Pela Princesa - Interativa

24 Vermelhos e Negros - Parte I


Notas iniciais
olá! espero que todos estejam bem! hoje, como vocês podem ver caso olhem nas notas, é o aniversário de um ano de pela princesa!! eu confesso que nem parece que já faz um ano que eu estou aqui escrevendo e um fato curioso é que eu estou postando esse capítulo do mesmo lugar onde eu postei o primeiro :D obviamente não poderia deixar de agradecer a todos que estão acompanhando e que continuam acreditando nessa história, ela é feita com muito carinho, disso vocês podem ter certeza :) também tem um conto no tumblr escrito pela holtz que complementa uma cena do capítulo, então se quiserem ler antes do capítulo é uma opção, embora ler depois também não mude nada! sem mais delongas, feliz aniversário de pela princesa a todos hehehe o capítulo de hoje tem algumas revelações, novos mistérios e rumos, além do inicio da terceira e última fase espero que gostem!!

p o r t o r e a l

Havia algo de majestoso no Grande Septo de Baelor.

Aquele lugar havia sido construído para representar os Sete Deuses que se uniam em uma presença, representada pela brilhante estrela de sete pontas. Entretanto, vendo cada uma daquelas faces voltadas para ele, Aegon, o décimo de seu nome, poderia apenas imaginar como tudo era só uma ilusão para a luxúria dos nobres. O mármore sobre mármore, as joias no lugar de olhos, as cúpulas de cristais e o ouro emoldurando tanto lanças como lanternas.

Era uma bela, ilusória e pura fachada.

Ele também sentia-se uma fachada naquele momento, enquanto observava o corpo dele sem vida.

Aemond Targaryen parecia apenas dormir.

Haviam encontrado o corpo dele quase intacto, com exceção dos membros revirados para lados opostos e o braço queimado que teve de ser costurado de volta no lugar pelas Irmãs Silenciosas. O dragão havia caído primeiro do que ele, impedindo que seu corpo estilhasse contra a rua ou uma casa. Porém, tirando aquilo, parecia o mesmo de sempre, vestido nas mais finas roupas, com uma grande espada apoiada em suas mãos sem vida.

Muitos não compreenderam o motivo de sua majestade ter vindo tão cedo até ali.

Ainda mais sua guarda real que estava esperando nas grandes portas do septo e haviam sido os mesmos que foram ordenados a prenderem a Mão enquanto o mesmo ainda estava com vida. Alguns poderiam até mesmo saber a verdade da queda de Aemond. Entretanto, não cabia àquelas mente insignificantes entender o que se passava pelos pensamentos perturbados do Rei e muito menos os fios queimados que formavam seu coração destroçado. Apenas ele entendia a si mesmo, sempre fora assim. Sabia desde que havia nascido, entendeu isso melhor ao longo dos anos, fosse quando seu pai o espancava ou quando sua mãe o ignorava como se fosse um bastardo. A indiferença dos outros esteve sempre ali, ao mesmo tempo que ele era diferente de todos os outros.

Apenas uma pessoa o tratara com gentileza.

Fazia muito desde que ambos eram crianças tolas pelos campos de Solarestival, quando Aegon judiava de Aemond fazendo-o sofrer por puro capricho, ainda assim os dois continuavam juntos, ele não o abandonara como todos os outros.

Aegon imaginava que fora aquilo que o fez se apaixonar pelo homem agora morto.

Ter alguém que ao menos no começo não havia desistido dele, que permanecia ao seu lado mesmo com sua mente perversa e ações impensadas.

Cerrou o maxilar com força.

Se apaixonar.

Era uma palavra pífia, não chegava a representar o mínimo do que ela sentia, o que Aemond Targaryen fora para ele e para o que sempre seria.

O Rei olhou para o corpo com mais atenção, sentindo o misto de ódio e adoração por aquela face do seu amado inimigo.

Talvez ele mesmo fosse uma aberração tão grande quanto sua filha, aquela peste que ele tivera de gerar junto da mulher que mais odiava. Alyssana representava tudo o que ele mais odiava, era como o maior dos pecados para a mais santa das septas, pensou amargamente mesmo que nunca tivesse sido religioso. Pois amar um homem aparentemente o levaria até um dos sete infernos quando morresse, mas ele duvidava que até os deuses pudessem entender todos os sentimentos que o rodeavam em relação ao outro Targaryen. Era complexo, terrível e cruelmente belo. Por isso que durante toda a vida suas ações sempre o afastaram, por mais que quisesse ele ao seu lado.

O maligno e gélido Aegon sempre o quisera por perto, por mais que não pudesse demonstrar.

