Pelos Olhos da Serva

2 Capítulo 2 - Esperança



Eu não via mais nada.


Senti meu pulmão se abrindo e fechando novamente, completando o curso de respiração e inspiração rapidamente. Eu estava respirando.


Abri os olhos ainda meio zonza e com o desfoque momentâneo. Estava tudo embaçado, só conseguia destinguir uma pessoa caída ou apoiada em mim, acho. Uma coisa pingava quente do peito dela em mim. Olhei confusa para ela. Era vermelho. Vermelho sangue. A roupa da vítima estava empapada de sangue e eu, banhada nele. Gritei em pânico, com um frenesi de tirar aquele corpo moribundo de perto de mim. Empurrei-o longe.


Minha respiração ficou forte novamente e pude ver a pessoa, antes distinguida como vulto pela má visibilidade. Era o Príncipe Hamlet que tinha matado meu agressor, fincando sua espada no esôfago dele. Grata demais para pensar, me atirei em seus pés.


- Alteza – abaixei a cabeça até o chão – perdoe essa humilde serva pelo trabalho desnecessário de vossa autoria.


- Não fique assim – colocou a mão em minha cabeça – não precisa se preocupar mais. – Olhei para ele, ainda meio temerosa. — Ele está morto. – e sorriu. – O problema agora será o corpo...


- Vossa alteza não precisa ficar com tal preocupação sob sua cabeça, eu dou um jeito.


- Você? – disse com desdém.


- Servas podem fazer qualquer tipo de trabalho proposto, alteza.


- Por isso mesmo, eu não estou propondo nada. Ou estou...? Bom, o que importa é darmos um fim á isso.


- Sim, alteza.


Carregamos em silêncio o corpo do homem do exército até o cemitério. Logo chegamos lá, o coveiro estava ao longe, escavando uma cova. Após alguns minutos, foi embora. Chego o momento em que estávamos aos pés das covas, avistamos a quantidade delas. Eram muitas. Mais de cinqüenta, suponho.


Jogamos o corpo morto em uma delas e colocamos terra por cima.


- Alteza, concede-me uma pergunta?


- Claro. –respondeu calmamente.


- O que Vossa alteza estava fazendo á essa hora com Polônio na muralha? E o que era aquilo que vocês viram, um fantasma?


- Muitas perguntas fizestes agora, serva. – disse de modo seco.


- Perdoe-me alteza. Não perguntarei mais.


Silêncio novamente.


Depois de enterrar o corpo completamente e não deixar vestígio algum de que estivemos no local, fomos embora. O Príncipe não queria me contar, mais eu iria descobrir, mais cedo ou mais tarde, mesmo que ele não quisesse.


Seguimos caminhos diferentes para não sermos vistos.


Entrei em meus aposentos , dei cabo da roupa ensanguentada e fui dormir. O dia seguinte seria muito cheio e complicado demais. Não havia tempo para sequer pensamentos. O dia estava amanhecendo rápido demais, depressa demais para eu acompanhar. Rápido demais para questionamentos... ou talvez não.


- Ei, você ouviu o que aconteceu?


- O que? –perguntei curiosa e receosa.


- Não acharam Elênio, o comandante do exército em seus aposentos e nem pelo reino. – suei frio.


- Nem pelo reino?


- Acham que ele foi morto. Encontraram sangue na floresta. Teremos outra provável guerra.


Concordei de forma preocupada e indiferente. Por dentro eu sabia do que havia acontecido, só não sabia o que iria acontecer caso eu não contasse. Fiquei mais preocupada que antes diante o pensamento. Mesmo que eu contasse, eu seria julgada culpada, e seria morta do mesmo jeito, por apenas ser uma serva que conta mentiras e tenta encobrir a verdade, sendo acusada como traidora. Estava desesperada demais.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.