Pelo Olhar de Chrissie

73 A caminho de Nova York


Eu acordei antes de Brian, o que era bem raro. Ele sempre acordava antes pra adiantar alguma coisa em relação à banda e suas próprias composições, ou fazer o café da manhã, ou como descobri ao longo dos anos, ele amava ler em meio ao silêncio da casa toda.

Naquela manhã em particular, acho que despertei mais cedo por estar ansiosa com a viagem pra Nova York, íamos sair logo depois do almoço. Me levantei e já ia pensando no que vestir, quando pensei melhor. Brian ainda estava dormindo e qualquer movimento que eu fizesse o despertaria, e não era essa minha intenção.

Ao olhar pra ele, pra ter certeza de que continuava dormindo, acabei me perdendo em seu rosto. Confesso que não era seu melhor momento, seu cabelo estava uma bagunça que só, uma mecha encostando em sua boca, parcialmente aberta. Ele estava morto de cansaço, mas mesmo assim, naquele estado, observá-lo fazia meu coração bater mais forte. Eu era muito boba, ou muito apaixonada. Um pouco dos dois, já que se apaixonar deixava a gente meio bobo. Mais do que isso, eu o amava. Mesmo com essa aparência de assustar.

Acho que a desconfiança causada por alguém te encarando durante o sono o fez despertar.

—Chrissie... — murmurou ele, coçando os olhos.

—Desculpa, não queria te acordar, mesmo — eu me sentei ao lado dele.

—Bom, antes você me acordar do que o despertador, posso garantir, minha esposa, que e muito mais agradável — ele sorriu e se inclinou pra me beijar, logo em seguida tocou minha barriga, um pouco maior agora — como está nosso bebê?

—Esse aqui está bem, Jimmy ainda não vi — falei — vai se arrumando que eu vou chamar ele.

—Sim, senhora — Brian respondeu, mas ainda parecia sonolento.

Eu fui até o quarto do meu menino, sorrindo ao ver a pintura da parede de relance. Eu amava que eu e Brian tínhamos pintado o quarto com o tema de universo, cheio de estrelas, cometas e planetas. Até acrescentei uma pequena TARDIS no cantinho. O Doutor tinha que estar ali, explorando o universo a fora. E Jimmy também amava Doctor Who.

—Meu amor? — me sentei ao lado dele, e ainda dormia, a mesma imagem que vi em Brian momentos atrás — hora de acordar Jimmy.

—Mamãe? — ele chamou baixinho, ainda cansado, sem soltar o dalek de pelúcia que estava ao seu lado — tenho que levantar mesmo?

—Sim, sim, esqueceu que é hoje que vamos pra Nova York? — lembrei ele.

—Não, não esqueci — aquilo fez com que Jimmy levantasse de vez.

O que foi bom porque logo o ajudei a se trocar e ele estava tão animado que saiu correndo.

—Vem, mãe, eu vou mais rápido que você! — desafiou ele.

—Ah eu vou mais rápido! — eu ri correndo pra alcançá-lo.

—Não corram na escada! — Brian avisou, assim que entendeu nossa brincadeira.

Por ironia, ele correu mais rápido que nós dois, se colocando na nossa frente.

—Ah, pai! — Jimmy reclamou.

—Correr na escada é perigoso — explicou meu marido com uma certa urgência — você pode se machucar, e a senhora está grávida do nosso filho, Deus me livre se você escorregar.

Antes que eu falasse mais alguma coisa, já entendendo a preocupação dele, Brian me ofereceu um braço, como um cavaleiro de contos de fada.

—Eu não sou a Rainha Vitória, Bri — tentei brincar, mas segurei seu braço mesmo assim.

—Eu sei, mas do mesmo jeito que ninguém queria que algo de ruim acontecesse a ela, não quero que nenhum acidente aconteça com vocês três — ele olhou para mim e para Jimmy.

—Entendido, senhor meu marido — beijei sua bochecha — eu te amo por todo seu cuidado.

