Penance For His Sin

7 I know you suffered, but I don't want you to hide.


Notas iniciais
Consegui terminar até antes do previsto! Tô escrevendo um monte ultimamente porque quero que as coisas andem logo. Aliás, tão começando mesmo a andar agora, e acho que os próximos capítulos vão ser meus preferidos. T_T
Espero que gostem!

Key’s POV.

Eu tinha acabado de sair do banho e MinHo tinha acabado de entrar. Por algum motivo, não tomamos banho juntos. O silêncio que havia se abatido sobre nós incomodava, apesar de ele ter sempre alguma frase espontânea para falar. E, toda vez que ele falava, eu tinha uma sensação tão boa... Uma sensação ausente por um bom tempo.

A sensação que eu tinha era que, depois de Jonghyun, eu já não sabia mais lidar com isso. A cada vez que eu olhava para MinHo e ele me olhava de volta, era tão intenso, tão confortável, eu sequer conseguia sustentar o olhar. No mesmo instante, meu coração começava a bater mais rápido e minhas mãos passavam a suar frio; era como se eu fosse um adolescente de novo.

Já não pensava em Jonghyun do mesmo jeito. Tudo que tínhamos vivido antes parecia só uma lembrança distante, embora ainda me causasse dor. Ainda doía pensar no quanto tínhamos construído em todo esse tempo, e doía mais ainda pensar que eu o amava com a mesma intensidade de dias atrás. Mas agora, tudo que eu precisava era manter MinHo por perto, só pra conseguir me sentir bem por mais tempo e afastar todos esses sentimentos.

Estiquei o pescoço para observá-lo, ao que a porta do banheiro se abriu num ranger baixo e agudo. Ele saía pela porta, os cabelos úmidos molhando seu pescoço, chegando até a gola de sua camisa de botões aberta. Uma das mãos segurava a toalha molhada, e ele caminhou até minha frente, com um sorriso adorável no rosto. O fato de ele estar trajando apenas sua boxer e a camisa me fez engolir em seco quando ele se aproximou demais.

“Onde posso colocar?” Perguntou, retirando as mechas de cabelo dos olhos em um movimento com a cabeça. Olhei para ele com uma expressão confusa, mas, na verdade, eu estava quase tonto com toda a situação, por estar vendo-o parcialmente vestido – mesmo que tivesse visto seu corpo nu algumas vezes. Na verdade, ele me causava tal efeito vestido ou não. “Quero dizer, ah, a toalha. Não quero molhar o apartamento inteiro.” Sorriu quando terminou de falar.

Sorri de volta. “Pode deixar que cuido disso.” Peguei a toalha de sua mão, sentindo agora ambas tocarem minha cintura quando passei por ele para pendurar o tecido na área de serviços.

“Se quiser, posso fazer alguma coisa para nós. Já que você disse que ia fazer um café da manhã de verdade...” Inseriu um tom de dúvida antes de continuar. “... Hoje.” Aproximou-se do fogão.

“Okay, obrigado.” Como ele conseguia ser tão diferente das coisas que eu vinha vivendo? Eu pensava que ele havia surgido na pior hora da minha vida, mas estava começando a mudar de ideia. Talvez ele tenha surgido na melhor.

Quase derrubei a toalha quando procurava alguns pregadores de roupa e ouvi o telefone tocar, soando estridente pelo apartamento todo. Ao mesmo tempo, ouvi MinHo pousar algo que estava usando para cozinhar sobre o fogão, provavelmente.

“Quer que eu atenda?” Gritou da sala.

“Pode atender!” Gritei de volta, ainda inseguro sobre o que responder. Não havia problema algum nisso, sequer faria diferença; ninguém de importante costumava me ligar, não seria dessa vez que algo do tipo iria acontecer. Suspirei, finalmente pendurando a toalha no varal enquanto ouvia a voz grossa e profunda de MinHo antender o telefone. Quando terminei, voltei para a cozinha, encontrando-o concentrado em fazer algumas panquecas que cheiravam muito bem. Era estranho, afinal, eu não costumava comer panquecas no café da manhã. Mas soava agradável.

“Então, quem era?” Perguntei, indo até a sala para estender a toalha-de-mesa.

