Pelo Olhar de Chrissie
17 Fazendo Amizade
Tinha se passado algumas horas depois que John e Brian tinham saído para o teste do mais novo. Eu realmente tinha simpatizado com ele, como Rog e Bri, e pra ser sincera, torcia para que John entrasse pra banda. Desde que conheci Brian e Roger, sabia o quanto o Smile era importante pra eles, e vê-los em apuros por causa da saída de Tim e da chegada de Freddie apertava meu coração também. Outra coisa que me preocupava naquele momento era imaginar as possibilidades de eles saírem do ensaio todos juntos e amigos, ou afastados e magoados por causa de outra briga.
Foi então que para minha grata surpresa, vi os quatro chegando juntos. Brian abriu a porta e os outros três o seguiram. Por instinto ou curiosidade, olhei direto para Freddie. Ele estava relativamente bem, sem sinais claros de raiva, mágoa ou impaciência. Roger e John estavam calmos também. Brian veio me cumprimentar com um beijo enquanto os meninos sentavam-se na sala.
—Oi — sorri para Bri — como foi com o John?
—Ele tá dentro — ele sorriu entusiasmado — passamos umas músicas juntos e olha, eu fiquei surpreso com o que conseguimos fazer hoje.
—É, chegamos a fazer algo quase épico — Freddie comentou da sala, claramente prestando atenção na nossa conversa.
Achei que Brian ia retrucá-lo, trocamos um olhar significativo, olhei de relance para Freddie e depois de volta para o meu namorado. Com o tempo de convivência, eu e Brian tínhamos desenvolvido essa habilidade de conseguir nos entender somente com o olhar. O que entendi da nossa "conversa telepática" era que algo diferente tinha acontecido no ensaio e ele me contaria com mais detalhes depois.
—É o que acontece quando se tem a banda completa, finalmente! — acrescentou Roger soando aliviado.
—Vocês me culpam, mas acreditem quando eu falo que Mike e Barry nunca dariam tão certo tocando com a gente como o Deaky aqui! — Freddie rebateu, orgulhoso de terem escolhido John.
—Deaky? — o baixista não gostou muito disso- sabe, eu não sou muito fã de apelidos...
—Tarde demais — Freddie declarou — é mais legal te chamar de Deaky do que John.
—Acho que aturar apelidos faz parte do trabalho — John aceitou o apelido, dando de ombros, tentando não se importar tanto.
—Sinal de que você realmente entrou pra banda — Roger encorajou John com um tapinha em seu ombro.
—Sem querer interromper garotos — eu me interpus entre eles — mas vão ficar pra jantar e pra assistir algum filme?
—Vocês fazem isso sempre? — perguntou Freddie curioso — porque eu prefiro sair do que ficar em casa, nada contra a casa de vocês, é um apartamento adorável.
—Se fazem isso sempre, prometo nunca sair da banda — murmurou John, eu ouvi e sorri.
Outro membro da banda parecido comigo e com Brian.
—É praticamente uma tradição nossa, pelo menos nos dias de ensaio, mas saímos fora depois dos shows — Roger acrescentou.
—É... Freddie — arrisquei, me aproximando deles — entendo que goste da agitação das ruas e dos bares, mas, eu te faço pessoalmente o convite de ficar com a gente hoje, só hoje sabe, não todos os dias, faça esse sacrifício, pelo bem da banda, por favor...
—Chrissie, se usar esse charme em Brian pode conseguir qualquer coisa dele — foi a resposta de Freddie.
—Isso quer dizer um sim? — fiquei confusa com o que ele quis dizer.
—Sim, sim, conseguiu me convencer — ele ergueu as mãos, rendido — só espero que valha a pena.
—Pode crer que sim — eu apontei pra ele, animada, garantindo que cumpriria minha palavra.
Brian me deu outro olhar, o significado desse variou de "o que você tá fazendo?" a "acho que não é uma má ideia".
