Pela Princesa - Interativa
23 Três Dias De Seu Nome - Parte II
Notas iniciais
p o r t o r e a l
Aparentemente Sieglinde não havia sido a única naquela noite estrelada que tivera a ideia de se encontrar com um amante nos jardins verdejantes da Fortaleza Vermelha. Vários casais se enroscavam pelos arbustos floridos e paredes cobertas de relva, mãos rondando lugares inapropriados para nobres e bocas ocupadas. De qualquer forma, ninguém a incomodou ou se importou com mais uma mulher no meio daquele lugar.
Caminhou por entre sombras, o rosto anguloso escondido da luz do luar.
Sabia que era arriscado estar ali, sozinha e esperando Borys, mesmo para ela que tinha mais poder do que muitas. Poderia causar um escândalo, uma cena e principalmente fofocas, tudo o que poderia ser a ruína da mais nobre das ladys. Porém, ela precisava de uma resposta para suas dúvidas e saber o que aquele relacionamento significava, talvez até para ela mesma.
Pensava na dança que tivera com ele, enquanto aguardava sentada em um dos bancos de pedra fria.
Ainda podia sentir em sua memória as mãos do Baratheon em sua cintura e sua respiração quente, quase como se eles estivessem de volta ao salão, tão próximos. Pensava naquele momento, mesmo que aos olhos de todos, como um dos mais íntimos deles juntos, ainda mais do que quando compartilharam a própria cama, quase como a primeira noite que ambos dividiram. Não era apenas corpo e toque, era intimidade, estar livre e juntos ao mesmo. Fora definitivamente bom e a deixou feliz.
Sem nenhum remorso.
Não vislumbrou Gaemon na sua mente em momento algum.
Pensar em seu falecido amor há muito fora motivo de sofrimento. Perder alguém tão especial era uma dor única e que para muitos seria incurável, pois todas as lembranças, mesmo as mais doces e felizes, apenas mostravam que tais momentos nunca poderiam voltar. Aquela pessoa nunca retornaria aos seus braços, a felicidade verdadeira de antes não poderia ser reposta ou recriada. Gaemon talvez para sempre fosse uma parte dela, uma parte de si mesma que sempre estaria faltando em seu coração.
Não poderia ter o mesmo amor do passado.
Todavia, quem sabe poderia possuir um novo no futuro.
Ao lado de Borys.
Sentiu um arrepio percorrer seu corpo, tanto de excitação com aquela ideia como por conta do frio da noite.
As mãos dele em seus ombros pequenos trouxeram calor.
Ela já conhecia aquelas mãos calejadas e brutas, mas que podiam ser gentis e dóceis. Tocou seus dedos grossos, sem se virar para o rosto dele, que a observava de cima com ansiedade escondida na postura rígida. Seu grande corpo bloqueando o luar cristalino e quase etéreo que banhava os jardins naquela noite aparentemente calma e festiva.
— Fiz-lhe esperar tempo demais? — A voz era grave e baixa, ele também não queria que os outros vissem ambos ali, mais por conta da honra dela do que a dele. Porém, tinha total conhecimento que o perigo já existia desde aquela pequena dança. Havia receio, misturado com a emoção e agitação de seguir contra o que era esperado.
Borys gostava de se arriscar, contudo aquela situação não envolvia apenas ele.
Parecia até como uma de suas batalhas, pensadas e orquestradas pelo Baratheon. Em que todas as vidas estavam sob sua responsabilidade, cada morte que poderia se tornar um peso que teria de carregar em sua consciência. Naquele caso, era Sieglinde que estava em jogo. Ele sabia o que poderia acontecer com mulheres em desgraça, mesmo que ela fosse uma Princesa de Dorne, ainda assim estaria fadada as regras do sexo e da lei.
Ele entendia isso melhor naquele momento e se preocupava.
Talvez porque nenhuma daquelas regras iriam se aplicar a ele.
— Não. — Sif respondeu e bateu duas vezes no lugar vago ao seu lado, Borys se sentou, tomando conta do pequeno banco com seu porte.
Seguiu-se um silêncio.
Ou quase silêncio, pois pessoas riam ao longe, bebiam vinho e gemiam encostados nas muralhas.
Mas ainda assim silêncio, enfim.
Ela o quebrou, estava mais ansiosa e se sentindo estranha por estar assim, logo ela, sempre centrada e paciente.
