Eu continuava estudando, me esforçando ainda mais pra manter minhas notas impecáveis, e também ralando muito em cada novo trabalho que aparecia. Eu já estava acostumada com esse ritmo e as exigências da faculdade, mas tudo ficou mais difícil e mais exigente no último ano, acho que era porque agora faltava muito pouco pra terminarmos e estarmos livres de toda aquela loucura.

Mesmo eu tendo minha própria rotina corrida, participava da rotina de Brian e ele da minha. Ele ainda estava se desdobrando com a Astrofísica, a banda e o trabalho de professor. Talvez eu devesse acrescentar algo mais nessa lista: Freddie.

Freddie era tão determinado e cabeça dura que ele dava trabalho a Brian num novo nível, que não se comparava ao mesmo trabalho que a banda em si dava.

Quando os meninos terminavam os ensaios, geralmente iam pra minha casa ou eu ia pro apartamento de Roger encontra-los lá. Depois de duas semanas ensaiando com Freddie, a reunião habitual da turma foi ficando de lado.

Houve uma noite em particular em que quase não reconheci meu namorado. Brian abriu a porta de uma vez, e a deixou bater com força, foi sem querer, mas sua raiva acabou provocando isso. Ele passou o corredor pisando duro, murmurando alguma coisa, ele guardou a Red Special no quarto, e depois voltou pra sala, gritando entre os dentes. Achei que ele não tinha me notado, sentada no sofá. Ficou de pé por um momento, deu uns passos pra frente e uns pra trás. Finalmente colocou as mãos na cintura e suspirou, exageradamente e profundamente. É, Bri estava guardando muita raiva dentro de si.

—Oh... — ele piscou pra mim, como se não soubesse como tinha parado ali.

Por um momento voltou a ser o meu velho Brian.

—Oi? — tentei, ainda confusa com seu comportamento — tá tudo bem Bri?

—Ai desculpa por isso, te assustei não foi? — ele sentou ao meu lado, cansado e frustrado — o ensaio não foi lá essas coisas... Não queria te aborrecer com meus problemas.

—Não Bri, não é incômodo nenhum — senti pena dele e beijei sua bochecha — você é meu namorado, o que faz dos seus problemas um pouco meus também. Então me conta, por favor, senão você vai explodir.

—É, eu vou mesmo — ele fechou os olhos e deu outro longo suspiro — Freddie... Freddie é...

—Exigente? — sugeri.

—Insuportável! — ele gritou e eu pulei do meu assento involuntariamente — desculpa, te assustei, mas é isso, sabe, ele muda as letras das minhas músicas, e não gosta do jeito que tocamos as músicas dele, e o pior de tudo, é ter brigado com os dois baixistas que ensaiaram com a gente. Desse jeito nunca vamos arranjar um baixista e a banda não está completa sem um. Cara, eu achei que ele queria fazer parte de uma banda, mas parece que ele não colabora pra isso porque parece que faz de tudo pra gente não se dar bem nem acertar música nenhuma...

Engoli em seco, perplexa. Não sabia o que responder a nada disso. Freddie tinha me parecido ser arrogante e cheio de auto-confiança, mas por dentro tinha um coração carente, não parecia tanto com o que Brian tinha falado agora.

—Você... — tentei — chegou a conversar com ele sobre isso? O que o Roger pensa?

—Ele acha o mesmo que eu, e chegou a discutir com o Freddie, por isso não falei nada — Bri me explicou.

—Bom, apesar de tudo ainda te resta um pouco de paciência — sorri meio sem graça — talvez se tentasse entender um pouco o lado do Freddie, não sei, talvez tenha algo agradável por trás de toda arrogância... pelo menos, eu percebi que ele não é totalmente assim.

—Eu tô tentando Chrissie — Brian parecia mais calmo agora — de verdade, mas mais pela banda, talvez um pouco porque ele é um bom cantor...

—Já é um começo, meu amor — eu o abracei, ele realmente estava precisando, pois me segurou firme e deitou a cabeça no meu ombro. Acariciei seu cabelo, meu jeito de falar que ficaria tudo bem.

O telefone então tocou, nos separando um do outro por um breve momento.

—Quer que eu atendo? — perguntei e ele assentiu — alô?

—Alô, eu queria falar com Brian May, por favor, ele está? — ouvi um rapaz falar do outro lado da linha.

—Ele está, mas não sei se pode atender — justifiquei — espera só um momentinho.

—Ok — a voz no telefone respondeu.

—É pra você — expliquei a Bri — quer que eu peça pra ligar depois?

—Não, não — meu namorado se decidiu — pode deixar que eu atendo.