Havia lhe dado o título de Mão para que vivesse em Porto Real e ele pudesse ter uma desculpa para vê-lo todos os dias, mesmo que Aemond achasse que Aegon o odiava tanto quanto as sombras fogem da luz. Nunca havia deixado de ir para Solarestival, mesmo que todos se questionassem o porquê do Rei continuar voltando até a casa do homem de quem mais desgostava. Havia se casado com Rhaerys apenas para que Aemond não a tivesse para si, para que ele mesmo não fosse miserável sempre que visse felicidade no olhar dos dois. Alyssana, a filha que deveria ser de Aemond com Rhaerys, mas que terminou sendo do Rei e por conta disso Aegon para sempre a renegaria.

Com aquele misto de escolhas havia feito os três miseráveis.

Disso tinha total certeza.

E agora estavam ali, nenhum deles poderia ter o que queria.

Aegon não teria Aemond, Aemond não teria Rhaerys, e Rhaerys não teria Aemond.

O Rei tocou a pedra fria onde ele estava estirado.

Piscou, mandando as lágrimas de volta.

Ninguém poderia saber, o homem que deveria ter tudo, não poderia se dar ao luxo da tristeza, teria que encarar a dor no silêncio. Sabia que Rhaerys faria um escândalo quando soubesse e ele talvez até deixasse que a Rainha pudesse ver seu amado ser queimado no pátio da Fortaleza Vermelha, para dizer adeus assim como ele e então ficar tão triste quanto. Ela iria ficar devastada, em tremendo sofrimento e ainda assim sua angústia nunca seria maior do que o vazio que ele por toda a eternidade sentiria.

Um buraco no peito que havia cavado com as próprias mãos sangrentas.

Não havia outra opção.

— Você seria demais, mesmo para mim. — Murmurou tão baixo que ele mesmo mal se ouviu dentro da imensidão do templo. — Teria ido até Alyssana, sem nem saber o que ela havia feito contigo, o que ela havia criado sem o seu consentimento. Teria ganhado a guerra por ela e me destruído, sem nunca saber o que eu sentia.

Aegon encostou apenas a ponta de seus dedos nas mãos geladas.

Não se lembrava de tê-lo tão perto em tanto tempo.

Um único toque que se permitiria e então nunca o tocaria novamente.

— Eu tive que deixar você ir. — O tom era quase suplicante, da mesma forma que um músico recita um poema a mais bela das donzelas. Ou então se assemelhando a um dragão se explicando para os ossos carbonizados de uma ovelha. — Seria eu ou você, nós dois sabíamos que um dia chegaria a isso.

O Rei suspirou, colocando as mãos ao lado do corpo, se esquivando.

A súplica deu lugar a ira que sempre estava adormecida dentro da pele do dragão.

Com Aegon era sempre a mudança da calmaria para a erupção.

— Eu sempre fiz tudo por você, mesmo que nunca desse valor, mesmo que nunca soubesse. — Exprimiu em outro murmúrio fervente, libertando a verdade que sempre o manteve acorrentado em agonia. — Te dei o poder que tanto queria, que nunca conseguiria em Solarestival. Não matei Alyssana por você, deixei que ela vivesse naquele dia e olhe aonde isso nos trouxe. Fiz com que a criança vivesse por você.

Aegon sentia vontade de esmurrar algo, mas não havia nada que pudesse quebrar.

Então apenas olhou uma última vez para as pedras sobre os olhos dele.

— E você nunca saberá de nada disso.

As portas se abriram em um rangido que preencheu todo o vazio dentro das altas paredes brancas.

O Rei se virou em um giro meio assustado e meio irado, querendo saber por qual motivo a guarda real desobedeceria suas ordens de não deixar que ninguém o perturbasse, para que nenhum olho humano percebesse penúria.

Relaxou as mãos rígidas quando percebeu que era apenas Aelor.

Teria que lidar com ele hora ou outra, que fosse naquele momento.

O filho mais novo de Aemond vinha com um caminhar despreocupado, com um dos braços escondidos na meia capa vermelho-sangue e o outro apoiado no cabo da adaga. Como se aquilo representasse alguma ameaça para o Rei. O único que tinha fugido dos traços Dayne, seu cabelo prateado estava bem penteado e os olhos ametistas não demonstravam nenhuma preocupação.

Era um ator tão bom quanto Vossa Graça.

— Pensei até quando iria se esconder. — Aegon disse com a voz calma, voltando sua atenção para o corpo coberto em negro.

Aelor não respondeu. Apenas tomou seu lugar ao lado dele, observando o pai morto.

