PdV do Flake

­–Que se foda essa merda. – eu disse enquanto caminhava pelas ruas. A minha mala estava pesada nas minhas costas, apesar de eu só ter pegado umas coisas básicas. Eu tinha ainda uns 300 dólares na minha carteira. Dava pra comprar drogas e comida, não que eu tivesse vontade de comer.

De repente, eu parei de andar porque uma sensação estranha de medo tinha começado a se instalar em mim. “Verdammt.” Eu pensei, enterrando minhas mãos na cabeça. Eu não sabia do que eu estava com medo. Acho que era só uma insegurança, parecida com aquela que eu tive quando saí do aeroporto em Detroit. Fui até uma banca, comprei três maços do cigarro mais barato (e o pior) que tinha e um isqueiro. Depois, fui até um supermercado e comprei uma garrafa de vodka (não foi barata). A mulher do caixa nem suspeitou de que eu não tinha 21 anos, porque eu era bem alto para um menino de 16. Pelo que eu me lembro, a cabeça do Paul batia no meu peito e a do Izzy batia na altura do meu pescoço.

No final da tarde, eu fui procurar um buraco pra me enfiar. Eu tentei de baixo de uma ponte, mas os mendigos que moravam lá não deixaram. Eu nem insisti, não estava com vontade de ser esfaqueado com cacos de vidro. Encontrei um espacinho coberto embaixo de uma loja e me sentei lá. Abri minha garrafa de vodka e tomei um gole. Aqueceu até minhas entranhas. Levantei as mangas da minha camisa. Os meus cortes estavam cicatrizando ainda. Acho que não ia deixar cicatrizes, já que eram muito superficiais. Fumei uns dois cigarros horríveis antes de adormecer, deitado na minha mochila.

Acordei com uma dor estranha no lado direito do meu corpo. Eu gemi e abri os olhos, para encontrar um homem me fitando com um ar de irritação.

–Bom dia... – eu disse educadamente, olhando para cima.

­–Bom dia o caralho! – o homem me deu um chute na perna. Eu dei um pulo e fiquei de pé, sentindo minha perna doer – Sai da minha loja, seu punk!

–Desculpa! – eu levantei as mãos defensivamente. Peguei minha vodka e meus cigarros e saí andando.

Andei por umas duas horas, até que bateu a fome e o cansaço. Fui até um bar, peguei um misto quente e voltei a andar. Não sabia para onde estava indo, eu só queria ir para longe, onde
ninguém me encontrasse. Eu queria estar em Leipzig com o Paul, fazendo camisas de flanela para vender nas feirinhas de festivais de música. Eu tinha planos de montar uma banda com ele, já que ele tocava guitarra. Mas eu não tinha nem um teclado e nós não conseguíamos achar um vocalista. Eu vinha de uma família da classe média, mas eu tive que treinar num parapeito de uma janela com teclas de piano desenhadas por dois anos até meus pais terem dinheiro para me comprar um piano decente.

À noite, eu me deitei embaixo de outra loja para dormir. Essa noite estava bem mais fria do que a outra. Fiquei uns 15 minutos com os olhos fechados, tentando dormir.

­–Me dá um pouco da sua vodka? – ouvi alguém falar comigo. Me sentei e vi um homem na minha frente. Ele era magro e sua pele era um pouco morena comparada com a minha. O cabelo dele era marrom e tinha um pano azul amarrado em torno de sua cabeça. Seus olhos eram castanhos e ele parecia muito velho.

­–Ok... – eu disse, me encolhendo de frio – Só não bebe tudo, tá?

–Não se preocupa. – ele sorriu, pegando a garrafa.

–Você tá com frio?

­–Não to mais... – ele disse, tomando um gole da vodka, que deve ter esquentado-o.

Mesmo assim, eu tirei um sobretudo curto da minha mala e dei a ele. Ele agradeceu e se sentou ao meu lado, colocando o sobretudo. Ficou curto nos pulsos, mas dava pro gasto.

­–Obrigado. Hoje em dia é meio difícil encontrar pessoas gentis como você. Posso saber seu nome?

–Uh, claro... Me chamo Christian Lorenz. Mas eu não gosto desse nome, então por favor me chama de Flake.

­–Ok, Flake. – ele pronunciou direitinho, para minha surpresa – Mas o seu nome é bonito. Christian Lorenz. É quase romântico...

–Ah... – eu senti meu rosto esquentar – Obrigado. E você, como se chama?

­–Aljoscha Rompe. Sou da Suíça, da parte alemã.

–Ah, você fala alemão?

–Um pouco. – ele riu – Mas me conta... O que alguém tão jovem como você está fazendo a uma hora dessa na rua, sozinho? Fugiu de casa?

­–Não, eu não fugi. Eu gostava da casa, é que eu... – fiz uma pausa para pensar se eu devia ou não ser sincero com ele – Eu briguei com meu namorado e fugi porque não queria mais vê-lo. Quer dizer, eu quero vê-lo, mas acho que ele não quer.

­–Entendo. – foi tudo o que ele disse.

­–Hmm... Você não se incomoda de eu ser zweigeschlecht? – eu disse, depois de um tempo.

Ele riu.

–Claro que não! É que faz tempo que eu não conheço alguém honesto.

Ficamos em silêncio por mais um tempo, só bebendo vodka e fumando.

­–E você, como veio parar aqui? – eu disse.

­–Ah, eu vim da Suíça procurando um
emprego. Na verdade, eu ia trabalhar aqui com um amigo meu, numa loja. Eu ia fazer brincos para vender, inclusive eu gostei desse seu brinco. – ele apontou para minha orelha.

­–Obrigado. – eu sorri.

­–De nada. E aí, eu me perdi por aqui, numa vez que eu bebi muito e me separei do meu amigo.

–Que estranho. – eu ri um pouco – Isso foi há muito tempo?

­–Uma semana. Mas agora eu achei você e me sinto mais seguro. – ele sorriu.

­–Ah, eu também. – eu sorri.

Ficamos conversando sobre coisas bobas até adormecermos.



Notas finais
GLOSSARIO:
Verdammt - maldição
Zweigeschlecht - bissexual