Quando voltei da minha missão de ajudar minha amiga a superar uma briga com o namorado, Jo parecia um pouco melhor.

—Você salvou meu dia-ela conseguiu sorrir pra mim-não sei o que faria sem você.

—Deixa disso, isso é muito exagero da sua parte-eu me sentei do lado dela.

—Sabe que eu exagerei foi na briga, sabe?-Jo admitiu-eu entendo que o Roger esteja ocupado com a banda, ele ama essa parte da vida dele, e eu amo que ele esteja feliz por tocar, acho que a ansiedade por falar logo com ele não me deixou ver o lado dele da situação.

—Hum... isso foi bem maduro da sua parte-elogiei-agora tudo que tem que fazer é falar isso pro Roger, certo?

—Eu vou sim-Jo assentiu-mas não antes de tomar o sorvete, antes que derreta, e também vou usar esse tempo pra reorganizar meus pensamentos.

Fiquei feliz de ver que aos pouquinhos ela estava voltando ao normal.

—Agora vamos falar de você-ela propôs.

—De mim? Falar o que de mim? Você nunca me acha interessante-dei de ombros e engoli uma colherada cheia de sorvete.

—Você é interessante, é uma das pessoas mais inteligentes e meigas que eu conheço-Jo se justificou.

—Tá legal, já trouxe seu sorvete, o que mais você quer?-desconfiei.

—Ora, nada-ela deu um sorrisinho travesso-tá bom, vou falar, o que Brian queria com você?

—Ah isso?-pensei que ela perguntaria sobre outra coisa-ele me avisou que vão se apresentar aqui esse fim de semana, e aqui perto nos dias seguintes, e...

Foi minha vez de criar um certo suspense.

—O que?-ela deu um tapinha na minha perna, ansiosa pra que eu contasse.

—Me prometeu que ia dar um jeito no Roger se tivesse te magoado-eu ri.

—Bom, acho que agora não precisa mais-ela decidiu-E você vai ao show?

—Eu... bom se você não melhorasse eu nem ia te falar sobre show nenhum-admiti-mas já que está melhor, você vai?

—É claro que vou, preciso dar apoio ao meu namorado-Jo resolveu.

—Ai, ai, ai, Joanne Josephine Morris-eu balancei a cabeça-tem horas que não te entendo.

—Eu só fui impulsiva na briga e percebi com a mesma rapidez que fui boba-Ela me explicou.

—Está bem, só vamos deixar essa coisa de briga pra lá e nos concentrar em coisas mais legais, como o show-eu aceitei.

—Falou e disse Christine Mullen-ela ergueu a mão esperando que eu completasse o "toca aqui", o que eu fiz rindo.

Assim que terminamos o sorvete, deixei Jo sozinha pra continuar lendo meu livro favorito do Júlio Verne, "Volta ao Mundo em 80 dias", sem antes perceber que ela ia mesmo ligar para Roger. O relacionamento deles era complicado, cheio de idas e vindas, altos e baixos, mas no fim eles realmente se gostavam, o suficiente pra ignorar o que não dava certo e se esforçar por causa das coisas boas.

Durante a semana, nos preparamos para atender ao show do Smile que gentilmente Brian nos tinha convidado a ir. Dessa vez os meninos se apresentariam em um bar chamado The Kensington, outro lugar que os universitários costumavam frequentar e eu não. Como disse, não me sentia bem em lugares apertados, mas pelo Smile faria um esforço. Eles eram realmente músicos promissores e talentosos, que se um dia, dessem sorte, poderiam fazer muito sucesso. Se conseguiram fazer uma introvertida como eu sair de casa pra ouvir sua música, que era algo que me fazia bem, não era difícil agradar as pessoas que gostavam de sair e estarem no meio da multidão.

Mais uma vez, ao chegar lá, já dei uma rápida olhada no local, mais uma vez procurando um lugar discreto para me sentar. Acho que dessa vez Jo me faria companhia ficando ao meu lado. Eu me sentei no lugar que julguei ser o melhor, e Jo parou ao meu lado, meio inquieta.

—Tá tudo bem? — perguntei.

—Tá, é que, os meninos não chegaram ainda — ela constatou.

—Eu nem tinha reparado — falei — às vezes ainda estão a caminho, e, Jo, se não se importa de eu perguntar, está tudo bem entre você e Roger, de verdade?