“Não consegui perguntar antes de desligarem.” O olhei de lado enquanto pegava os pratos num armário. “Bem, primeiro perguntaram se era da casa do Kim Kibum. Não sabia qual era seu sobrenome, mas...” Sorriu. “Enfim, depois perguntaram quem estava falando, e desligaram assim que respondi.” Terminou de falar, levando as panquecas e calda de morango à mesa.

Olhei de volta para ele, uma sensação estranha rondando minha cabeça. “Estranho. Era homem ou mulher?” Tentei soar o mais natural possível enquanto me sentava.

“Homem.” Respondeu, sentando-se também. “Falava rápido, rápido demais, foi até meio difícil de entender.” Serviu a panqueca em nossos pratos e perguntou se eu queria muita ou pouca calda.

Eu não ouvia direito, minha cabeça estava concentrada em outra coisa, afinal, eu tinha certeza que era Jonghyun quem tinha ligado. Apoiei os cotovelos na mesa e massageei minhas têmporas.

Quando me dei conta, já tinha ficado tempo demais em silêncio. Levantei meu olhar, notando MinHo me observando um tanto confuso, parecendo tentar entender o que se passava.

“Pode deixar, não vou perguntar do que se trata. Você tem seus problemas e segredos, todos têm, não é?” Deu de ombros, notei que estava cabisbaixo. “Aliás, eu preciso ir logo.” Deixou o garfo sobre a mesa e fechou sua camisa de botões. Terminou de comer e fez uma leve reverência, levantando-se e apanhando sua calça que jazia em algum lugar perto do sofá.

Eu olhava-o atônito enquanto ele se vestia. Eu estava sendo estúpido, agindo como um idiota simplesmente por suspeitar que fosse Jonghyun ao telefone, e estava com um medo ridículo de que ele percebesse que eu estava com alguém. E, como se não bastasse, parecia que eu estava magoando MinHo, pois acho que ele tinha notado perfeitamente qual era meu problema.

“MinHo, o que você está fazendo?” Perguntei, virando-me mais na cadeira. Ele estava realmente magoado, eu podia ver nos seus olhos quando ele me encarou.

“Eu disse que precisava ir.” Sorriu fracamente e voltou sua atenção às meias e sapatos. Todo aquele modo de me tratar, com linguagem polida, agindo como se nada tivesse acontecido, aquilo me machucava ainda mais.

“Não precisa ir embora por isso.”

“Você que não precisa me explicar nada, Key.” Arrumou a gola de sua blusa. “Eu não tenho o direito de querer saber todo e qualquer problema da sua vida quando você não se sente à vontade. Desculpe se fui inconveniente por ter atendido o telefone, ou se a tal pessoa que ligou não podia saber que tinha alguém com você.”

“Hey, MinHo, por favor.” Levantei da cadeira, andando em sua direção. Ele ainda estava parado no mesmo lugar, os braços soltos ao lado do corpo. Parecia calmo, mas eu podia ver que não estava. “Não é nada disso, não foi culpa sua. Ninguém ia saber quem estava ligando. Além do mais, não tem problema nenhum estar aqui com você. Eu ainda estou meio confuso, você deve saber, mas é isso...”

“Tudo bem, baby. Você tem todo o direito.” Pegou as chaves de seu carro. Encarei-o de forma a censurar qualquer menção de caminhar até a porta e sair. Acabei por agarrá-lo pelo braço, fazendo-o ficar imóvel.

“Eu já te disse. Jonghyun não importa.” Disse pausadamente, cerrando os dentes. Não tínhamos tocado no nome de Jonghyun naquela discussão, mas eu sabia que era esse o nome que pairava em sua mente por essa situação toda estar acontecendo. Nós não íamos ser capazes de ignorar o fato de Jonghyun fazer ou ter feito parte de minha vida por muito tempo, então era mesmo a hora de tocar nesse assunto.

“Não importa, Kibum?” Mudou o tom de voz, franzindo levemente o cenho. “Então por que diabos você ficou assim? Era ele no telefone, não era? Você acabou de me dizer que não tem nada demais em estar aqui comigo e que estava confuso... Ele vai terminar tudo com você porque soube que tinha outro cara em seu apartamento pela manhã, não vai?! Como você ainda me diz que não importa?” Disparou, fazendo muitas perguntas de uma só vez para minha mente aguentar. A raiva estava clara em cada sílaba que seus lábios proferiam. Ele me olhava com olhos amargos, e eu tinha vontade de estapeá-lo para que tirasse aquelas malditas ideias da cabeça de uma vez por todas.

