Notas iniciais
Hold your hearts, people. O capítulo é tenso e fofo ao mesmo tempo.
BOA LEITURA ♥

PdV do Till

Passaram-se duas semanas. Nesse tempo, os meninos já começaram a pegar nos instrumentos e fazer uns covers. Eu me juntei a eles, claro. Flake insistiu tanto para que tocássemos Ramones (Blitzkrieg Bop)... Acho que punk não é muito o que Axl e o Izzy tem em suas mentes para a banda. Eles querem fazer algo mais clássico. Eu não me importo de tocar qualquer um dos estilos. Ah, já que não tem teclado em Blitzkrieg Bop, o Flake canta junto com o Axl. É muito fofo, enquanto o Axl fica pulando e batendo a cabeça o Flake fica parado, cantando no seu inglês cômico, como se tivesse medo de se mexer. É hilário.

Aljoscha arrumou uma namorada (não me pergunte como), uma ruiva de uns 30 anos de idade. Ele passa mais tempo na casa dela do que aqui. Eu continuo vendendo os brincos e o Flake continua fumando escondido. Eu já falei para ele parar, fumar não é bom. Mas ele não me ouve, pelo que parece.

–Eu volto já. – Flake disse, me tirando das nuvens. Me virei e ele estava botando seu casaco.

–Vai aonde? – eu levantei as sobrancelhas. Já era meia-noite, ele não devia sair por aí a esse horário – A rua não é um lugar seguro para um menino de 16 anos, como você.

–Quase 17. – ele se aproximou de mim e me deu um selinho – Meu aniversário é na semana que vem. Quero um presente.

–Seu presente foi o teclado!

–Não é esse tipo de presente que eu quero. – ele sorriu maliciosamente, passando os dedos na minha coxa – Bem, eu vou comprar cigarro.

–Flake...

–É rapidinho, Till! Você nem vai sentir minha falta!

–Ok. – eu sorri – Tome cuidado.

–Sempre. – ele sorriu de volta e saiu pela porta.

Deitei-me na minha cama e fiquei pensando. Pensando nas coisas que eu queria fazer com o Flake. Não só transar devidamente com ele (só fizemos naquela vez do parque e depois não transamos mais... O 69 no banheiro não conta), mas eu ainda queria “dar amor” a ele. Eu queria levá-lo para Schwerin, no campo e ficar um tempo com ele, só nós dois. Eu sentia que eu tinha maturidade o suficiente para dividir uma casa com ele e sentia que ele não recusaria a minha oferta. Mas duas passagens para a Alemanha custam caro, então aquilo teria que esperar.

Eu estava quase adormecendo, cansado de esperar o Flake, quando a porta se abriu e ele entrou. Um frio percorreu meu corpo. Ele tinha um arranhão grande na bochecha esquerda, que estava sangrando um pouco e suas roupas estavam posicionadas de um jeito estranho em seu corpo, como se ele tivesse acabado de sair de uma luta. “Alguém o machucou” eu pensei, me levantando e indo até ele.

–O que aconteceu? – eu perguntei suavemente. Ele apenas balançou a cabeça negativamente e enterrou o rosto no meu peito, soluçando alto. Eu me sentei com ele na cama, ainda abraçado a ele. Nós estávamos sozinhos no quarto, o Aljoscha tinha ido dormir na casa da namorada dele. – Flake... – eu tentei empurrá-lo um pouco, para que eu pudesse ver seu rosto, mas ele se agarrava firmemente em mim – Was ist los?

Liebchen... – ele sussurrou no meu peito. Ele parecia não querer falar.

–Quem fez isso no seu rosto? – eu insisti. Ele tremeu e finalmente tirou o rosto do meu peito para me olhar. O sangue que saía do aranhão (que mais pareciam dois cortes um do lado do outro) tinha se espalhado pela sua bochecha. Eu lambi meu dedão e tentei limpar o sangue, mas ele arrancou minha mão de sua bochecha, gemendo de dor.

Flake foi até o banheiro e eu o segui. Ele se inclinou sobre a pia, pegou um punhado de água e passou cuidadosamente no arranhão. Ele estremeceu de dor e suspirou.

Verdammt, Till. – ele disse, sua voz estava trêmula – Por que você não me contou sobre o imbecil que te estuprava na cadeia?

Eu gelei.

–Quê?! – minha voz saiu aguda por causa da surpresa.