— Você disse que entendeu meus motivos, certo? — Questionou com calma, a voz tomando seu tempo e suas mãos querendo algo para segurar, enquanto observava a face sombreada dele. — O porquê de eu querer decidir o que seremos, o que podemos ser.
Ele meneou com a cabeça.
— Pois bem. — Ela continuou juntando as mãos nervosas sobre o colo e percebendo que, agora que finalmente batia de frente com ele novamente, era quando mais se sentia ansiosa. Pois, havia aceitado o fato de que poderia tê-lo de alguma forma, que poderia criar algo novo. E perder essa nova esperança seria lançar água em uma chama recém-nascida. — O que faremos a partir daqui, Borys?
Ele piscou com o par de olhos azuis.
Colocou as mãos na quina do banco de pedra, segurando firme ali para que sua coragem não desaparecesse logo naquele momento decisivo. Era assim que Sieglinde lhe deixava, inquieto e nervoso, com medo de dizer a coisa errada e estragar tudo. Já havia quase feito aquilo quando se esquivou dela naquele dia, agora temia fazer novamente por medo.
Tentou focar-se nas palavras de Roberta dias atrás.
Ele ficaria miserável sem Sif.
— Você me faz ficar perdido. — Confessou olhando para ela, realmente a vendo e não deixando que nada mais tomasse conta de seus pensamentos. — É quase o que eu sentia com Millian, ela me deixava confuso com o jeito dela, mas me conquistou de qualquer forma sem eu ao menos perceber. Com você, é como se eu estivesse sempre no pico de um abismo, meu coração nunca fica calmo perto de você. Eu me apaixonei sim por Millian, mas talvez eu já tenha sido derrotado na arte do amor por você anos atrás, em Dorne.
Ela abriu a boca para falar, mas ele a interrompeu.
A Martell se surpreendeu pelo herdeiro de Ponta Tempestade estar disposto a falar tanto de uma só vez.
— De qualquer forma, acho que nós dois já descobrimos que não vale a pena remoer as dores do passado. Elas continuam aqui, isso é verdade, mas não podem ser a única coisa a dominar nossas vidas. — Ele suspirou e deixou a postura relaxar nos ombros largos, quase vulnerável, como se ele não fosse capaz de derrotar qualquer um naquele castelo. — Eu já vi homens enlouquecerem depois de não conseguirem superar os traumas da guerra. Já nós dois aparentemente ficamos presos nos traumas do coração.
Sieglinde apenas concordou com uma aceno, aguardando o que mais ele teria a dizer.
Estava sentindo o coração se apertar, porém não por dor ou tristeza, era como um misto de emoção e sensibilidade. Via aquele homem moldado por aço, sangue e tormenta se libertar de tantas amarras e falar com ela do fundo de seu coração. Isso a emocionava, porque acreditava que no fim os dois estavam se tornando pessoas melhores juntos. Melhores do que quando entravam em Porto Real em busca de uma princesa que não sabiam se estava viva ou morta.
O silêncio voltou após isso.
— E então, o que decidiu?
Borys se virou completamente para ela.
Metade das faces deles iluminadas pela lua e a outra misturada em sombras. Tal cheio de dualidade quanto a relação do sol com o veado da tempestade. Eles eram tão diferentes, entretanto se completavam como a primavera e as flores.
O veado coroado sorriu para a princesa do sol, levando suas mãos até sua face.
— Decidi que quero ficar com você.
Havia muitas implicações para aquilo, no entanto era tudo o que ela precisava ouvir para ter a certeza de que necessitava. Existia um futuro para ela e Borys, uma idealização de que poderiam se livrar das amarras do passado e serem felizes juntos, mesmo com todas as dificuldades e regras que Westeros punham sobre ambos.
Borys aproximou seus rostos e seus lábios se encontraram finalmente.
Dois em um.
E então o mundo explodiu em verde e fogo.
Aemond apenas conseguia ver pura loucura nas palavras de Aegon.
Observou atentamente a sala do trono se tornar um mar de nobres inquietos, fugindo e gritando. Todos estavam em pânico após as revelações, a guarda real tentava com fracasso abrir caminho para o rei até a porta atrás do Trono de Ferro. Porém, muitos queriam falar com Vossa Graça demandando respostas e ação contra o que quer que estivesse acontecendo naquele momento.
Tudo isso enquanto a capital ardia.
