Pelos Olhos da Serva

1 1 Capítulo - Insistência


Notas iniciais
Não sei se vocês já leram Hamlet(Shakespeare), mas pra quem não leu, uma breve sinópse: Príncipe Hamlet, herdeiro da Dinamarca, jurou vingar a morte de seu pai contra seu tio,Cláudio,publicamente.Seu plano então era fingir estar com acessos de loucura e ir descobrindo as artimanhas de seu tio. No fim da história, ele, sua amada e o irmão dela,o pai deles, seu tio,e sua mãe morrem, e o amigo de Hamlet (um escudeiro,axo) explica toda a história para os que presenciaram tal carnificína.


Eu estava passeando pela floresta, como sempre fazia. Esse horário noturno era o único que eu tinha disponível para sair do castelo e poder passear pelos bosques e pela floresta do reino. As árvores estavam escuras, mas brilhantes. A lua estava sorridente espalhando seu esplendor pela floresta adentro. Era lindo. Era contagiante. Era quase até, digamos...ofuscante.


Percebi uma forma, um fantasma a meu ver, percorrendo o mesmo caminho que o meu, só que mais a frente e tomando um rumo diferente. Meu coração disparou. Que seria aquilo?


Peguei a barra de meu vestido e comecei a dar passos lentos para traz. Poderia ser um inimigo, um espião, ou talvez um desertor; a época em que se encontrava a Dinamarca era precária pelos dramas reais e tais atos pareciam muito propícios a acontecer. Precisava sair dali o mais rápido possível.


-CREC.


Estava perdida. Tinha de ser eu, a serva desajeitada e atrapalhada. Não era á toa que estava no cargo mais baixo; mas isso também iria ser hereditário...bom, isso não importa. Virei-me e comecei a correr igual a um cavalo selvagem fugindo de seus perseguidores, enquanto olhava para traz, assustada, tentando ver se ele estava me alcançando.


Cheguei em minha casa e fechei a porta rapidamente, trancando-a desesperadamente. Minha cabeça girava. Talvez fosse melhor parar com os passeios noturnos.



Após um mês e meio de longa insistência tentei superar minha vontade de passear pelos campos anoite. Era tão difícil que quase enlouqueci. Por fim, minha desistência.


Andei pelo mesmo caminho anterior, tentado não me recordar da ultima vez que tivera feito a mesma rota. Ficaria agora de olhos abertos, alertada para qualquer barulho, e precavida para qualquer galho que ousasse ficar em meu caminho. Andei calmamente sentindo o vento acariciar meu rosto, e meu colo desnudo. Para outros o vento estaria cortante, a noite estava muito fria, mas eu não me importava.


Continuei a andar passando pelas árvores até a muralha do castelo. Ouvi homens murmurando alto. Me escondi atráz de uma árvore e olhei para cima em direção a eles. Pareciam ser dois guardas, e o comandante. Aproximei-me mais um pouco. Falaram mais alto e consegui reconhecer a voz de dois deles; eram Horácio e Marcelo. Deviam estar montando guarda, nada de mais. Ouvi então a voz do terceiro que parecia a do príncipe Hamlet.


Batera o sino da meia-noite parecia fazer cinco minutos; não deveria estar lá,já era muito tarde. Horácio se virou. Me escondi mais um pouco. Era lua cheia e ela estava na direção deles. Se eles se virassem poderiam muito bem me ver e me confundirem. Tremi diante este pensamento.


De repente uma luz, uma coisa apareceu diante o príncipe e dos dois guardas. Parecia ser um espectro. Diziam que ao bater o sino da meia noite os espíritos não vingados vagavam por diferentes lugares do reino até o romper da aurora. Será que eles estavam sabendo de tal superstição ou estariam lá de propósito? Era estranho e ao mesmo tempo, curioso.