Brian se levantou e tomou o telefone das minhas mãos.

—Oi, é o Brian, no que posso ajudar? — ele disse, e conforme foi conversando, sua expressão foi melhorando — sabe onde fica o The Kensington? Me encontra lá daqui uma hora e conversamos mais, pode ser? Tudo bem, combinado, tchau, até daqui a pouco.

Ele desligou e fiquei curiosa.

—O que foi? — perguntei, ansiosa.

—Era um baixista que viu meu anúncio pra um teste — Brian sorriu mais animado — vou avisar o Roger pra irmos encontrar com ele.

—Tomara que deem sorte com esse — desejei.

—Deus te ouça, meu amor — ele me beijou se despedindo — eu vou lá e já volto, tchau!

—Tchau! — disse e o vi sair animado.

Pelo menos sua raiva de Freddie tinha passado e agora Brian tinha voltado à sua calma de sempre.

Quando Bri voltou do encontro com o baixista, chegou em casa na companhia de Roger, mas nada de Freddie com eles.

—Smile ganhou mais um membro ou não? — questionei os meninos.

—Isso depende do Freddie — Roger revirou os olhos.

—E vermos o John tocar — acrescentou Brian — mas ele tem experiência.

—Então o nome dele é John? — finalmente soube.

—John Deacon — Roger completou — mas talvez fosse melhor Deacon John...

—E o que acharam do John? — continuei — menos temperamental que o Freddie?

—Ah isso sim, com certeza — o baterista enfatizou.

—Ele parece ser um cara legal — Brian deu sua impressão — pelo menos foi o que eu achei, não foi, Rog?

—Também achei — nosso amigo concordou.

Encontrarem John bem quando estavam quase perdendo as estribeiras com Freddie, renovou os ânimos de Roger e Brian.

Freddie ficou sabendo que eles conversaram com John e os três concordaram em marcar um teste com o baixista. No final da tarde do dia do teste, recebi uma visita em casa.

—Oi, em que posso ajudar? — atendi depois de ouvir baterem na porta.

Me deparei com um jovem um tanto inseguro, tímido como eu, vestido de maneira bem certinha e conservadora, como se para uma entrevista de emprego importante, se não fosse pelo cabelo comprido e o instrumento de cordas dentro do case preso às suas costas. Percebi que já tinha visto ele em algum lugar.

—Oi, eu tô procurando o apartamento do Brian May, ele disse que era aqui, e você deve ser a Chrissie — disse ele — eu sou John Deacon.

—Claro, John, o baixista! — falei apertando sua mão — prazer em conhecê-lo. Entre por favor.

John me seguiu apartamento adentro.

—Brian não chegou ainda, ele esta na escola ainda, mas logo ele chega — expliquei a ausência do meu namorado.

—Ele me falou que se atrasaria um pouco — John disse — eu vou esperar por ele enquanto isso.

—Fique à vontade John — ofereci e ficamos em silêncio por um momento.

Éramos duas pessoas tímidas, e quando duas pessoas tímidas se encontravam, geralmente uma delas conseguia iniciar uma conversa que, as duas pessoas se identificariam e não parariam de falar tão cedo.

—Se importa se eu... — comecei — eu já te vi em algum lugar antes, e não foi em outra banda, porque só vejo os shows do Smile, então talvez você me viu nesse lugar que te vi e lembra de mim, talvez?

—Ah, agora que disse, já te vi em Maria Assumpta, a Universidade de Leeds — John lembrou — minha namorada estuda lá também.

—Ah agora faz sentido! — minha cabeça funcionou — a Veronica, uma das calouras, não é? Eu só a conheço de longe.

—Ela mesma — o baixista assentiu.

Brian então chegou antes que continuássemos nossa conversa.

—Ah oi Chrissie, vi que já conheceu o John- ele disse ao entrar, guardar suas coisas e pegar a Red Special — nos vemos mais tarde, meu amor.

—Tchau e boa sorte no teste, John — me despedi dos meninos.

—Obrigado — devolveu o baixista.

Eu realmente esperava que esses quatro se acertassem e desse tudo certo. Freddie podia ser como um furacão, mas John estava mais para uma brisa. Como fã do Smile, mal podia esperar para vê-los tocando de novo, como banda e como amigos.

Notas finais
Ah gente, sei bem como é essa coisa de discordar dos outros membros da banda, mas enfim, como eu poderia deixar os fãs do Deaky na mão? Aqui está ele! Outra coisa também da vida real a Chrissie e a Veronica realmente estudaram na mesma faculdade, Maria Assumpta Teacher Training College.