Pelo Olhar de Chrissie
70 Canções sem acordes
No dia seguinte, encontrei Brian concentrado, escrevendo no seu velho caderno, com certeza escrevendo a letra de uma nova música. Lembrei imediatamente da noite anterior, antes que eu pegasse no sono, ele estava com uma nova ideia na cabeça.
—Oi, não te vi acordar — falei me sentando ao lado dele — Jimmy ainda está dormindo?
—Tá sim, como um anjinho — Brian sorriu — e você? Está bem? Se sentindo mais disposta? Ou ainda está cansada? Nós sabemos que pode ser por causa do bebê, mas mesmo assim, nós precisamos ir ao médico.
—Nós? Não me diga que também está doente? — brinquei com ele, o que deixou meu marido espantado.
—Minha Chrissie não costuma fazer essas piadinhas! — ele cruzou os braços, um pouco indignado.
—Desculpe, foi só pra te descontrair, está preocupado demais outra vez — remediei — e eu acho maravilhoso você querer me acompanhar ao médico.
—Ora, é o meu trabalho, meu dever, minha promessa que fiz cuidar pra sempre de você — ele beijou minha bochecha, me puxando pra mais perto dele — de vocês.
E nisso, Brian fez um carinho na minha barriga.
—É um pouco cedo pra falar com o bebê — eu o avisei, embora seu cuidado me deixasse muito feliz.
—Puxa, outro filho... Isso é... Incrível, eu só... Bom, não planejamos exatamente, mas é uma grata surpresa, com certeza — Brian estava naquele estado de emoção que tentava achar palavras — eu não disse, mas estou muito, muito feliz.
—Eu sei, nem precisa me dizer, eu sinto o que você tá sentindo — eu sorri de volta pra ele, era em momentos assim que me perguntava se minha vida era real — então, no que tá trabalhando? Eu sei que está doido pra me contar.
—Ah sim, tem razão, meu amor — e de repente ele se levantou, todo animado e me deixando confusa.
—O que é que você vai fazer? — tive que perguntar — ou é pra eu fazer alguma coisa?
—Na verdade, nós dois temos que fazer isso juntos — Brian ainda soava enigmático, e não conseguia parar de sorrir.
—Meu Deus, Brian, pra que isso tudo? — disse um pouco irritada, já que ainda não tinha entendido nadinha.
—Eu tive uma ideia pra uma música nova — ele começou a explicar.
—Isso já deu pra perceber — cortei.
—Certo, só que preciso testar se ela vai funcionar sem acordes — disse Brian.
—Sem acordes? Como assim sem acordes? Só o ritmo? — achei a ideia um pouco absurda.
—Posso adicionar acordes no solo, mas a música toda precisa funcionar só com o ritmo, porque quero que os fãs façam isso — continuou ele — bom, eu sei que parece doido, mas num ambiente apertado e pequeno, estava pensando no que o público podia fazer pra nos acompanhar.
—Eles já fazem isso batendo palmas — comecei a acompanhar o raciocínio do meu marido.
—Só que tem outra coisa mais grave, grave no sentido de tom grave, não um problema grave — ele esclareceu, um pouco atrapalhado.
—Eu entendi o "tom grave" — fiz uma voz grossa pra mostrar que entendi a expressão — só me mostra o que tenho que fazer.
—Ok, então bate os pés, um de cada vez, um após o outro — Brian me instruiu e depois me mostrou.
Repeti seu gesto, o que causou o som grave contra o piso "tam tam".
—Assim? — continuei fazendo.
—Isso, agora, bate uma palma depois de bater os pés — ele disse e fez assim, eu fiz igual logo em seguida.
—Isso é... Nossa, bem esperto — elogiei, já prevendo onde Brian queria chegar.
—Ok, continua — ele pediu e continuamos, ecoando "tam tam tam" pela sala.
Sem aviso prévio, Brian esperou um tempo pra entrar no ritmo e começou a cantar. A letra era sobre alguém falando a um companheiro, um menino, que ele deveria conquistar o mundo.
Então veio o que identifiquei como o refrão. "We will, we will rock you...". Depois de aprender, o acompanhei cantando, Brian assentiu aprovando minha companhia. A letra continuou transcorrendo, e quando ele dava as deixas do refrão, entrava junto. Até que ele deu uma pausa brusca.
—Que foi? Vai colocar mais alguma coisa? Pra mim, tá ótima assim — comentei.
—Só um solo de guitarra pra finalizar — disse ele, sorrindo com orgulho.
—Você e seus solos — balancei a cabeça.
—Ei, eu sou o guitarrista, tenho que inventar o que fazer senão não vou ter o que fazer nessa banda — ele deu de ombros.
—Olha só quem está fazendo piadas agora — tive que cutucar, o que só fez com que Brian risse mais.
Toda aquela movimentação só fez Jimmy acordar, o que foi bom pois tivemos nosso café da manhã juntos em família.
Brian decidiu guardar essa ideia de " We will rock you", enquanto ele e os meninos trabalhavam nas outras canções para o novo álbum. A inspiração de Brian era bem variada, no sentido de que mais uma vez ele compôs canções diferentes pra um mesmo álbum.
"Save Me" e "Sail Away Sweet Sister" tinham um tema parecido pra mim, sobre perder alguém amado, e as diferentes reações a isso. A primeira era alguém desesperado por socorro, como se só a pessoa amada pudesse salvá-lo, enquanto a segunda soava meio amarga, como se quem perdeu a pessoa amada não estivesse se importando com o que aconteceria com ela dali pra frente. Sem querer, isso me fez lembrar de Freddie, e o conflito que eu tinha em relação a ele. Sabíamos que por dentro ele pedia por ajuda, mas por fora, não queria aceitar. E nós estávamos cansando de oferecer ajuda. Era triste, mas era real. E eu podia dizer que tinha um pouco disso nas canções de Brian.
Vendo-o ensinar essas duas músicas aos meninos me fez refletir nisso tudo, e é claro que as lágrimas me traíram. Por ironia do destino, o próprio Freddie foi o primeiro a notar meu estado.
—Poxa, Brian, tá fazendo alguma coisa com a sua esposa, porque ela tá chorando outra vez — comentou o vocalista num tom de brincadeira.
—Tem que parar de escrever músicas tristes, Bri — recomendeu John.
—Ai, não é nada disso — me levantei em minha defesa — talvez um pouco, as músicas do Bri costumam ser tristes.
—Ei! — reclamou meu marido, indignado.
—Nem todas, Bri, não importa, eu acabo gostando de todas — eu sorri — meu choro tem a ver com outra coisa também.
—Vai contar agora? — Brian entendeu a que eu me referia — vai deixar as meninas sem saber primeiro de novo?
—Bom, o bebê me fez chorar e vou ter que falar — dei de ombros — bom, pessoal, em breve a família May vai ganhar mais um membro.
E assim, Roger e John vieram nos abraçar, e Freddie, por último, mas depois acabou se rendendo à alegria do momento.
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