Penny Jackson E O Resgate Do Tártaro
9 A escravidão retorna ao Lete
Notas iniciais
Depois que nos recuperamos do confronto com Sisifo, nos sentamos perto de um monte de rochas. Eu sinceramente não sabia onde estávamos. Não que isso me preocupasse muito, afinal eu tinha Tales, Harriet e meu colar.
Toda vez que completávamos uma missão ele brilhava de um forma mais intensa e seu brilho desaparecia até que estivéssemos prontos para a próxima. Nenhum dos meus companheiros parecia notar isso.
–Então, qual é a nossa próxima parada?- perguntou Tales dando um longo gole em dos refrigerantes que trouxemos.
–Temos que ir ao Rio Lete. Algumas almas estão aparecendo sem ser convidadas lembra?
–É verdade. Encarar mortos no Rio do esquecimento me parece um bom passeio para uma tarde de domingo- Diz ele sarcasticamente.
–Hoje é domingo?- Pergunto levantando a sobrancelha para ele.
–Quem se importa?- Ele dá de ombros- Nós, descendentes de Plutão, temos mais facilidade para nos guiarmos aqui e medirmos o tempo, mas acho que já perdi as contas também.
Harriet que estava calada desde que nos cumprimentara pela forma como tínhamos lidado com Sísifo, parecia de repente muito preocupada.
–Harriet- Perguntei com cautela- Algum problema?
O fantasma deu um pequeno sorriso constrangido.
–Não, nenhum. Vamos descansar um pouco por aqui, depois partimos. Vocês devem estar exaustos de terem carregado aquela pedra.
–Nem me fale- diz Tales- Eu acho que posso tirar um cochilo agora mesmo.
– Fique a vontade fantasminha- digo sorrindo para ele. Ele revira os olhos, mas no próximo segundo já está deitado com cabeça sobre sua mochila e coberto pelo casaco. Eu podia jurar que ele já estava dormindo.
–Então Harriet, eu sei que você está preocupada com nossa ida ao Rio Lete. Mas não é só isso é?
Harriet apenas dá um longo suspiro.
–Você sabe que fui diagnostica com Epilepsia não é mesmo?
Confirmei com a cabeça esperando que ela continuasse. Eu tinha ouvido histórias sobre isso. Quando eu tinha 11 anos li um livro sobre Harriet Tubman. Eu me lembro muito bem dele porque foi o primeiro que consegui terminar sem dificuldades. Minha dislexia ás vezes complicava o grande prazer que eu tinha de ler, o que fez com que eu gostasse mais ainda desse hábito. Sempre foi assim comigo. Quanto mais difícil algo parecia ser, mais eu me esforçava para aprender. Acho que herdei isso da minha avó.
–Sim, eu li algo falando sobre isso. Diziam que você podia prever o futuro.
O espírito de Harriet olhou para o chão. Ela ficou um pouco mais pálida do que o natural para um espírito. Percebi que aquele não era um assunto muito fácil para ela.
–Eu tenho ouvido coisas sabe- diz ela numa voz uma oitava mais baixa. Se era possível, o tom dela deixou o mundo inferior ainda mais assustador- Acho que sei quem está trabalhando para trazer as almas para o rio do esquecimento.
–Harriet, você sabe quem está chamando as almas para o Rio Lete?
Ela não levantou os olhos, mas percebi seu espírito tremular lentamente.
– Acho que é meu antigo dono.
Então, ela começou a falar sobre a sua vida. Harriet tinha apenas 13 anos quando foi amaldiçoada. O dono de Harriet era um homem horrível. Ela havia passado por diversas fazendas. Em todas foi maltratada e considerada uma escrava perigosa e sem valor. No entanto, por incrível que pareça, a nova fazenda era ainda pior.
Ela estava trabalhando em uma colheita de algodão quando viu outro escravo ser atacado. O escravo tinha apenas sete anos. Harriet conhecia o garoto, eram amigos. Assim como o patrão, os dois eram meio sangues.
Harriet se lembrava do homem indo para cima do garotinho com um pedaço de metal pesado, apenas porque ele tinha se esquecido de alimentar os cavalos. Ela se lembra de ter corrido até eles para tentar intervir. Ela se lembra de atirar a faca que ela estava usando para colher algodão bem na direção da perna do patrão. O dono ficou manco para o resto da vida. O problema é que o dono da fazenda era o filho preferido de Apolo. O homem foi direto ao deus da poesia para que ele pudesse intervir. Apolo, encolerizado, amaldiçoou Harriet. O que é claro, não foi nem um pouco justo da parte do Deus da música.
–Harriet, você acha que pode ser ele?
– Eu tenho visto e sonhado coisas Penny. Coisas que me assustam. Eu sonhei com ele na beira do Rio. Eu vi as almas que ele está chamando. Almas impuras, que causaram muitos danos ao mundo.
Meu estômago deu um salto. Eu simplesmente odiava o jeito como essa missão estava ficando cada vez mais perigosa.
–Você quer dizer que eles podem estar usando essas almas para algo maligno? Ele pretende montar um exército ou algo assim? As almas esquecem todas as suas lembranças quando se banham no Lete. Por que eles estariam recolhendo as almas?
