Pelo Olhar de Chrissie
23 Oficialmente Artistas
Os meses seguintes foram se passando e as expectativas dos meninos quanto às demos estava na média, e suas vidas de universitários e músicos foram prosseguindo. Então chegamos em Setembro, e a família de Freddie gentilmente nos convidou para comemorar o aniversário dele, todos nós juntos.
Pensando no convite, também parei para pensar que nós nunca soubemos muito sobre Freddie além do que ele contava, do que ele queria que soubéssemos. Então foi um pouco surpreendente descobrir suas origens e entender porque ele as escondia. Não tinha que se envergonhar de onde tinha vindo e do seu nome, mas as pessoas raramente gostavam de alguém diferente e escondendo essas informações, garantia que não iria ser alvo de piadas e coisas mais maldosas que acabariam o magoando e deixando triste ainda mais.
Eu entendia isso, era quietinha justamente para que não mexessem comigo e ser quietinha era justamente o que faziam algumas pessoas implicarem comigo. Mas como sempre Freddie, não deixou nada disso o abalar e a notícia que recebemos naquela tarde ajudou ainda mais a esquecer as coisas ruins. O Queen finalmente tinha achado seu agente. Nós vibramos, e dentro de mim, havia uma mistura de felicidade e medo do que estava por vir.
Se tinha algo que eu tinha certeza, era de quanto os meninos eram bons, músicos brilhantes e criativos, capazes de criar um som que chamava a atenção de qualquer plateia, pro bem ou pro mal, e, agora, com a possibilidade de gravarem discos e fazerem turnês, tinham tudo para estourarem nas paradas de sucesso. E sucesso era a palavra que definia o meu medo, como seria se eu fosse a namorada de alguém famoso? Estaria livre das críticas, me ignorariam, ou teriam o mesmo interesse em mim que teriam em Brian? Mas quem estaria nas mídias e holofotes eram eles e não eu, e eu odiava ser o centro das atenções... Bom, estava preocupada demais com algo que nem tinha acontecido ainda. Eu era assim, não podia evitar de ser ansiosa. Enfim, toda essa realidade possível que criei na minha cabeça ainda não era a vida que estava vivendo, ou viveria... bom, eu decidi esperar o andar da carruagem e ver como tudo se resolveria.
Então chegou o dia em que os meninos encontrariam John Reid, seu suposto agente. Brian se olhou no espelho umas quinhentas vezes, preocupado e ansioso.
—Como é que eu tô? — ele perguntou e eu ajeitei as lapelas do seu paletó.
—Nervoso, mas não foi isso que me perguntou — brinquei para descontrair — um roqueiro comportado.
—E isso é bom pra imagem da banda? Pra garantir a nossa chance de ter um contrato? — Brian mordeu o lábio, e me olhou com os olhos meio arregalados.
—Relaxa Bri, vai dar tudo certo, só mantenha a fé que você sempre tem e inspire confiança — eu aconselhei.
—Tá, certo — ele deu um suspiro, colocou as mãos na cintura e fez sua cara de determinação — eu vou indo então.
—Ah, Brian! — chamei, me lembrando de algo — está esquecendo uma coisa.
—O que? — ele ficou confuso.
—Isso — beijei sua testa, as duas bochechas uma de cada vez e os lábios por último, todos os beijos com um tantinho de exagero.
—Oh... — Brian ficou vermelho.
—Muitos beijos de boa sorte, pra dar muita sorte — eu expliquei, rindo.
—Ah tá — ele riu também — tchau, até mais tarde!
—Até! Te amo! — gritei enquanto ele andava.
—Também te amo — Brian se virou sem parar de andar e acenou.
Enquanto ele se afastava, ouvi sua risada mais uma vez.
Eu esperava ansiosa por eles voltarem, sem saber direito o que esperar, tentando bloquear o medo da fama e suas consequências que estava sentindo antes. Tentei ler "O Cavalo e Seu Menino" enquanto esperava, mas não conseguia me concentrar, liguei a televisão e troquei de canal freneticamente. Meu Deus! Eu nem era da banda e estava descontroladamente ansiosa! Respirei fundo então, tentando relaxar. Apenas me deitei no sofá e fechei os olhos, não cheguei a dormir, mas ajudou a me acalmar. Então finalmente a agonia acabou quando a porta se abriu, e eu ouvi as inconfundíveis vozes dos meninos, animados e contentes.
—Adivinha quem é o novo contrato da EMI Records, sra. May? — Freddie disse pra mim e me abraçou sem cerimônia.
—Mas já? Assim, sem burocracia, nem enrolação? — agora eu estava eufórica também.
—É, nós vamos gravar dois discos — Brian contou.
—E prometeram pra gente aparecer na televisão! — Roger acrescentou.
—Não esqueça a possível turnê no Japão — John lembrou.
