Pelo Olhar de Chrissie
72 Descobertas diferentes
Era a segunda vez que passava pela mesma experiência, mas ainda assim nada era igual. Da mesma forma que sentia cada estágio de desenvolvimento, por maior ou menor que fosse quando estava gerando Jimmy, sentia o meu novo bebê também crescendo. Mas era diferente, porque era uma outra criança, uma nova vida, que teria uma personalidade diferente, seria diferente de como Jimmy era.
A começar pela sua quietude, enquanto que Jimmy se mexia bastante, seu irmãozinho se mexia com menos freqüência, o que me deixava muito preocupada às vezes.
—Ei, meu amor, você está aí? — Brian se voltava pro nosso bebê ainda na barriga — nós sabemos que está, mas... Fala com a gente também, digo, do seu jeito porque não tem como você falar. A gente sabe que está aí, mas dá um alô.
E como um milagre, o bebê sempre reagia à voz de Brian, às vezes pensava que nosso segundo filho seria mais apegado ao pai do que a mim. É claro que não seria assim, bem, não tinha certeza de nada, mas independente disso, amaria o meu filhinho de qualquer jeito.
—Ele só gosta da sua voz eu acho, ou só de você — disse a Brian, soando um pouco chateada.
—Não, Chrissie, de jeito nenhum — ele tocou meu rosto pra que eu olhasse pra ele — ele gosta da minha voz, é verdade, mas nós ainda não o conhecemos, espera só quando ele ver a mãe dele, vai ama-lá tanto quanto eu amo, e como o Jimmy ama.
—Eu sei que é uma bobeira da minha cabeça, só estava... — nem sabia como completar a frase, já que percebi que estava sendo boba — talvez sejam os hormônios...
Brian fez umas caretas, pensando no que responder, por fim acabou desistindo. Acho que ele pensou que eu ficaria brava com qualquer coisa que ele dissesse, eu apenas ri.
E foi aí que o bebê se mexeu.
—Bri, olha só... — pus uma mão dele na minha barriga — ele gosta da minha risada, definitivamente foi isso que fez ele se mexer!
Eu ri de alegria pela minha descoberta, e então, quanto mais eu ria mais o bebê se mexia.
—Não seja por isso, então — disse o meu marido e me cutucou bem nas costelas, sabendo que eu sentia cócegas ali.
—Para, para... — eu pedia e ria, tanto que cheguei a chorar — calma, assim eu perco o fôlego.
—Desculpa — Brian sorriu — ou não...
—Mãe! — Jimmy veio descendo as escadas correndo — tá tudo bem? Eu te ouvi rindo, mas agora você tá chorando.
Ele olhou com suspeita para Brian.
—Papai te fez chorar? — perguntou Jimmy assustado.
—Não, não, Jimmy, não é nada disso — Brian ficou tão preocupado quanto o nosso pequeno — nós acabamos de descobrir juntos que seu irmãozinho se mexe quando sua mãe ri.
—Verdade? — Jimmy iluminou-se, encantado — eu quero ver! Eu quero ver!
O próprio pedido de Jimmy me fez rir de novo e ele tocou minha barriga. A expressão de susto e encantamento dele ao perceber o movimento do irmão não tinha preço. Então tive uma ideia.
—Lembra quando tocou pro Jimmy antes de ele nascer, Bri? — relembrei ele — talvez o bebê reaja com nós dois cantando.
—Como o papai cantou pra mim antes de eu nascer? — Jimmy ficou intrigado.
—Você ainda estava na barriga, igual seu irmãozinho — expliquei.
—Ah... — exclamou meu pequeno, entendendo.
Nós vimos Brian sair e logo depois voltar com a Red Special.
—Então, o que vai ser? — ele perguntou pra mim.
—Hã... — eu sempre ficava indecisa quando ele me perguntava isso — que tal o Jimmy escolher?
—Eu? O que? Uma música que o tio Freddie canta? — quis saber Jimmy.
—Não é só o tio Freddie que canta — Brian explicou, um tanto enciumado.
—Tem uma que a mamãe canta — meu pequeno se lembrou — ela vive cantando. "Yesterday, my life was in ruin..."
Não demorou pra que Brian entrasse tocando no tempo certo, cantando junto com Jimmy.
"Now today I know what I'm doing
I have a feeling I should be doing all right..."
Me juntei a eles.
"Doing all right..."
E senti o bebê mexendo de novo.
—Isso, meu amor! — conversei com ele — nós somos sua família...
Ficaríamos horas e horas ali se o dever não nos chamasse. Mais tarde naquele dia, tínhamos uma reunião para acertar os detalhes de uma série de shows nos Estados Unidos, que aconteceriam com exclusividade em Nova York, no Madison Square Garden.
Era a segunda vez que ia pros Estados Unidos, e achei que dessa vez seria menos cansativo porque ficaríamos numa cidade só. Eu estava feliz com a viagem, apesar das dificuldades de organização e a distância, era sempre bom estar perto dos meninos, acompanhando o seu trabalho.
Quem se empolgou muito com a viagem foi Jimmy. Expliquei a ele como seria a viagem, que seria longa como das outras vezes que fomos, e que nosso destino final era Nova York.
—Nova York? — Jimmy se animou — que tem a Estátua da Liberdade? Não sei porque, mas todo mundo fala que lá é um lugar legal, então vai ser legal a gente ir lá!
—Sim, sim, vai ser sim — eu ri da empolgação dele.
O telefone interrompeu nossa conversa e eu fui atender.
—Sir Harold! — reconheci a voz do meu sogro — Quanto tempo, eu mal posso acreditar que é o senhor!
—É bom falar com você querida Chrissie — ele me respondeu — como está o Jimmy e o bebê?
—Estão bem, muito bem — eu contei — Jimmy está empolgado porque vamos pra Nova York.
—Nova York? — o sr. May soou suspeito — O que vão fazer em Nova York?
—É uma viagem com o Queen — expliquei com receio — os meninos vão fazer shows lá...
—É uma pena, nós iríamos pra Londres ver vocês, mas a banda é mais importante — disse Sir Harold num tom reclamão.
—Vocês podem vir depois, não tem problema, eu... — tentei pensar no que dizer, mas não conseguia.
Harold May nunca aceitou muito bem o fato do único filho ser um guitarrista, quando deveria ter um emprego condizente com o pai de família que ele era agora. Não importasse a profissão de Brian, ele sempre cuidaria de nós e seríamos sua prioridade, mas o pai dele não entendia isso.
Brian veio até onde eu estava e percebeu que eu falava com Harold. Meu marido me pediu pra que eu passasse o telefone pra ele. Eu fiz isso, preocupada.
—Oi, pai, sou eu, sim, eu sei, eu sei, mas semana que vem estamos aqui — ouvi Brian falando — não, não, não faz assim, olha, eu... Calma, só me dá uma chance, tá bom? Aceitaria ir a Nova York me ver tocar? Não estou ficando maluco, eu falo sério, verdade! Vai mesmo? Confio na sua palavra. Está bem. Tchau. Também amo vocês.
—Tudo bem? — hesitei em perguntar, toquei o ombro dele, numa maneira de confortá-lo.
—Minha mãe e meu pai vão pra Nova York ver um show do Queen — Brian contou — foi difícil, mas eu convenci ele.
—E... O que espera que vai acontecer? — fiquei aflita por um possível conflito.
—Que ele não me odeie por isso — respondeu Brian, um tanto desanimado.
Eu o abracei, e senti ele me segurar forte. Também esperava que o melhor acontecesse quando os May mais velhos vissem o filho e seus amigos tocarem.
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