Pelo Olhar de Chrissie
37 Em Hyde Park
Os dias seguintes para o Queen foram preenchidos pelos preparativos do show em Hyde Park. Por mais que John Reid estivesse cuidando de tudo, Roger, John, Freddie e Brian faziam questão de estarem presentes para averiguar como tudo estava sendo organizado. Mais uma vez, Brian me trouxe para ver a montagem do palco e todos os equipamentos de som. Havia pelo menos umas cinquenta pessoas trabalhando, correndo pra lá e pra cá, resolvendo eventuais contratempos aqui e ali. Brian me levou pela mão até uma certa distância da estrutura quase pronta do palco, e ficamos de pé bem na frente dele.
O tamanho daquela coisa fazia meu estômago dar cambalhotas. Algo tão grande como aquilo, pra ser usado por apenas quatro pessoas, quatro pessoas da minha família, que eu amava muito. O Queen estava crescendo e a multidão ainda me assustava. Mas eu decidi não deixar isso me amedrontar, eles seriam o centro das atenções, não eu. Mais e mais pessoas reconheciam o talento deles e isso em si era o que me deixava feliz.
—Vai ser um evento bem grande, não? — falei para o meu marido em voz alta.
—É, Branson não mediu esforços — Brian deu um suspiro — vão encher o parque no sábado, é o que eu espero, pra que valha a pena tudo isso.
—Bri, eu... — hesitei, ainda impressionada com todo o trabalho pra organizar o show — nunca te perguntei isso, mas... vendo esse palco desse tamanho, não te intimida nem um pouquinho?
—Ah sim, com certeza — ele riu, meio sem graça — mas depois das turnês comecei a me acostumar. Sabe o que ajuda um pouco? É que ninguém está olhando diretamente pra mim, e mesmo se olharem, não tem como eu notar isso por causa da distância que o público está do palco, além disso, nós somos em quatro. E... O Freddie sempre chama a atenção só pra si.
—Isso é verdade — constatei, lembrando o quanto o vocalista estava um tantinho mais animado que o normal nos últimos dias por causa do show — ele está a mil, mas e você?
—Um pouquinho nervoso, de verdade — Brian confessou — mas até que isso passa lá em cima, quando eu começo a tocar com os caras, a gente meio que se diverte e ajuda a esquecer o medo do palco, a gente se conecta com a plateia e acaba trocando a mesma energia. Eles acabam prestando atenção mais na música em si do que em cada um de nós. É incrível! Que foi?
Eu amava observar Brian quando ele falava empolgado sobre algo que amava, e eu estava ali bem nesse tipo de situação de novo, o encarando com os olhos brilhando.
—Nada, é que... — baixei os olhos, mas criei coragem para dizer — quando você fala desse jeito, sempre me faz me apaixonar por você ainda mais.
—Eu não sei o que eu fiz, mas obrigado — Brian sorriu e me deu um beijo rápido, o que era permitido no seu atual ambiente de trabalho.
—Detesto atrapalhar os dois pombinhos, mas precisamos ensaiar Bri — John veio chamar o guitarrista da banda — aliás você viu o Roger? Ele deu uma sumida faz um tempo.
—Hã, não faço ideia de onde ele se meteu — respondeu Brian meio preocupado — eu vou ver se acho ele, John e nos encontramos depois.
—Tá bom, eu espero vocês — John concordou e foi para o palco.
—Olha Bri, acho que tenho uma ideia de onde ele está — me lembrei do motivo dos micos que nosso amigo tinha pagado na semana passada — vai indo encontrar o Freddie e o John que eu já acho o Rog.
—Tá bom, obrigado — ele beijou minha bochecha se despedindo.
Eu fui até o trailer do sr. Branson, uma espécie de escritório móvel para que ele cuidasse dos detalhes do show bem de pertinho de onde aconteceria, e é claro que sua fiel escudeira Dominique estava ali o acompanhando e o auxiliando em tudo. Olhei em volta do trailer, mas não havia sinais de Roger por ali. Então bati na porta, esperando alguém atender.
—Chrissie! — Dominique sorriu pra mim depois de abrir a porta, parecendo levemente aliviada — em que posso ser útil?
—Na verdade, acho que não vou precisar de ajuda — desviei o olhar para um Roger com cara de folgado dentro do trailer e o encarei, brava — encontrei exatamente o que procurava.
—Qual é, Chrissie, não veio até aqui me dar um sermão, né? — ele deu de ombros, se fazendo de inocente.
—Eu vim é te fazer um favor, os meninos estão te procurando pra ensaiar, agora! — coloquei as mãos na cintura, colocando autoridade na voz.
—Tá bom, não precisa falar de novo — ele resmungou e antes de me seguir, deu um olhar de cachorrinho pra Dominique.