Brian apenas sorriu em resposta. Ele sempre foi muito protetor comigo, mesmo antes das crianças, mas quando eu estava grávida esse cuidado se multiplicava muito mais. Ele nunca me deixava tomar muito café, por mais que eu amasse, e tinha que ser descafeinado. Nunca me deixava carregar peso, pegava Jimmy no colo sempre que ele pedia já que eu não podia. Às vezes era um pouco irritante, me sentia meio folgada, mas eu acabava amando cada pequeno gesto de atenção.

Passamos o resto da manhã acertando os últimos detalhes da viagem e enfim embarcamos. Jimmy estava do meu lado enquanto Brian estava sentado na nossa frente.

—Olha, mãe, isso são... as nuvens! — apontou Jimmy encantado, olhando pela janela do avião.

—É, tá vendo? Estamos no meio delas — eu respondi, encantada com meu menininho.

—Mesmo? O avião passa no meio delas? — perguntou ele.

—É, passa sim — confirmei e nós olhamos juntos.

Estava um pouco distraída com Jimmy, mas não deixei de notar Brian meio distante na minha frente, seus pensamentos estavam longe, a câmera nas suas mãos, ele a remexia e revirava, uma tentativa de distrair os próprios pensamentos.

—Tirou uma foto nossa, pai? — Jimmy olhou pra ele.

—Ah, eu tirei sim — ao conversar com nosso menino, Brian voltou a ficar bem — vocês nem notaram.

—Escondido? Não é errado fazer as coisas escondido? — Jimmy estava chocado.

—Acho que não, se for uma coisa boa — disse Brian com um ar de sabedoria.

—Ok... — meu pequeno pareceu entender o conselho.

—Que foi, Bri? — ele podia enganar o Jimmy, mas não eu — não quero ser direta, sei no que deve estar pensando, só não quero falar pra não te deixar mais triste...

Percebi que ele estava grato pela minha sensibilidade com o assunto. Ele me deu um sorriso triste, pegou uma das minhas mãos e beijou o dorso dela.

—Tô começando a achar que foi uma ideia horrível convidar os meus pais... — Brian suspirou — sabe quando... quer provar que o que você gosta de fazer e seus pais odeiam é uma coisa boa mesmo assim? Mas tem medo de mostrar porque tem medo do que eles vão achar?

—Eu pensei um exemplo — o que ele disse me fez lembrar uma coisa da minha adolescência — não sei se tem muito a ver, mas, bom o meu pai odiava livros de fantasia, ele dizia que devia gastar meu precioso tempo aprendendo algo útil, não histórias inventadas, então eu meio que lia escondido. Até que um dia ele descobriu, e no fim, acabou aceitando, que ler, independente do que fosse, era uma coisa boa. Acho que o que convenceu mais foi as minhas notas sempre altas.

—É, tem um pouco a ver sim — Brian deu outro sorriso triste — o problema é que... Meu pai gosta de música, só queria que eu gostasse como um passatempo, eu... só tenho medo que ele se decepcione mais comigo, me vendo tocar sendo parte do Queen.

—Brian, você não decepcionou ninguém — me compadeci na hora com suas palavras — meu amor, você sempre foi um bom filho, é só que... bons ou maus, ninguém é capaz de preencher as expectativas dos próprios pais. Não especificamente e precisamente o que eles queriam de nós. Só fazemos nosso melhor pra deixar eles orgulhosos. E tocar guitarra é uma das coisas que você faz de melhor. Seu pai vai te amar te ver tocando a Red Special, que vocês fizeram juntos.
Confia em mim.

Meu pobre Brian não tinha palavras, ele tentava não chorar, e não tinha como eu levantar pra lhe dar um abraço. Apenas peguei uma das suas mãos, acariciando com o polegar.

—Eu te amo — meu marido suspirou — obrigado.

—Eu também te amo muito, Bri — eu falei com toda convicção do mundo.

—Eu também, papai — Jimmy se juntou a nós, o que nos fez rir de alegria.

Por um momento, Brian se concentrou apenas em nós, a família que ele tinha constituído comigo, que sempre o amaria.