Pela Princesa - Interativa
22 Três Dias De Seu Nome - Parte I
Notas iniciais
p o r t o r e a l
Eleonora estava vestida na mais bela das sedas.
O verde era intenso como as folhas de uma Comigo Ninguém Pode, decotado na medida mais justa para mostrar o par farto de seios que tinha e provocar até o mais puritano dos septões. Com mangas de linho leves, longas e abertas, ágeis como água descendo pelas pedras em um córrego, deslizando pelo ar com graça em cada movimento de suas mãos pequenas e delicadas, já usadas para matar. O ouro estava salpicado em cada canto, desde as pequenas pétalas costuradas com delicadeza em sua grande saia rodada, até o corpete apertado e com espinhos intrínsecos como os de sua personalidade.
A Tyrell olhou para si mesma no grande espelho em sua parede.
Um par de brilhantes olhos de corça, tão semelhantes entre seus familiares, a encarando.
Passou a mão calmamente pela moldura de cobre, contendo a intenção fulminante dentro de seu ser de estilhaçar aquilo contra a porta.
Tirou a mão do objeto por precaução, ajeitando a rosa metálica dourada que repousava em seu cabelo castanho, delicadamente trançado por mãos agitadas de aias tremendo, para cima e para os lados, formando uma grande polpa coroada por outras mais pequenas rosas ao redor da maior. A que era a principal tinha um caule afiado e longo, como o da própria planta, sustentando todas as madeixas em seu devido lugar, para que nenhum fio se movesse mesmo na mais agitada das danças.
Estou bela, pensou enquanto admirava seu reflexo distorcido pelas sombras. Mais resplandecente do que qualquer uma na sala do trono, mais bela do que qualquer uma seria. Tão perfeita... e nenhum olho poderia admirá-la. A verdade amarga fez a jovem mulher virar rapidamente, jogando o corpo sobre a cama e se arrependendo no mesmo momento, levantando-se abruptamente e arrumando a saia para tirar qualquer vinco indesejável.
Ainda existia uma pequena chance.
A esperança desabrochou ainda mais dentro dela quando ouviu os passos do lado de fora do quarto.
Palavras distintas foram trocadas, ela não conseguiu entender uma sílaba.
Passou a língua pelos lábios, espalhando a cor vermelha ainda mais. Endireitou a postura, mostrando uma imagem imponente, impassível como uma pedra no meio do jardim, não perturbada, furiosa e espinhenta como ela realmente se encontrava em seu interior conturbado.
Fuchs entrou no recinto.
Vinha vestido nas mesmas cores que ela, como era esperado do Senhor da Campina. Colete verde escuro como a folha de pinheiro, detalhes em ouro mole, ouro de verdade, ouro de mentira. Dourado, amarelado, régio como um verdadeiro príncipe sem coroa. Tão perfeito quanto ela, por mais que seu interior amargo nunca admitisse completamente aquela verdade.
— Você está bela.
Não pareceu um verdadeiro elogio, apenas um fato comum. Eleo o ignorou, assim como havia feito por dias desde que o mesmo a tinha aprisionado naquele quarto como uma qualquer. Fuchs vinha visitá-la sempre, porém, toda vez em que repetia a mesma oferta a rosa o expulsava aos berros ou lançando coisas aos ares. Ela apenas poderia imaginar o que os outros diziam pela corte, além dos pequenos cochichos que conseguia tirar de suas criadas quando as pressionava por informações.
A Tyrell está louca. A Tyrell está esperando um bastardo. A Tyrell foi à cama com o Rei.
Cada hipótese de bocas ansiosas pela fofoca e que não detinham um pingo da verdade pura, do motivo dela não estar no meio do baile e da festividade como todos os outros.
Se perguntava como Fuchs conseguia manter aquela face serena e qual resposta dava quando lhe perguntavam sobre o real motivo do afastamento dela da corte. Porém, então se lembrava quem era sua tutora e o que a avó deles ensinou àquele garoto desde tenra idade. Use os outros, ela se lembrava daquela ser uma das primeiras lições. Fuchs havia aprendido a fazer aquilo por meio do carisma, sendo amado e adorado por onde passava. Eleonora preferia ser temida e que todos abaixassem a cabeça quando ouviam o barulho costumeiro de seus saltos contra o mármore e a pedra.