“Ele não tem nada pra terminar comigo, MinHo. Não temos mais nada.” Quase gritei de volta, mas controlei meu tom de voz. Ainda segurava seu braço. MinHo me encarou, ainda respirando pesado. Não disse nada, dando-me espaço para continuar. “Ele terminou comigo, nós morávamos juntos e voltei pra cá por isso. Não tô te escondendo nada, só que é tudo recente demais pra conseguir lidar com isso ou deixar minha mente organizada de uma hora para a outra.”

“Olha, me desculpe, tá?” Comecei a soltar seu braço lentamente, e ele passava as mãos pelos cabelos, a expressão cansada. Umedeceu os lábios antes de voltar a falar. “Eu não posso obrigar você a me contar as coisas, Kibum. Mas você também não pode esperar que eu as adivinhe! Você não viu a expressão no seu rosto quando eu disse que era um cara no telefone. Ficou claro pra mim que você não queria que eu soubesse de algo, ou ele soubesse. Francamente, eu tô cansado de ser enganado. Não digo por você, mas... Eu não sei se você entende o que quero dizer com isso tudo!” Sua voz soava cansada.

“MinHo, não fale assim. Foi um mal entendido! Eu fiquei mesmo confuso, eu estou confuso, mas se eu estou assim é porque gosto de você.” Ainda estava sem certeza se era a hora certa de dizer aquilo, mas era exatamente o modo como eu estava me sentindo. “Você sabe que mexeu comigo, me fez sentir bem novamente, e desculpe se eu agi como um idiota. Você não tem ideia do que eu estou passando.”

Ele não disse nada, só aproximou-se devagar, para então levar os dedos bonitos à minha face. “Eu não faço ideia mesmo...” Mordeu o lábio inferior, selando os lábios nos meus. Sorriu contra eles quando o beijei de volta, posando as mãos em seus quadris. “Só quero que entenda que não quero atrapalhar nada. Você tinha uma vida antes de eu aparecer, você teve um relacionamento antes, então você tem direito de pensar e sentir o que quiser. Mas eu só quero que saiba...”

Não terminou a frase, pois beijei seus lábios novamente.

“...Quero que saiba que também gosto de você. Realmente, Key.” Murmurou contra meus lábios, terminando finalmente a frase que eu havia impedido. Foi minha vez de sorrir contra os lábios dele.

Taemin’s POV.

Acordei meio atordoado, os raios de sol acertando em cheio meu rosto. Imediatamente, lembrei-me que tinha arrancado minha cortina e amaldiçoei tal ato em tom muito baixo, virando de lado, ainda esfregando os olhos. Donghae dormia ao meu lado, num sono profundo e respirando pesado. Essa cena daria um bom quadro, pensei, levantando-me devagar e correndo para o banheiro, jogando-me debaixo do chuveiro.

Deixei a água cair sobre meu torso, correndo por meus cabelos e relaxando meu corpo tenso. Não podia acreditar no que havia acontecido nessa noite, que eu e Donghae... Bom, quero dizer, me soava tão absurda a ideia de ir para a cama com meu melhor amigo, que eu tive vontade de rir. No fundo, bem no fundo, eu realmente sentia vontade de rir. Já me sentia um pouco melhor por ter dormido com outro cara e dito para mim mesmo que MinHo não era o único. Mas que graça teria tudo isso se o próprio MinHo não tomasse conhecimento?

O problema era que nem ele, nem ninguém poderia saber, já que Donghae me proibiria de abrir a boca. Nada disso poderia chegar aos ouvidos do Hyukjae, e tudo se enredava de uma forma horrível, porque, segundo Hae, Hyukie e MinHo já tiveram um caso – eu nunca consegui entender muito bem essa história, para falar a verdade.

Ainda estava analisando sobre o que fazer com minha situação, quando a porta do banheiro se abriu num estrondo e ouvi a torneira da pia ser aberta, o box opaco me impedindo de ver as coisas nitidamente. A única coisa que eu via era o vulto de Donghae por trás do plástico levemente azulado, e eu não sabia dizer com exatidão que raios ele estava fazendo.

