Falando em Dominique, ela voltou depois de um tempo à recepção, suas mãos estavam ocupadas segurando um monte de papeis, que pareciam ser arquivos e documentos. No entanto, ela deixou essas coisas que pareciam importantes por um momento, para falar comigo.

—Desculpa não ter dado um oi à senhora antes, é que meu chefe estava com pressa de conversar com a banda e eu tive que cumprimentá-los antes pra apresentá-los logo — Dominique se justificou, mas pra mim isso não era necessário, entendia perfeitamente a situação dela, mas ao mesmo tempo fiquei contente com a consideração que ela teve comigo.

—Ah, está tudo bem — eu a respondi — eu entendo. Eu sou... Chrissie May, srta. Beyrand.

—Ah esposa do guitarrista, não é? — ela quis confirmar enquanto apertava minha mão — acho muito gentil da sua parte ter vindo acompanhá-los.

—É, às vezes eu faço isso — percebi que estava gostando de conversar com Dominique — eles são músicos e pessoas excelentes, mas... Às vezes precisam de alguém pra dar um puxãozinho de orelha, e, querendo ou não, ainda bem que eles me dão ouvidos.

—É, eu percebi — ela concordou — muitos artistas são arrogantes e babacas porque querem e têm prazer nisso, mas o Queen aqui, o que eu notei neles foi só uma auto confiança enorme.

—É, isso eles são mesmo — repliquei, pensando neles mais como artistas dedicados do que astros do rock metidos.

—Hã... — ela hesitou um pouquinho, e percebi que Dominique estava com certo receio de fazer sua próxima pergunta — eu tenho que terminar de organizar umas coisas, sra. May, mas se não se importa, gostaria de continuar conversando com você.

—Ah sim, tudo bem, srta. Beyrand — eu sorri por ela estar gostando da nossa conversa — e a propósito, pode me chamar de Chrissie.

—Nesse caso pode me chamar de Dominique então, ou Domi — respondeu ela.

Eu sorri de volta e ela saiu para outro lugar, levando seus documentos e arquivos. Eu tive que esperar mais um tempo até acabar a reunião dos meninos com Richard Branson. Dei uma olhada de relance nas revistas que estavam expostas ali, mas nenhuma delas me interessou.
Ao invés de me preocupar com a demora, acabei pensando em outra coisa: a reação cômica de Roger ao ver Dominique.

Eu já tinha visto ele olhando pra outras garotas assim, mas o jeito que ele se concentrou nela naquela tarde, tinha algo muito diferente, nem para Jo ele olhava assim... Então a situação era bem pior do que eu imaginava.

Depois de pensar nisso, Dominique voltou e me ofereceu chá ou café, e acabei ficando com a segunda opção. Um café era bem o que eu precisava no momento pra me ajudar a continuar esperando.

—Então, Chrissie... — ela reiniciou nossa conversa — eu... Realmente não quero perguntar, mas... Talvez seja falta de ética no trabalho, mas se você me responder, me ajude a lidar melhor com o Queen e eu preciso fazer isso para trabalhar bem, então minha pergunta é... O sr. Taylor é sempre pegajoso daquele jeito?

—Ah o Rog? — eu não consegui evitar e ri de novo — desculpa, é que... ele nem sempre é assim, eu garanto, já faz um bom tempo que eu conheço ele e acredite, por trás dessa banca de bonachão tem um cara muito sensível e amoroso, de verdade.

—Bom, isso foi esclarecedor, Chrissie — Dominique fez uma cara de pensativa — obrigada por não me achar estranha por perguntar isso.

—Ah, não, não te acho estranha — eu a compreendi — sempre me acharam estranha, então eu sei bem como é se sentir mal por isso, eu não te julgo.

—Obrigada, eu tenho que voltar ao trabalho — ela se levantou e se despediu.

—Claro — eu entendi sua situação e a vi entrar para outra sala de novo.

Passou mais um tempo e finalmente os meninos surgiram novamente.

—E então? — perguntei a Brian — o que decidiram?

—Vamos agitar Hyde Park esse fim de semana! — Freddie comemorou.

—E conseguimos manter o show de graça — Brian acrescentou.

—Isso é ótimo — eu sorri pra eles, realmente orgulhosa por pensarem nos fãs.

—Hã... Chrissie — Roger se dirigiu a mim do nada — sabe pra onde a Dominique foi?

—É srta. Beyrand, sr. Taylor — a própria Dominique surgiu acabando com a curiosidade do baterista — por favor, vamos manter o profissionalismo, se não for pedir demais.

John e Freddie se seguraram pra não rir, e até Brian traiu o melhor amigo com um sorrisinho.

—Sinto muito se de alguma forma eu a ofendi — Roger se esforçou pra usar toda sua cortesia — é que o Branson nos instruiu a procurá-la para nos passar os telefones e contatos necessários pra organização do show.

—Era bem por isso que eu já estava aqui os aguardando — ela deu um sorriso mortal, bancando a esperta pra cima dele — aqui está uma lista de números se precisarem tirar alguma dúvida, perguntem direto pelo meu nome, mas a maioria das burocracias já está sendo resolvida com John Reid. Tem mais alguma coisa que possa fazer por vocês?

Ela entregou a lista com os números a Freddie, embora Roger tentasse pegá-la antes do amigo. Dominique fez uma careta ao ignorar a atitude de Taylor.

—Na verdade tem sim — Roger tentou de novo — algum desses números é o seu telefone pessoal, srta. Beyrand?

—Não, sr. Taylor — eu a vi perdendo a paciência — eu já pedi pra sermos profissionais, e se precisar falar comigo vai ligar para o escritório do sr. Branson, estamos entendidos?

Roger apenas sorriu sem graça, não tinha como ele responder alguma coisa depois daquela bronca.

—Obrigado pelo seu tempo e pela ajuda, srta. Beyrand — Freddie poupou a banda de mais constrangimentos por causa do baterista — tenha uma boa tarde.

—Igualmente, sr. Mercury — ela respondeu e saiu dali elegantemente.

Quando estávamos fora do escritório e caminhando até o estacionamento, eu, Brian, Freddie e John rimos em voz alta de Roger.

—Eu não sei como eu aguento vocês... — ele se virou pra nós irritado, sabendo que era o alvo das risadas.

—O que você esperava? Fez o maior papel de bobo — John apontou.

—E olha, odeio acabar com seu ego estufado, mas eu tenho que tirar o chapéu pra srta. Beyrand — Freddie acrescentou, colocando uma mão no ombro de Roger — ela tem coragem.

—E te pôs no seu lugar, como nenhuma garota tinha feito antes — Brian comentou, bem o que eu estava pensando.

—Eu garanto uma coisa pra vocês — Roger se esforçou para parecer imponente, embora sua altura não ajudasse muito — eu vou conseguir um encontro com a Dominique ou não me chamo Roger Meddows Taylor!

—Vai sonhando, garotinho... — John deu um tapinha no ombro do baterista antes que nos separássemos.

Nos despedimos com mais risadas e voltamos pra casa, Roger ainda estava irritado. E eu, comecei a ficar com medo da próxima conquista amorosa que ele tinha em mente.