Um sorriso brotou em sua face.

— Não é engraçado? — Apenas os tolos confundiriam o divertimento em sua voz como verdadeiro, o humor escondia apenas o desespero. — Que nossa casa é a única que veste as cores da morte desde o momento que nascemos?

— A morte não me parece muito cômica, muito menos a de seu pai.

Aelor pareceu pronto para rebater, mas o olhar do Rei o calou.

O garoto precisava de rédeas caso realmente fosse usado por Aegon.

— Imagino que sempre achou que eu odiava seu pai, como todos os outros.

O garoto respondeu que sim com um aceno.

— Então não estava errado. Eu o odiava. — As mentiras sempre viam facilmente em momentos como aquele e elas eram especialmente fáceis de entrar em corações despedaçados. Aquele garoto havia perdido o pai, não tinha mais mãe ou qualquer contato com os irmãos. E ainda assim não demonstraria sua tristeza por conta do orgulho. Era uma peça fácil de levar de um ponto a outro. — Contudo, nunca subestimei suas habilidades. Por isso que o fiz Mão. Sua morte foi uma tragédia.

Aelor semicerrou os olhos, apertando ainda mais o cabo.

Aegon pensou se ele realmente seria capaz de cometer tal erro.

— Eu vi as marcas das garras de outro dragão. — O jovem cavaleiro comentou com um tom acusatório, não herdará nada da calma ou esperteza do pai, apenas a ira e impulsividade do lado dornes. — Os cortes eram grandes, de um dragão maior.

O Rei já esperava por aquilo.

— A fera de Alyssana sempre fora um belo espécime. — Outra mentira que viera fácil da sua língua preparada. Se todos acreditassem que a antiga princesa atacara primeiro, então não veriam problema quando ela fosse despedaçada. — Uma pena que terá de morrer junto de sua dona.

— Irá mesmo matá-la? — A pergunta veio com um misto de medo e surpresa, além da incredulidade em tudo o que o monarca dizia.

— Ela não hesitará em fazer o mesmo comigo, como já fez com seu pai.

Sua mão mostrou o corpo e o semblante de Aelor se fechou ainda mais.

O rapaz não acreditaria facilmente em seus cânticos blasfemos de uma garota matando outro cavaleiro de dragão tão mais experiente, mas havia uma beleza nas pessoas em luto. Elas sempre se apoiarão ao primeiro ombro que oferecer consolo.

— Além de existir a questão do seu irmão.

Conseguiu toda a atenção dele com apenas a última palavra.

— O que tem Daeron?

— Não é óbvio? — O Rei deixou um leve sorriso perverso e verdadeiro sair de seus lábios, imaginando como o garoto seguia da mesma forma que arquitetara antes, criando as nuances daquela conversa. — Daeron será o maior apoiador dela, como sempre foi.

— E o que isso implica?

— Outra coisa óbvia. — Aegon disse com leveza, focando em Aemond e gravando em sua mente os pequenos detalhes de sua face que ainda poderia memorizar. Deixou o ar sair de seus pulmões com calma, sabendo que aquele seria um de seus últimos momentos de calmaria. A guerra já havia começado. — Ele morrerá com ela.

O garoto pareceu pensar por trás dos olhos violetas e isso era um problema.

Pessoas que pensam demais chegam a conclusões.

Aegon precisava de uma mente jovem cheia de dúvidas.

— E quando ele morrer, Solarestival precisará de outro senhor. — O Rei completou, deixando as implicações de suas palavras pairarem no ar.

Aegon bem sabia que a ganância existia em todos.

E a de Aelor brilhava radiante em seus olhos da mesma forma que as pedras cintilantes nos olhos dos deuses.



A besta havia caído dos céus.

Pessoas se apinhavam ao seu redor como piratas em busca de ouro. Os mantos dourados pouco poderiam fazer, pois nem eles conseguiriam conter a multidão, a não ser que abrissem caminho derramando sangue. Então grande parte da cidade se dirigia ao dragão que havia destruído tudo ao seu redor em sua trágica queda, com as grandes asas abertas, uma delas meio solta do resto do corpo.

Sangue em tons de roxo manchava os paralelepípedos de pedra.

As lustrosas botas de Kyra precisariam de uma lavagem depois, porém era um preço pequeno para se estar tão perto de tal fera que sempre rodeou sua imaginação desde criança. Já tivera a chance de vê-los de longe, fosse na proa de seu navio ou naquela cidade fedorenta. Mas, um verdadeiro dragão a um palmo de sua mão, a multidão parecia nada com tanta grandeza de um ser morto.