“Donghae?” Perguntei, um tanto inseguro. O correto não seria ele estar vindo tomar banho comigo?

“Desculpe, Taemin, não quero te atrapalhar, só vim lavar o rosto e já tô indo embora...” A voz dele saiu abafada do outro lado, o barulho da água caindo atrapalhava um pouco minha audição.

“Espera!” Gritei, afobado, percebendo a gafe que eu podia acabado de cometer. Eu não podia agir como um carente idiota! “Não quer tomar banho antes?”

“Não dá, Tae, eu preciso ir pra casa agora. Eu posso receber algum telefonema a qualquer momento.”

Bufei dentro do box, irritado, passando as mãos em meu rosto. Donghae nunca havia demonstrado nenhum sinal de burrice – muito pelo contrário – mas agora estava demonstrando todos. Soava tão óbvio que ele mesmo havia concluído: Eunhyuk tinha outra pessoa, e tudo o que Donghae tinha feito era se apegar aos conselhos do amigo como se eles fossem verdade absoluta, e não eram! Eu só disse aquilo para que Donghae se sentisse mais confortável e parasse de se sentir um lixo como eu me sentia, mas a verdade era que Hyuk não valia mutia coisa. Tinha cara de quem valia, isso é fato, mas ele é capaz de coisas que ninguém poderia acreditar. Pensava nisso quando ouvi Donghae falar de novo.

“Taemin, estou saindo, pode deixar que vou bater a porta. E, ahn, obrigado pela companhia.” Disse, diante do meu silêncio, e logo pude ouvir o som da porta sendo fechada. Agora a única coisa que eu ouvia era o barulho da água caindo sobre meu corpo, e minha respiração pesada. Pensava no que eu tinha feito e no que ia fazer a partir dali.

Key’s POV.

Já era a segunda taça de vinho que estávamos tomando, e MinHo estava sentado alegremente no tapete da sala, sorrindo como uma criança. Contávamos coisas aleatórias de nossas vidas um para o outro, como um pedido de desculpas por nossa discussão estúpida de horas atrás. Era como se sentíssemos que estávamos devendo algo, e precisássemos suprir isso de algum modo. Bem, ali estava o modo que tínhamos encontrado.

Ele tinha me contado como começou a se envolver com arte, falou de alguns quadros que pintou até hoje, o assunto era extremamente interessante.

Era encantador ver como MinHo lidava com arte e maneira subjetiva. Ele via arte em todas as coisas que as pessoas geralmente não viam. Ele era inteligente, doce e espirituoso, isso me fazia ter um sorriso no rosto por praticamente todo o tempo que estava com ele. Era completamente estranho estar agora em minha casa com alguém que tinha conhecido em situações tão inadequadas. Nos conhecemos e transamos vinte minutos depois disso, e agora, sinceramente, eu me envergonhava de ter agido da forma como eu evitava agir, justo com ele.

Estávamos nos conhecendo depois de ter feito sexo de modo casual e completamente não planejado, e eu estava descobrindo da melhor forma que ele não era o tipo de cara de uma noite só. Eu estava completamente equivocado sobre os pré-julgamentos que eu havia feito sobre ele, e ele deveria estar cheio de pré-julgamentos sobre mim também. Eu não podia culpa-lo, mas esperava que tivesse lhe passado uma boa impressão e feito com que tais julgamentos se anulassem agora.

Eu não conseguia evitar e sempre me perdia em meus pensamentos, isso estava começando a me envergonhar, e tive medo que ele achasse que fosse algo a ver com Jonghyun novamente. Mas, para a minha surpresa – e talvez certa sorte –, ele também tinha o olhar perdido, preso em algum lugar que ficava nos fundos da sala.

Meu olhar seguiu o dele, e, instantes depois, percebi no que sua atenção estava presa: ao fundo do cômodo estavam meu tripé com uma tela coberta por lona preta, com alguns quadros ao lado, todos apoiados na parede. MinHo observava tudo, enquanto expirava a fumaça do cigarro que fumava de seus pulmões. Sorriu quando meu olhar encontrou o dele.

“São seus?” As mãos apoiaram-se no chão, dando-lhe impulso para que levantasse, andando devagar até os quadros.

