PdV do Flake

Eu corri o mais rápido que eu pude, notando o quão idiota eu tinha sido por correr. Mas Izzy tinha ficado com medo de mim, e se ele estava com medo era melhor eu ir embora. Não ia mais perturbá-lo, não ia mais perturbar Till. Eu tinha acabado de bater em um homem até que ele morresse. Eu não queria que ele morresse, só queria que nos deixasse em paz. Eu não agüentava mais que as pessoas ficassem abusando de mim.

Primeiro foram os meninos da escola, quando eu tinha 10 anos. Implicavam comigo porque eu era magro e fraco demais para me defender (ainda sou), então eu levava surras diárias na escola. Também porque eu usava calças muito largas e camisas muito grandes. Meus pais achavam que era mais fácil passar as roupas do meu irmão mais velho para mim do que comprar roupas em um tamanho bom. Eu consegui um emprego como costureiro e comecei a fazer minhas próprias roupas. Meus pais não ligavam de eu ser muito jovem para trabalhar.

O meu pai me ensinou a tocar piano e era um cara legal, ele não fumava na nossa frente, nunca tinha chegado bêbado em casa ou usado uma arma. Mas ele era muito rígido quando se tratava de estudo e futuro. Eu me lembro que pouco antes de vir para cá, eu disse a ele e à minha mãe que não queria servir ao exército. Principalmente ao exército americano, do país inimigo. O resultado foi que ele me deu o tapa mais forte que eu já levei na vida (minha bochecha ficou roxa por uns dias) e gritou comigo. Ele disse “Você tá louco, Christian?! Se você não servir ao exército, você vai para a cadeia. Você sabe o que eles fazem com meninos fracos como você?”. Agora eu sei. Eles nos estupram e nos batem. Eu tinha sofrido ambos, sem nem ter que ir para a cadeia. Já tinha me acostumado com as surras. Não fui estuprado, mas quase e eu tinha deixado que estuprassem o meu namorado. Minha culpa, essa merda.

Por que essas memórias estão vindo à minha cabeça agora? Eu não quero me lembrar disso. Eu não quero me lembrar de quem eu sou, ou da minha família.

Merda. O bombardeio. Pessoas gritando, correndo para salvarem suas vidas. Eu ouvia tudo, escondido em um bunker com meus pais e meu irmão. “Vai ficar tudo bem” Minha mãe dizia, com a voz trêmula. Mas eu, apesar de ter 7 anos, era esperto. E, não, não ia ficar tudo bem. E no dia seguinte, estavam todos mortos.

Por que uma criança tem que sofrer isso tudo? Por que não a deixam brincando com seus carrinhos e suas bonecas? Por que não a deixam crescer no momento certo? Por que ela tem pais tão imbecis? Uma mãe tão cega? Um pai que todos os dias força o seu membro nojento em qualquer entrada da criança de dois anos? Por que o sol é redondo e quente? Por que ela não é saudável?

Eu tropecei e caí na grama molhada de orvalho. Minha cabeça doía e eu conseguia sentir o suor escorrendo de mim. Mesmo sem quase respirar e já começando a sentir a queimação dolorosa nas pernas, eu enchi meus pulmões e gritei com toda a minha força, até a minha garganta doer. Terapia de grito. Ótimo. Eu esmurrei a grama até a terra ficasse impregnada entre os meus dedos e arranquei as folhas com as mãos. Eu só não agüentava mais aquilo.

–Eu tenho algo que pode te ajudar a esquecer tudo isso. – a voz masculina soou como um sussurro. Eu levantei a cabeça e encontrei um jovem que parecia ter no mínimo 18 anos. Seu rosto era coberto de espinhas e ele usava um casaco preto com uma cobra desenhada nas costas.

–O que você tem? – eu perguntei, meio que sabendo da natureza do rapaz.

–Qualquer coisa.

–Eu quero algo forte. – meu estômago deu voltas quando eu disse isso.

Ele riu suavemente.

–Eu tenho maconha, crack, heroína, ecstasy, LSD, cogumelos mágicos, ópio, morfina, endorfina...

–Eu quero cocaína. E heroína.

–Vai ficar uns 50 dólares.

–Tão caro? – eu choraminguei.

–Você quer drogas caras. – ele levantou os ombros. Suspirei e peguei minha carteira.

–Dói muito injetar heroína? – eu perguntei suavemente, morrendo de vergonha. Não queria soar como um bebê que não gosta de tomar vacina.

Ele riu.

–Eu tenho a não injetável, que você pode inalar.

–Eu quero essa daí, então.

–Ok. Eu faço por 40 pra você, já que você não deve nem saber cheirar a coca.

Sorri com vergonha e dei o dinheiro a ele e ele me deu um pacotinho com a cocaína e algo que parecia uma cápsula. Era pouco, pois percebeu que eu era inexperiente. Me sentei com as pernas cruzadas e misturei o pó da heroína com o da cocaína. Cheirei aquilo com uma nota de um dólar. A sensação inicial foi de uma coceira estranha no nariz. Eu fiquei totalmente parado, tentando perceber alguma reação. Depois de um 10 minutos, eu comecei a rir da minha situação.

–Por que eu tava parado mesmo? – eu disse, entre risos.

O dia estava claro e branco. Eu me levantei e comecei a correr, deslizando por entre os bancos e as árvores da praça. Parecia que tudo tinha ficado mais limpo, e logo as memórias desapareceram. Eu tinha certeza de que elas não voltariam. E aí, sem nenhuma razão, eu apaguei.