PdV do Till

Eram 6 da manhã e eu já tinha saído para procurar o Flake. O filho da puta não deve ter ido longe. E não foi mesmo. Eu só tive que andar algumas ruas para encontrá-lo desacordado embaixo de uma árvore. Ri suavemente e o segurei. Ele se contorceu nos meus braços, mas não acordou. Eu beijei a cabeça dele e ele abriu os olhos e gemeu. Aí eu notei que tinha algo errado com ele.

–O que você fez agora? – eu perguntei suavemente.

Ele pulou dos meus braços e ficou agachado no chão, tremendo.

–Till me desculpa, eu não sabia o que eu tava fazendo, eu me droguei, mas eu me arrependi agora, tá tudo muito estranho... – ele estava quase chorando enquanto ia me narrando rapidamente os acontecimentos.

Warte mal! – eu disse – Primeiro: Se acalma um pouco...

–Till, e se eu tiver uma overdose e morrer? Ai Till, eu não quero morrer, desculpa, eu to muito arrependido!

–Flake! – eu segurei com força os pulsos dele – O que você tomou? E quanto você tomou?

–Eu não sei! – ele gemeu e começou a chorar, enterrando o rosto no meu ombro.

–Sabe sim, seu idiota! – meu tom de voz era firme, mas por dentro eu estava me acabando de rir. Eu já tinha usado essas drogas mais pesadas, então eu sabia o que ele estava sentindo. Bad trip. – Você cheirou algo ou fumou? Ou injetou?

–Era de cheirar.

–Era cocaína então!

–Era heroína! – Flake chorou mais. Eu dei tapinhas de leve no ombro dele.

–Não tinha o suficiente pra te matar, Flakechen. Por que você tá chorando?

–Não sei. Porque eu sou um imbecil.

Eu ri alto.

–Vem, vamos pra casa. O Izzy quer te ver.

–Casa? – ele disse, enquanto eu o puxava pela mão – Casa em Berlim, não é?

Meu coração foi parar no estômago.

–Não. A casa aqui mesmo. – eu disse suavemente.

–Não, eu quero voltar para Berlim! – ele choramingou – Eu não quero mais morar nesse lugar!

–Mas aqui é tão tranqüilo...

–Tão tranqüilo que um cara tentou me estuprar e eu tive que matá-lo! – ele rosnou para mim.

–Você pode não pensar nisso? – eu rosnei de volta. Eu não queria que ele ficasse traumatizado com tudo aquilo.

–Till, não era você quem estava segurando aquele bastão e batendo no homem como se ele fosse uma barata. – Os olhos azuis de Flake de repente ficaram calmos. Eu fiquei assombrado.

–Eu sei como é. – eu disse quase num sussurro.

–Hmm? – ele arregalou os olhos.

Eu me sentei de volta na grama, puxando Flake para que ele fizesse o mesmo.

–Quem você matou? – ele sussurrou.

–Eu não matei. Mas eu bati num homem, que nem merece ser chamado de “homem”, como se ele fosse uma barata. Ah, ele era uma barata.

–Por que algo me diz que esse “homem” é o seu pai? – Flake pousou uma mão no meu joelho. Eu engoli a seco.

–É, é o meu pai. Eu bati nele uma vez porque ele estava bêbado e estava batendo na minha mãe.

–Não gosto do meu pai também. – Flake enrolou seus braços ao redor do meu peito – Quer dizer, não gostava.

–Felizmente, meu pai morreu. Morreu por causa da bebida. Mas eu e minha mãe ficamos muito mais calmos. O cara era uma desgraça.

–Entendo. Tem pessoas que merecem morrer. – ele disse aquilo com uma naturalidade que deu medo.

–Hmm... Flake... – eu segurei a mão dele – Você quer voltar para a Alemanha, certo?

–Certo. – os olhos dele brilharam.

–Você... Quer morar comigo? Em Schwerin? É no campo, perto da Dinamarca, uma casinha bonita, é meio frio, mas você sabe como é a Alemanha... – eu parei de falar e abaixei a cabeça, envergonhado. Esperei pela resposta dele.

Natürlich. – ele disse, e eu senti que ele estava sorrindo, mesmo sem olhar para ele – Eu adoraria morar com você, Till.

–As pessoas aqui comem demais, né? – eu pigarreei. Nem sabia porque estava mudando de assunto. Mas Flake apenas riu suavemente.

–É. América. – ele disse.

Eu o ajudei a levantar e nós voltamos para a casa.

Notas finais
GLOSSARIO:
Warte mal - Espera aí
Natürlich - Mas é claro