– Não tenho certeza, mas acho que eles pretendem escravizar essas almas. Sem nenhuma lembrança, elas estarão mais suscetíveis, mais dispostas a acreditar em qualquer coisa que alguém mal intencionado disser.
– Alguém como Octavian e até mesmo Tifão.
–Exato.
Estremeci com o pensamento.
– Se eles não tem escrúpulos em mexer com o mundo inferior é por que eles estão mais perigosos do que eu pensava- avalio amargamente.
Harriet apenas assente. Percebo que seus pensamentos estão longe.
–Harriet, eu sei que você está com medo de encarar seu patrão novamente, mas não se preocupe. Ele não vai te fazer mal. Você é mais forte que ele e nós não vamos deixar.
Harriet sorri para mim, mas percebo que é um sorriso triste.
–Obrigado Penny. Você tem sido uma amiga incrível.
Eu não sei por que ela diz isso. Quando ela fala me sinto um pouco desconfortável, por que sei que isso não é verdade. Ela está me ajudando nessa missão e eu não sei como poderei agradecê-la. Então apenas sorrio e começo a arrumar as coisas. Graças aos deuses havíamos conseguido cumprir as duas primeiras tarefas. Eu esperava que continuasse tendo essa sorte.
Enquanto arrumava minha mochila olhei atentamente para o vaso com a água do Estige e para a pequena Adaga em forma de Lírio. Eu tinha conseguido manter os objetos seguros até agora. Os embrulhei de uma forma que eles ficassem escondidos na minha mochila e eu não precisasse ficar olhando para eles todo o tempo. Eles me davam arrepios.
Depois de mais ou menos umas duas horas, quando Tales e eu já estávamos bem descansados, partimos. O caminho para o rio Lete era íngreme e ia costeando o Estige. Harriet ia a nossa frente, parecendo extremamente desconfortável.
–Hey- diz Tales do meu lado- Fizemos um bom trabalho até agora.
Eu sorri para ele.
– É fizemos.
–Mas você acha que não vai ser suficiente não é?
Suspiro.
–Sim. Infelizmente acredito que ainda teremos tarefas muito difíceis pela frente.
– Vamos conseguir. Confio em você.
Eu olho para Tales, não sei como ele pode acreditar nisso. Ele me olha com um olhar que demoro a entender, por que nunca recebi de ninguém: Admiração. Não sei por que, mas isso me deixa triste e com raiva ao mesmo tempo.
–Tales eu acho que você não me conhece bem. Eu sou a pessoa mais azarada do mundo.
Tales ri.
–Eu sei. Eu também sou. Mas Penny eu já vi você, milhares de vezes, superando expectativas. Vamos conseguir sair daqui e vamos resgatar Thalia e Nico. E sabe, eu ainda estou pensando em convidar você para um encontro.
Droga! Por que eu tenho que corar bem agora.
–Eu.. é... Estou preocupada com nossa missão... eu não sei... Thalia e Nico.. Alex. Temos que resgatar Alex.
–É, você tem razão. Temos que resgatar Alex- diz Tales mal humorado.
Droga!
–Tales..- começo. Mas antes que eu tenha tempo de falar mais alguma coisa. Escuto Harriet me chamando apavorada.
–Penny, você precisa ver isso- diz ela.
Subo a pedra em que ela está apoiada. Assim que olho para direção em que ela aponta meu coração quase para. Há pelo menos 100 almas ali. Cerca de 50 se banhando no Lete. Outras já estavam do outro lado da margem, trabalhando para um homem que parecia ser o líder.
Ele se vestia como um antigo fazendeiro da época da secessão. Não foi difícil perceber que ele era o dono de Harriet (até por que, assim que ela o viu começou a tremer como eu nunca tinha visto alguém fazer). Ele era careca, embora ainda houvesse alguma penugem loira. Seus olhos não transmitiam nenhuma emoção, assim como os outros fantasmas, mas eu podia claramente ver uma aura de maldade por trás daquele azul vítreo.
–Vamos lá seus pamonhas. Eu não tenho tempo.- ele gritou- O mestre quer que vocês trabalhem mais rápido para o meu irmãozinho.
–Senhor- diz uma das almas – Recebemos um relatório. Crio diz que foram mandados mais 30 monstros para o acampamento de Octavian.
– A essa altura já deveriam ter sido mandados mais de 60! Vocês são mesmo incompetentes!
Se era possível eu ficar com pena de um Fantasma eu fiquei, por que o chefe das almas começou a recitar algo em Latim e a alma se contorceu toda.
– O que ele está fazendo? – Perguntei atônita
–Está torturando a alma- disse Tales- Esse é uma espécie de feitiço proibido. Apenas Plutão deveria saber como aplicá-lo.
Eu nunca havia visto Tales tão furioso. Ele provavelmente estava odiando o fato de o reino do avô estar sendo desrespeitado dessa maneira.
–Ele está agindo como o escravagista que sempre foi- diz Harriet olhando com ódio para o homem.
Ele continuava torturando as almas.
–Vocês vão trabalhar mais rápido ou eu vou fazer Crio enviar vocês pessoalmente para o tártaro. Sei que meu querido irmãozinho Octavian não vai se importar.
– O que vamos fazer?- Perguntou Tales com um olhar assassino para o homem.
– Vamos resgatar algumas almas. Está na hora de mostrar para ele de uma voz por todas que não se brinca com Nortistas.
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