Ele não sabia o que havia acontecido ao certo, aparentemente ninguém tinha uma resposta útil naquele momento, contudo tinha noção do pânico que iria e já estava causando. Tudo o que ele precisaria resolver, tudo o que era responsabilidade dele. Estamos em guerra, guerra com Alyssana, as palavras eram como um sussurro em sua cabeça, mas no momento era mais importante que se preocupasse com a segurança da cidade e com o que havia acontecido.
O fogo vivo ainda podia ser visto crescente pelos vitrais coloridos, criando uma mistura de tons macabros na noite.
Ele ignorou aquilo por um segundo.
Precisava ignorar e focar sua cabeça.
A Mão do Rei olhou a sala do trono em busca de Rhaerys, mas a rainha não estava ali e nem havia entrado com Aegon. Procurou por Aelor, mas aquele filho ele também havia perdido o paradeiro. Imaginou novamente onde Daeron poderia estar e a preocupação voltou como havia acontecido nos últimos dias. Nunca havia passado por sua cabeça a possibilidade de ter de enterrar um de seus filhos, mesmo o mais novo sempre aparecia momento ou outro depois de sumir por semanas, porém Daeron nunca havia ficado desaparecido.
Aemond sacudiu a cabeça com força involuntariamente, tentando recobrar os sentidos.
Daeron iria aparecer, ele sempre fora responsável.
Precisava cuidar de Porto Real, não se preocupar com algo que não poderia resolver.
Caminhou empurrando as pessoas e fazendo com que saíssem de sua frente. Estavam todos desesperados, achando que o teto fosse cair em cima de suas cabeças ou algo assim. Ele voltou seus olhos para o fundo do grande salão, vendo que Aegon não estava mais ali. Bom, um problema a menos. Não soube ao certo como, mas em um momento estava fora das grandes portas. Os guardas estavam tentando impedir que os nobres se matassem pisoteados, enquanto os capitães tentavam berrar ordens sobre as vozes alteradas e os gritos. Ele puxou um dos que passaram por perto.
— Você sabe onde a Rainha está?
Ele ficou confuso.
— A Rainha? — O homem fechou a boca por um segundo, como se estivesse indeciso se deveria falar algo ou não. Seus olhos se perderam no trono por um momento, onde o Rei deveria estar. — Ela deve estar... nos aposentos dela, senhor.
Aemond concordou com um aceno e se perdeu no meio da multidão novamente, seguindo até o complexo da família real. Ouviu o mesmo homem gritar algo em arrependimento, mas não foi possível entender nada no meio do barulho. O Targaryen ignorou aquilo. Sua própria guarda pessoal se reuniu em seu entorno no meio do caminho, eles aparentavam estar tão ansiosos quanto ele mesmo. Aemond abriu os dois botões apertados ao redor de seu pescoço apressadamente, suspirando com exagero e já fazendo o mesmo com os que apertavam seus pulsos.
— Já sabem sobre a explosão?
— Apenas que ocorreu no porto, senhor. — Um de seus intendentes murmurou enquanto o barulho do salão parecia se dissipar atrás deles, embora algumas pessoas apareciam correndo de um lado para o outro perdidas ou com baús sendo carregadas por criados ou eles mesmo. Aemond puxou Harry, um de seus soldados, falando para que apenas ele o ouvisse. — Vá até os Mantos Dourados, ordene que fechem os portões, ninguém deve sair da capital sem autorização da Coroa.
O homem saiu rapidamente.
A Mão não poderia deixar com que possíveis rebeldes fugissem, ele precisaria começar a questionar pessoas e atrair respostas.
Estamos em guerra, o pensamento voltou mais forte.
Por fim, chegaram às portas de Rhaerys e dois guardas barraram sua passagem.
— Saiam de minha frente. — Questionou sem qualquer paciência.
Precisava saber se ela estava bem, garantir sua segurança.
Ao menos a dela poderia fazer isso.
— Ordem do Rei, ninguém deve entrar. — Um deles respondeu ansioso, olhando de relance ao seu colega que parecia suar a luz das tochas.
— Eu sou a Mão do Rei e falo por ele em sua ausência, e estou mandando vocês saírem antes que a situação se volte contra vocês.
Ambos pareceram observar o número maior dos guardas de Solarestival, dois homens não fariam nada contra os dele. Enfim, eles abriram espaço, deixando com que Aemond entrasse e se deparasse com Rhaerys chorando jogada ao chão.
— Que merda está acontecendo com essa cidade hoje? O que aconteceu com você?