Ela o tocou.

Estava frio. Nada do fogo que sempre a prometeram.

A nascida de ferro tirou a mão das escamas decepcionada.

Os dragões ultimamente não faziam nada a ela além de decepcioná-la.

Observou crianças maltrapilhas ao longe, cutucando a boca aberta do animal com um galho retorcido. Um comerciante parecia disposto a tentar arrancar as garras do animal e vendê-las depois para o outro lado do mar. Um capitão da guarda da cidade berrava com os construtores que deveriam tirar aquilo dali de uma forma ou de outra. Uma mulher chorava aos pés de escombros pelos seus filhos que haviam morrido em suas camas, o telhado havia caído sobre ambos naquela noite. As irmãs silenciosas faziam seu trabalho de levar os cadáveres, prontas para prepará-los ao além.

A mão de Torben tirou Kyra do meio do aglomerado.

— Temos que ir. — Ele falou perto de seu ouvido, seu tom era ansioso, ele tinha medo.

A mulher concordou apaticamente, deixando que o mesmo a levasse para longe do povo, dos murmúrios e agitação. Porto Real era um mar de pólvora pronto para explodir. Porém, o problema era que ela já havia explodido parte daquele mar na noite passada. Sua mente quase conseguia recriar para seus olhos a completa imagem do porto em chamas, o verde vivo e bruxuleante, consumindo a frota real e o píer que os segurava.

Por uma noite o mar queimou.

E tudo aquilo fora obra de Kyra Greyjoy.

Embora as pessoas insistissem em comentar que fora a princesa, que ela tinha atacado a cidade.

As pessoas nunca saberiam da verdade.

Eles pararam em uma viela escura e fedendo a merda.

— A tripulação está agitada, eles querem mais. — Torben comentou o que ela já sabia, o que a estava deixando pensativa e indecisa quando deveria estar centrada. — Você prometeu a eles o preço do ferro e até agora ninguém recebeu nada.

Kyra suspirou, se recostando na parede de uma velha casa.

Uma lavadeira colocava roupas num varal que cruzava o telhado de dois prédios. Um homem andava empurrando uma carroça cheia de frascos com um líquido vermelho, gritando que era sangue de dragão e que curaria até a pior das enfermidades. Um ferreiro batia com seu martelo, os pedidos triplicando desde a noite passada.

A capitã olhou para seu amante.

Torben Fregar, o pirata de cabelos pintados, blusa entreaberta e joias adornando seu corpo. Ele havia ludibriado a Greyjoy com todo aquele charme há anos, mas a mulher sabia que ele a amava, mesmo que para ela o sentimento não fosse na mesma intensidade. Pois Kyra sempre escolheria a si mesma, enquanto ele morreria por ela se o momento chegasse.

Os olhos dela encararam os dele.

— Você confia em mim?

O bravosi expressou um de seus sorrisos charmosos.

— Sabe que sim.

— Pois bem, vou precisar de toda sua confiança para o que está por vir.

Ele sabia o que aquele olhar significava, era caótico e sedento por algo que seria difícil de conseguir.

Kyra não era uma lula, era uma tempestade, sempre pronta para explodir com raios e ciclones.

Nada parava aquela mulher quando ela tinha certeza de algo e agora suas apostas estavam nos maiores dos riscos.

— Já sabem da bastarda Lannister?

— Não, ela sumiu, assim como a amante dela.

A capitã sabia o que tinha de fazer, o que teria de tomar. A ilhas ainda esperavam por ela, existindo uma recompensa ou não. Sua missão continuava a mesma, pois Pyke continuava a sangrar, mesmo que não pudesse ver nada dali.

— Não consegui nada do que prometi a vocês, nada do que prometi a mim mesma que iria conseguir. — Dizia com a voz elevada, estava gravando uma promessa naquele momento. — Não tem mais uma princesa para achar, mas uma guerra para ser travada.

— E de que lado estamos?

— Do único possível. — Ela sorriu e em seguida o beijou, prendendo suas mãos em sua blusa folgada, seu hálito ainda estava quente quando voltou a falar. — Do meu.



A capital havia voltado a falsa imagem de calmaria, contudo Sieglinde sabia exatamente como aquela cidade estava cheia de tramoias perambulando pelas vielas escuras. Ela mesma estava envolvida em uma naquele momento e percebia seus sentidos tentando trair sua mente sempre afiada, vendo vultos nas sombras, barulhos inexistentes e vozes sem palavras.

Ela levou a carta até o peito, apertando o papel contra o corpete costurado com sóis.