—Japão? — eu fiquei chocada — vocês vão pro Japão?
—Não agora, meu amor — Brian notou meu espanto — tudo depende do público, as vendas dos discos e a nossa popularidade. Não se preocupe, nosso único compromisso agora é compor e gravar, depois, só Deus sabe o que está por vir.
—Holofotes e todo mundo gritando Queen quando nos ver! — previu Freddie.
—Calma cara, a gente vai apenas começar nessa coisa de... artista — John parecia meio espantado com esse novo status.
—Mas eu disse pra vocês, temos um potencial enorme e todo mundo vai ver isso agora — Freddie tinha um brilho especial no olhar quando dizia isso, ele estava claramente orgulhoso, dele e dos companheiros.
Então nas semanas seguintes, eles se empenharam em ensaios e mais gravações. A maioria das canções que iriam fazer parte do primeiro disco já estavam prontas, metade delas eram de Freddie e a outra metade eram as de Brian e até uma de Roger. Outra coisa boa nisso tudo era não precisarem mais acordar de madrugada para gravar, como artistas da gravadora, tinham um horário específico para eles e podiam até ficar mais tempo se precisassem.
Freddie ainda tinha tido mais uma ideia, daquelas que só ele tinha. Como aluno de desenho, ele realmente levava jeito pra coisa, era seu outro grande talento, e às vezes ele rabiscava umas caricaturas nossas. (Uma vez eu vi um desenho de mim que ele fez, e ainda escreveu sra. May por cima dele). Mas a última criação dele foi o símbolo oficial da banda, digno dos exageros de Freddie, já que mais parecia um brasão de armas. Logo ele mostrou a ilustração pros meninos, que acharam a figura tão imponente quanto eu.
—Cada elemento representa um de nós? — Brian perguntou para confirmar o que estava pensando.
—É, o símbolo dos nossos signos — Freddie apontou para o desenho nas mãos de Bri — os leões de Rog e Deaky, o caranguejo é seu, as fadas minhas, e a fênix em cima de tudo, o grande toque final.
—E o Q e a coroa obviamente significam Queen — concluiu John — olha, Freddie, tenho que dizer que é impressionante.
—Eu sei, mas obrigado — devolveu o vocalista — esse brasão vai estar em tudo que dizer respeito a nós.
—Legal como pôs todo mundo no desenho — comentou Roger.
O quarteto continuou conversando, havia tantas coisas para se preocupar e se preparar agora que o álbum estava quase pronto. Depois de um lançamento relativamente modesto e discreto, recebi em primeira mão o primeiro disco do Queen, saído do forno. Segurá-lo me dava uma sensação difícil de descrever, era a prova viva de algo impossível se tornando realidade. A capa era linda, uma foto de um dos shows, capturada bem no momento que as luzes do holofote deixaram o ambiente meio roxo, meio rosa escuro. A palavra Queen em rosa pink e com o Q do jeito que Freddie tinha desenhado posicionada bem em cima. Freddie estava bem no centro, erguendo seu pedestal quebrado, ele usava assim desde aquele primeiro show, quando ainda eram Smile. Para completar, os meninos tinham autografado a capa.
—Escreva minhas palavras Chrissie, um dia esse disco com nossa assinatura exclusiva vai valer milhões — declarou Freddie, sem nunca perder a confiança.
—Por enquanto — eu disse mais calma que ele — fico contente de poder ouvir minhas músicas preferidas sempre que quiser.
Doing All Right, Jesus, Keep Yourself Aliver e Son and Daughter eram as que eu mais gostava desse álbum.
Depois do lançamento, os meninos fizeram shows por toda Londres, mas não em lugares pequenos. A EMI tinha conseguido as maiores casas de show da capital, embora elas não lotassem tanto, mas mesmo assim uma banda nova sempre atraía a atenção de jovens curiosos, que formaram uma plateia relativamente grande. Mas entre esses shows houve um que aconteceu num lugar especial, o auditório do Imperial College.
Brian ainda era um aluno lá, e voltar a se apresentar ali como um músico profissional era surreal. Não deixei de notar o nervosismo dele quando fui ver a banda nos bastidores.
—Vai dar tudo certo, é só tocar com o coração, como você sempre faz — aconselhei a ele.
—Eu vou — ele me olhou fixamente de novo, como vinha fazendo muito nos últimos meses.
—Tem alguma coisa errada Bri? — não aguentei e tive que perguntar.
—Nada, nada mesmo — ele olhou por cima do meu ombro, me virei e vi que Roger estava dando um joinha pra ele — eu te vejo mais tarde.
Ele me beijou para me impedir de falar mais alguma coisa. Eu notei isso, e ao sair, vi Freddie e John falando alguma coisa para Brian. Agora como eu ia prestar atenção no show com toda aquela conspiração? Não importava, eu iria perguntar a Brian o que estava acontecendo assim que o show acabasse.
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