Ela não o respondeu, apenas se atirou a suas vestes puxando pano e se levantando à força. Ele a segurou, para que não caísse, vendo os olhos inchados e os punhos vermelhos de sua prima. O garoto Lucas também estava ali, tão desconcertado quanto a rainha, embora menos abalado, observando com o grande par de olhos violetas.
— Aegon… — A voz dela saiu rouca, quase um sussurro fruto de muito esforço. — Ele vai matá-la... vai matar minha filha…
Aemond piscou confuso, levando ela até a cama e fazendo com que se sentasse. O que está acontecendo? As dúvidas não paravam de surgir em sua cabeça que lutava para dar sentido ao que acontecia ao seu redor. Trouxe um cálice com água a ela, que bebeu tudo contra a vontade com as mãos dele levando o objeto a sua boca. Ela pareceu ficar mais calma após isso, conseguindo falar melhor.
— Aegon, ele está louco, ele vai matá-la! — Ela explicou em meio a voz ainda cortada e estagnada.
— Ele disse que ela se casou com o Arryn, que quer a coroa. — Comentou o que ainda se recordava das falas de seu primo na sala do trono.
— Ele mandou um assassino até ela!
— Rhaerys, você não está fazendo sentido algum…
Ela pulou da cama novamente, segurando seus ombros com mãos firmes e os olhos vidrados nos dele.
— Volte para casa, volte para nossa casa, reúna seus homens! Você pode mudar essa situação se ajudar Alyssana, ela precisará de ajuda…
— Senhor! A guarda real! — Um de seus homens gritou da porta e o barulho de aço tinindo começou quase que imediatamente.
Aemond a puxou para fora daquele quarto consigo, esquecendo do garoto bastardo e observando a luta que se tratava nas portas do aposento. A guarda real investia contra seus homens usando golpes brutais para matar, sendo que um deles já estava sangrando no chão com um buraco na barriga. O branco de seus mantos estava pintado de vermelho e suas espadas investiam para matar. O Rei também estava lá, escondido no meio de seus homens… sorrindo sadicamente.
— Eu sabia que viria até ela, Aemond! — O Rei gritou, andando de um lado para o outro atrás de sua proteção de corpos que lutavam por ele.
O Targaryen sentiu verdadeiro medo pela primeira vez do que Aegon poderia fazer.
Olhou para Rhaerys, observando seu estado e as frases soltas que ela havia lhe lançado, entendo melhor a situação.
Não era pura loucura, mas medo e reação.
— Fuja agora Aemond! — A mulher gritou por cima dos grunhidos de mais um de seus soldados morrendo e do tilintar metálico das espadas. — A cidade inteira te perseguirá, fuja enquanto ainda pode, volte para casa!
Aemond entendeu o que lhe aguardava quando os homens do rei conseguissem passar pelos dele, sabendo que não seria apenas lhe prender num quarto como haviam feito com Rhae. O rosto de Aegon era um vislumbre maníaco nas sombras criadas pelas tochas e candelabros, ele não pararia por nada até ter o que queria.
Seja lá o que aquilo fosse.
— Venha comigo! — Falou, segurando sua mão com força.
Ela negou com a cabeça, as lágrimas voltando a manchar sua face.
— Não Aemond, não posso sair daqui sem Aerion. — Ela murmurou e ele abriu a boca para rebater, mas ela o calou puxando sua mão e recuando com passos inseguros. — Eu não sou mais do que mais uma coisa para você se preocupar, você precisa fugir e eu tenho que ficar onde é meu lugar, com Aerion, ele não pode ficar aqui sozinho com esse monstro.
Restavam apenas quatro cavaleiros entre eles.
— Fuja! — Rhaerys gritou mais uma vez.
Ele correu.
Sieglinde havia se perdido de Borys ainda no meio do jardim.
Os dois estavam juntos quando a labareda esverdeada de fogo se elevou ao céu, iluminando as faces assustadas de todos nos jardins, como uma torre incandescente que iria consumir tudo o que se aproximasse. Logo após os gritos desordenados começaram, as pessoas entraram em pânico, pensaram imediatamente em dragões cuspindo fogo, em morte, destruição e guerra vinda dos Targaryen. Por isso começaram a correr para qualquer lugar.
