Pelo Olhar de Chrissie
52 O casamento dos Taylor
Acordamos um pouco mais cedo naquele sábado de Abril de 1976, extremamente animados e ansiosos com os eventos da noite.
Depois do café da manhã, deixei Brian revisando seu cronograma da cerimônia enquanto relia minha velha cópia de "Um Estudo em Vermelho" vinda direto da minha adolescência. E assim, mesmo ocupados e concentrados, em silêncio fazíamos companhia um ao outro.
Roger tinha feito questão de não ter um casamento tradicional, mas mesmo assim, que tivesse os elementos principais da cerimônia, para agradar sua noiva. Dominique, como a maioria das meninas, sonhava com o dia do seu casamento, e por um tempo, até chegou a acreditar que não fosse acontecer, e agora que tinha achado o homem da sua vida, só queria que tudo corresse bem.
A ideia mais romântica que o noivo teve foi realizar a cerimônia em Hyde Park, o lugar em que ele e a amada tinham se conhecido. Mesmo eles não se dando tão bem no começo, o lugar tinha um significado especial para Dominique e Roger. Uma cerimônia de dia chamaria a atenção de curiosos indesejados e principalmente dos temidos fãs sem noção, por isso o casamento seria feito à noite, num lugar mais isolado do parque.
Outra coisa inusitada foi Roger dispensar um ministro religioso ou juiz de paz, escolhendo Brian para conduzir a cerimônia. A ideia pegou meu marido de surpresa, mas logo depois ele achou que seria legal. Melhor do que ser padrinho, Brian ia se certificar que seu melhor amigo rebelde e teimoso estava realmente se casando.
Dominique apenas recomendou que as palavras que Brian usassem fossem solenes e românticas. Meu marido atendeu à esse pedido da noiva, e agora na manhã do grande dia, colocava os últimos detalhes em seu discurso.
—É, acho que é isso — anunciou Brian depois de ler e reler seus escritos — pode dar uma olhada, Chrissie? Quero saber o que acha...
—Claro, meu amor — deixei meu livro de lado e peguei as anotações dele.
Espremi os olhos pra ler aquela letrinha miúda e corrida, o terror de qualquer professora, mas como era bem treinada nisso, e conhecia bem a letra de Brian, consegui decifrar o que ele quis dizer. Eu sorri em algumas partes e ri em outras. Mas no fim, me emocionei. É, não podia esquecer de levar um lenço porque na hora da cerimônia com certeza eu ia chorar.
—Está tão... — fiz um suspense de propósito — você! E eu amei como falou do Roger e da Domi.
—Não tá formal demais? — Brian ainda tinha dúvida — porque eu sei que o Rog quer uma coisa mais descontraída, mas pelo amor de Deus, é um casamento, tem que ter seriedade, é um compromisso pra vida toda e não posso fazer isso de um jeito esculhambado.
—Tem toda razão, Bri — ri um pouquinho da maneira como ele se exaltou pra defender sua escrita — e pra mim está perfeitamente equilibrado, você vai conseguir agradar os dois.
—É o que eu espero — ele acabou relaxando.
Às 19:30, estávamos todos no local marcado, o céu estava quase totalmente escuro e as estrelas eram o enfeite perfeito para a noite. Havia um tapete branco para a entrada de Dominique, ao longo do caminho, tochas acesas estavam posicionadas, cadeiras enfileiradas dos dois lados do tapete, uma pequena mesa onde Brian falaria com os noivos e acima dele um portal florido.
Os pais de Roger, Winifred e Michael já estavam ali, junto com a irmã dele, Clare. Tínhamos conhecido os Taylor alguns dias antes.
Ainda faltava meia hora para a horário marcado da cerimônia, mas Roger começou a ficar ansioso sem ter sinal de sua noiva.
—Acha que tá tudo bem com ela? — perguntou ele pra mim, preocupado — você ao menos falou com ela hoje? Como é que ela tava? Nenhum sinal de ela desistir, né?
John riu do estado do amigo, enquanto eu, Mary e Veronica nos comovemos, já Freddie estava incrédulo diante de tamanho desespero, Brian apenas deu um sorriso discreto.
—Ela não vai a lugar nenhum a não ser pra cá, Rog, eu garanto — disse ao noivo com convicção — ela realmente ama você, e eu espero que você a ame pra sempre da mesma forma.
—Eu vou, é claro que eu vou — Roger me prometeu, transbordando sinceridade.