O acompanhei no mesmo ritmo, à passos curtos, até que estivéssemos lado a lado. Seus olhos passeavam curiosos pela tela coberta.

“Sim... Trabalho com isso.” Estava um pouco envergonhado por ele estar vendo minhas obras. Quero dizer, ele talvez soubesse mais que eu. Ele poderia ver qualquer defeito e isso me incomodava, afinal, sempre fui perfeccionista, e, para mim, esses quadros estavam perfeitos. Mas eu não sabia de um ponto de vista técnico.

“Posso?” Perguntou, referindo-se à lona preta. Estava prestes a puxá-la quando virou-se para pedir permissão. Eu não gostaria que ninguém visse esse quadro, mas eu não iria esconder nada de MinHo. Seja o que for que estávamos começando, eu não queria que nada, absolutamente nada ficasse entre nós.

Assenti com a cabeça, encorajando-o a ir em frente, para que a lona estivesse jogada no chão logo em seguida. Ele encarava tudo tão profundamente, como se enxergasse algum outro universo por trás daquela tela com alguns rabiscos. Fora a primeira coisa que pintei quando cheguei em Seoul, e representava justamente o que eu tinha deixado para trás.

MinHo levou seus longos dedos às claras linhas da imagem, contornando cada uma delas levemente devagar, parecendo absorver tudo representado ali.

E logo naquele quadro, eu tinha pintado Jonghyun, sentado em um dos degraus da varanda de sua casa, tocava seu violão de forma tranquila. Eu me lembrava de ter passado horas observando-o daquele jeito, e naquele momento tive certeza de que Jonghyun nunca foi tão bonito. Era um plano antigo pintar aquela cena, que não abandonaria minha cabeça desde que meu olhar a havia registrado. E, ironicamente, eu só passei a pintá-la a partir do momento em que estávamos definitivamente separados. Jonghyun nunca veria aquela pintura.

Finalmente tirei os olhos do desenho, projetando o olhar em MinHo. Eu estava tenso pela reação que ele poderia ter, mas antes que eu abrisse a boca para falar qualquer coisa, sua mão encontrou a minha e ele a apertou devagar, seu calor passando para minha pele ao mesmo tempo em que eu pude notar que ele curvava levemente seus lábios em um discreto sorriso.

“É lindo, Kibum. É intenso, as cores são intensas.” Passou os dedos novamente pela tela, apontando os tons de verde da grama e algumas pequenas árvores ao fundo.

“Obrigado.” Observava seus movimentos. Seus olhos ainda estavam fixos na tela, analisando cada traço, cada uma das pinceladas.

“Esse é Jonghyun?” Disse calmo, sem me olhar.

Suspirei. “É...” Ele finalmente me encarou, os cabelos desarrumados quase cobriam seus olhos. “Foi há alguns anos atrás. Estávamos na sua casa, acho que era primavera, Jonghyun passou horas tocando quando eu pedi para ir caminhar comigo. Fiquei emburrado, observando-o tocar, ao invés de simplesmente ir sozinho... Fiquei ali por tanto tempo, que essa era como uma memória viva que tenho sobre ele. Mas só comecei a pintar esse quadro nessa semana... Como uma despedida.” Engoli em seco, dizendo tudo de uma vez, arrancando algo do meu peito que já estava guardando há muito tempo.

MinHo me ouvia atentamente, ainda segurando minha mão, sem falar nada.

“Ele tem sorte de ser pintado por você. Eu me sentiria muito honrado só por imaginar traços tão doces tomando minha forma.” Murmurou baixinho, olhando de relance para o quadro outra vez, como se já não tivesse olhado o suficiente. “Posso ver os outros?”

“Claro, fique à vontade.” Sentei-me em uma poltrona, próximo de onde ele estava. Eu não costumava me sentir assim quando alguém observava meus quadros dessa forma, mas estava tranquilo. Não tinha mais medo que alguém tentasse descobrir qualquer coisa por trás das obras, pois não tinha absolutamente nada a esconder de MinHo agora.

“Sabe, seu trabalho é único. Tudo parece tão real, mesmo que eu não conheça ou saiba como são algumas delas, é tudo tão perfeito.” Não respondi nada, apenas entrelacei meus dedos, mordendo o lábio inferior. Eu não sabia mais lidar com elogios. “Só pintei uma vez, uma única pessoa em toda minha vida. E essa pessoa nunca vai ver esse quadro.”

