Pela Princesa - Interativa
13 Profecia e Destino
Notas iniciais
Rowena estava de volta a Mata dos Lobos.
Porém, tudo estava errado. Era noite, quando devia ser dia. Ela estava quase sozinha, se não fosse por Talorvaar, mas Arrana tinha que estar ali também junto de sua loba. A Stark deveria estar bem, entretanto sangrava sem nenhum corte em sua pele enquanto a mulher velha e enrugada estava intacta. Rowena olhou no fundo dos olhos dela, eram verdes como o musgo, como as folhas e como a natureza.
O que quer de mim?
Ela questionou sem abrir a boca, sentindo o sangue fluir e fluir. Já deveria ter desmaiado, mas aquele era um sonho e sonhos mentiam. Tentou acordar, mas não conseguiu.
O que você quer de mim?
A velha bruxa rebateu, envergada como um tronco caído.
Você disse que meu filho destruiria o Norte. Você mudou a minha vida.
Ela sorriu mostrando os dentes amarelos como mel.
Eu não mudei nada, apenas contei o que já iria acontecer. Te dei sabedoria, ou gostaria de ter continuado ignorante?
Rowena sentiu a garganta seca, mesmo que não tivesse dito uma palavra.
Já iria acontecer? Não posso mudar meu destino? Não posso salvar a minha terra e minha família?
A mulher pareceu pensar e levou anos para que tivesse uma resposta, porém ali no meio da floresta durou apenas um piscar de olhos.
O jovem dragão já voou, a que foi marcada por ninguém já desapareceu e você já partiu. Pouco ou quase nada pode ser feito.
Rowena chorou sem derramar uma lágrima e caiu na terra molhada pelo sangue dela mesma.
O meu filho irá destruir o Norte.
Aquela que estava em sua frente sorriu mais uma vez, tendo um pingo de piedade e dando um último conselho com sua voz que reverberava como o canto dos pássaros e os cascos dos cervos contra o chão da floresta.
Tenha fé garota, os deuses ainda te ouvem.
E então Rowena acordou com o solavanco da carroça, sem se lembrar de nada.
p o r t o b r a n c o
Estava difícil de respirar no meio do feno molhado e fedido.
Fazia dias que Rowena, Regnar e Talorvaar viajavam atravessando aquelas terras frias. Haviam usado os caminhos mais estreitos e pedregosos, longe da estrada principal que levava de Winterfell para Porto Branco, se escondendo nas trilhas mais ao norte. Haviam dormido pelo chão em acampamentos improvisados, lutando contra o frio e comendo carne seca. Uma única noite haviam tido a sorte de encontrar um chalé com uma senhora velha, cega e bondosa, junto de seu neto pequeno. Fora apenas naquele momento que acharam teto depois de partirem, pois era perigoso ver outras pessoas quando já deviam estar sendo procurados. Mas, a mulher deu roupas em que Rowy e Regnar pudessem se disfarçar, sem que soubesse da verdadeira identidade deles e nem o motivo de porque estavam querendo roupas velhas dela mesma e do filho que estava tentando vender madeira boa mais ao sul. Por fim, vendendo também sua carroça e seu cavalo de tração por uma boa quantidade de moedas, fazendo assim a troca daquela em que os dois fugitivos estavam a usar antes desde a partida de Winterfell, para que pudessem se manter ainda mais escondidos.
Rowena tinha quase certeza que nunca mais veria aquela senhora bondosa.
Achava que nunca mais veria sua terra natal. Porém, primeiro precisavam sair dali.
Regnar sentava-se sozinho na frente da carroça, instigando o cavalo a caminhar pelo terreno lamacento que era a entrada de Porto Branco. Enquanto ela e Talorvaar se aninhavam próximos debaixo do feno, o lobo gigante estava incomodado, ela podia sentir. A mão dela acariciava o pelo preto como a noite, o acalmando para que não se levantasse e estragasse tudo quando estavam tão perto de partir. Seu melhor amigo havia lhe questionado sobre levar o lobo junto naquela jornada, ela o respondeu prontamente dizendo que nunca abandonaria o animal, por mais complicado que fosse carregar ele por Westeros.
Parecia fútil num primeiro olhar, até mesmo idiota. Todavia, abandoná-lo seria deixar a sua última ligação com o Norte, com quem ela era e o que deixou em Winterfell.
Rowena nunca faria aquilo.