Naquele momento, presa em um quarto enquanto seu irmão estava livre, talvez duvidasse que seus métodos não fossem os mais úteis.
Ou quem sabe ela não tivesse sido perversa o suficiente.
— Suas palavras não me valem mais nada. — Murmurou se voltando para o espelho, fazendo de conta que a situação ainda estava nas mãos dela, quando na verdade tudo estava no controle de Fuchs por conta do poder que um pinto entre as pernas lhe concedia. — Irá me livrar do cativeiro?
— Isso não é um cativeiro.
— Oh, não?
Ela se virou, movendo saias, verde e dourado, girando e girando.
Encarou o irmão. Eleonora sempre conseguiu se manter mais alta do que todos, mesmo sendo mais baixa do que a maioria das mulheres. Tinha um poder emanando de si, poder conquistado pelo ódio, raiva e manipulação. As coisas mais básicas que ela já conheceu e que morreriam com ela.
— Então por que ainda estamos conversando? — Ela estendeu um dos braços, mas Lorde Tyrell não moveu um músculo. — Ande, me leve à festa do Príncipe.
Fuchs suspirou, levando a mão ao encontro do nariz com a testa, enquanto fechava os olhos por um momento. Ele parecia cansado aos olhos dela, com bolsões escuros abaixo dos olhos sempre sorridentes. Com lábios rachados na boca cheia de sorrisos, falsos ou verdadeiros. Os ombros caídos na postura que era sempre amigável e ereta. Ela o conhecia melhor do que ninguém, haviam dividido do mesmo útero, a mesma casa, família e nome.
Estava abatido, mas não apenas por ela.
Eleonora ignorou, focando apenas em si mesma.
Era mais fácil, mais conveniente.
— Não estou livre?
— Eu lhe dei uma opção, várias vezes.
— Um mandato, você quis dizer. — A Tyrell se virou, deixando o irmão e imaginando se seria presa nas masmorras de verdade caso batesse contra a bela face dele. — Aquilo não é escolha.
— Você pode voltar para Jardim de Cima ou continuar presa aqui. — Ele relembrou se escorando na porta, quase como um dos carcereiros dela do outro lado da parede. A meia capa, com o símbolo da rosa que cobria seu ombro, caindo desajeitada pelo seu corpo esguio. — Continua sendo uma escolha, mesmo que seja uma que não te agrade.
— Você sempre foi bom em expressar o óbvio, irmão.
— E você em ser persistente, mesmo quando está errada.
Eleonora bufou, segurando suas saias com raiva e marchando.
— Se não vai me deixar sair, então suma daqui! — Ela murmurou bravejante. Sua paciência para jogos de palavras tinham um limite muito mais quebradiço do que o de Fuchs. — Suma para que eu nunca mais veja sua face medíocre, suma para todo sempre!
Ele recuou chateado, irritado, decepcionado e principalmente triste.
Tinha medo do que a irmã iria se tornar, até onde ele poderia podá-la.
Sentia que os espinhos dela um dia tomariam todo o jardim, no sentido literal e lúdico da coisa, entretanto, o que Fuchs poderia realmente fazer? Ele a amava como um irmão deveria amar. Havia crescido ao lado dela, rido com ela e dela, chorado por brigas e ajudado quando ela ralou o cotovelo pela primeira vez. Eleonora era sua irmã, ele sempre a amaria, por mais errada e quebrada que fosse.
Talvez aquilo que realmente definisse irmandade.
Por amor a ela, Fuchs deu as costas e a manteve presa, ignorando o barulho de vidro rachado enquanto caminhava cabisbaixo para o Trono de Ferro.
Ela se assustou quando a passagem se abriu na parede de pedra.
Observou a escuridão e o rosto que se formou aos poucos no meio das sombras.
Um dedo se moveu até a boca e então ela finalmente percebeu que eram lábios humanos, não uma assombração.
Seu nome foi chamado em um sussurro.
Ela hesitou, porém, por fim aceitou.
O grande salão estava abarrotado.
Tochas, candelabros e velas iluminavam uma multidão em vermelho, preto, azul, verde, dourado, amarelo, laranja e mais cores do que se pode enumerar nos tons mais variados e misturados. Famílias se uniam em um fronte compacto, representando suas respectivas casas com orgulho e pompa. Todos estavam bem vestidos naquela noite fria, usando as melhores joias, com os penteados mais complexos, mostrando riqueza, poder e força.
