta de Atena muito curiosa. Não há nenhum motivo especial.
-Deixe isso para lá Penny. Ele não vai nos mostrar a arma mesmo- Tales se manifesta, entrando no meu jogo- Além do mais, ele nem deve estar com ela.
- Por que você está duvidando de mim garoto?- pergunta Sisifo indignado
- Você não poderia ter enganado dois deuses não é?- Digo astutamente.
Ele me olha enraivecido.
-Garota, não há mortal nenhum mais astuto do que eu. Eu poderia enganar qualquer um.
-Se você fosse tão esperto não estaria carregando uma pedra eternamente morro a cima.
-Você é bem petulante, não é garota? Eu não gostei disso- diz ele com os olhos faiscando em direção a mim.
-Bem vindo ao clube!- digo dando de ombros.
-Ela tem razão. Você não foi mais astuto que os deuses- diz Tales sorrindo.
- Eu vou provar para vocês. Se eu deixar que vocês a olhem, empurrarão pelo menos uma vez a pedra para mim?
-O que? Não!- Digo blefando.
-Eu deixo você tocá-la- diz ele cheio de excitação.
-Você vai me deixar tocá-la? Apenas se eu empurrar a pedra para você?- Pergunto fingindo incredulidade.
-Sim- diz ele- Mas é por pouco tempo.
-Você não acha que podemos querer enganar você?-Pergunto
- Você? Não garota. Você jamais me enganaria, eu sou esperto demais.
-Bom, então está bem. Sou curiosa demais para deixar essa oportunidade passar.
-Mas eu também quero ver- diz Tales fazendo uma careta. Seria hilário, se eu não soubesse que ele estava atuando tão bem.
-Você poderá ver, mas só depois que sua amiga carregar a pedra e você fizer o mesmo.
Nós nos entreolhamos. Era engraçado, mas nessa hora já sabíamos exatamente o que fazer.
-Como vamos saber que você não está nos enganando? Jure pelo Rio Estige.
-Ok, sua pestinha. Você ganhou. Eu juro pelo rio Estige. Essa é uma arma sem graça mesmo. Você vai ou não carregar a pedra para mim?
-Combinado!
Para falar a verdade, se eu soubesse o peso da pedra, nunca teria aceitado. Teria mandado Perséfone vir buscar sua arma pessoalmente. Mas, pelo visto, sempre sobrava para semideuses fazerem o trabalho sujo. Foram os dez minutos mais dolorosos da minha vida. Parecia que o topo da colina nunca chegava. Eu quase cai em uma parte da subida, sorte que fui rápida e consegui me recompor. Assim que cheguei ao topo, olhei para baixo e vi Tales com um sorriso no rosto. Desci correndo. Cheguei apenas um 30 segundos antes da pedra começar a descer novamente.
- Grande menina! Você foi espetacular- A felicidade na voz de Sísifo era evidente.
-Eu quero minha recompensa.
-Ai, como vocês são afobados. Aqui está- diz ele pegando um bonito Lírio dourado. Só de tocar naquilo eu podia dizer que era poderoso.
Tales faz menção de tocar no objeto, mas Sisifo dá um tapa na sua mão.
-Leve a pedra antes!
Tales solta um resmungo. Mas mesmo assim vai em direção a pedra e começa a subir a colina.
- Viu menina? Eu disse que eu era o mais esperto. Vocês estão carregando a pedra para mim- diz ele satisfeito consigo mesmo.
Olho para a colina onde Tales está carregando a Pedra. Eu ainda estou com a arma. Dou um sorriso involuntário
-Será mesmo Sísifo?- Pergunto
Tales solta a pedra de uma altura suficiente para ela rolar em direção a Sísifo. Ele começa a gritar e vem para cima de mim. Mas lhe dou um chute e ele cai no chão. Ele não tem mais tempo de me atacar, já que está desviando da pedra. Ele tenta me puxar com ele, mas desvio. Tales aparece e me puxa pelas mãos.
- Tales, acho que agora é hora de lutar.
Tales pega uma das flechas e atira uma em Sísifo, bem na panturrilha, o impedindo de nos seguir. Corremos em direção a Harriet que já está nos esperando, com uma expressão de puro êxtase.
-Eu disse...
-Ok, está anotado. Nunca, nunca mais, duvidar de você Penny!
Sorrio para ele, feliz por ter terminado as duas primeiras tarefas e tentando ignorar o sentimento de que as próximas três não seriam tão fáceis assim.
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