Daevon foi a primeira coisa que veio à mente de Sif. Por isso ela pulou do banco, carregando Borys. Todavia, havia mais pessoas do que ela havia imaginado se escondendo nas sombras de arbustos e flores, todos apareceram repentinamente numa profusão de medo e pés confusos. Ela se esbarrou em muitos que não se importaram em olhar para onde iam, porém continuou firme andando para frente sem olhar para trás, tinha que voltar ao seu aposento, tinha que achar seu filho e protegê-lo do que quer que estivesse se apossando da capital naquela noite.
Apenas percebeu que sua mão não segurava mais nada quando já estava na entrada de um dos corredores da fortaleza. Olhou ao redor, porém não encontrou Borys em canto nenhum. Gritar não ajudaria em nada com toda a comoção, as conversas, as vozes elevadas. Era uma perfeita confusão de nobres amedrontados e capazes de fazer qualquer coisa para se salvar de qualquer situação, ela sabia bem disso e tinha certeza de que nenhum deles pensaria duas vezes antes de se aproveitar de qualquer oportunidade para se proteger e cuidar dos seus.
Sieglinde se sentiu exposta parada ali.
Tinha que continuar andando, mesmo que sem Borys.
Deu as costas ao jardim e continuou decidida com seus passos firmes.
As pessoas seguiam em fluxos perturbados e inconstantes, alguns seguiam na mesma direção de Sif, outros estavam voltando aos jardins, muitos se perdiam em portas e escadas que poderiam levar a qualquer lugar ou canto algum. A dornesa apenas pensava em qual caminho tomar para chegar até os cômodos de sua casa, ver seu filho, sua irmã, descobrir o que estava acontecendo. Todavia, sua cabeça não parecia cooperar em meio a angústia e surpresa em que se encontrava.
Pelas janelas ela conseguia vislumbrar o fogo, menor, mas ainda presente.
Porto Real queimava naquela noite em labaredas esverdeadas.
Sieglinde sabia que teria que tomar decisões importantes ainda naquela noite, medindo sua segurança e a de seu filho. Lembrou-se de sua mãe e dela discutindo sobre como ela era tola de querer vir para a capital. Se você brincar com dragões, vai acabar queimada. A voz dela veio em sua memória quase como se estivesse de volta a Lançassolar.
Seus olhos e pensamentos a traíram e não perceberam a pessoa se aproximando até ser tarde demais.
A mão sobre sua boca, a puxando para trás.
Tentou lutar, todavia ela não era forte o suficiente.
Não conseguiu gritar.
Se sentiu impotente.
O impulso mais natural foi o de querer chorar.
De pedir ajuda.
Porém, ninguém a viu sendo puxada ou ninguém se importou em ajudar.
O mundo ficou escuro por um segundo.
Aemond chegou ao fosso dos dragões nas costas de um cavalo desconhecido.
O animal relinchou enquanto espumava pela boca, com as narinas dilatadas. Estava exausto por ter corrido metade da cidade com ele em suas costas. O Targaryen entregou as rédeas para o primeiro intendente que apareceu, ao menos ali o mundo ainda parecia não estar do avesso e os guardas ainda abaixavam a cabeça quando ele passava.
— Senhor? Perdão, mas o que está acontecendo?
O capital do fosso questionou se aproximando e Aemond apenas virou a cabeça em negação.
— Eu não faço a mínima ideia. — Respondeu olhando para as grandes grades e o dragão que se levantava lá dentro. Era uma meia verdade, porém não se daria o trabalho de explicar aquele homem o porquê do Rei estar querendo ver ele morto, quando ele mesmo tinha suas dúvidas. — Abram os portões.
Sua mente vagueava enquanto ele observava os homens obedecerem. Ali, no meio daquela construção cavernosa e gigantesca, seus problemas ainda assim pareciam imensos. Seu coração estava apertado pensando em Rhaerys e até mesmo em Aelor, o filho que nunca lhe demonstrou um pingo de compaixão ou obediência, não havia tido tempo para procurar por ele. Se tivesse ficado mais tempo na fortaleza teria sido pego, não poderia fazer nada por seus filhos preso numa masmorra ou morto pela guarda real.
Havia feito a coisa certa em fugir, era o que sua mente repetia vez após outra.
Talvez em algum momento se convencesse daquilo.
Os enormes portões metálicos rangeram enquanto homens puxavam as cordas para o abrirem e seu dragão saiu de lá, abrindo as asas e rugindo a noite conturbada. Aemond se aproximou da grande fera que se abaixou para que ele pudesse montá-la. Os homens o olhavam perdidos, em busca de qualquer pessoa que pudesse guiá-los.