Gemeu devagar com outro solavanco, querendo pedir para que o amigo fosse mais cuidadoso. Porém, não podia levantar a cabeça para fora do feno, não quando estavam cercados por outros pequenos fazendeiros e camponeses também seguindo para os portões da cidade portuária. A Stark conseguia ouvir outros cavalos ou jumentos, assim como bois e vacas. Todos indo tentar fazer moedas com os produtos simples que tinham para vender no mercado ou aos navios atracados no porto.
Ela usava a mão livre para enrolar uma mecha do cabelo castanho, tentando aliviar as inseguranças e o medo de ser pega.
O que aconteceria se tudo desse errado naquele momento?
Era a pergunta que perseguia desde que havia deixado sua casa. Não sabia o que o pai faria, o que sua mãe diria e qual castigo sua avó gostaria de aplicar. Todas as hipóteses pareciam terríveis, entretanto nenhuma pior do que a chance dela destruir o lugar que tanto amava. Palavras tinham poder e as de uma profecia ainda mais. Rowena precisava sair do Norte, mesmo que metade de seu coração ficasse para trás.
Isso a deu coragem quando finalmente sentiu a carroça parar no portão.
Ouviu passos metálicos e sentiu seu lobo se eriçar.
Rowy conseguia entreouvir coisas, mas nenhuma frase completa. Seu coração estava a mil e sabia que se não passassem pelo portão, não teriam qualquer outra chance. Esperava que aquela fosse apenas uma revista normal e que Ronnel tivesse conseguido despistar as cartas que viriam para Porto Branco assim que tivessem percebido que ela tinha desaparecido.
Feno?... Checar…
Ela se forçou para entender as palavras e percebeu quando alguém começou a mexer no conteúdo da carroça. A fugitiva prendeu a respiração sem ao menos perceber. Parecia o fim, o mais longe que ela conseguiria. Os músculos se contraíram quando ela tentou se espremer no meio do feno, fechando os olhos com fogo e mexendo os lábios sem emitir som para que a pessoa fosse embora.
A mão continuou, iria achá-la.
Então, ela se lembrou de uma voz esquecida.
Tenha fé.
E ela teve.
Orou aos seus deuses e implorou por proteção. Os segundos se arrastaram como se o tempo parasse para atormentá-la. Todavia, ela não parou com suas preces silenciosas até que percebeu que a mão não remexia mais o feno molhado e que a carroça havia voltado a se mexer bamboleante.
Rowena soltou a respiração.
Ela se levantou cheia de feno.
Talorvaar fez o mesmo olhando para ela e grunhindo enquanto se sacudia, pulando para o beco onde se encontravam. Ninguém passava pela viela a frente deles e nenhuma porta ou janela existia nas paredes cinzentas ao redor, por isso que ela deixou o lobo continuar fora da carroça, também agradecendo aos deuses para o animal não ter sido o motivo de seu plano falhar até o momento. Regnar pulou para o chão, parecendo tão nervoso quanto ela estava.
— Quase.
— Quase. — A Stark concordou enquanto tirava a neve de cima de si, junto do feno.
Uma nevasca sitiava a cidade e ela duvidava que não fosse apenas ali em que o clima estivesse congelante. Nuvens de ar se formavam com a respiração quente dela e de seu melhor amigo, enquanto eles pegavam suas capas de inverno. O dela era feita de pelagem cinzenta e os dois pequenos broches prateados em formato de lobo foram arrancados antes, para que ninguém percebesse sua linhagem. Era possível ver apenas um palmo a frente e ela conseguia apenas vislumbrar os contornos das construções.
Regnar apertou a bainha de sua espada ao redor da cintura.
Rowena olhou para o movimento com receio, esperando que o melhor amigo não precisasse recorrer a violência até o fim de tudo. Porém, parecia que a cada segundo as coisas se tornavam mais perigosas quando finalmente se encontravam na última parte de sua fuga, a mais traiçoeira, embora a filha mais velha de Arren Stark soubesse que aquele era apenas o início.
— Irei até porto, atrás de um barco pronto para partirmos. — O Reed comentou o que já haviam combinado antes durante o fogo quente da fogueira. Não fora muito, mas não fora como se ela tivesse tido semanas para preparar tudo. Muito dependeria da fé nos deuses antigos e da sorte. — Parece que não havia ninguém procurando por nós até agora, o guarda na entrada estava fazendo apenas o trabalho comum. Pode ser que seu irmão tenha ganhado algum tempo para nós.
