Nós estávamos no estúdio pra mais uma sessão de gravação, e era uma raridade estarmos todos juntos lá, Dominique e Veronica tinham vindo junto com Roger e John. Depois de termos nossas crianças e cuidarmos de outras coisas particulares, ficava mais difícil nos encontrar no estúdio, por isso fiquei feliz por esse encontro surpresa. Robert já estava na idade de ir pra escola, no jardim da infância (como ele cresceu rápido também), Mike estava com a mãe de Veronica, Felix e Rory estavam com sua babá, assim como eu tinha deixado meu Jimmy sob os cuidados de Gracey naquele dia.

—Quem sabe vocês tem uma menina agora — comentou Domi — seria bom a Rory ter uma amiguinha.

—É, eu não sei — disse meio distraída — ou talvez seja outro menino. Dois meninos não é tão ruim, não é Veronica?

—Tem seu lado ruim, sabe? — a sra. Deacon deu um sorrisinho — Robert é sempre bem comportado, mas não nega fazer bagunça quando o Mike insiste demais. Já até desistir de limpar as paredes...

—É uma obra de arte, meu amor, não pode apagar, além disso, magoaria os meninos — John disse despreocupado, sem ligar muito pras paredes rabiscadas na sua casa.

—Vocês não crescem mesmo — eu tive que rir do que Deaky disse.

—Aposto que o John não ajuda as crianças a rabiscar a parede — Dominique cruzou os braços, dando um olhar nada discreto para o marido — porque o sr. Roger aqui ajuda na bagunça.

—Tocar bateria não é bagunça! — objetou Roger — eles são muito pequenos pra tocar uma de verdade, então a gente dá uma improvisada com panelas e colheres.

—Ah, isso é divertido! — tive que concordar.

—Só a bagunça que eles deixam pra trás que não é — destacou a sra. Taylor.

—E o Jimmy, Chrissie? — perguntou John — já tentou tocar a Red Special?

—Ah, ela é muito grande pra o meu pequeno segurar — contei — por enquanto ele admira o papai tocando.

—Talvez o Brian tem ciúme da amada guitarra dele e não deixa nem o filho dele tocar — brincou Roger.

—Não sou assim Roger, até deixei vocês tocarem uma vez — Brian finalmente disse alguma coisa desde que começamos a conversar.

—Mesmo assim tem ciúmes — tive que concordar — mas não do Jimmy tocando a Red Special.

Me virei pra ele, um tanto preocupada. Brian era a única pessoa do mundo que ficava inquieto e quieto ao mesmo tempo quando estava nervoso com alguma coisa. Quieto por não falar nada, mas inquieto porque suas mãos suavam, um pé batia no chão, seu olhar estava distante e sua expressão fechada. Eu o observei estar desse jeito toda a manhã, num momento ele parou pra tomar um pouco de chá, e depois se sentou perto da bateria, sem conseguir se acalmar.

Nós trocamos um olhar e pensamos na mesma coisa: Freddie. Atrasado como sempre, sem previsão de chegar ou dar satisfação se tinha acontecido alguma coisa.

"Não consigo mais fazer isso" Era o que o olhar dele me dizia.

"É o jeito dele" devolvi "acho que não temos escolha, você vai ter que fazer o que tem que fazer".

E então Brian tomou uma atitude, sem esperar mais, deu início à sessão de gravação. Todos pareciam hesitantes, mas fui a primeira a me voluntariar para ajudá-lo, até ganhando um beijo de recompensa por isso.

Depois que Brian explicou sua ideia, mostrou a nós cinco o bater de palmas de "We will rock you", o que logo me fez ficar empolgada. Foi bem quando Freddie chegou, interrompendo o que estavámos fazendo. Por estarem igualmente irritados, ele e Brian trocaram farpas, o que me deixou muito sem graça de presenciar, como sempre, mas logo deixaram a desavença de lado pra trabalhar um pouco, já que era por isso que estavam ali.

Gravar a canção foi divertido, Brian foi reunindo cada vez mais pessoas pra ter a quantidade de batidas necessárias, pedindo pra qualquer um que encontrasse no caminho que se juntasse a nós. No fim, ficamos ali até a edição final da canção. Eu fiquei muito contente em pensar que tinha feito uma pequena contribuição pra gravar uma música do Queen. E não qualquer música.

Quando o álbum novo foi lançado, " We will rock you" era uma das músicas mais requisitadas do público, que geralmente era usada pra abrir os shows. E os fãs faziam exatamente o que Brian tinha pensado, o que deixou meu marido muito orgulhoso de si mesmo, e eu também me orgulhei dele.

Assim, quando acompanhava os shows, Jimmy ficava com Gracey, e agora meu pequeno já estava mais acostumado com ela. Tanto que chegou a mostrar toda a casa pra ela, e isso fez Gracey ter curiosidade sobre algumas coisas ao nosso respeito.

—Hã... — disse ela hesitante depois de chegarmos de um show — se não me importa perguntar sr. May, onde comprou sua guitarra? Eu reparei que o senhor sempre volta com ela, então imagino que seja professor de música agora, já que também tem outros instrumentos na sua casa e, sem querer observei a guitarra, eu... não que eu saiba tocar nem nada, mas eu achei tão linda...

—Eu conto pra ela, Chrissie? — ele sorriu empolgado com a pergunta dela.

—Hã... Só sobre a Red Special, sem os outros detalhes, por favor — ficava sem graça em omitir que Brian era o guitarrista do Queen, mas eu não queria que Gracey soubesse simplesmente por ter medo de como ela reagiria.

—A minha guitarra é única, eu e meu pai fizemos juntos quando eu era mais novo — explicou meu marido, todo contente — com um monte de coisas que achamos em casa, porque na época não tínhamos condições de comprar uma.

—Nossa, isso é... uau, muito, muito legal mesmo — Gracey achou a história incrível — mas, o senhor dá suas aulas com ela, tipo, deixa seus alunos usarem ela?

—Hã, não, Gracey — Brian estava ficando preocupado com as deduções dela — eu não sou professor de música.

Olhei pra ele, um tanto preocupada, mas no fim, acabei cedendo.

—Não? Bom, então, desculpa, olha, não precisa me dizer o que faz, já estou ficando muito curiosa — a própria Gracey se repreendeu.

—Eu sou guitarrista profissional, toco numa banda — contou Brian, mas preferiu não contar em qual banda.

—É claro, claro, faz todo sentido, nunca te imaginei tocando guitarra — Gracey assentiu, um tanto espantada — mas tudo bem, eu... legal ter me contado, bom, eu vou indo, sr. May. Sra. May, boa noite.

—Boa noite Gracey — respondemos juntos e a vimos sair.

—Bom, uma hora ela vai descobrir — dei de ombros, tentando não me preocupar tanto com isso.

—Eu não vou contar — Brian pôs uma mão no meu ombro.

—É bobagem minha se preocupar tanto com isso? — me virei pra Bri — dá a impressão de que eu estou mentido pra ela, mas não estou, só não quero contar.

—Não tem problema nisso, Chrissie — Brian balançou a cabeça — se ela descobrir, nós esclarecemos a dúvida, além disso, dizer na lata que o antigo professor dela é um astro do rock é se gabar, ela ia nos achar esnobes.

—Tá bem, então, eu vou ignorar isso — decidi, vendo que era uma questão muito pequena.

E assim deixei que Gracey fizesse suas próprias deduções.