Ela entra sozinha.
Daevon havia ficado para trás, nos aposentos dele. Era mais seguro, aquele era um evento ainda maior do que o último, e ela temia por seu filho naquele lugar cheio de aparências misturadas com segundas intenções. Ainda mais em tal noite com tantas pessoas, onde não era possível andar sem pedir licença ou esbarrar nas saias de alguém. Porém, para ela todos abriam caminho.
Afinal, ela era uma Princesa Martell, filha de Selaena e Herdeira de Dorne.
Era Sieglinde.
Sif.
Seu nome tinha peso e sua presença também.
Sentia com arrepios o frio em suas costas nuas, enquanto o vento passeava pelo aposento colossal. O vestido cor de areia era uma junção de sedas calorosas como o sol, se movimentando com graciosidade por seu corpo que caminhava pelas pessoas. Era aberto no formato “v” na parte traseira, mostrando até um pouco embaixo de suas omoplatas em um ato escandaloso para os mais religiosos. As joias douradas cintilavam por seu corpo e na tiara repousando em seu cabelo castanho. Ela ora cumprimentando, até mesmo trocando poucas palavras com conhecidos, cumprindo seu papel, como era esperado.
Ao longe acenou para Elrie que já estava ali, tendo entrado com seu marido e a família Velaryon.
Algumas vezes era difícil de se lembrar que, ao menos em nome, a gêmea de Taryne não era mais parte de sua família. Que sua vida agora era naquela corte, não mais sob o sol ardente onde nascera. Entretanto, Sieglinde não se ressentia, sabia o que era amor e como o da irmã dela estava depositado naquele homem da mesma forma que ela havia feito com Gaemon.
Sif observava com atenção os seus arredores.
Aquela era uma de suas últimas chances, sabia que seus dias estavam acabando como areia numa ampulheta. Tinha vindo com uma promessa para sua mãe, de achar a princesa. Aquela promessa ficava mais tênue a cada lua, com o dia dela voltar a Dorne mais próximo. Seu lugar não era ali, no meio daquela corte, mas em Lançassolar com o resto de sua família e seu povo.
Ainda assim, tinha a certeza que precisava fazer tudo o que podia por Daevon.
Era seu filho, sua única criança, seu tudo.
Se houvesse uma chance de fazê-lo ser quem deveria ser, em todos os sentidos, ela a agarraria.
Pensou em ir até seu primo Tyrell.
Mesmo com os rumores circundando a corte, ela ainda acreditava que ele poderia ter alguma revelação ou segredo que poderia ajudá-la. Sim, Fuchs deve ser de alguma ajuda, pensou enquanto se preparava para abrir caminho, pronta para barganhar com palavras por informações, entretanto, foi interrompida.
A grande mão calejada era fácil de se reconhecer.
Havia passeado por seu corpo, cabelo e face.
A Martell levantou os olhos para o Baratheon.
Ele sorria, verdadeiramente sorria, e ela não conseguiu evitar sorrir também.
— O que quer comigo, Sor? — Questionou com uma voz apática após desfazer o sorriso em sua boca subitamente, já que ele havia se esquivado dela por dias, como se não fosse ninguém importante.
— Uma dança, espero não pedir demais.
Ela então percebeu que havia um círculo no meio do salão, com casais pulando e batendo palmas no ritmo, rapazes pegando suas damas pelas cinturas e as girando ao ar. Fazia tempo desde sua última dança, desde que havia sido conduzida daquela forma.
Sif encarou Borys.
— Sabe o que o ato significará. — A Princesa procurou a face do pai dele pela multidão, mas não o encontrou. — O que as pessoas irão insinuar. Está disposto a isso?
Ele tomou sua mão antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, a puxando pelo mar de nobres que olhavam embasbacados.
O veado posicionou a princesa do sol no meio dos casais dançantes e ofegantes, que aguardavam a próxima música começar. Estavam debaixo de um grande candelabro, iluminando suas cabeças e faces animadas. Ela observou seu par, mais alto do que todos ali e chamando toda atenção para si por estar com ela, mas nenhum dos dois pareciam se importar.