— Senhor, o que devemos fazer?
Se revoltem contra o Rei. Protejam a Rainha. Procurem meu filho e mande ele voltar pra casa. Guardem a cidade. Tudo isso veio a ponta de sua língua, preparado para ordenar como sempre havia feito, mas nada saiu. O poder dele naquela cidade havia acabado, ele não era mais a Mão do Rei, não era mais o segundo no comando do reino. Quando saísse de Porto Real sabia que seu nome seria manchado como o de um rebelde ou coisa pior e que ele nunca mais poderia pisar ali sem temer por sua cabeça.
Que tudo vá à merda!
Pensou enquanto arrancava o broche de Mão de seu gibão.
Jogou para o capitão que pegou o objeto dourado em mãos trêmulas.
— Façam o que bem entenderem! — Respondeu e deixou os homens ainda mais confusos enquanto saía dali nas costas do animal.
Se fosse para perder tudo o que havia conquistado, que fosse.
Voltaria para Solarestival, reuniria seus homens e colocaria uma coroa na cabeça de Alyssana. Faria Aegon pagar e perder a coroa que nunca mereceu. Tiraria Rhae do sofrimento. Cuidaria de seus filhos, finalmente faria aquilo e quem sabe um dia poderia se livrar da culpa de nunca ter sido para eles o que Daena um dia fora.
Não era um plano, mas sim uma promessa.
Quando o dragão subiu ao ar, ele já se sentia pronto para queimar o mundo e fazer com que a justiça fosse feita. Que todos os seus problemas iriam desaparecer por fim, toda a culpa por ter sido um pai e marido ruim sumiria, que nunca mais iria feito de capacho de Aegon, que o remorso por nunca ter se declarado verdadeiramente para a mulher que amava deixaria sua vida.
Porém, com os Targaryen nada nunca era fácil daquela forma.
Diziam pelas ruas que havia apenas duas facetas nas pessoas daquela casa.
A loucura e a grandeza.
Quando ele olhou para trás e viu Aegon subindo atrás dele, perguntou a si mesmo qual dos lados cada um deles representava.
O outro dragão era mais rápido, tinha asas maiores e era mais velho. Vinha com os grandes dentes à mostra, prontos para destrinchar carne e se lambuzar de sangue. Aemond não conseguiria fugir com seu dragão mais novo e menor. Possuía apenas duas opções que não lhe agradavam em nada: voltar para o chão e tentar sumir pelas ruas ou lutar no céu. Considerando que o mundo era um caos na capital daquela noite, ele imaginou que suas chances seriam maiores ali em cima.
Era uma completa loucura, talvez aquela fosse sua verdadeira faceta.
Os dragões colidiram.
As patas tentando arranhar o peito um do outro. As asas batendo ferozmente para manter as grandes bestas no ar. Os pescoços se movimentando para morder, cortar e ferir. Os dois cavaleiros de dragões apenas observavam e lutavam para se manter seguros nas costas das bestas, era tudo o que poderiam fazer. Esperar e rezar para que seu dragão fosse mais forte.
As mãos de Aemond suavam e seu corpo estava rígido.
Parecia sentir o peso daquela batalha como se fosse ele batendo asas e usando garras, não o dragão.
Pensou ter ouvido Aegon gritar alguma coisa, mas o barulho das feras era alto e estridente, além do vento cortante que assobiava nos ouvidos de ambos. No momento seguinte o mundo ficou mais brilhante e quente quando o dragão do Rei soltou fogo para a noite sombria.
Seu próprio dragão grunhiu e virou a cabeça para sair do calor escaldante.
Aemond teve que se virar também para não se queimar, mas não foi rápido o suficiente.
Parte de seu braço foi pego pelas chamas.
Sentiu apenas o quente a princípio, suas roupas sumiram de seu braço em um segundo e depois sobrou apenas um membro avermelhado e sangrento. Os músculos pareciam distorcidos e ele achou que dava para ver uma parte do osso de seu cotovelo. Agora conseguia se segurar nas costas do dragão com apenas uma mão e as coxas, ao mesmo tempo que cerrou o maxilar para não gemer de dor pela queimadura ardente.
Seu dragão chorou novamente quando o do rei abocanhou entre o pescoço e a asa, derramando sangue fervente.