—O dever chama, sr. Taylor — ela o respondeu soando irritada — o senhor tem que trabalhar e eu também, ah, e mais uma coisa, se sentir sede outra vez não precisa vir até mim só pra beber água, lembre-se que tem água disponível com os assistentes de palco, ok?
Ele acenou pra ela, sem conseguir falar nada de novo, e finalmente deixou Dominique em paz.
—Mas que história de água é essa? — perguntei enquanto andávamos lado a lado.
—Ah, me deu sede e eu vim perguntar pra ela onde tinha água — ele deu de ombros.
—Sério? — olhei pra ele como se fosse o maior idiota do mundo — e o que mais inventou só pra ver ela? Porque eu sei que é exatamente isso que ficou fazendo o dia todo, eu vi você atrás dela mais cedo.
—Ora Chrissie, eu só estava tirando umas dúvidas sobre como tudo vai funcionar, só isso... — ele achava que me enganava com aquele sorriso travesso dele.
—Olha, me escuta, se gosta mesmo dela, tem que deixar a pobrezinha respirar, você tá obcecado com ela, se não reparou — falei meio irritada com o comportamento dele.
—Sabe minha aposta? Eu tô correndo atrás pra conseguir cumprir, uma hora dessas ela aceita sair comigo — Roger me explicou, mas aquilo só me deixou mais brava.
—E você já chamou ela? — cruzei os braços.
—Não... — acabei achando a falha dele — mas tô trabalhando nisso.
Eu só pus uma mão na testa e balancei a cabeça, tentando lidar com a insistência idiota dele. Fiquei num cantinho do palco para ver o ensaio.
Roger se juntou aos meninos, que o receberam com resmungos e caretas. Então eles ignoraram o atraso e começaram a ensaiar. Tocaram Sheer Heart Attack inteira, e Roger fez uma careta aqui e ali no processo. Antes de passarem pra próxima canção, o baterista pediu uma pausa.
—Que foi agora, Rog? — Freddie perguntou pra ele, impaciente.
—Não, é que... — Roger fez outra careta e tentou mexer o pé que tocava o bumbo da bateria — parece que colaram chiclete nesse pedal!
—Tá de brincadeira... — Brian soou incrédulo.
—Não, cara é sério — Roger ergueu o pé com força e realmente tinha um chiclete grudado no seu tênis — eu vou reclamar com o Branson, que absurdo, tá na cara que colocaram isso aqui de propósito...
Sem pensar muito ele tentou tirar o chiclete com a mão mesmo, e de repente, uma bombinha explodiu perto da bateria. Roger deu um pulo e um grito tão agudo como quando ele cantava, nós todos nos assustamos, demos uma olhada ao redor pra ver quem tinha sido o autor da façanha, talvez a mesma pessoa que tinha pregado, literalmente, a peça do chiclete.
Um instante depois, Dominique apareceu e logo percebi que ela estava se segurando pra não dar uma gargalhada.
—Eu estava aqui perto e ouvi alguma coisa estourando — ela se explicou pra banda — aconteceu alguma coisa grave?
Roger se levantou com raiva e foi até ela cheio de marra.
—Primeiro, alguém grudou chiclete no meu pedal e depois, estouraram uma bombinha perto de mim, eu gostaria muito de descobrir quem foi e de ter uma bela conversa com ele, srta. Beyrand — ele foi falando com as mãos na cintura, deixando de lado o ar de conquistador que tinha usado pra falar com ela até agora.
—Pois está falando com ele mesmo sr. Taylor — ela se permitiu rir — foi o meu jeito de deixar claro que sua perseguição comigo já estava passando dos limites.
Eu vi a cara confusa que o baterista fez enquanto processava o que Dominique tinha contado, ela tinha acabado de confessar que tinha feito essas pegadinhas com ele. Invés de gritar com ela, ou bancar o charmoso, ele começou a rir. Até Dominique ficou confusa com a reação dele.
—Teve coragem de fazer isso comigo? Tenho que te dar os parabéns! — Roger riu mais um pouco — Gata, você arrasou! E olha, eu te chamei de gata como um elogio, só pra deixar claro. E peço desculpas por ter sido um carrapato grudento hoje. Podemos começar de novo?
Ele acabou lhe oferecendo uma mão, que ela acabou apertando.
—Desculpas aceitas, sr. Taylor — Domi respondeu, e eu percebi que ela estava um pouco impressionada por ele ter levado a brincadeira na esportiva.
—Pode me chamar de Roger — o baterista ofereceu.
—E pode me chamar de Dominique, fora do trabalho — ela sorriu.
—Quer dizer que eu vou te ver fora do trabalho? — Roger arriscou.
—Quem sabe... — Dominique deixou no ar — agora voltem pro ensaio, já atrapalhei vocês demais.
E assim, ela saiu nos deixando com o único pensamento de "Mas o que é que acabou de acontecer?". Roger ficou mais um momento com aquele sorriso bobo pro nada antes dos meninos voltarem a ensaiar.
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