Não naquele momento, ao menos.
— É só uma dança. — Ele sussurrou em um tom divertido no pé de seu ouvido quando a música finalmente começou.
Sieglinde sorriu novamente quando foi puxada, sem conseguir permanecer estoica, girando e bailando num mar de seda dornesa e lã tingida nas cores Baratheon.
Os casais ao redor faziam o mesmo, animados como apenas jovens conseguiam ser. Todavia, os olhares estavam apenas no casal no centro, dançando com mais vigor do que qualquer daqueles ao redor. Ela era levada ao ar com facilidades pelas mãos do grande soldado, como se suas palmas se encaixassem perfeitamente na curvatura de sua cintura.
Eles formavam um belo par.
— O que o fez mudar de ideia? — Não conseguiu conter a pergunta, por mais que estivesse se divertindo, livre das preocupações por um breve momento. — Bateu com a cabeça durante um de seus treinos?
— Não, embora o efeito da conversa com minha irmã… — Ele começou enquanto ambos se separavam por um momento para pular e bater palmas separados, voltando um para o outro com passos ritmados. — ...possa ter sido considerado o mesmo.
— Devo agradecer a Lady Baratheon, então?
Ele concordou com um aceno, um pouco constrangido.
— Devo pedir perdão. — Ele confessou enquanto os dois giravam de mão em mão. — Temo que meu orgulho costume falar mais alto na maioria das vezes e não gosto de admitir que estou errado. E você…
Eles se separaram novamente, rondando distantes com os braços atrás das costas até a música voltar ao tom rápido, com os músicos mascarados deslizando os dedos pelas cordas com agilidade. Então voltaram um aos braços do outro.
— Você estava certa.
Ela sentiu uma vontade grande de se vangloriar por tal confissão, mas calou a si mesma.
— Sabe que eu mesma teria ido até você cedo ou tarde, não? — Ela respondeu ao invés de dizer o que queria inicialmente.
— Fico feliz por não ter sido o caso e eu ter vindo primeiro.
Ela piscou com um olho e a música finalmente acabou.
Percebeu que estava ofegante e vermelha nas bochechas, com o cabelo não mais alinhado como quando adentrou a sala do trono. Até mesmo Borys tinha a testa brilhando com o suor e seu peito largo subia e descia com mais pressa debaixo do gibão.
A plateia aplaudiu e ela finalmente notou os olhares, os cochichos e as palavras escondidas.
Os outros pares também não pareciam focados na multidão, mas neles.
Sieglinde realmente não gostava daquele lugar.
— Me encontre nos jardins. — Murmurou se afastando e se misturando à paleta de cores.
Elas caminharam por túneis iluminados apenas por uma vela tremeluzente.
Porém, a que ia na frente parecia conhecer o caminho por onde a guiava.
Escadas, espirais e corredores silenciosos.
Os passos delas eram as únicas coisas naquela imensidão de trevas e nada mais.
Rhaerys passou a mão pelos cachos prateados de Aerion.
Seus dedos deslizando pelos fios bem cuidados, chamando a atenção do jovem príncipe. Ele levantou o queixo delicado, focando-se nela, o par de órbitas lilases quase em um tom roxo no escuro iluminado apenas pelo fogo. Eram as mesmas cores chamativas que os de Alyssana, distintos até mesmo entre os outros que tinham o sangue valiriano.
Os mesmos olhos ágeis.
A mesma boca rosada e sorridente.
O mesmo nariz arrebitado.
Uma cópia menos fiel de sua filha que apenas os mais observadores poderiam notar.
Os dois nunca haviam se encontrado uma única vez após o parto, nem estado no mesmo cômodo, trocado olhares uma multidão e por isso que nenhuma pessoa havia feito a associação, nem mesmo sua própria filha. O segredo continuava seguro, principalmente de Aegon. Ele nunca poderia descobrir que Aerion não era seu filho, que o garoto era o bastardo de sua filha e não o herdeiro legítimo, que ele nunca havia conseguido colocar um filho homem no mundo.
Rhaerys o deixou sair de suas mãos, indo correr até um canto do quarto com sua espada entalhada na madeira.