—O que vai ser? — Roger perguntou — a pizza de sempre? Gente, já vou avisando pra não brigarem por causa do sabor da pizza.
—Que tal comida de verdade pra variar? — sugeri — posso cozinhar alguma coisa agora, se tiverem paciência.
—Tá aí algo que eu não esperava... — Roger assoviou, surpreso — eu posso esperar.
—Não vou fazer nada mesmo — John deu de ombros.
—Eu já disse que ia ficar — me lembrou Freddie.
—Tudo bem — disse sorrindo e me virei para a cozinha.
—Eu te ajudo, Chrissie — Brian veio atrás de mim.
—Eu sei que foi apressada a minha ideia mas, eu pensei tanto em fazer alguma coisa pra vocês se darem bem... — confessei, quando estávamos a sós.
—Eu vi, eu percebi, é que... — ele hesitou — nossa despensa não está exatamente cheia.
—Eu consigo improvisar alguma coisa — prometi — só me ajuda e faz o que eu disser.
Separei o que consegui achar na geladeira. Ovos, maionese (tomara que não estivesse vencida), batatas, salsa, ketchup... É, aquilo teria que dar pro gasto. Coloquei os ovos pra cozinhar e Brian e eu fomos descascando as batatas. Lá da sala, dava para ouvir os meninos rindo. Sorri, aquilo era um bom sinal.
—Você e Freddie fizeram as pazes? — perguntei.
—Bom, mais ou menos — Brian fez uma careta — nós meio que decidimos não brigar hoje. No fundo, ele queria que desse certo o John tocar com a gente tanto quanto nós. E o John, meu Deus, impressionou a gente, ele é muito bom mesmo, então fui ensinar as músicas pra ele, e Roger e Freddie ficaram conversando enquanto isso. Quando a gente foi tocar, eu não sei, senti uma coisa.... É estranho a palavra que eu queria usar pra descrever isso, porque nós somos tão diferentes, mas, estávamos em harmonia.
—Não tão diferentes... — eu sorri ao observar que Brian tinha o olhar e o sorriso brilhando, amava quando ele ficava assim — vocês quatro tem uma coisinha em comum, que é o que liga vocês, e eu acho que nunca vão perder, que é o amor pela música.
—É... — Brian percebeu — acho que é bem isso, mas Chrissie, eu tenho que te falar uma coisa.
—O que? — eu ri.
—Amei o jeito que você desconcertou o Freddie — ele riu — você enfrentou ele, do seu jeitinho, e foi tão incrível! Você é maravilhosa!
Brian completou o elogio com um beijo exagerado na minha testa.
—Para com isso Brian Harold May! — repreendi num tom de brincadeira — ainda temos que terminar de fazer o jantar.
—Verdade — ele riu baixinho, voltando às batatas.
Demorou mais uns 15 minutos, mas consegui terminar de fazer o que planejei. Ao chamar John, Roger e Freddie para comer, eles vieram correndo. E comeram tudo praticamente na mesma velocidade. Jesus! Esses meninos viviam com fome! (Acho que tocar e cantar dá muita fome). Mas fiquei feliz com a reação deles, se comeram tudo, era um sinal que eu tinha feito um milagre e conseguido cozinhar algo gostoso com o pouco que tinha.
—Então... — eu puxei assunto ao ver a banda calada — quanto tempo acham que ainda precisam ensaiar?
—Tomara que mais algumas semanas — John opinou — acabei de chegar e ainda preciso aprender as músicas.
—Concordo — Freddie assentiu — mas com um pouco mais de esforço, coisa que todos nós temos — ele reforçou olhando para todos os outros — vamos chegar lá.
—Pode crer — Roger assentiu.
—É, com certeza — Brian sorriu para os companheiros e por último olhou para mim.
Seu olhar dizia "obrigado pelo que você fez". Eu olhei para os quatro, e fiquei feliz por ter toda certeza de que eles eram amigos agora.
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