Aemond sentia que estava perdendo o foco, com uma vontade inexplicável de dormir.
Olhou para Aegon, ele parecia chorar.
Ou talvez ele fosse realmente louco e estivesse imaginando coisas. Porque Aegon estaria chorando? Ele deveria estar rindo como antes, deveria estar feliz por finalmente se livrar dele. Porém, apenas o observava com as lágrimas descendo e se perdendo no ar. Aemond nunca entendera o primo, o porquê dele sentir tanto ódio por ele. Aegon havia tirado Rhaerys dele, por mais que não a amasse, ele sempre ia para Solarestival mesmo que ambos se odiassem, havia dado a ele o posto de Mão, ainda que nunca tivesse confiado na direção dele de governar.
A vida toda haviam sido opostos.
Desde que os três eram apenas crianças num palácio de verão.
Contudo, agora não havia mais volta.
Aemond havia perdido, seu dragão lutando para se manter no ar com uma asa quase arrancada e o peito sendo aberto ao meio pelas garras do outro.
Não havia muita grandeza na morte, como ele havia imaginado.
Morrer nas costas de um dragão não era muito como os meistres gostavam de descrever em suas crônicas.
Ele não podia fazer muito além de pensar e observar.
Em seus últimos momentos a antiga Mão do Rei se lembrou apenas de seus filhos, a imagem deles se formaram diante de seus olhos enquanto ele lutava para manter as pálpebras abertas. Daeron seria um bom homem e ele esperava que estivesse bem onde quer que se encontrasse naquele momento. Aelor poderia acabar morto numa taverna qualquer ainda jovem, mas ao menos havia tido mais coragem para fazer e ser o que quisesse do que o próprio pai durante toda uma vida. E Daerys, sua única menina, sempre tão irritada e achando que mundo deveria se curvar às suas vontades.
Ele seria sempre grato a Daena por ter lhe dado aquelas crianças.
Sua falecida esposa poderia não ter sido o amor de sua vida, porém havia dado a ele os maiores presentes que poderia ter recebido. No fim, ele se arrependia de não ter sido melhor, feito mais e sido mais. Poderia ter conquistado muito e se transformado num homem em que pudesse se orgulhar. Mas, sempre é assim, não é mesmo? Sempre nos arrependemos quando é tarde demais.
A estrada para Aemond estava no fim.
Ele olhou para Aegon uma última vez, viu ele murmurar alguma coisa.
Aemond achou entender, mas não fazia sentido.
Seu dragão morreu.
Aemond Targaryen despencou.
Eleonora tentou se controlar.
Ela havia visto o fogo, ao longe conseguia ouvir o barulho das pessoas. Porém, ali naquela pequena passagem a céu aberto ela ninguém podia vê-la ou ouvi-la, ela estava sozinha e começava a se perguntar o porquê de ter aceitado seguir aquela estranha. No momento passado havia sido quase como a única opção. Continuar presa ou sair daquele maldito quarto? A escolha era óbvia para uma jovem irritada e pronta para agarrar qualquer chance de liberdade.
Apoiou as mãos nas muretas e se perguntou o que estava acontecendo.
O fogo havia sido no porto e ainda queimava como se tivesse acontecido naquele exato momento.
O caos era sempre uma oportunidade para se elevar, as pessoas se agarram a qualquer controle ou estabilidade no meio da tormenta. Ela sabia disso mais do que ninguém, sua vida sempre foi tentar se agarrar ao mínimo de poder num turbilhão de problemas. Muitos do quais ela mesma causava. Porém, não poderia ter qualquer oportunidade naquele lugar.
Talvez pudesse pular do jeito certo e não quebrar ambas as pernas, imaginou olhando a altura.
Ouviu o trinco da porta.
Se virou movendo as saias bufantes.
A princípio imaginou ser um homem, um homem conhecido, pois suas feições não lhe eram estranhas. Todavia, percebeu que era na verdade uma mulher. Tinha os cabelos cortados curtos como um rapaz e vinha vestida com roupas nobres. Era uma visão que causa confusão, mas ao menos era alguém com quem ela pudesse discutir sobre o que estava acontecendo.
— Não se lembra de mim?
A voz rouca e fria fez sua memória voltar abruptamente, para uma tarde compartilhada com Roberta Baratheon.
— A mulher dos tecidos!
A outra riu, não com divertimento, mas puro escárnio e Eleo se irritou.