Ela sentiu um pequeno alívio e gratidão ao irmão mais novo, imaginava que nenhum corvo tivesse vindo até a única cidade do Norte com notícias da fuga dela por conta dele. Agora precisavam de um barco que fosse para qualquer lugar, não importava onde desembarcassem, enquanto fosse longe do Norte.
— E se não houver nenhum de partida hoje? — Ela pensou na pior hipótese e nas pequenas brechas que haviam em seu plano apressado. — Como iremos dormir aqui? As pessoas já devem estar procurando por nós dois faz dias, logo irão chegar mensageiros a cavalo e nisso Ronnel não poderá nos ajudar.
Regnar se aproximou, lhe dando um abraço apertado. A Stark sentia-se protegida ao redor dos braços largos e com o calor que ele emanava, mas sabia que precisava deixá-lo ir.
— Não se preocupe antes da hora.
Tenha fé. A frase misteriosa veio mais uma vez na cabeça dela e Rowy se separou do homem mais alto. Regnar acenou para a amiga uma última vez e ela o viu partir, desaparecendo no meio da neve que continuava a cair como um cobertor gelado.
Rowena suspirou, se sentando na carroça novamente.
Chamou Talorvaar para cima e o companheiro antigo se enroscou em suas pernas sem resistência, apoiando a grande cabeça no colo dela. Ela usou a longa capa cinzenta para se cobrir um pouco mais, ajeitando o capuz em sua cabeça e fazendo tudo o que lhe restava, que era esperar. Regnar iria procurar um navio que fosse partir o quanto antes e que estivesse disposto a levá-los, isso sem causar qualquer alarde. Entretanto, ela duvidava que houvesse qualquer guarda no meio daquela nevasca que fazia ela começar a tremer de frio, não enquanto a notícia de sua partida ainda não estivesse tão espalhada quantos folhas no outono.
A Stark estava temerosa.
No fundo seu coração tudo parecia medo e confusão. Temia que partir desse errado e ela fosse arrastada de volta para Winterfell. Temia que Regnar sofresse com as consequências dos atos dela, por mais que a maior parte do plano tivesse sido dela. Temia o olhar de decepção que receberia do pai e da raiva vinda da mãe. Temia um casamento com outro Karstark, dessa vez um muito pior do que o primeiro. Temia o seu futuro e uma profecia antiga.
Porém, por mais que seu interior fosse um furacão, ainda assim permanecia calma por fora.
Essa sempre fora um qualidade da Stark, de permanecer calma e séria, como o próprio pai. Por conta disso que ela sempre fora um porto seguro para seus irmãos e familiares. Sempre conseguindo resolver qualquer problema. Isso se fez lembrar dos outros filhos de Arren e Rhea que ainda estavam protegidos em casa. Arrana deveria estar com raiva por ela ter atrapalhado mais uma vez seus sonhos de matrimônio e isso fez Rowy quase rir, caso o resto da situação não fosse tão drástica. Alaric provavelmente estaria liderando as buscas por ela, trabalhando junto de papai por mais que os dois não se dessem bem na maior parte do tempo. Vovó devia estar tentando encher a cabeça de mamãe com repreensões por ela não ter criado Rowena bem. E Ronnel…
Ele deveria estar com seus corvos.
Já não fazia ideia de quanto tempo havia se passado.
Sentia frio e havia se deitado contra o pelo quente de Talorvaar, duvidava que até mesmo tivesse cochilado um pouco. Ficou desperta novamente apenas quando percebeu que seu lobo rosnava, se colocando sobre as quatro patas maiores do que as de um lobo comum. Rowena se levantou, percebendo um homem estranho a poucos passos de distância. Não o conhecia e mal conseguia ver sua face por conta da neve constante que ainda caía. Porém, uma outra silhueta surgiu ao seu lado e ela ficou mais aliviada ao perceber que era de Regnar. Passou a mão pela cabeça do lobo, acalmando o animal e fazendo ele perceber que estava tudo bem. O homem à sua frente não pareceu ficar confortável, se distanciando alguns passos.
— Você não disse que era um lobo! — O desconhecido acusou se virando devagar para Regnar, embora ainda mantivesse metade da atenção em Talorvaar. — Ainda mais um lobo gigante, isso não está me cheirando bem.
Ele tinha um sotaque forte, puxando algumas letras em sua fala. Além de uma aparência exótica e roupas chamativas. Rowena imaginou que aquele homem fosse sua forma de atravessar os mares frio que circulavam sua terra natal.
