Pele E Lábios
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Mas eu estava com duvida: Coloco ou não coloco?
You decide...
BOA LEITURA!
PdV do Flake
Esse negócio todo do Izzy não me deixou dormir bem à noite. Porque eu fiquei pensando “Que tipo de criatura teria coragem de fazer uma coisa dessas com alguém tão... bonito e legal como o Izzy?”. Não, eu ia descobrir quem tinha feito aquilo, mesmo que ele não queira.
O Izzy não foi à escola no dia seguinte, porque ele não ia conseguir sentar. É triste de pensar nisso. Eu só fui porque ele me mandou. “Flake, você tem que estudar e virar médico.” Ele disse, sorrindo, deitado de lado na cama. Isso dava raiva. Estava andando calmamente, chutando as pedrinhas do caminho, quando ouvi uma voz e uma mão agarrou meu ombro.
—Flake!
Me virei. Era o Axl, como sempre, jogando aquele sorriso de ator hollywoodiano em cima de mim. Eu tentei sorrir, mas o sorriso saiu mais feio do que já era. Axl levantou uma sobrancelha.
—Que foi? – ele me perguntou.
Eu suspirei, pensando se devia contar a ele ou não. Eu me sentia na obrigação, já que ele era o melhor amigo do Izzy. Mas eu sabia que a reação dele ia ser muito estrapolada, então... Eu o puxei pelo braço e sussurrei no ouvido dele:
—Axl, fica calmo, mas o que eu vou te contar é schwer.
—É o que?!
—Me escuta... – eu dei uma pausa longa – Ontem o Izzy foi estuprado.
Ele ficou pálido e depois vermelho de raiva.
—Quem? – foi tudo o que ele disse. Eu achei que ia sair fumaça do ouvido dele.
—Eu não sei, ele não me falou.
—Você ainda vai para a escola?
—Eu vou, né. Vou ver se descubro alguma coisa.
—Tá. Eu vou lá na casa do Izzy, vê-lo. Tchau, Flake.
—Tschüss.
Eu continuei meu caminho para a escola, feliz agora porque Axl ia tomar conta do Izzy. O dia correu normalmente, mas eu não consegui prestar atenção em nenhuma aula. Meus pensamentos giravam em torno do Izzy e do filho da puta que tinha estuprado-o. Eu não comi o dia inteiro, de tão nervoso que eu estava. Eu tinha dois hábitos de nervosismo: Passar a mão no cabelo e não comer. Por isso eu era magro e tinha um cabelão oleoso e loiro (tingido).
Eu fiquei até mais tarde na escola, observando cada um daqueles adolescentes do terceiro colegial. Todos muito fúteis, ficaram olhando para mim como se eu fosse um animal num zoológico. Eu estava encostado à parede de concreto, quando ouvi uma voz de trovão falar comigo:
—Você não come?
Me virei, assustado. Era apenas aquele professor de religião, Irmão Lindemann. Ele deu um sorrisinho apenas, parecia um homem sério.
—Eu não tenho vontade de comer. – eu disse friamente.
Ele riu suavemente.
—Seu nome é Christian, não é?
–Sim... – eu levantei uma sobrancelha.
–É bonito. O nome. “Cristão”. – ele se aproximou de mim e eu me irritei com o que ele falou.
–Eu não acredito em Deus. – eu cruzei os braços.
Ele riu novamente.
–Já imaginava que não. O que te levou a sair de Berlim e vir para cá?
–Eu queria ser médico. – a curiosidade dele me irritava.
–Você perdeu sua família no bombardeio? – ele falou isso com uma indiferença que dava medo.
–Perdi. – eu disse com os dentes cerrados.
–Me desculpe. Meu nome é Till.
–Hm.
Ficamos em silêncio, olhando um para o outro. Eu já ia ir embora, quando ouvi “... e aí ele ficou tentando gritar...” bem atrás de mim. Sem nem pedir licença, eu me afastei de Till e segui o grupo de meninos. Um deles estava falando do Izzy. Era o estuprador. Ele tinha ombros largos e músculos grandes. Se eu me metesse com ele, eu morreria na hora. Então, ele estava se gabando de como estuprou o Izzy e de como o cu dele era apertado. Os outros só ouviam e às vezes faziam comentários como “vadiazinha”. A raiva foi crescendo dentro de mim. Eu não pensei duas vezes e caminhei até eles.
–Mas ele já era gay, então... – o menino parou de falar assim que eu me aproximei – Ah, é a bicha nazista namorado do moleque que eu comi...
Senti meu estômago revirar e meu coração bateu mais rápido.
