Pelo Olhar de Chrissie

6 Ligações Complicadas


A van parou em frente ao prédio dos dormitórios. Tim ainda estava dormindo um sono pesado, coitado, a noite o tinha cansado mais do que nós, o que era estranho. Eu tinha hábito de dormir cedo, e meu sono já tinha chegado, só não tinha me rendido a ele ainda.

Eu fiquei esperando um pouco, ainda sentada ao lado de Brian, percebi que ele começou a bater os polegares no volante, sinal de impaciência ou quem sabe nervosismo. Então abri a porta, mas ainda não tinha descido. Suspirei.

—Obrigada por tudo-falei pra ele-foi muito legal a noite, por causa do show e da pizza. Eu só queria falar tchau pro Tim. Diz pra ele que eu disse tchau.

—Digo sim-Brian prometeu-pode deixar, eu que agradeço pelas suas perguntas, foi bem legal poder conversar com você sobre essas coisas que eu gosto...

—Ah é, também sinto falta disso-senti que ficaria ali conversando por horas e horas, mas já não tínhamos mais tempo pra isso hoje, foi então que tive uma ideia-é... sabe quando vão se apresentar aqui de novo?

—Não sei, depende da agenda da Universidade-ele me contou.

—Bom se puder, e não for muito incômodo pra você, pode me avisar quando vai ser o próximo show, ou aqui perto, eu queria muito ver vocês de novo-eu pedi, sem saber o que esperar.

—Isso é... Puxa vida, é muita consideração sua — ele riu contente e depois deu um sorriso mais contido-olha, o número que Roger tem da Jo é o mesmo que você usa não é?

Assenti confirmando.

—Então pego com ele e te aviso quando viermos pra cá, tá legal?-Brian combinou comigo.

—Tudo bem, pode ser — minhas palavras eram simples, mas acho que ele percebeu que eu fiquei contente pelo meu enorme sorriso-acho que agora eu tenho que ir mesmo.

—É, nós também — ele concordou-Então boa noite Chrissie.

—Boa noite — eu desci e acenei.

Enquanto ia para o meu quarto nem prestei atenção quando Jo e Roger se despediram, mas a vi chegando e se preparando para dormir. Eu já tinha me deitado aquela hora, e logo o sono me fez adormecer, mas não sem antes pensar que aquela tinha sido uma noite muito agradável.

Bom, depois dessa noite minha vida continuou, eu estava focada em terminar o semestre com boas notas, já que era o penúltimo ano do meu curso. E assim, os meses foram se passando. Eu mantinha um certo contato com Brian, que ligava às vezes só pra ver como eu estava, e assim eu também ficava sabendo como estava indo o Smile, sem ser por Joanne. Outra coisa que continuou igual foram as ligações quase sem fim de Jo e Roger, só que essas ligações tiveram uma ligeira mudança no percurso.

Eu geralmente saía do quarto quando eles começavam a conversar, e dava uma volta na biblioteca ou na cafeteria, e quando voltava, eles ainda estavam conversando, tranquilamente, na maioria das vezes. Mas uma vez eu ouvi minha amiga extremamente brava ao telefone:

—Se eu não te ligasse você não ia me ligar, não, não me venha com desculpas, eu não quero saber, antes você arrumava tempo pra mim, por que agora não faz mais isso, hein?-Joanne estava aos berros.

Eu sentia constrangimento ao presenciar a cena e não sabia o que fazer para ajudá-la.

—Ótimo, vai, vai lá com pro seu show com as menininhas gritando seu nome e me deixa em paz!-nisso ela bateu o telefone com força.

Fiquei com medo de levarmos uma bronca do reitor por destruir o patrimônio da universidade. Eu olhei pra ela, tentando confortá-la. O telefone tocou outra vez. Não sabia se devia atender ou não. Me levantei pra fazer isso e Jo não disse nada.

—Alô?-hesitei ao atender.

—Chrissie-a voz de Brian também estava hesitante do outro lado da linha-faz um tempo que estou tentando ligar e só dá ocupado, tá tudo bem?

—Oi, Brian, tá, quer dizer...-eu não sabia o que falar com Jo ali na minha frente ainda nervosa-eu tô bem e você?

A minha amiga me olhou com cara de choro e deu de ombros, como se dissesse "pode contar se quiser, pelo menos ele é um cara legal". E depois Jo desabou em sua cama, tentando abafar o choro.

—Comigo tá tudo bem-reafirmei.

—É a Jo, não é?-ele deduziu-eu imaginei que Roger tinha aprontado alguma coisa. Se eu puder ajudar de algum jeito, pode contar comigo.

—Obrigada, acho que consigo lidar bem com isso, não é a primeira vez que passo por isso, sabe?-eu estava constrangida com toda a situação-mas você me ligou por outro motivo, não foi?

—Ah sim, bom é que vamos tocar aí de novo, e você disse pra te avisar quando seria o nosso próximo show mais perto de vocês, e vamos ficar uns fins de semana perto de Leeds, tocando em outros lugares aí perto também, se você puder ir aos shows...-ele foi me explicando.

—Claro, claro, eu quero muito ir e eu vou-olhei pra Jo de relance-se não acontecer nenhum imprevisto.

—Entendi, vá lá cuidar da sua amiga e Roger vai se ver comigo-Brian garantiu-me retorna quando puder?

—Sim, retorno-eu assenti e então disse mais baixinho-obrigada por entender.

—De nada, tchau-ele desligou.

Eu então me aproximei de Jo para ver como ela estava.

—Quer me contar o que houve?-tentei.

—Eu não sei o que aconteceu Chrissie-ela se virou pra mim e fungou, passando uma mão no rosto e debaixo do nariz-Roger de repente parou de ligar pra mim do jeito que ele fazia antes. Nós não nos falamos mais todo dia...

—Eu percebi-confessei-já faz tempo que isso tem acontecido. Mas o que ele te fala, sobre o porquê de não ligar?

—Disse que estão fazendo mais shows do que antes e ele precisa ensaiar mais, só por isso, mas tenho impressão de que se ele quisesse ia arranjar tempo pra falar comigo-ela me explicou.

—Nisso você tem razão-eu tive que concordar, já tomando as dores dela pra mim-um relacionamento assim não dá muito certo...

—Acha que eu deveria terminar com ele?-pela voz, Joanne mostrava seu coração partido, desesperado por um conselho.

—Converse com ele primeiro, veja o que ele diz sobre ele estar ausente, e tentem chegar a um acordo, como dois adultos civilizados-eu disse no meu tom mais compreensivo.

—E olha que você tentou me avisar, tentou me fazer pensar se ele era mesmo um cara legal pra se namorar... — Joanne lamentou.

—Jo, não é o fim do mundo, e nem pense de um jeito tão trágico assim — ponderei, tentando levá-la à razão — você está chateada porque ele estava irritado, mas se vocês conversarem com calma, tenho certeza que vai ficar tudo bem.

—Será? — ela duvidou.

—Tem que ter um pouquinho de esperança — tentei de novo — olha, se precisar de mim, pra alguma coisa, é só falar...

—Sorvete de flocos com o máximo de pedacinhos de chocolate possível — ela murmurou com a voz abafada pelo travesseiro, mas eu entendi.

Apenas assenti e saí, não era a primeira vez que fazia isso, e eu detestava estar certa sobre os namorados de Jo, já que isso significava que ela ia sofrer com términos ruins. Ainda tinha esperança de que não fosse esse o caso de Roger.