Depois das gravações, os meninos voltaram à rotina comum de fazerem shows nos bares e faculdades. Querendo ou não, não conseguirem um agente de imediato os fez desanimar um pouco, e ver o Queen triste e desanimado, também me fazia ficar triste. (E pensar se eles não estavam com fome.) Por isso, Brian e eu tivemos a ideia de dar um jantar em casa para todos. Como éramos muitos, pedimos pra cada um contribuir como podia, então cada um levou alguma coisa, o que garantiu a mesa farta a noite toda.

Um assunto que alguns de nós tínhamos em comum era o fato de sermos professores. Eu e Brian estávamos dando aula e Veronica ainda estava no segundo ano da faculdade. Conforme a gente ia contando nossas experiências, Veronica ia decidindo que métodos usaria quando fosse professora.

—Sabe que tem dias que é gratificante ver as crianças curiosas e até fazendo perguntas interessantes — Brian ia contando — mas tem dias que é insuportável, um verdadeiro caos...

—Os meus alunos são mais novos que os do Brian — contei — o lado ruim é o tanto de energia que eles tem pra gastar, me deixam exausta às vezes.

—Antes isso do que te darem um apelido maldoso — protestou Brian — isso vai contra a ordem natural das coisas, eu sou adulto e um professor, não deveria ser vítima de brincadeirinhas...

—Pelo menos a sua altura mete medo neles, não? — John deu de ombros.

—Nem sempre — Bri suspirou — inventaram de me chamar de Prof. Poodle, e ainda por cima jogaram bolinhas de papel no meu cabelo.

—Cruel... — Veronica disse, um pouco espantada.

Por mais que desse vontade, ninguém riu do apelido..

—E o que você fez? Vai cortar o cabelo? — Perguntou John, mas duvidava disso.

—Não, eu não vou mudar meu cabelo por causa de umas crianças sem educação, é o jeito que meu cabelo é, querendo ou não — disse meu namorado decidido, e eu beijei sua bochecha, mostrando estar orgulhosa dele.

—E olha que ele odiava esse cabelo, não é? — riu Veronica.

Deixamos esse assunto pra lá e acabamos falando em outras coisas, conforme o tempo foi passando, de repente os meninos estavam todos sentados no sofá. Eu parei um pouco pra reparar na cena, Roger e Freddie riam de alguma coisa que o vocalista disse, Brian tagarelava intelectualmente e John assentia, comentando aqui e ali. Era incrível vê-los no palco, mas ali, conversando como amigos e irmãos, era reconfortante, quase palpável o laço de amizade que tinham. Corri no quarto e peguei a câmera de Brian, presente que ele tinha ganhado do seu pai quando ainda era adolescente. Só eu tinha permissão de pega-la, e aproveitando meus privilégios, tirei uma foto do Queen no meu sofá, sem que eles percebessem. Quer dizer, Brian notou um segundo depois.

—Tirou uma foto nossa? — ele disse meio espantado.

—Tinha que avisar a gente antes pra fazer uma pose — Freddie apontou.

—Ah não, eu achei que ia ficar perfeita se capturasse exatamente esse momento, vocês estavam tão naturais — me justifiquei.

No fim, eles não acharam ruim. A banda continuou ensaiando como sempre e eu e Brian os recebendo em casa. Havia dias mais agitados, e dias mais calmos, quando eles preferiam ir para casa descansar um pouco. Reparei que em um desses dias, apenas Brian e Roger vieram para o nosso apartamento, o baterista queria entrar, mas Brian segurou seu braço impedindo que ele fizesse isso. Fiquei preocupada, achando que eles estivessem brigando, ou algo do tipo, mas eles voltaram a conversar normalmente. Rog riu e olhou com espanto pra Brian, que parecia assustado, envergonhado e animado, conseguindo estar as três coisas ao mesmo tempo. A curiosidade me atiçava pra saber sobre o que eles tanto falavam, então percebi que já estava bisbilhotando. Saí imediatamente da janela, e sentei no sofá esperando eles terminarem. Antes que os meninos entrassem, o telefone tocou e eu levantei para atender.

—Alô? — esperei — oh, sra. May, a que devo a honra? Ah sim, ele chegou mas... Não pode falar no momento, ah claro, mesmo? Quero dizer... Obrigada, é maravilhoso! Sim, eu digo a ele. Tchau.

