A luz entrava pelas janelas da mansão, invadindo o hall onde duas figuras estavam sentadas, em silêncio. Um deles, o mais jovem, encarava a lareira, onde agora só restavam cinzas. O outro, consideravelmente mais velho, encarava a luz do dia que adentrava pela janela à sua frente.

O hall era repleto de cabeças de animais exóticos, mapas imensos nas paredes, especialmente de países africanos e sul-americanos, e diversas armas, entre rifles, revólveres e espadas. No centro do hall, uma mesa escura abarrotada de livros e manuscritos, alguns tão antigos quanto a própria escrita.

Os dois homens carregavam um ar melancólico e cansado, e claramente mal dormiram nos dias que sucederam à última incursão, que tomara a vida da mulher que era a alma daquele lugar. Uma alma perturbada, triste, mas uma alma. Sem ela, sem sua presença, sem seus olhos cinzentos vasculhando cada canto ou seu sorriso, sempre comedido, aquele lugar carregava ares de um mausoléu.

Aquela última aventura deixara feridas em toda a comitiva. E não apenas fisicamente, afinal, essas em breve cicatrizariam. As feridas na alma e na consciência eram ainda mais profundas e difíceis de sarar. Tão profundas que fizeram aquelas duas figuras perderem o rumo. Eles precisaram deixar sua vida antes daquela escuridão para trás, pois foram completamente mudados.

Os dois, mesmo sem trocar uma palavra, sinalizavam em seus semblantes que talvez devessem ter deixado a escuridão e a névoa os engolirem naquela noite. Isso os privaria de qualquer sofrimento prolongado. Mas entre sofrer e deixar aquela mulher, amada pelos dois, ser consumida pela culpa, pelo ódio e pela escuridão, talvez o preço tenha sido justo, afinal, a morte nem sempre é o pior destino que alguém pode ter.

Um barulho metálico soou pela casa silenciosa. Vinha da porta da frente. Sir Malcolm e Ethan se entreolharam. Não recebiam correspondência desde seu retorno a Londres. Após se entreolharem por alguns segundos, Ethan levantou-se e saiu pela porta dupla do hall. Sir Malcolm continuou sentado, encarando o fraco movimento da rua pela janela.

Um momento após deixar o hall, a porta dupla do cômodo novamente se abre. Ethan segura uma carta em sua mão esquerda. Seu olhar é de preocupação. Malcolm imediatamente sente que aquela carta não é uma carta qualquer. Finalmente, ainda parado à porta, Ethan quebra o silêncio:

— É o sr. Lyle. Ele precisa de nós.