Pendulum
1 Beginning
Notas iniciais
"POV" é como se fosse a vez de falar do personagem.
ROBERT’S POV
18 de setembro de 2012. Era um dia como outro qualquer. Acordei de manhã com o som que vinha do vizinho da direita. Moro em uma espécie de apartamento, mas que só possui cozinha e quarto. Como estou sozinho (perdi minha mãe aos nove anos depois de meu pai ter me abandonado aos sete), e praticamente recebo uma mixaria do local onde trabalho, acho que dá para eu viver pelo menos dignamente aqui. Mas como eu dizia antes, acordei como fazia todas as manhãs. Me banhei, tomei café, peguei meu pingente azul em forma de bolinha – a única coisa que herdei de minha mãe — e fui para a escola. Ainda estudo em uma escola, lugar que eu deveria ter abandonado há anos. Mas não abandonei. Quero ser alguém na vida, quero mostrar ainda um dia ao meu desordeiro pai que eu tenho valor. Meu nome é Robert Jackson — por favor, não pensem que eu sou da família do Michael Jackson, sou completamente diferente deles, tenho cabelos loiros na altura do ombro, pele clara e olhos vermelhos. Sim, olhos vermelhos. Estranho, não? É, eu sou assim. De volta à minha apresentação, moro em Londres, capital da Inglaterra. Cresci num orfanato, mas conquistei minha liberdade aos 12 anos, pois o diretor de lá, cansado de ter que aturar um Zé Ninguém como eu, mandou que eu me virasse sozinho. E eu estou me virando. Muito melhor que naquele maldito orfanato. Tenho quinze anos e faço o colegial (equivalente ao Ensino Médio em outros países) na Twilight High School. Nome estranho, eu sei, mas não tem nada a ver com vampiros. E nem o Edward estuda lá. Me desculpem, garotas, mas o Edward não existe — e nem o Harry Potter, Michael Jackson (não existe mais nesse mundo), Papai Noel, Branca de Neve, o que for. Ah, e sim, o nosso uniforme é tremendamente horrível – uma calça verde xadrez e um blazer azul por cima de uma blusa de gola branca, com uma gravata verde. Eu pareço ainda mais esquisito com ele. Pelo menos os sapatos pretos são normais. Mas de volta àquela manhã (eu falo demais, já repararam?), eu estava caminhando tranquilamente pelas ruas em direção à escola quando repentinamente fui atingido por algo em minha barriga – caí de joelhos tentando respirar, a dor era insuportável. Olhei para o local, e vi somente sangue. Um sangue que não parava de jorrar – o ataque tinha perfurado minha barriga inteira. Olhei para o agressor e fiquei sem fala: era uma criatura abominável, além da imaginação, uma mistura de uma zebra com um hipopótamo e com um leão, mas que tinha asas e cauda de escorpião, que deve ter sido o que me acertou. Naquela hora, eu pensei que realmente ia morrer. Tentei correr, em vão, pois minhas pernas não me obedeciam, tremenda era a dor. Olhei para os lados, ninguém veio em meu socorro – claro que sim, quem ia querer enfrentar um monstro de aparentemente 200 toneladas que voava? Tentei fugir novamente, agora rastejando pelo chão. O monstro se preparava para outro ataque e no mesmo momento eu entrei em pânico. Eu com certeza ia morrer. Ia deixar de mostrar ao meu pai o quão forte eu me tornei. Forte? Hahaha, que ridículo. Estava morrendo por cauda da tamanha fraqueza que eu tinha. Sempre apanhava dos meus colegas no colégio, sempre fui o culpado pelas armações deles. Pelo menos agora ele não teriam de quem se aproveitar... O sangue rapidamente foi se esvaindo da minha cabeça e eu lentamente fui perdendo minha visão, até que eu apaguei. Mas não antes de ver uma longa capa preta me salvar daquele monstro.SOPHIE’S POV E lá estava eu, correndo feito uma doida – ou melhor, dirigindo – com meu carro na direção