Brian e Roger finalmente entraram e eu tentei segurar a curiosidade e esquecer sobre a conversa deles.

—Oi Chrissie — Roger disse primeiro.

—Oi — eu respondi depois me virei para o meu namorado — Bri, não vai acreditar quem ligou. Sua mãe nos convidou pra ir pra Hampton, ela disse que vão pagar as passagens do ônibus.

—Nossa... — Brian refletiu — já faz um certo tempo que eu não vejo meus pais...

—É, sua mãe me disse isso — eu reforcei — eu também só os vi quando passaram o Natal aqui, lembra?

—É, eu sei, mas... — meu namorado suspirou um tanto apreensivo — me sinto mal em ter que aceitar a ajuda deles.

—Ah Bri, você é filho único, não esquenta com seus pais te mimando um pouco — Roger incentivou — ah, já que vai pra Hampton...

Ele terminou de falar cochichando no ouvido de Brian, aquilo fez minha suspeita de agora pouco voltar.

—O que é que vocês estão aprontando? — acabei soltando.

—Nada... — Brian fez um olhar de inocente, mas as bochechas corando não me convenceram muito.

—Coisas de melhores amigos — definiu Roger, sorrindo daquele jeito travesso dele.

Ignorei aquilo e deduzi que tudo se tratava de mais uma conquista amorosa do baterista. Enfim, quando o fim de semana chegou, a banda decidiu dar uma pequena folga a Brian (e por consequência todos também ficaram livres) e eu e ele fomos até Hampton. Durante a viagem, pensei em quando tinha conhecido meus sogros pela primeira vez, a sra. Ruth era um amor de pessoa, seu amor e orgulho transbordavam pelo filho, já o sr. Harold era sério, inteligente e concentrado (Brian tinha puxado isso dele), sempre com um jeito formal, o que me fez apelida-lo de Sir Harold. Quando descobriu, acabou gostando e eu sempre o chamava assim.

—E se meu pai perguntar da banda? — Brian ainda tinha medo disso — sabe que ele não gosta tanto que eu toque, quase profissionalmente agora.

—Tente não dar muita corda, muda de assunto, começa a falar da escola e da Astrofísica — fui sugerindo, achando uma ideia pior que a outra.

—Vou tentar — meu namorado acabou aceitando.

Ao chegarmos, os May nos receberam com todo carinho que correspondia a sua saudade de nós.

—Tem que vir mais vezes Brian — a mãe dele pediu, meio brava.

—Sabe que... Ainda estamos com certas dificuldades financeiras — meu pobre Bri se justificou.

—Eu garanto que ele tem se esforçado e trabalhado muito — corri para socorrê-lo da saia justa — e é por causa do trabalho que não estamos tendo tempo pra vir pra cá.

—Os dois estão trabalhando? — Sir Harold se manifestou — isso é excelente! Os dois professores.

—É, pai, os dois professores — Bri deu ênfase na profissão.

Tivemos um almoço relativamente tranquilo, sem ninguém mencionar banda nenhuma. Brian não ficou esperando por isso, e rapidamente me chamou para sair, e senti como se a gente estivesse fugindo.

Ele conhecia bem a praia que marcava o limite da cidade, conhecia as histórias de quando ele era pequeno e vinha com os pais ali. Andamos de mãos dadas à beira mar, com o vento esvoaçando nossos cabelos rebeldes. Sentamos um pouco para apreciar a vista, olhando aquela imensidão, se esquecia facilmente dos problemas, se tinha certeza que tudo ia dar certo.

Brian me olhou e eu reparei, me virei pra ele.

—O que foi? — perguntei com um sorriso, encantada pelo jeito que ele me olhava.

Ele não respondeu de imediato. Seu olhar era fixo em mim, cheio de ternura, mas preocupado com algo que não sabia dizer o que era, quase via sua mente trabalhando num milhão de possibilidades...

—Eu te amo — Brian disse por fim.

—Eu também te amo — me inclinei para beijá-lo.

Parecia piegas e clichê, mas sempre tinha que me beliscar quando momentos assim aconteciam. No fundo do meu coração, tinha a certeza de que era real. Seja lá o que fosse que estava preocupando Brian, só ele e Roger sabiam aparentemente, ele esqueceu um pouco esse problema secreto para que juntos apreciássemos esse momento. Não iria pressioná-lo a contar, sabia que uma hora dessas ele me contaria.