Pelo Olhar de Chrissie
53 Antes de uma grande viagem
A primeira festa que foi feita na casa dos Taylor em Surrey foi para comemorar o casamento dos donos dela. Dessa vez, diferente do último casamento em que estávamos juntos, os meninos fizeram questão de tocar algumas das nossas músicas preferidas do Queen, que não eram necessariamente as mais famosas.
Antes de se juntar aos companheiros, John entregou Bobby a Veronica, o que fez o menininho chorar querendo ficar bem onde estava. Mas quando seu pai e os amigos dele começaram a tocar, Robert ficou vidrado na música, prestando atenção a cada vibração que os instrumentos produziam juntos, chegando a dar umas risadinhas fofas durante algumas partes das canções. John ao ver aquilo, sorria de volta para o seu filhinho.
Tudo continuou familiarmente amigável até os meninos sugerirem a Roger tocar "I'm in love in my car". O marido de Dominique ficou tão empolgado que não percebeu que o pedido de Brian, Freddie e John era pura brincadeira. Dominique estava sentada comigo e as meninas quando reconheceu as primeiras notas da bendita música de carro.
—Licença, já volto — ela avisou pra nós e começamos a rir, já sabendo o motivo pra ela sair da mesa.
À distância, percebi ela cochichar ao ouvido de Roger, ele fez uma careta, mas entendeu o recado, falando alguma coisa para os meninos e logo os quatro começaram a tocar "Modern Times Rock'n'Roll."
—Ainda bem que essa música não me faz me arrepender de ter casado com ele — confessou a sra. Taylor pra nós quando voltou à mesa.
Depois do casamento, os meninos continuaram trabalhando, terminando o novo álbum, que ficou com o nome de "A Day at the Races". Minhas canções favoritas dele eram "Long Away", "You and I", "Good Old Fashioned Lover Boy" e é claro a emocionante "Somebody to Love".
John Reid teve uma ideia inusitada para promover o álbum. Iríamos pra um hipódromo num dos eventos pra divulgar "A Day at the Races", ver uma corrida de forma exclusiva com direito a assentos especiais. Um hipódromo era outro lugar que nunca imaginei estar. Sempre achava que era um lugar pra gente rica e principalmente esnobe, que ia lá passar seu tempo e gastar seu dinheiro quase infinito com apostas. Mas quando me avisaram que iríamos assistir uma corrida e tudo mais, tive que mudar o que pensava sobre isso.
Ver uma corrida de cavalos, para poucas pessoas, mas mesmo assim, uma minoria existente, era acompanhar algo que eles amavam, assim como fãs de outros esportes assistiam uma partida, ou como eu vibrava em frente à TV a cada novo episódio de Doctor Who. Talvez comparar a televisão com esporte fosse muito destoante, mas na minha cabeça, a sensação de acompanhar algo que se amava era a mesma. Então foi com esse pensamento que me senti melhor para comparecer ao evento.
Eu fui simples, mas elegante, minha melhor blusa, minha melhor saia, os sapatos baixos, e um dos meus cardigãs pra completar. Eu e Brian dividíamos o espelho do quarto checando nossa imagem. Ele usava o conjunto preto do blazer com detalhes brancos nas lapelas e a calça social escura, seu cabelo estava cheio e volumoso como sempre,mas havia um pequeno detalhe diferente na sua aparência. Brian tinha deixado a barba crescer, eu desconfiava que era pra evitar ser reconhecido na rua, por mais que nem sempre a estratégia desse certo, mas nunca cheguei a perguntar o motivo. Eu não me importava, pra mim ele era lindo de qualquer jeito.
Encontramos todos no hipódromo, exceto Veronica e Robert já que o bebezinho estava agitado nos últimos dias e ela achou melhor ficar em casa. Nos aprontamos pra ver a corrida, e mesmo contra os meus conselhos, os meninos apostaram, e todos no mesmo cavalo, o que foi ruim porque ele perdeu a corrida ficando em quarto lugar.