do 10° departamento da DCPJ (Departamento Central da Polícia Judiciária), uma espécie de FBI francês. Recebi uma chamada urgente do Adam Esme (delegado e meu colega de departamento) às quatro horas da manhã, dizendo que eu fosse voando ao nosso departamento. O que tinha de tão importante eu não sei, mas para o Adam ter acordado àquela hora e ter tido coragem de me ligar algo realmente incrível aconteceu. Ah, não devo ter me apresentado ainda: Meu nome é Sophie Berthe (pronuncia-se bertê), 22 anos, detetive do Décimo Departamento da DCPJ. Como se percebe, moro na França, mais especificamente em Paris. Sou ruiva, cabelos curtos na altura do queixo, de olhos verdes e pele branca, como a maioria dos franceses. Sim, sou como a maioria, que dá suas vidas em troca de um mínimo de reconhecimento por parte dos seus chefes – o que acontece comigo. Apesar de ser filha de ótimos pais – que agora moram felizes em Versailles – sinto que algo está faltando em minha vida. Mas voltando às ruas de Paris, acabei chegando à DCPJ em 10 minutos, o que seria considerado um verdadeiro recorde para mim. Assim que desci do carro fui correndo em direção à sala do Adam, e quando entrei lá, quase que eu voltava correndo: todos os principais chefes da DCPJ estavam lá, inclusive o diretor, Jean Goulard. Fiquei parada, completamente muda e assustada. — Algum problema, mademoiselle? – falou o diretor supremo e eu acordei do meu estado de choque, agora percebendo o quanto eu estava não-apresentável: vesti um terno feminino listrado preto todo amassado, engomado às pressas, por cima de uma blusa vermelha com um decote extremamente vulgar para a situação (não pensem em besteiras, é que a situação estava crítica), não que eu quisesse ter vestido, pois eu simplesmente saí catando qualquer coisa para me vestir quando o Adam ligou. Para disfarçar minha vergonha, tentei (em vão) ser o mais elegante e agradável possível:
— Não, nenhum problema, l\'excellence, eu estou mais que honrada em estar em sua presença. – mas que tentativa mais estúpida de causar uma boa impressão! Não sei se deu certo, mas o ambiente ficou mais estável. Adam me olhava com uma expressão indecifrável, mas de aparente terror, e Louis (outra colega de trabalho minha e irmã do Adam) me olhava como se me dissesse: “está ferrada”. Deveria ser algo extraordinário... — Lhe chamei aqui, mademoiselle Berthe, para algo muito importante. Antes de tudo, quero que jure por Christi que nunca falará a terceiros sobre esse assunto. – deve ser mesmo algo muito importante para o diretor em pessoa me pedir. Aliás, ele não poderia ser mais bonito não? Era um velho daqueles que fez mil e uma cirurgias plásticas, lipoaspiração e Deus sabe mais o que. Mas ele era importante, e de alguma forma era quem pagava meu salário. Por isso, tenho que aceitar qualquer coisa de qualquer forma. — Oui, senhor. — Em segundo lugar – já vi que esta coisa vai ser demorada – quero que jure que nunca, em hipótese alguma, vai ceder a subornos, nem de terceiros, nem do governo. Que vai dar seu sangue e suor por esse trabalho, que não vai descansar até terminá-lo. — Oui, senhor. — E em terceiro lugar, quero que nunca desista ou volte atrás por causa de possíveis traumas. Aliás, você tem traumas com sangue? – quem esse velho gordo pensa que é? Ele quer me matar? Sangue? Olhei para Adam, que ao encontrar meus olhos os desviou dos seus. Parece que algo por ali estava fedendo. E com certeza não era só o diretor. Mierde.
Notas finais
“Oui” significa “sim”; “mademoiselle” quer dizer “madame” e “l'excellence” é “excelência” em francês.
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