A Rainha se levantou, olhando o reflexo distorcido que aparecia no grande espelho que se erguia até o teto. Tocou o ventre em um movimento sutil, sentindo o que uma vez já esteve ali, quase como um fantasma de seu passado que ela nunca conseguiria esquecer completamente. Era o dia de seu nome também, mesmo que ele nunca tivesse conseguido dar um sopro de vida naquele mundo.
Ela havia ficado feliz quando o segundo filho havia vingado após tantos anos.
O parto de Alyssana havia feito ela desmaiar após perder muito sangue, não havia conseguido engravidar após aquilo e o meistre havia dito que outra gestação poderia matá-la. Contudo, Aegon nunca iria desistir de seu herdeiro varão. Ter conseguido a segunda gravidez fora quase como um êxtase, mesmo que apenas por um breve período. A mulher tinha acreditado que era sua chance, de não ser xingada e maltratada. Das brigas e noites que tinha que dividir com Aegon contra sua vontade. Acreditou enquanto sua barriga ia crescendo, quando teve de trocar as roupas, pois seus vestidos não cabiam mais. Acreditou até o último minuto, quando faltava tão pouco para dar a luz. Entretanto, os Sete, se realmente existissem ou não, haviam tido outros planos.
Apertou o tecido preto com força, segurando as costumeiras lágrimas que nunca a largaram desde que pisou em Porto Real.
Aerion veio ao seu lado, segurando sua mão livre, se agachando ao seu lado.
— Você está bem, mamãe? — Ele perguntou com a voz doce.
A voz que ela podia fingir ser de seu verdadeiro filho que nunca teve a chance de crescer.
A Rainha sorriu, escondendo o que sentia.
Nem mesmo ele poderia saber, que ela não era sua mãe realmente, mas sua avó. Que seu nome deveria ser Lucas e não Aerion, que de acordo com as leis dos homens ele deveria ser apenas um bastardo e não príncipe, que seu destino estava entrelaçado com uma mentira e uma troca. Que sangue e morte estavam ao redor de seu nascimento, sangue de outras pessoas.
Não era justo com uma criança tão pura.
Rhaerys havia perguntado a si mesma durante suas noites de insônia ou mesmo no meio de seus dias se Alys um dia poderia perdoá-la por ter escondido a verdade, por ela ter trocado sua própria criança natimorta pelo bebê da filha. No fim, ela sempre acreditou que havia feito o melhor para ela, que tinha salvo ela da morte ao convencer Aegon que ela deveria ser exilada, que tinha salvo o filho dela ao trocar as crianças, que tinha protegido sua menina ao manter a mesma mentira debaixo dos olhos de todos.
Abraçou Aerion, sentindo seu pequeno corpo e como era frágil.
Iria protegê-lo, da mesma forma que havia protegido Alyssana.
— Está tudo bem, querido. — Murmurou com a voz embargada. — Hoje é o dia de seu nome, devemos comemorar.
Ele sorriu, mostrando os pequenos dentes.
A porta se abriu e ela se levantou, observando o outro menino ser jogado aos seus pés.
Lucas Waters olhou para a rainha com os olhos marejados e Aerion se escondeu atrás de suas saias, encarando assustado para o homem que chamava de pai e de relance para o menino que conhecia apenas por nome.
O bastardo Waters se levantou sozinho, engolindo o choro e ficando de pé rapidamente.
— O que fiz de errado, Vossa Graça? — Ele perguntou com a voz contida, amedrontada.
Aegon olhou para ele com nojo, seu riso seco cheio de escárnio.
— Nasceu!
— O que isso significa, Aegon? — Ela perguntou com medo por ela e por aquelas duas crianças. Sua mentira sempre persistiu pela mais tênue das linhas, não poderia ser naquele momento que tudo seria descoberto.
— Sua filha! Aquela puta… — Ela respondeu dando voltas no quarto com passadas rígidas e inconstantes, o olhar inquieto das pupilas dilatadas pela raiva pulando pelos rostos ali presentes. — Ela conseguiu fugir, não sei como ela conseguiu, mas fugiu e agora está se achando no direito de tomar minha coroa!
Rhaerys piscou segurando com mais firmeza Aerion e observando o outro menino com o canto dos olhos. Sabia o quanto perigoso seu marido poderia ficar em seus momentos de fúria e se perguntava o que ela precisaria fazer para fugir de seu caminho.