Estava paranoica, em grande parte por ter abaixado sua guarda e ter achado que iria morrer.

Já passou, Sif.

Sua mente dizia, entretanto seu corpo ainda queria tremer.

A memória trazia a falsa sensação das mãos a prendendo, puxando e violando. Havia se sentido impotente, perdida e quebradiça. Mesmo após saber o motivo de terem a levado até às sombras, ainda assim não havia voltado a sua calma natural, percebendo naquela noite o quanto insegura se sentia e que estava indefesa naquela fortaleza agora cheia de perigos.

Também sou mãe e farei tudo pelo meu filho.

As palavras de Alyssana pareciam reais, frutos de um coração clamando por sua criança. Sif muito bem conhecia aquele sentimento, tinha tido ele na mesma noite em que recebera a carta, pensando que seu filho poderia estar em perigo no meio desordem e depois que nunca mais iria vê-lo quando as garras a levaram até as sombras.

Esperava nunca mais sentir aquilo e seu coração materno desejava o mesmo à princesa.

A dornesa levou os olhos até a carta novamente, as palavras já haviam sido decoradas por olhos ágeis e cada frase parecia gravada em seu espírito. O mensageiro que havia lhe levado até longe dos olhos de todos e havia sido muito claro em suas palavras, aquela era uma carta para ela e apenas os seus olhos deveriam lê-la. Aquele era um assunto importante, um pedaço de pergaminho que poderia fazer com que sua cabeça rolasse. Uma decisão que poderia mudar o rumo da guerra que Sif já sabia estar acontecendo. Westeros iria arder sob o fogo dos dragões e ela precisava saber qual lado ganharia, pois não poderia deixar Dorne e sua família perecer.

Levaria dias até que as notícias chegassem até Lançassolar, até que sua mãe tomasse uma decisão.

Se Sieglinde quisesse usar aquela carta e atender ao pedido da princesa, teria que ser rapidamente ou então ter recebido aquilo seria em vão.

Levantou o olhar ligeiramente, assustada com o barulho das batidas leves na porta.

Controlou a respiração e escondeu seu segredo dentro do corpete.

Seus passos a levaram até a porta mais rápido do que pretendia e ela percebeu novamente o quão eufórica estava, aquilo era um problema. Tinha que recobrar a compostura e a leveza que sempre carregou consigo durante toda a vida. A face de Elrie trouxe um pouco de paz, um rosto amigável e o mais importante, uma pessoa confiável.

Ela praticamente puxou a irmã para dentro do quarto.

— O que está acontecendo, Sif? — Elrie questionou assustada enquanto a irmã mais velha trancava novamente o quarto e fechava as cortinas que haviam sido abertas pelo vento turbulento daquela manhã nublada.

Só assim conseguiu sentar no divã novamente e se acalmar levemente.

— As paredes têm ouvidos na Fortaleza Vermelha. — Era um ditado popular, um que Sif levava no coração desde que havia colocado os pés naquele lugar.

Elrie pareceu entender imediatamente, se mantendo atenta.

— Tem algo haver com o ataque no porto? Ou a morte da Mão?

— Pior.

Sieglinde tirou a carta de seu esconderijo e entregou a irmã sem pensar, havia confiança entre as crianças Martell forjada desde o berço. Um código tatuado no coração de todos eles que inspirava união e irmandade, isso ainda existia entre elas mesmo após tantos anos separadas. Elrie leu tudo com paciência, prestando atenção aos detalhes e ficando tão surpresa quanto a irmã havia ficado na primeira vez que observou tais frases.

— Ninguém sabe disso? — A Martell mais nova perguntou temendo por ela.

A Princesa do Sol negou com a cabeça já se sentindo mais leve por ter dividido o segredo com mais alguém, uma pessoa que poderia ajudá-la e lhe dar um conselho num lugar onde ela não podia confiar em ninguém além da família. Trazia um sentimento de segurança pequeno, mas que acalentava um coração angustiado.

A outra se aproximou do divã, se ajoelhando perante Sif e tomando suas mãos com a carta.

— Se lhe pegarem com isso já será considerada traidora. — Elrie alertou temendo pela irmã que amava e queria ver segura.

Sif mostrou-lhe um sorriso triste.

— E se não fizer nada irei me arrepender depois.

Elrie moveu a cabeça em negação.

— Queime isso, não ouça ela. — A mais nova sussurrou embebida no receio. — Alyssana não sabe o que pede, será impossível.