—Ah tá sim, eu te garanto Chrissie — ela assentiu sorrindo — eu segui seu conselho e ele me entendeu, eu não vou mais ficar ansiosa ou paranoica só porque ele demora pra me ligar.

—E o que foi que ele disse? — eu precisava saber como ele tinha reagido, mesmo me achando um tanto curiosa.

—Se desculpou por ter me chamado de controladora — ela contou — e por ter sido meio relaxado comigo nos últimos meses.

—Então ele reconheceu onde errou? — pus uma mão no queixo, pensativa — não parece que ele seria capaz de fazer uma coisa dessas...

—Você ainda acha que ele é ruim pra mim? — Jo me questionou, mas não soava magoada.

—Não é isso, eu só acho vocês... — pensei na palavra incompatíveis, mas me contive — são tão diferentes...

—Mas nos damos bem no final, né? — ela deu de ombros, um tanto descontraída.

—É... — tive que concordar, mas por dentro estava descordando.

Foi então que o Smile surgiu no palco trazendo seus instrumentos e deixando tudo pronto para sua apresentação. Tim foi o primeiro a nos ver, e acenou de longe. ele apontou para os companheiros, mostrando que estávamos ali. Roger hesitou um pouco antes de decidir o que fazer, acabou dando um dos seus sorrisos travessos, o que foi suficiente pra Jo, que sorriu de volta. Era difícil deixar a vida dos dois pra lá, já que Jo era minha amiga e eu me preocupava com ela. Decidi não me importar mais com o namoro deles, já que minha amiga era grandinha o suficiente pra se cuidar, e, eu estaria aqui se ela precisasse de sorvete e conselhos. Brian acenou de longe e então fez um gesto pra que eu fosse até lá. Estremeci e fiquei em dúvida se era pra mim mesmo aquilo.

—Brian está te chamando, anda logo, vai lá — Jo decifrou pra mim.

—Ok... — virei a cabeça meio confusa mas me levantei e fui até lá.

—Oi, desculpa te tirar do seu lugar — ele me cumprimentou um tanto envergonhado.

—Não, não tem problema, é bom falar com vocês antes do show, temos um pouco de tempo pra isso — eu ponderei — como vocês estão?

—Bem, bem — ele assentiu e logo depois ficou em silêncio.

Eu não sabia mais o que dizer. Aquilo era estranho, nós conversávamos bastante ao telefone sem aqueles silêncios constrangedores, mas aqui agora, pessoalmente, não sabia o que falar.

—Vocês ainda tem que ajeitar as coisas, né? — eu chutei.

—É, é, ainda temos que afinar as cordas e vou dar uma mãozinha pro Rog com a bateria — ele me explicou, aliviado por ter algo que falar e continuarmos a conversar.

—Claro, sobre o Roger, você não fez nada não, né? — eu tinha que trazer aquele assunto de novo.

—Ah só um sermão básico — Brian fez uma careta mostrando que estava orgulhoso da própria atitude — só dei um toque pra ele parar de vacilar, sabe?

—Obrigada, quer dizer, a Jo ficou bem mal, mas tá bem melhor agora, acho que isso também tem a ver com você — eu me atrapalhei e percebi que traía a mim mesma na promessa de deixar o relacionamento dos dois pra lá — bom vou parar de fazer você perder tempo. Boa sorte no show, Bri, Brian, desculpa te chamei de Bri.

—Não tem nenhum problema, é meu apelido mesmo — ele deu de ombros e sorriu como se estivesse me achando fofa.

—É que nos conhecemos há pouco tempo, se for ver, e um apelido é informal demais, mas... -eu ri meio nervosa, achando que aquilo tinha sido algo idiota a se dizer.

—Pode me chamar de Bri, Chrissie — ele olhou bem nos meus olhos ao falar — aliás, eu tenho te chamado pelo seu apelido desde que te conheço.

—É porque quase ninguém me chama de Christine — eu justifiquei.

—Se precisa da minha autorização oficial, pode me chamar de Bri — ele brincou.

—Tá bem — eu ri — então, boa sorte... Bri.

Eu sorri e, por um breve impulso, me ergui na ponta dos pés para alcançar sua bochecha. ele se abaixou até minha altura, entendendo o que eu queria fazer. Me apoiei no seu ombro direito e beijei sua bochecha.

—Obrigado... — ele disse, corando — acho que é um beijo de boa sorte.

—Pode ser... — eu meio que concordei, rindo.

Finalmente o deixei para terminar de arrumar tudo para o show que logo ia começar.