Fiquei mais um tempo, não conseguia escutar direito. Me impulsionei mais um pouco para frente para ver e ouvir melhor quando um braço me puxou para tráz. Quase caí no chão, se ele não tivesse me segurado.


Olhei para tráz. Era um homem. Devia estar embriagado, pois senti o cheiro forte de vinho misturado com cerveja. Aquele cheiro me deixou enjoada; me deu náuseas. Ele me pegou pelo braço e me arrastou pela floresta adentro, cambaleando um pouco.


- Me solta – puxei meu braço para tráz – quem você acha que é?-parei para tentar me soltar dele mas ele puxou de novo,mais forte.


- Sou o Elênio, o comandante do exército – soluçou – e você vai fazer o que eu quiser agora- sorriu com desdém e deu outro soluço. Cuspi em sua cara. Ele era asqueroso. Nem em minha próxima reencarnação — se é que eu tivesse – iria com ele para algum lugar. Ele era um homem nojento.


- Quieta mulher! – ele puxou meu cabelo com tanta força que eu gritei. Ai meu deus, eu gritei, pensei, eles vão descobrir que eu estou aqui!Agora é que eu não tenho mais salvação. Uma lágrima escorreu pelo canto dos olhos enquanto eu era arrastada pelos cabelos agora; as madeixas mais esticadas que corda. O brutamontes me jogou em uma árvore.


-Agora vamos ver se você tem alguma serventia. – disse ele rindo e tirando um casaco.


Fiquei paralisada. Tinha que sair dali antes que... – a palavra engasgou na garganta — ele fizesse alguma coisa comigo.


Ele virou de costas, era minha oportunidade. Comecei a ir mais para o lado sem tentar fazer barulho e finalmente consegui sair de sua vista. Comecei a correr loucamente pela floresta. Nenhum caminho fazia sentido e eu não conhecia sua direção, mas não me importava. Desde que estivesse fora de alcance daquele desgraçado, eu estaria feliz.


- Mulher!!! – ele gritou. Olhei para tráz. É, ele tinha percebido. A minha sorte é que eu estava com um bom pé de dianteira.


Comecei a correr mais rápido, o mais rápido que eu podia, o mais rápido que eu agüentava. Olhei para tráz novamente e o vi correndo atráz de mim. Fiquei em pânico. Eu sabia que não conseguiria correr mais rápido que um homem. Só tinha um fim pra mim, mas eu iria lutar até minhas forças acabarem.


Senti um puxão no meu vestido atraz e sabia que era o homem nojento e asqueroso que estava me alcançando. Ele puxou mais forte, e conseguiu rasgar uma boa parte dele. Olhei para frente mais desesperada que antes e então tropecei em uma raiz da árvore ao meu lado, caindo com o rosto no chão. Meu rosto doeu muito.


-Há!Mulher burra, achou que escaparia de mim? – puxou meu cabelo de novo. Outra lágrima saiu dos meu olhos. Ele estava rasgando agora à parte do ombro e do colo do meu vestido; pegou meu braço e me girou para ver meu rosto. Com a mão livre peguei um punhado de terra e joguei em seus olhos. Ele praguejou severamente.


Aproveitei minha segunda oportunidade e comecei a engatinhar para frente e sair correndo, mas o plano não deu certo. Ele me pegou pelo pescoço e me jogou contra a árvore. Senti minha cabeça girar.


-O que você ia fazer, hein, sua prostituta? Fugir até cansar? – perguntou arrogantemente -Hein?! RESPONDA! – ele estava gritando mais alto e começou a apertar mais ainda meu pescoço. Eu não estava conseguindo respirar mais, só sentia a impressão que meus pulmões iam explodir. Minha inútil tentativa de tirar as mãos dele do meu pescoço só o fez o esmagar mais ainda sem deixar espaço algum para meus dedos.


Eu não estava mais enxergando direito.


Eu não sabia mais o que fazer.


Notas finais
Calma, esse arrogânte vai se ferrar!è_e'