Sieglinde sabia que aquele pedido talvez fosse demais, até para ela, que sempre foi considerada uma mulher geniosa. Porém, fazer o que ela lhe pedia não era apenas perigoso e arriscado, mas um ato declarado de guerra e de qual lado ela estava. Talvez nem possível fosse, todavia, caso fosse realizado, mudaria o rumo daquele confronto.

E ainda havia a promessa…

Seu filho será tão Martell quanto o meu será Targaryen.

A Princesa de Dorne já tinha a completa certeza de que não existia mais recompensa a ser resgatada, nenhuma troca de um pedido por outro, nenhuma legitimação por Daevon. Seu filho sairia dali da mesma forma que havia chegado e ela para sempre sentiria que havia falhado com a pessoa mais importante de sua vida. Ela olhou para a direção onde ele estava, no quarto guardado por seus guardas, protegido de qualquer pessoa que lhe quisesse fazer mal.

Um trovão retumbou tão perto que as duas irmãs olharam assustadas para a grande janela.

Estava chovendo.

— Pode sim ser impossível, porém eu sinto com toda a minha intuição que vou me arrepender se não tentar.

Elrie olhou para a irmã com a boca quase rebatendo ela novamente, mas talvez a expressão de Sif dissesse mais do que suas palavras, pois ela entendeu sem dizer mais nada. A preocupação ainda existia, mas seu olhar trazia o calor de uma irmã que compreendia a outra e sabia que algumas coisas eram necessárias de serem feitas pelo amor. O carinho de uma mãe por seu único filho ou a paixão de uma mulher por um Mestre Navegador, as muitas formas de amor e ser amado que moldavam nossas escolhas sem nem ao mesmo percebermos.

— Tome cuidado! — Elrie pediu devolvendo a carta e se sentando ao lado da irmã, deixando que ela deitasse em seu colo. Duvidava que alguém tivesse feito isso por ela em muito tempo, deixando ela apenas descansar.

— Você sabe que eu irei, mas e quanto a você?

— O que tem eu? — A mais nova havia ficado tão perdida em Sif que mal passara por sua cabeça as consequências do que ela faria nela mesma.

— Venha comigo, volte para casa. — Sieglinde pediu se levantando novamente e focando na irmã.

Elrie sorriu levemente, não estava zombando da irmã, mas acreditava que às vezes Sif se esquecia que ela também já havia mudado tanto.

— Sif, eu sempre amarei Dorne e Lançassolar, mas há muito que minha casa não é mais lá. — Ela disse colocando uma mão sobre a da irmã enquanto a chuva limpava as ruas de Porto Real. — Minha casa é ele e sempre será.

Sieglinde meneou a cabeça.

— Eu entendo.

Coryn Velaryon era para ela o que Gaemon fora e o que Borys era. Não cabia a Sif julgar aquilo ou tentar carregar os dois para longe dali, isso devia vir apenas deles e de ninguém mais, se quisessem permanecer ali a princesa nada poderia fazer.

— Tem certeza de que ficarão bem?

— Coryn é o Mestre Navegador e agora que a frota real queimou o Rei vai precisar dele ainda mais, mesmo que a esposa dele seja de uma casa rival. — Ela sussurrou as últimas palavras, trazendo um leve riso a ambas, um alívio no meio da escuridão.

— Fique bem, irmã.

— E você faça o mesmo. — Sieglinde respondeu, era um juramento entre irmãs.

Outro trovão atravessou o céu.

Sif tinha um último pedido a fazer.

— Elrie, você sabe onde Taryne está, correto?

Ela pareceu incomodada com a pergunta. A gêmea de Elrie havia sumido nos últimos anos após a mesma ter brigado com a mãe delas e desde então Lançassolar havia ouvido apenas rumores de uma Martell e sua pequena frota de dracares navegando pelas Cidades Livres de Essos. Porém, Sieglinde sabia que as gêmeas eram próximas demais para se manterem separadas, mesmo que suas personalidades fossem opostas da mesma forma que água e fogo. Sendo que aquele não era o momento para estarem separados, os Martell precisavam continuar unidos, ou então ruiriam da mesma forma que os Targaryen.

— Preciso que mande uma mensagem para ela, diga a ela que volte para casa, que a família dela precisa de ajuda.



Uma tormenta lavava a cidade e isso fazia com que Borys apenas sentisse mais saudade de casa.

Ponta Tempestade estava tão próxima e ainda assim tão distante. Ele gostaria de estar lá, com sua família. Rindo de alguma piada boba de Roberta, bebendo com seu pai no grande salão, treinando dentro das grandes muralhas. Todavia, imaginava ele levando Sieglinde consigo. Mostrando a ela a Mata da Chuva no dorso de seu cavalo, ambos vendo o mar se arrebentar nos penhascos da Baía dos Naufrágios ou por fim velejando pelas águas num dia de sol.