— O que está querendo dizer? Seja claro!
— Ela está no Vale, se casou com o traidor Arryn e vai se levantar contra mim! — Ele exclamou furioso, dando um chute numa das mesas do quarto e jogando tudo o que havia em cima dela pelo tapete de Myr. Ele arremessou uma carta amassada para Rhaerys, tinha uma caligrafia que ela não conhecia e a Rainha mal prestou atenção em seu conteúdo por conta do nervosismo, porém estava assinado por Lorde Sheet de Vila Gaivota. — Pelo menos alguém tinha de ser leal e me trazer uma notícia que fosse verdade, mandei o reino inteiro atrás dela e nenhum desses imprestáveis conseguiu qualquer coisa…
Rhaerys piscou, confusa e perdida, principalmente amedrontada.
— Eu não entendo…
Aegon avançou e ela recuou, mas não foi rápida o suficiente.
Suas mãos apertaram suas bochechas e ela sentiu o ar fugir de suas pulmões. O olhar vidrado do Rei era amedrontador, sádico e louco por algo que não poderia ter. Ele era tão louco naquele momento como as pessoas diziam pelas ruas. Estar tão perto dele, face contra a face, a enjoava e enchia de terror ao mesmo tempo.
— Eu mandei matarem ela. — Confessou em um sussurro num tom completamente gélido que a arrepiou como um banho nas águas do Norte. — Paguei o melhor dos assassinos e, não sei como, mas mesmo assim ela fugiu, e agora quer vir contra mim, quer se rebelar. Você já tentou protegê-la antes, mas agora não haverá nada do que possa fazer para eu poupá-la. A cabeça dela vai ser fincada na maior das estacas da Fortaleza Vermelha.
Não, o pensamento veio à sua mente, mas nada saiu de sua boca travada pelo terror da cena que se formou em sua mente.
Ela balbuciou alguma coisa, mas o Rei apenas riu de sua tentativa.
— Você não irá mais sair de seus aposentos, muito menos o... bastardo dela. — Aegon disse apontando para Lucas Waters e Rhae sentiu pena do garoto, no fim ele era o único que não tinha qualquer envolvimento na tragédia que era a família Targaryen. — Vamos, Aerion, você precisa estar ao meu lado a partir de agora, você é o futuro.
O garoto não moveu um músculo e a face dele apenas ficou mais sombria.
O Rei tentou pegá-lo, mas Rhaerys se colocou na frente com os braços estendidos.
— Aemond, ele não deixará isso acontecer.
— Aemond! — Ele berrou cerrando os punhos. — É claro que você sempre irá atrás dele, o roubando dos outros! Você sempre o quis, sempre correu até ele! Sempre, sempre, sempre!— A voz parecia ainda mais terrível, como se chegasse a se tornar o próprio pesar numa repetição sádica. — Ele não irá te ajudar, não dessa vez…
Aegon puxou o menino de seus braços, o carregando para fora.
Ela permaneceu em pé, estática.
Alyssana, o que você fez dessa vez?
A pergunta se repetia em sua cabeça.
Ela foi até a porta e tentou abri-la, depois a puxar com mais força e então esmurrá-la até sua mão estar vermelha e dolorida. Sua voz falhou após tanto gritar, mas duvidava que qualquer pessoa naquela fortaleza fosse contra o Rei. O soluço veio primeiro do que as lágrimas, ela sentiu sua garganta se fechar e o choro se estagnar, sem sair um único ruído de sua boca. Ela não sabia o que tinha feito para ter aquela vida, por tanto sofrimento. Cobriu o rosto com suas palmas e fungou com força.
Levantou o rosto apenas quando sentiu a mão em seu ombro.
Olhou para Lucas, ele não tinha mais os olhos marejados, estava recomposto. Haviam ensinado a ele como ser régio na corte.
Rhaerys abriu os braços e ele se aconchegou ali sem que ela dissesse nada.
Ela quase havia se esquecido que era o dia de seu nome também, por mais que ninguém nunca se lembrasse daquela data.
Ainda era apenas uma criança, sem mãe ou pai.
Apenas roubado de sua verdadeira casa.