— Cale sua boca e me diga o que quero saber. — A Tyrell ordenou, mas a outra quando parou de ir apenas continuou a encarando. A desconhecida estava ditando o rumo da conversa e isso deixava a rosa inquieta. — Quem é você?
— Você não se lembra mesmo? — Ela questionou semicerrando o par de olhos verdes friamente, seus punhos cerrados ao lado do corpo, uma adaga em um deles. — É tão mesquinha e supérflua que não consegue ver as semelhanças nas feições. Pense bem garota, pense no seu casamento, eu estive lá e sei de tudo o que você fez.
Eleonora recuou, finalmente reconhecendo a mulher.
— Você é uma Lannister… — Eleo disse em um quase sussurro, percebendo que não deveria ter saído de seu quarto afinal de conta.
— Apenas uma bastarda.
A rosa olhou para a porta atrás da mulher, porém ela lhe apontou a adaga.
— Pode ter certeza que se tentar correr eu vou atirar isso no meio das suas costas e saiba que a minha mira nunca errou.
Eleo engoliu em seco quando a outra apontou para a porta por onde as duas haviam chegado naquele lugar. Entrou a contragosto, se sentindo impotente e se perguntando caso conseguiria vencer aquela mulher caso realmente tivesse que atirar suas mãos contra ela. Os corredores ainda estavam escuros, todavia a Lannister agora vinha com uma tocha e mandou ela continuar caminhando. As duas continuaram assim por muitos passos, com Eleonora na frente imaginando formas de fugir, mas perdida demais nos corredores mal iluminados para sequer pensar em sair correndo, pois sabia que a outra conhecia aqueles túneis melhor do que ela.
Então, utilizou da última artimanha que ainda lhe restava.
— O que quer comigo?
— Você sabe muito bem o que fez.
Eleonora forçou uma risada despreocupada.
— Você quer dizer o que aconteceu em Rochedo Casterly? — A Tyrell respondeu sutilmente. — Aquilo tudo foi uma tragédia, obra daquele cavaleiro terrível.
— Talvez a sua família de sonsos coma a sua história, mas eu sei que foi você quem matou meu irmão.
Ele se irritou, ela sempre se irritava.
— Aquele porco teve o que mereceu!
Tilda se irritou, a adaga apertada em seu punho. Tinha que se lembrar do plano: esperar a explosão, pegar a Tyrell, sair da Fortaleza Vermelha, barganhar com Lorde Tyrell. Não poderia fazer com que tivesse sido em vão. Eleonora olhou para trás, se houvesse mais luz poderia ser visível sua face avermelhada. Houve outro estrondo, ao longe, elas não sabiam exatamente o que havia causado, mas que desequilibrou ambas. A Tyrell aproveitou a oportunidade, olhando ao redor por uma arma e a Hill percebeu o que a garota estava tentando fazer.
As duas foram rápidas.
Tilda iria apenas segurá-la, com a adaga contra seu pescoço.
Não poderia matá-la, não ainda.
Contudo, Eleo se lembrou da rosa presa em seus cabelos, com uma ponta bem afiada como forma de caule. Pegou o objeto pontiagudo, soltando as mechas castanhas em cascata e fincou na barriga da outra mulher com toda a força que seu corpo pequeno conseguiu reunir. Sangue manchou as roupas da bastarda Lannister, que sentiu a dor aumentar quando a Tyrell arrancou o objeto de sua barriga sem piedade, se preparando para enfiá-lo em sua pele novamente.
Tilda não hesitou.
Não iria morrer para aquela cadela Tyrell.
Não deixaria que ela mesma tivesse o mesmo destino de Loren.
Sua adaga entrou no pescoço dela e sangue esguichou em seu rosto.
Não se importou por ter acabado com seu plano. Não haveria mais Lorde Tyrell para manipular, uma refém para trocar por informações. Porém, sentiu que havia vingado seu irmão, ao menos havia um pingo de paz e satisfação naquilo. Que uma injustiça tivesse fim e uma pessoa não havia morrido em vão. Viu ela se debater um pouco, tentando estancar o sangue e falar, mas apenas carmesim saia de sua língua e garganta. Ela caiu se debatendo.
E então, não se debateu mais.
A poça vermelha manchou as botas de Tilda e ela percebeu o sangue saindo dela também.
Ela precisava sair dali.
Precisava de Lyla.
Então, continuou a caminhar pelos corredores escuros.
O cadáver ficou para trás.
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