Todos os pensamentos pareciam apenas sonhos e o cavaleiro se sentia bobo por imaginar tais coisas num momento como aquele. Porém, era aquilo que Sieglinde fazia consigo, o virava de ponta cabeça e ele nunca se importaria de viver o novo ao lado dela. Borys ignorou todos os outros nobres naquela sala, vislumbrando a chuva bater contra os vitrais da janela na Torre da Mão, também se perguntou onde ela estaria naquele momento.

Na noite passada havia ficado preocupado em perdê-la.

Havia lhe encontrado em seus aposentos minutos depois de saírem do jardim. Sif estava estranha, ele não sabia o certo o porquê, mas tinha aquela certeza. Entretanto, não teve tempo de descobrir o motivo quando seu pai o convocou para o conselho de guerra. Todos os lordes com nomes de peso estavam ali e nenhum deles parecia feliz com o atraso do Rei, ainda mais após passarem a noite inteira discutindo o futuro do reino e recebendo as informações do que vinha acontecendo pela capital.

Porto em chamas.

A notícia da morte de Aemond Targaryen havia se espalhado rapidamente.

A guerra havia começado.

Borys não dormira em momento algum, apenas cochilara em sua cadeira por segundos até ser chamado por um ou outro que queria seus conselhos em algum assunto. Estava irritado e cansado, odiava aquelas reuniões que não resolviam nada. Queria saber como Sif estava, poder ficar com ela e terminar de conversar o que haviam começado no jardim.

Ela precisava da certeza dele.

Queria correr até ela e segurá-la em seus braços.

Mas, Vossa Graça finalmente resolveu aparecer.

A guarda real não saiu de sua cola até ele se sentar na grande cadeira que pertencia ao falecido dono. Os homens de mantos nevados pareciam procurar o mínimo dos motivos para desembainhar as espadas e Borys apenas conseguia pensar em como eram patéticos e ainda serem considerados a elite que protegia o Rei de Westeros.

Aelor apareceu logo depois, permanecendo na porta.

Borys foi um dos poucos que lhe deu qualquer atenção. Ainda o achava irritante, porém sabia o que era o peso da dor pela morte e pensava em talvez falar com o jovem mais tarde, quando tudo aquilo acabasse e ele tivesse um pingo de paz. Porém, não tinha certeza caso Aegon tinha a mesma vontade que ele de finalizar todo aquele circo da nobreza o mais rápido possível.

— Estivemos lhe aguardando, Vossa Graça. — Seu pai murmurou, tão ansioso como Borys e esperando com o mesmo afinco por ação. Um havia puxado a predisposição pela luta do outro. — A capital está um caos, o povo assustado…

— Pois bem, cabe a você resolver tais assuntos agora.

Lorde Baratheon mal teve tempo de reagir quando o Rei jogou-lhe o broche dourado.

— Você agora é a Mão do Rei.

Se fosse em momentos antes da guerra seu pai talvez tivesse pronto para comemorar pelo posto que já almejava, porém ele não era um completo tolo para entender o peso que o cargo traria aos ombros dele num momento sem paz. O objeto dourado rolou em sua mão, como se a tentação de jogá-lo de volta fosse quase impossível de ignorar.

— Vossa Graça, tem certeza que…

— Já está decidido, você é a nova Mão e trará a ordem aonde quer que seja necessário. — Aegon o interrompeu com uma mão levantada, enquanto avaliava com os olhos quem estava ali. Lorde Tyrell, sempre risonho e bem afeiçoado, pareceu encolher perante o fuzilar de ametistas. — Começando pela capital, descubra o que puder sobre o incêndio, embora tenha quase certeza que deve ter haver com a traidora e seu marido. Afinal, ela já matou Aemond.

Os nobres nem tinham mais o decoro de cochichar, gritavam uns com os outros.

Vossa Majestade parecia tão impaciente quanto Borys, pois esmurrou a mesa trazendo o silêncio ao recinto.

— Não quero ouvir fofocas e discussões sobre o que ou não aconteceu, eu quero ações e decisões. — O Targaryen ordenou e o herdeiro Baratheon cruzou os braços contrariado. — Qual a situação do porto? Quem fez alguma coisa além de especular a noite toda?

Lorde Velaryon tomou a frente.