Ela nunca havia tido contato com ele, era mais fácil para manter as aparências e impedia que ela se enchesse de vergonha. Seu nome nem deveria ser Lucas, esse era o que Alys havia escolhido, a mãe de verdade poderia ter dado qualquer sorte de nome. Porém, não tinha tido nem a chance de segurá-lo no colo, de sentir seu cheiro antes de tê-lo arrancado dos braços. Ela havia feito a mesma coisa que Aegon ordenada para Alyssana, havia sido o mesmo monstro, usando as mesmas desculpas do amor por sua filha.
— Perdão… — Rhae murmurou tanto para ele como para a mãe que ele nunca havia conhecido.
Ela havia feito coisas terríveis por Alyssana e se sentia um monstro por ter certeza que faria tudo novamente. Ela faria tudo por seus filhos, isso era uma certeza contínua em seu coração partido. Mesmo que destruísse a vida de outros com isso, mesmo que esmagasse a própria felicidade em migalhas que nunca poderiam voltar a se unir.
Apertou o menino com mais força contra seu corpo.
Ele também chorava agora.
Elas finalmente saíram para a luz.
Não era luz de chamas, mas a da lua e das estrelas.
Era uma noite clara, dando para ver até mesmo o porto e os barcos ancorados na imensidão.
— E agora? — Questionou para a outra.
— Agora você aguarda.
E então ela sumiu a deixando perdida e sozinha.
Tilda encarou a Martell sumir entre a nobreza.
Fora uma bela apresentação para as bocas sedentas por fofocas.
Tilda, porém, conseguiu apenas imaginar como seria ela e Lyla no lugar do outro par, as duas dançando juntas, no meio daquela multidão. Pensou apenas para perceber que não era o estilo de nenhuma das duas. Com elas a valsa era pele contra pele, risos bobos, uma jarra de vinho já vazia, corpo colados pelo suor e as batidas de seus corações. Teria aquilo mais tarde, quanto tudo aquilo acabasse realmente. A Hill imaginou como quase um sonho enquanto abria espaço entre as pessoas para se aproximar da trupe multicolorida de atores.
Walda sorriu quando ela se aproximou, com as sardas de seu rosto escondidas pela maquiagem pesada.
Todos da companhia de teatro pareciam animados e ansiosos ao mesmo tempo, iriam se apresentar para a corte, para o Rei, em pouco mais do que alguns minutos. Estavam vestindo as roupas novas patrocinadas pela filha de Lorde Lannister, junto de bijuterias muito parecidas com as de verdade que os nobres traziam como holofotes dourados e prateados.
Não eram nada parecidos com os atores maltrapilhos que entraram pelos portões da capital com ela semanas atrás.
— Realmente não sei como deveríamos lhe agradecer, Língua de Ouro. — Afirmou a atriz com as bochechas coradas de emoção e maquiagem. As roupas novas e arrumadas, junto da peruca prateada e joias falsas davam a ela um ar de nobreza, mesmo que apenas um pequeno vislumbre.
— Me agradeça fazendo a melhor apresentação de suas carreiras. — Tilda respondeu com um sorriso amplo que escondia seu próprio nervosismo.
— Daremos nosso melhor, disso tenha certeza e seremos eternamente gratos por essa grande oportunidade. — A mulher baixa e roliça respondeu dando uma risada abafada, enquanto os outros membros da companhia preparavam os últimos detalhes. — E afinal, como conseguiu vaga tão importante para nós na corte do Rei?
Tilda passou a mão com intuito de tocar o cabelo loiro cortado curto, mas o véu que a escondia de olhares indesejados também a impediu. Se virou levemente para o céu claro e a lua cheia, era quase hora. Precisava que eles começassem a apresentação logo, para que todos tivessem a atenção focada ali.
— Sabe que tenho meus contatos na corte, eles sempre me são úteis quando mais preciso e é um prazer ajudar aqueles que me mostraram gentileza. — Não uma verdadeira mentira, mas muito era omitido da verdade pura.
— Obrigada mais uma vez!
Sorriu falsamente, olhando ao redor como se procurassem alguém.
Talvez devesse se esconder e esperar.
Virou-se quando ouviu as trombetas e as grandes portas duplas se abriram.
Todas as cabeças estavam vidradas naquela direção agora.