–É, ele nos encontrou aqui e falou que vai nos matar. Ele sabe onde a gente mora. Merda... – a frieza no jeito de falar dele me assustava.

–Christian – eu senti as lágrimas queimando os meus olhos – Ele te estuprou?

Flake se virou abruptamente para mim, como se tivesse visto um fantasma.

–Não. Ele tentou, mas eu consegui fugir, apesar de ele ter me batido um pouco.

–Você... – eu gaguejei – Não sente medo? Tipo...

–O que eu devia sentir?! – ele gritou pra mim e sua voz ondulou. De repente, toda a agressividade desapareceu e ele começou a chorar. Cruzou os braços ao redor de seu peito e olhou para baixo – Eu to morrendo de medo. De verdade. – ele sussurrou.

Eu tranquei a porta do banheiro e liguei a banheira. Caminhei até Flake e separei seus braços de seu peito. Ele me olhou calmamente enquanto eu tirava o casaco dele e desabotoava sua camisa. O arranhão em seu rosto estava começando a inchar e o sangue já tinha secado. Tinham marcas roxas em seus braços, provavelmente porque Death devia tê-lo segurado com força.

–Flakechen, ele não te estuprou mesmo? – eu perguntei novamente, enquanto tirava as calças dele.

–Não, eu juro. – foi tudo o que ele disse.

Eu tirei minhas roupas. A água estava batendo no meio da banheira. E carreguei o Flake até a banheira e nós nos deitamos lá. Eu lavei cada roxo dele com cuidado.

–E se ele entrar aqui enquanto a gente tá tomando banho? – Flake suspirou.

–Isso não vai acontecer. – eu ri suavemente – Eu vou acertar as contas com esse cara.

–Não, Till. – as mãos de Flake me apertaram gentilmente – Uma vez eu enfrentei um estuprador e foi a pior coisa que eu fiz na minha vida.

–Mas você é magrelo, Flake. – eu ri.

–Mas... Ele deve ter armas!

–Eu não vou enfrentá-lo sem nada. Acho que eu vou pegar uma faca, alguma coisa.

–Me deixa ir com você?

–Claro que não! – eu olhei para ele – É perigoso. Esse cara é um assassino de verdade, Flake.

–Eu só não quero que você se machuque por minha causa de novo.

Antes que eu pudesse dizer algo, os lábios finos dele estavam em cima dos meus. Nossas mãos tocaram o corpo um do outro curiosamente. Flake quebrou o beijo para poder chupar o meu pescoço com força, enquanto eu apertava sua bunda. Nós não transamos, só nos provocamos por um tempinho.

Saímos da banheira, nos secamos e nos vestimos. A casa estava silenciosa, acho que todos estavam dormindo, ou tinham saído... Ou estavam vendo TV. Mas eu e Flake preferimos ficar no jardim, fumando um cigarro atrás do outro. Era legal como a luz da lua iluminava o rosto já branco dele. Eu queria ter uma câmera para tirar foto disso. Os olhos azuis dele pareciam brilhar. Ele se deitou na grama e uma nuvem de tabaco saiu da boca dele.

–A noite está bonita hoje, né? – ele disse. Eu me deitei ao lado dele e o abracei.

–É. – eu disse – Ich warte auf dich, am Ende der Nacht...

–Ich warte auf dich, am Ende der Nacht. – ele repetiu. Eu senti a sua cabeça se encostar no meu ombro. Virei a minha cabeça e ele estava lá, olhando para mim. Sorriu timidamente. Eu encostei meu nariz no dele e tomei seus lábios nos meus, de novo. Flake jogou no chão seu cigarro quase no fim e entrelaçou sua perna na minha.

–Você é lindo. – eu sussurrei, beijando a testa dele. Ele riu baixinho e enfiou o rosto no meu ombro.

–Isso é nojento. – disse uma voz familiar. Meu coração foi parar no estômago.

Eu dei um pulo e fiquei de pé, encarando meu inimigo. Death. Ele sorria maliciosamente. Com o canto do olho, eu consegui ver o medo no rosto de Flake. Eu vi também algo reluzindo na mão de Death. Uma faca.

–Entra na casa, Flake. – eu disse com a voz baixa.


Notas finais
GLOSSARIO:
Verdammt - maldição
Was ist los? - O que aconteceu?
Liebchen - amorzinho
Ich warte auf dich, am Ende der Nacht - Eu te espero no final da noite.