— Perdemos quase toda frota, sobrou apenas meia dúzia, e todos os que sobraram precisam de reparos. — O Mestre Navegador explicou olhando para os pergaminhos que trazia em mãos. De todos ali Borys o considerava o mais centrado e que não havia perdido a calma. — O Água Negra está desprotegido e o píer em pedaços, os comerciantes irão se recusar a vir até aqui, ficaremos minguados no comércio e sem os recursos que vinham de longe.

Aegon suspirou.

— Suponho que você já tenha uma solução.

Velaryon olhou para os papéis e para o Targaryen sem uma conclusão decente, antes de responder evasivo.

— Vou cuidar disso, Vossa Graça.

— E quanto a princesa? — Um dos Targaryens das Terras da Coroa perguntou receoso.

Aegon pareceu enfurecer, mas conteve sua ira, respondendo diretamente ao homem.

— Ela não é mais princesa, não é nada. — Disse friamente, deixando quem questionou amedrontado. — E ela já deve ter fugido após o ataque da noite passada.

— Se foi ela mesmo que atacou a cidade, deve ter voltado para o Vale, para o marido. — Borys por fim abriu a boca, atraindo a atenção de todos ali.

— Sor Borys, finalmente um homem que sabe o que diz. — O Rei disse com um sorriso falso e uma mão pedindo que continuasse.

O Baratheon deu de ombros, sem ter mais nada a acrescentar.

— Você é conhecido por ser um dos maiores generais e cavaleiros do nosso reino, o que sugere? — Vossa Graça insistiu.

Borys sabia que todos ali queriam saber o que ele tinha a dizer.

Sua mente militar sabia exatamente quais planos deveriam ser tomados, que lugares proteger e qual atacar. Todavia, também tinha noção que cada um desses planos necessitava de um ponto chave. Ele mesmo. Teria que ir para a guerra e sabia quanto tempo ela poderia durar, os preços que eram pagos em campos de sangue junto das espadas partidas pelo caminho.

Era ainda mais difícil quando se tinha alguém para deixar para trás.

Eu poderia não dizer nada, pensou por um segundo.

E então sentiu a mão de seu pai em seu ombro, olhou para a face dele e viu o que ele dizia sem as palavras.

Ele era o herdeiro e havia prometido que sempre cumpriria com seu dever para com Ponta Tempestade. Fora o combinado no dia em que Warren foi autorizado a ir para a Cidadela. Não poderia descumprir com sua própria palavra, mesmo que isso o afastasse da mulher que amava e que agora não queria perder de forma alguma.

Era seu dever, sua honra.

Me desculpe, Sif.

Borys levantou-se, apontando para o caminho da capital até o Vale num mapa que alguém havia jogado sobre a mesa horas antes.

— Nós atacamos primeiro e usamos a nossa vantagem numérica, um ataque certeiro nos Portões do Vale quando eles estiverem saindo, pois vão ter que sair se quiserem conquistar algo. — Descreveu enquanto sua cabeça trabalhava em rotas, números e dias. Já ditava o que iria ser feito e aparentemente ninguém, nem o Rei, parecia disposto a discordar de suas ordens. — Eles têm apenas um dragão, nós temos mais, temos que usar isso.

O Rei parecia feliz com o que ele havia dito.

Todos concordavam com a cabeça e Borys sabia que estava se comprometendo com tal esquema, a derrota ou vitória dependeria apenas dele e mais ninguém. Era um peso que já estava acostumado a carregar, mas nunca naquela proporção.

Nunca havia coordenado uma guerra.

— Do que irá precisar Sor Borys? — Aegon questionou, o brilho nos olhos dele escondendo mais do que poderiam entender, mas que todos ali compreendiam como ânsia por algo.

Borys observou o mapa novamente e desenhou em sua cabeça um exército marchando.

A imagem foi desfeita quando o Grande Meistre entrou com um corvo em mãos.

— O que aconteceu agora? — Disse o Rei, se dirigindo ao pobre homem que parecia pronto para urinar nas próprias calças.

O meistre era novo, enviado pela cidadela há poucos meses. Borys se lembrou de seu irmão.

Sua voz saiu quase em um sussurro causado pelo medo e os olhares precisos, suas mãos levantaram o corvo ao alto, para que todos pudessem vê-lo bem. A chuva não parava de cair, abafando o som dos gemidos de temor e pedidos aos deuses por proteção.

— Vossa Graça, o inverno chegou.

O corvo em suas mãos era branco como a primeira neve da estação.

Notas finais
a história agora também está sendo postada no wattpad, caso alguém se interesse em ler por lá, aqui está o link: https://www.wattpad.com/story/275187214-pela-princesa não se esqueçam de ler o conto, está muito bom!! beijinhos e até os comentários ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.