–Pervertido. – eu sussurrei, dando meu melhor olhar de desprezo a ele.
–O que? – ele se aproximou de mim. A malicia queimava nos seus olhos.
–Seu pervertido, maníaco, ESTUPRADOR! – eu fui subindo o tom da minha voz conforme cuspia as palavras como maldições. Na verdade, eu estava gritando para a escola inteira ouvir – Você estuprou o Izzy! Não pense que eu vou te deixar sair dessa!
Ele riu macabramente. Me puxou pela gola da camisa e nossos rostos estavam quase se tocando.
–Você tá morto. – ele disse. Pegou um canivete e abriu a faca. Eu comecei a suar frio quando ele encostou a lâmina nas minhas costelas – Vem comigo.
Ele me puxou pela camisa e eu fui tentando acompanhar seu passo. “Me desculpa Izzy, porque eu te desobedeci. Foi para o nosso bem. Agora a escola sabe. Ele vai me matar, mas pelo menos eu te vinguei.” Eu comecei a me desculpar mentalmente, enquanto ele me levava para um canto mais afastado de fora da escola “A polícia vai pegar esse cara, ele vai apodrecer na cadeia. Ai, me desculpa Izzy.”
–Você mexeu com o cara errado. – ele disse, pegando um soco-inglês pesado. Minhas pernas estavam tremendo e eu mal conseguia andar. Paramos de andar e ele me deu um soco, com aquele soco-inglês, no rosto.
Ouvi um estalo e depois uma dor muito forte se apoderou da minha boca. Lá se vai o meu maxilar. Eu comecei a gritar de dor e por socorro, mas parecia não haver ninguém no local. Ele me deu mais três socos. O sangue voou do meu rosto e eu vi estrelas. Lentamente, eu ia afundando mais e mais no chão.
Foi meia hora de surra. Eu já tinha desistido de gritar ou chorar. Eu estava inerte no chão, enquanto ele me socava mais e mais. O meu sangue já tinha banhado o soco-inglês dele. Isso vai deixar cicatrizes. O meu rosto... Deve estar deformado a essa hora.
Eu só queria morrer naquela hora.
Mas eu já ia.
Eu senti uma pontada no estômago e gemi alto. Levantei o rosto e vi o cara cortando meu estômago com o canivete. Não, eu não conseguia mais suportar aquilo. Minha morte ia ser dolorosa e lenta. Mas seria um jeito romântico de morrer, pela pessoa que eu amo. Sim, eu amo o Izzy. Eu o amei até o último momento da minha vida.
Fechei os olhos, só esperando para me apagarem daquele mundo. Eu comecei a ouvir gritos. E não eram meus.
–Assassino! ASSASSINO! – eu ouvi. Eu reconheci a voz. Era o Izzy, o meu anjo Izzy. Eu teria sorrido se não estivesse sentindo tanta dor. Eu conseguia ouvir seus soluços desesperados e seus pés se mexendo nervosamente ao meu lado. Acho que o Axl estava com ele.
–Você está preso por agressão e tentativa de homicídio. – eu comecei a ouvir. Era a polícia. Eles tinham trazido a polícia! O cara bem que tentou protestar, mas era muito óbvio que ele era o culpado.
Eu consegui sorrir. Senti que alguém me levantava.
–Flake, o que eu te falei?! – eu ouvi a voz de Izzy em meio a seus soluços – Não procura esse cara, foi o que eu te falei! Por que você não me ouviu?
–Ele está perdendo sangue, Izzy. – ouvi a voz alarmada de Axl – Ele precisa ir pro hospital agora, senão ele vai morrer!
–Não! – Izzy me apertou contra si, chorando desesperadamente – Flake, me ouve agora pelo menos. Eu não estou bravo com você, eu sei que você só queria me ajudar. Mas... – outra chuva de soluços. Eu sentia o seu corpo tremer como se estivesse convulsionando – Não morre agora! Flake, eu te amo, não me deixa! Não agora! Eu sei que você tá me ouvindo, então luta pela sua vida! Você... Vai ser médico. Vai ser um ótimo cirurgião. E eu vou ser um guitarrista. Você ainda vai ir na minha casa mais vezes e a gente vai conversar sobre nossos filhos.
“Nossos filhos?” eu pensei. Aí eu comecei a chorar finalmente.
–Izzy... – eu tentei dizer, mas minha voz estava muito fraca e eu estava perdendo a consciência.
–O que? Fala, Flake!
–Izzy Lorenz... Izzy Flake Lorenz... Eu quero q –
Tudo ficou escuro.
Notas finais
Schwer - duro, difícil
Tschüss - tchau
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