Notei certa nostalgia em seu olhar, assim como todas as vezes que falou certas coisas de seu passado. No mesmo instante, me peguei querendo saber também sobre a vida dele, queria partilhar daquilo e poder tentar ajudá-lo dizendo qualquer coisa, ou de alguma outra forma.

“Era alguém que você amava?” Resolvi perguntar, e, com medo que as palavras soassem altas demais, disse-as em tom baixo.

Ele não focou os olhos em mim. “É alguém que amo, mas não como você ama... Enfim.”

“Eu não amo Jonghyun.” Pigarreei e ele tornou a falar no mesmo instante, sequer ouvindo o que eu tinha acabado de dizer.

“Pintei um retrato do meu irmão.” Piscou algumas vezes. “Depois que ele se foi.”

O silêncio se abateu entre nós, emudecendo qualquer coisa que poderia vir em minha garganta. Nela, se formava um nó gigantesco, me impedindo de falar. Mas MinHo aproximou-se de mim, segurando minha mão outra vez.

“Minseok nunca vai ver minha pintura, mas Jonghyun ainda pode ver a sua.”

Senti que aquele nó ainda estava em minha garganta. Eu queria saber o que aconteceu, afinal, ele parecia tão conformado com aquilo tudo.

“O que aconteceu com... Minseok?” Não sabia se MinHo queria falar daquilo, ou se eu estava indo longe demais. Eu só queria mostrar que me preocupava.

“Ele não vai ver porque não quer, Key.”

“Como assim? Quero dizer, por que ele não iria querer?”

MinHo olhou para o chão, fazendo com que me arrependesse por ter aprofundado tal assunto.

“Ele me deixou... Foi embora. Simplesmente.” Pude ouvi-lo suspirar. Andou pela sala, sentando-se calmamente no sofá. “Minseok era... Gay, e, bom, namorava um cara. Acho que eram apaixonados, e meu hyung faria tudo por ele. Tudo. Um dia, o romance terminou por algum motivo que nunca fiquei sabendo, ele não aguentou e simplesmente foi embora, deve andar de país em país, afinal, sempre gostou de viajar. Faz isso como se fosse esquecer alguma coisa. Ele sequer me avisou... Isso faz alguns anos, Minseok me deixou sozinho quando eu era novo demais. Eu não tinha pra onde ir, sabe? Eu não tinha mais ninguém!” Andei em sua direção e seu olhar encontrou o meu, os olhos estavam levemente marejados. Fingi não notar, apenas sentando-me ao seu lado.

“Por que não foi atrás dele?”

“Porque ele não me diz onde está. Sempre fomos bem unidos, principalmente depois que nossos pais morreram, não sei por que isso tudo tá acontecendo agora.”

“Ele não manda sequer um postal?” Eu não sabia que seus pais tinham morrido, mas não queria fazê-lo ficar pior ainda.

“Manda, ele me escreve sempre, mas nunca diz exatamente onde está, só sei que está bem. Tudo sempre objetivo demais, sequer tem o endereço pra que eu responda. Ele não sabe como estou, se ainda recebo seus postais, mas sempre manda alguma coisa. Ele não quer que eu vá vê-lo, não quer me ver, parece que está na obrigação de me mandar alguma coisa.”

“Não sou a melhor pessoa pra dizer isso, afinal, não o conheço. Mas acho que não é obrigação alguma, ou ele não te mandaria nada. Ele pode estar sofrendo muito até hoje e pode querer mais um tempo sozinho para esquecer, você precisa tentar entender o outro lado da história também.”

“Já tem uns cinco anos, Kibum... Será que ele ainda precisa ficar sozinho pra esquecer? Deve escrever apenas pra que eu não pense que está morto ou algo assim. Ele é egoísta, sabe? Isso é desde sempre. Eu sofri muito durante esse tempo todo, vivi sozinho e vivo até agora, acho que por... Enfim, quero parar de te encher com isso.”

Passei meus braços em torno de seus ombros, deitando meu rosto na curva de seu pescoço. Fechei meus olhos e inspirei o próprio perfume de sua pele, depositando um leve beijo na área que meus lábios alcançavam.

