PdV do Axl

Tinha passado uma semana desde o incidente com o estuprador-assassino e Flake continuava a agir estranhamente. Ele estava fumando mais do que já fumava, ficava olhando à sua volta, não falava muito com ninguém (só com o Till) e sempre dava um pulo de susto quando alguém em casa encostava nele de surpresa. Ele também passava mais tempo com o teclado dele do que com qualquer um. Ele não gostava de tocar com público, então às vezes eu me escondia atrás da porta da sala e ficava ouvindo-o tocar Beethoven. É lindo. Flake é um ótimo tecladista. Às vezes, quando ele sai, eu vou tocar o teclado dele para compor minhas próprias músicas. Nunca vou ter coragem de pedir para ele me ensinar a Moonlight Sonata.

Pela posição da lua, eu pude supor que eram três da manhã, mais ou menos. Eu estava com insônia e tinha saído para fumar maconha, no jardim. Era legal ficar lá de noite, era quieto e bonito. Jurei que tinha ouvido a barulho da porta da casa se abrindo, mas não dei atenção. Continuei deitado na grama, com os olhos fechados.

–Was machst du da? – ouvi uma voz dizer, seguida de uma risadinha. Era o Flake.

–Inglês, por favor. – eu abri os olhos e me levantei para encarar Flake. Ele riu suavemente e passou uma mão no seu cabelo curto.

–Eu disse: “O que você tá fazendo aqui?”

–Ah... To fumando. Não consigo dormir. – eu levantei os ombros – E você, o que veio fazer aqui a essa hora da noite?

–Eu vim fumar também. – ele tirou seu pacotinho amassado de Marlboro vermelho do bolso – Perdi o sono.

–Algum motivo? – eu levantei uma sobrancelha.

–Pesadelos... – ele tremeu como se estivesse arrepiado. Coloquei uma mão em seu ombro.

–Sobre... – eu perguntei suavemente.

–É. E eu não agüento mais sonhar com isso. É como se todos os fantasmas da minha vida tivessem voltado. – ele suspirou tristemente.

–Fantasmas?

–Sim. Todas as agressões físicas e psicológicas que eu sofri ao longo da minha vida.

–Aah... Entendo. Também sofri essas merdas. – traguei meu baseado com força.

–Sério?

–Uhum.

–O que... Aconteceu com você? – ele perguntou timidamente.

–Nada. – eu disse friamente, tentando afastar as lembranças que já chegavam na minha mente. Eu só não queria lembrar mais daquilo.

–Hmm... – ele disse, meio desapontado – Seja lá o que aconteceu com você, eu sinto muito.

–Você não sente nem metade...

–É, acho que não. – ele respondeu com frieza. Aquilo me deixou meio bravo, mas eu preferi não ligar. Eu queria mudar de assunto.

–Pode me contar. Sou seu amigo, eu não vou te julgar. – ele sorriu – Eu não vou rir e essas coisas. Me conta.

–A gente pode mudar de assunto? Eu não queria falar sobre isso. – agora que eu estava drogado, essas lembranças viriam com mais força e mais vida. Eu já me lembrava da escuridão e do frio – Quer saber, eu vou entrar. Eu já fumei bastante, vou tentar dormir de novo.

Eu ia andando, mas Flake agarrou meu ombro.

–Me desculpa, Axl. Se eu te ofendi, me desculpa. Fica aqui comigo, por favor.

–Eu só fico se você parar de tocar no assunto.

–Ok. – ele resmungou, sentando-se na grama. Eu me sentei com ele e nós ficamos quietos por um tempo, até que ele disse – Uma vez os meninos da escola me bateram até eu sangrar. Eu tinha 10 anos.

–Flake, você não vai arrancar nada de mim. – eu ri debochadamente – Desiste. Ou eu vou voltar pra dentro. Ah, e por que você tem que saber disso?

–Porque eu quero ver se a mesma coisa aconteceu comigo.

–O que aconteceu com você? – levantei uma sobrancelha. Ele apenas me deu um daqueles sorrisos sarcásticos.

–Por que eu te contaria? Você não divide nada comigo.

–Que merda. – eu resmunguei, suspirando – Tá, eu não gostava de um quarto escuro. É isso.

–Tem mais coisa. – ele sorriu novamente e eu só queria socá-lo.

–Claro que tem, mas eu não vou te contar. – eu chupei meu cigarro de maconha.

–Eu estive em um quarto escuro também. Eu sei o quão terríveis eles são.

Eu engasguei, me perguntando se o mesmo tinha acontecido com ele.

–Como era lá? – eu perguntei.

–Tinham teias de aranha, porque não era bem cuidado. Quando fechavam a porta não dava para ver nada, não tinha janelas e era difícil de respirar por causa da poeira e porque não passava ventilação. – ele esfregou os braços como se estivesse com frio. As memórias estavam atingindo-o também – E o seu, como era?

Eu engoli a seco e olhei para baixo. Ele havia me contado sobre o quarto dele, era hora de eu contar sobre o meu.

–Ah, era... Tinha um colchão fedido, uns travesseiros, uns brinquedos caindo aos pedaços. Com a má iluminação, era assustador. Também era todo empoeirado. E... – eu tive que respirar mais vezes para continuar – O que fizeram... Com você?

–Quase me mataram e destruíram a minha casa. E mataram meus amigos, e destruíram tudo o que eu conhecia. – ele segurou a cabeça nas mãos. Eu acariciei as costas dele, tentando confortá-lo – Guerra não é para crianças.

–Você esteve na guerra?