No fim, acabei gostando daquele dia diferente, que mesmo sendo um dia de trabalho, acabou sendo muito divertido. Eu comecei a gostar do meu trabalho, não só pela companhia de Brian, e dos meninos, mas porque eu via que levava jeito pra coisa, eu conseguia contornar os imprevistos dos eventos, e me comunicar muito bem, quando a impressa e a mídia se direcionavam a mim, o que era surpreendente. Fiquei orgulhosa de mim mesma.
E precisei de ainda mais confiança de que era capaz de realizar meu trabalho quando recebemos a proposta do Queen ser uma das atrações do festival de música brasileiro chamado Rock in Rio. Achei uma iniciativa legal fazerem um festival assim, proporcionando aos fãs de um lugar tão distante ter contato com seus artistas preferidos. O problema era que eu não sabia muito sobre o Brasil, e nem imaginava que o Queen tinha fãs brasileiros, era impressionante o alcance que a música dos meninos tinham.
Mas então, concentrada em fazer o meu melhor, comecei a estudar mais sobre o país, sua cultura e principalmente sua língua. Queria ter certeza de que saberíamos nos comunicar caso algum imprevisto acontecesse. Fiquei na cola de John Reid pra saber o que ele tinha planejado para a rotina dos meninos nos dias que ficaríamos no Rio de Janeiro.
Eu estava copiando e revisando os horários e o cronograma que Reid tinha me passado, em um cantinho no seu escritório, quando senti alguém me observando. Só podia ter sido alguém muito sorrateiro. Se fosse um dos meninos, teria reconhecido sem mesmo olhar, porque à essa altura conhecia John, Roger, Freddie e principalmente Brian como a palma da minha mão. Então por isso, sabia que não era nenhum dos quatro.
—Não sabia que estava aqui, Chrissie — disse Paul Prenter, me assustando um pouco, confirmando minha suspeita de quem estava à minha espreita.
—Eu já estou indo embora, só estou terminando isso aqui — respondi por educação, eu evitava conversar com Paul por não confiar muito nele.
—A viagem pro Rio, né? — ele olhou pros meus papeis sem minha permissão — você vai junto?
—Sim — confirmei, não acreditando que ele estava me perguntando isso, já que acompanhar os meninos fazia parte do meu trabalho.
—Mas é tão longe, e você nunca saiu do Reino Unido, não acho que devia ir — ele foi dando sua opinião sem eu ter perguntado.
—Se importa de dizer o porquê? — já estava perdendo a paciência, mas ele pareceu se divertir com a minha pergunta.
—Ora, você não tem experiências com viagens internacionais, a única coisa que fez antes disso foi dar aulas, e aqui não tem nenhuma criança — Prenter usou um tom de voz sarcástico ao falar — e olha, todo mundo sabe que Brian te deu esse emprego por pena...
Parte de mim quis chorar, mas eu estava mais indignada do que magoada, então tomei coragem pra responder à altura.
—Eu sei muito bem das minhas limitações, sr. Prenter, mas eu sei que consigo superá-las, e eu tenho conseguido — olhei séria e brava pra ele não deixando sua altura um pouco mais alta do que a minha me intimidar — se me lembro bem você não é meu patrão, John Reid poderia muito bem me demitir, mesmo sem o consentimento de Brian, mas acho que por ter feito um bom trabalho, isso não vai acontecer, você vai ter que aturar minha companhia, quer queira quer não!
Paul me olhou incrédulo e debochado, mas mantive o olhar firme sobre ele. Antes que o assistente dissesse mais alguma coisa, Brian chegou bem na hora. O olhar que trocou comigo perguntou silenciosamente se eu estava bem.
—Chrissie, já terminou? — perguntou meu marido pra mim, instintivamente me puxando pra perto dele — estava te esperando pra irmos embora.
—Sim, por hoje terminei — continuei encarando Paul.
—Olha Paul — Brian se virou pra ele sem hesitar, percebendo que eu estava agitada por causa de Prenter — eu sei que você fez alguma coisa que perturbou minha esposa, não precisa nem querer disfarçar, espero que isso não se repita mais, entendeu?
—Entendi — Paul se encolheu, sabendo que era burrice discutir com um dos membros da banda.
Saí com Brian em silêncio, agradecida por eu ter conseguido me impor e ele ter me defendido. Conversaríamos sobre isso depois, agora se preocupar com a viagem pro Brasil era mais importante.
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