“Key-ssi, acho que devo ir.” Abraçou-me com força, fazendo com que um sentimento ótimo de conforto invadisse meu peito.

“Já?” Ri baixo. O relógio já marcava pouco mais de cinco da tarde, passamos mais tempo juntos que eu podia imaginar que passaríamos em um só dia.

“Tomei demais seu tempo por hoje, e tenho que organizar umas coisas em casa...” Sua voz soou baixa e levemente rouca, seu corpo passou a afastar-se do meu.

“Tem como você voltar mais tarde?” Voltei ao meu lugar no sofá.

“Posso até voltar, Key, mas não te garanto nada, entende?” Sorriu brincalhão, beijando meus lábios.

“Venha às dez.” Disse enquanto caminhávamos até a porta. MinHo girava a chave do carro em seus dedos.

“Estarei aqui. Aliás...” Virou-se. “Antes que eu me esqueça, por que nunca me ligou depois daquele nosso primeiro encontro? Jurei que fosse me ligar implorando pra mais sexo no banheiro.” Franziu o cenho, teatral.

Revirei os olhos. “Como adivinhou que era isso que eu ia fazer?” MinHo andava em direção ao corredor, ainda virado de frente para mim.

“Eu realmente esperei você me ligar.” Encostou o braço na parede, apoiando-se.

“Eu preferia te encontrar pessoalmente. Fui àquele bar ontem só porque tinha certeza que ia te ver lá.” Notei MinHo fazendo uma careta, como quem não acreditava no que acabei de dizer. “É sério! Olha, eu fui até a Universidade ontem de manhã pra tentar falar contigo, mas me disseram que você já tinha saído.”

“Quem te disse isso?” Arqueou uma sobrancelha, com uma expressão não muito amigável.

“Ah, um professor.” Eu não podia contar que conhecia Jinki e que tivemos tudo aquilo, por Deus! Eu não queria mais falar de meu passado amoroso com MinHo, muito menos de meu passado amoroso com Jinki.

“Que professor?” Insistiu, semicerrando os olhos. Era estranho todo esse interesse, isso importava? Provavelmente.

“Lee Jinki.” Respondi rápido, esperando que não me perguntasse mais nada.

Olhou-me atônito por um tempo, depois desviou o olhar, a expressão de dúvida ainda plantada em seu rosto, para em seguida voltar a olhar para mim. “Olha, não sei porquê ele fez isso, mas... Eu tinha aula com ele naquele momento. Ontem teve reposição das faltas do professor Jinki, fiquei até mais tarde, fiquei praticamente o dia inteiro naquele lugar... E, bom, ele sabia que eu tinha aula com ele.”

“Tudo bem, MinHo, não tem problema. Ele pode ter se confundido.” Eu sabia que não. “Mas não precisa falar nada com ninguém, uh, ele realmente deve ter se confundido, eu não deveria ter ido até lá.”

Ainda estava com o cenho franzido. “Ele não pode ter se confundido, ele me deu uma aula sobre Pós Modernismo no mesmo dia, e me perguntou várias coisas. Ele sabia que eu estava lá dentro.”

MinHo deveria estar assim por algum motivo além da mentira. Não acho que Jinki e ele tenham transado ou sei lá, só acho que tinha algo além de tudo. Não faria sentido se irritar tanto pelo engano bobo de um professor.

“MinHo, esqueça isso!” Acariciei seu rosto. “Não importa. Seja lá o que fosse que ele pretendia, não deu muito certo. Esqueça isso, por mim, ok?”

Bufou, segurando meu pulso carinhosamente. Revirou os olhos, dando-se por vencido. “Ok.” Beijou-me outra vez, acenando levemente enquanto virava-se e começava a andar.

Fechei a porta quando ele já entrava no elevador. Pensei enquanto andava até meu quarto. Jinki devia querer algo por ter mentido, já que MinHo disse que é impossível ter se confundido. Toda aquela surpresa e espontaneidade podia ter sido ensaiada, talvez tivesse me visto com MinHo também, ou só tivesse suposto algo. Tentei desviar meus pensamentos, pois precisava planejar algo para receber MinHo mais tarde.

Notas finais
Desculpem qualquer erro, acabei de terminar de escrever e betar, então posso ter interpretado algo corretamente quando estava errado (?)