–Um bombardeio quando eu tinha sete anos. Isso foi em Dresden quando eu estava de férias. Eu conheci uns meninos, dois irmãos, a gente brincava muito numa ponte que tinha lá. Eles se chamavam Nikolau, de três anos, e Hans, de dez. Eu me lembro que um dia, quando era hora de voltar para casa eu disse “A gente se vê amanhã, né?” e o Hans disse “Espero.” E eu disse “Ahn? Por que?” e ele disse “Os russos estão bravos com a gente, o meu papai disse”. E... – Flake soluçou e mordeu os lábios com força para segurar as lágrimas.

–E? – eu disse, segurando a mão dele.

–E no dia seguinte... – ele soluçou de novo, quase não conseguindo segurar as lágrimas – Eles estavam mortos...

Meu coração foi parar no meu estômago.

–E eu vi a casa deles em ruínas e eu vi a mãozinha tão pequena do Niki entre os escombros... – ele começou a soluçar desesperadamente e eu o abracei com força.

–Tá tudo bem, Flake. – eu sussurrei, tentando acalmá-lo. Engoli a seco, tentando não imaginar a mão de um bebê morto soterrado pelas pedras da própria casa – Uhmm... – eu disse, tentando dar mais confiança a ele. Eu comecei a tremer – O seu quarto escuro é um... Como se chamam aquelas casinhas subterrâneas?

–Era um bunker, sim. – ele parou de chorar, enxugando as lágrimas restantes com a mão.

–Ah... – foi tudo o que eu consegui dizer. A imagem da mãozinha ainda me assombrava – Meu... – eu não ia conseguir falar. Nós dois estávamos muito nervosos e eu demorei um ano para conseguir falar pro Izzy – Pai? Ele...

Com um par de olhos azuis fixados em mim, eu não ia conseguir falar mesmo. Eu me soltei dele e me virei para não encará-lo – Meu pai ele... Eu não consigo. Ah, desculpa Flake.

–Eu não tenho pressa. – ele disse suavemente. Agora, eu tinha que falar, já que ele tinha me contado aquele episódio da vida dele.

–Um quarto escuro... – eu dava pausas que pareciam eternas. Mesmo assim, Flake não me apressou e ficou ouvindo. Eu estava de costas para ele – Foi onde, ah... – eu bati na minha cabeça com a mão. “Não, não apareçam. Vão embora!” eu pensei, tentando afastar a dor – Eu tinha dois anos, Flake! – eu respirei profundamente e me desliguei para falar de uma vez só. A gente ficaria uma semana lá – O meu pai me... Estuprou, merda. Merdamerdamerdamerda! Ah, eu não devia ter falado! – eu me virei para ele.

O queixo dele caiu, como eu previa. Aí ele começou a praguejar alto em alemão e eu não entendi nada. Pedi para ele se acalmar ou ele ia acordar todo mundo.

–Ah, me desculpa Axl. Esse tipo de coisa me deixa muito puto. – ele começou a chupar nervosamente o seu cigarro.

–Eu sei. Mas relaxa. – eu respirei fundo.

–E eu to aqui reclamando da minha vida, quando a sua foi muito pior. Ach, sou tão idiota. Eu devia parar de gemer igual uma vadia.

Eu ri e dei uns tapinhas no ombro dele.

–Relaxa, você vai superar.

–Eu acho que a gente nunca vai superar. Sempre vai ficar marcado na nossa vida e vai interferir na nossa personalidade.

Eu engoli a seco. Aquilo que ele tinha dito era verdade, apesar de eu não querer que fosse.

–É. Ninguém supera totalmente. – eu sussurrei – O que aconteceu com você?

–Ah, bullying e meus pais me forçaram a ser uma pessoa que eu não sou. Mas... Nem se compara à sua história.

–Ah, ninguém merece sofrer o que eu sofri, o que nós sofremos. – eu disse com desprezo. E notei que eu não tinha soltado o ombro dele.

Flake sorriu suavemente e me abraçou com força. Me abraçou! E naquele momento eu notei que eu nunca tinha abraçado-o, desde que a gente tinha se conhecido. Não do jeito de abraço quando você vai cumprimentar algum conhecido. Um abraço de afeto mesmo. E eu me senti bem e eu o abracei de volta.

–Ah, Flake! Flake! – eu exclamei, surpreso.

–O que? – ele se assustou e me soltou. Eu apenas sorri confortadoramente.

–Feliz aniversário. Já passou da meia noite!

–Ah, é! – ele sorriu – Eu tenho dezessete agora!

–Tá ficando velho, doktor! – eu ri e o abracei de novo. Ele suspirou estranhamente – Você tá chorando?!

–Nãão! – ele esfregou os olhos, mas mais lágrimas começaram a cair deles.

–Aaah, Flake! Por que você tá chorando? Você devia ficar feliz!

–Eu to feliz. To feliz porque você foi a primeira pessoa que me deu parabéns. – ele sorriu – Aliás, você me chamou do quê?

–Doktor. Por que você ia ser médico, né? Doktor Flake.

–Doktor Flake. Gostei. – ele riu.

–Quer uma maconha de aniversário? – eu ri – Não tenho presente.

–O seu perdão pra mim já foi um presente. E acho que eu vou aceitar a maconha.

–Perdão?

–É, estávamos meio brigados... – ele encolheu os ombros timidamente. Eu ri e lhe dei um baseado amassado do meu bolso.

–Que é isso. Você é um fofo, doktor Flake. – peguei meu isqueiro e acendi o baseado na boca dele.

–Você é mais, Axl Rose.

Nós ficamos lá, chapados, observando as estrelas, deitados na grama até amanhecer. E aí eu notei que não tinha pedido para ele me ensinar a Moonlight Sonata. Mas isso podia esperar.