Notar o quanto ele tinha certeza do que estava fazendo aqueceu meu coração. Para aliviar a tensão do noivo e a nossa espera, Dominique chegou, sozinha, mas confiante e deslumbrante, como ela sempre era, e em seus lábios carregava um sorriso que não podia ser contido.
Dei uma olhada rápida para Roger, ele estava encantado, se esforçando pra acreditar que Dominique era real.
—Vai lá buscar ela — sussurrei pra ele, com medo de que esquecesse.
Roger assentiu, e foi até ela, com passos decididos e firmes. Vi eles trocando um rápido oi, mas ele estava tão emocionado que acabou beijando a noiva antes da hora.
—Rog, isso é no final! — gritou Freddie pra ele, o que fez os convidados rirem.
Os noivos então retomaram sua caminhada até o altar.
—Bom... — Brian deu um sorriso nervoso, se preparando para começar — boa noite a todos! Falo em nome de Roger e Dominique que é um prazer recebê-los nessa hora e nesse lugar para vermos esses nossos dois amigos, que tanto amamos, se unirem em casamento. Devem estar se perguntando, porque se casar em Hyde Park. Bom, esse lugar é onde o amor de Dominique e Roger nasceu, de forma inusitada, confesso, envolvendo bombinhas e chicletes, mas aqui estamos nós. Não haveria melhor lugar para se celebrar essa união.
Roger Taylor, Roger Meddows Taylor, meu velho amigo, que sempre me deu dor de cabeça, mas nunca me negou um ombro amigo quando eu precisei, hoje você faz a escolha de tornar Dominique sua esposa, quem você irá amar e cuidar para sempre?
—Sim! — respondeu Roger em alto e bom som.
—Dominique Beyrand — retomou Brian — a sensata e sábia Domi, a garota das pegadinhas, nossa irmã de coração, hoje você faz a escolha de tornar Roger seu marido, quem você irá amar e cuidar para sempre?
—Sim — ela olhou para Roger.
—Diante disso — Brian voltou a falar — mostrando que realmente se tornam cônjuge um do outro, peço que declarem seu amor um ao outro nesse momento. Dominique, primeiro.
—Roger... — ela suspirou — eu achava que você era um completo babaca quando te conheci, mas ainda bem que eu vi seu verdadeiro eu, carinhoso, atencioso, sensível, que me faz acreditar ser a única garota do mundo pra você. E desde que estamos juntos, essa sensação nunca foi embora, porque é verdade. Eu te amo de todo coração, mesmo sendo tão bobo às vezes, e eu prometo continuar te amando.
Nós batemos palmas diante das palavras de Dominique, e tive que pegar o lenço pra enxugar as lágrimas que já apareciam.
—Roger, sua vez — continuou Brian.
—Dominique, eu nunca achei que fosse te encontrar — a voz de Taylor estava cheia de emoção — porque você é tão única, tão especial, como ninguém que eu tenha encontrado antes. Não sei se você me considera feito pra você, mas eu tenho certeza que você foi feita pra mim, porque sem você eu estaria perdido, e por sua causa, me esforço pra ser melhor, pra estar à sua altura todos os dias. Muito obrigado por me escolher pra ser seu marido, é um privilégio! Je t'aime!
—Je t'aime Rog... — suspirou Dominique em resposta.
Chorei mais um pouco por Roger ter pensado em dizer "eu te amo" na língua materna de sua amada. Aquilo foi muito lindo!
—Bem, diante disso, pelo poder investido em mim temporariamente pelo governo de Sua Majestade, eu declaro Roger e Dominique casados! — falou Brian entusiasmado — Agora sim é hora de beijar a noiva, Rog!
E foi o que ele fez sem esperar um segundo a mais. Foi um beijo tão demorado, mas tão sincero que fez com que os convidados aplaudissem de pé. Junto com o beijo, fogos de artifício iluminaram o céu sobre nós, outro exagero do noivo para o casamento.
—Uau! — Dominique riu impressionada ao admirar os fogos.
—Fiz igual o que você fez no dia que nos conhecemos — explicou Roger — mas as minhas bombinhas são de outro tipo...
—Você é impossível! — ela balançou a cabeça.
Roger envolveu a esposa em seus braços, para admirar os fogos mais um pouco, antes que o sr. e a sra. Taylor continuassem comemorando na festa que logo após aconteceria em sua nova casa.
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