— Vossa Graça, Rei Aegon, da Casa Targaryen, Décimo de Seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Protetor do Reino. — O arauto anunciou com a voz que encheu o salão e fez todos se calarem.
O Rei dragão avançou e Tilda o observou atentamente. Nunca havia o visto tão de perto e percebeu como era diferente de tudo o que os outros diziam dele. Já mostrava estar ficando velho, o cabelo prateado mais ralo, as marcas de expressão na face, contudo ainda tinha um ar régio inegável, uma expressão fria que garantia a ele o medo de todos.
O pobre menino ao seu lado parecia indefeso.
Ambos caminharam juntos, com a guarda real vestida em suas vestes brancas fazendo a proteção de todos os lados.
Tilda suspirou, se perguntando quanto mais lhe faltaria até o momento certo.
Olhou para o céu novamente e a posição da lua, enquanto o Rei tomava seu lugar no topo do trono, com o menino sentado em seu colo. Ele parecia tremer e ela se apiedou um pouco do jovem príncipe, imaginando seu meio-irmão mais novo em Rochedo Casterly.
Ninguém ainda ousava dizer uma única palavra, a corte em estado de suspensão.
E então Aegon falou.
— Sabe do que me lembro? — Nenhum nobre respondeu e o monarca sorriu. — Lembro-me de quando contei sobre o desaparecimento de Alyssana e de vocês todos reunidos aqui como antes. Todos ficaram tão eufóricos em saber das recompensas, contudo temo que agora decepcionarei todos vocês dizendo que a recompensa já foi resgatada. A princesa foi encontrada.
Os murmúrios foram incontroláveis.
Tilda piscou surpresa. Alguém havia sido mais rápido do que ela e conseguiu a recompensa, não havia mais chance dela ser legitimada, pelo menos não por conta da princesa. Ela se questionava quem e como, quando ela tinha juntado todos os esforços possíveis na capital e nem mesmo um fio de cabelo havia sido encontrado de seu paradeiro.
A mão levantada do Rei foi suficiente para garantir o silêncio.
— Eu entendo, deve ser frustrante. — Havia um sorriso sarcástico em sua boca. — Ainda mais quando imaginarem quem ganhou a recompensa, quem se casou com a princesa…
A impaciência era gritante enquanto ele brincava, deixando todos com sede pela resposta.
— Arthur Arryn.
Risos de descrença, vozes alteradas e gritos de descontentamento.
Tilda focou-se na lua.
O Rei pediu silêncio novamente.
— Entretanto, temo que a recompensa não foi ganha da forma que vocês imaginam. — Ele explicou se levantando e pegando o menino no colo, o garoto parecia que poderia cair do alto do Trono de Ferro a qualquer momento. — A Casa Arryn se mostrou uma família rebelde, o antigo Protetor do Leste se casou com a Princesa Alyssana, mas para roubar meu trono com a pretensão de Alyssana. Os dois são traidores da coroa e quem se aliar a eles podem esperar terem as cabeças na muralha da Fortaleza Vermelha e nenhum pingo de misericórdia da coroa. — A voz do Targaryen foi aumentando, como um chamado feito de mel e os nobres eram as abelhas zumbindo cada vez mais. — Aerion é o verdadeiro herdeiro agora e Alyssana perdeu seu direito à coroa por ter me traído, traído o reino.
Ele sorriu, parecendo feliz ao fim.
— Westeros está em guerra.
Foi o estopim.
Ela não conseguia ouvir nem os próprios pensamentos no meio da confusão.
Não teve tempo para distinguir os fatos, desenhar um plano para tirar proveito da situação, a surpresa cegou até mesmo sua mente afiada.
Tilda observou Walda agora já longe, presa no meio da multidão e dos atores. Lorde Baratheon avançou em direção ao trono, gritando em ao seu Rei. A guarda real o impediu de se aproximar, enquanto o Targaryen continuava observando o caos por conta de suas palavras. Ela notou o garoto Tyrell também em suas vestes verdes e se lembrou de seu verdadeiro objetivo naquela noite. Não havia mais princesa, recompensa ou legitimação. Apenas sua vingança ainda era possível, uma única chance.
Como que em resposta a seus pensamentos, o porto explodiu.
O chão tremeu.
Dragões grunhiram ao longe.
E o pânico se instalou na capital completamente.
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