Desceu da carroça e se aproximou do amigo que empurrava uma grande caixa de madeira em um carrinho.
— Conseguiu, certo? — Quase parecia que ela estava implorando.
O Reed concordou, colocando a caixa próxima da carroça.
— Não conseguiu nada! — O homem de barba longa e brilhante por conta de óleos falou novamente, apontando um dedo longo e torto para o lobo o que fez com que o animal rosnasse novamente mostrando as presas amarelas. Isso fez o homem recuar com o medo evidente de que a fera pulasse em seu pescoço e o matasse com apenas uma mordida. — Eu não vou colocar aquela coisa em meu navio!
Rowena se voltou para o homem.
— Você é capitão?
— Óbvio! — O medo fazia com que mantivesse metade da atenção nela e a outra no lobo gigante.
— Não se preocupe, ele não irá lhe fazer nenhum mal, não é selvagem e vai se comportar em toda a viagem. — Ela respondeu calmamente, fazendo um gesto comum para que o lobo se sentasse, o que ele fez obedecendo-a.
— Diga isso aos meus marinheiros, ele não vão gostar disso tanto quanto eu! Vai trazer azar! — O capitão afirmou e murmurou outra coisa que ela não conseguiu entender, deduzindo que era outra língua do outro lado do mar. — Esse animal não irá subir…
Ela o interrompeu levantando uma mão. Questionou a Regnar quanto havia sido decidido em relação a preço, pegou as moedas prateadas, contou a quantidade e deu ao capitão que não recusou o dinheiro tanto quanto estava recusando levar Talorvaar.
— Isso já tem tudo o que lhe foi prometido, estou pagando antes mesmo de pisar em seu convés. — Ele parecia pronto para rebater, porém ela levantou a mão novamente, ainda sem terminar. — Quando nos deixar em nosso destino, vai receber a mesma quantia. Isso é mais do que deveríamos pagar por nossas passagens, mas irei dar o valor mesmo assim pelo imprevisto com o lobo.
Rowena sabia lidar com homens como aquele. Afinal ela havia cuidado de muitas coisas em Karhold enquanto era esposa de Galbart e também em todas as vezes que observava o pai cuidar de lordes no salão de Winterfell. Tudo se mostrou útil quando o homem se calou, concordando em levá-los a contragosto. E ela soube que estava um passo mais próxima de terminar parte daquilo, sendo que faltava uma parte ainda muito difícil.
Talorvaar mostrou os dentes quando ela apontou para dentro da caixa.
p e d r a d o d r a g ã o
Daeron havia sonhado com chuva e tempestades, porém tudo fora naqueles estranhos sonhos gélidos e nevados. Não havia imaginado que seria ele mesmo a ficar preso no meio de uma tormenta em seu caminho para o castelo ancestral dos Targaryen.
O cabelo preto vindo da sua linhagem Dayne e na altura do queixo estava grudado a sua face e o par de olhos violetas tentava focar-se nas luzes bruxuleantes que cintilavam esparsas na ilha. Ele teve sorte de se aproximar o bastante antes dos ventos, água e relâmpagos o açoitarem sem descanso. Já que sabia que não passaria muito mais tempo encharcado e com um pouco de frio como estava naquele momento nas costas largas de Stormcloud, mesmo com o calor emanado do dragão que não o aquecia além de sua cintura.
Ele sentia o dragão empolgado por estar de volta para casa. Era ali onde a grande maioria dos ovos Targaryen eram chocados pelos próprios seres escamosos, onde eles cresciam antes de serem domados algum dia ou continuavam levemente selvagens perto da grande montanha vulcânica. Daeron havia vindo ali apenas quando tinha dezesseis anos, passando dois anos para achar Stormcloud, domá-lo, ganhar sua confiança e finalmente voar. Tudo isso ao lado de Alyssana, ele não conseguia parar de se lembrar disso enquanto chegava cada mais perto da fortaleza.
A noite deixava as gárgulas dracônicas de pedra com uma aura ainda mais sombria, prontas para expulsar qualquer invasor ou visitante com suas bocas abertas e dentes pontiagudos. Haviam poucos guardas nas guaritas com tamanha tempestade e os que estavam ali não se assustaram ou fizeram alarde quando o dragão azulado desceu e pousou no pátio cinzento batendo as asas compridas, já estando acostumados com os animais e com Targaryens sempre aparecendo. Daeron desceu pelas asas molhadas e deixou que Stormcloud pudesse voltar para onde nasceu e para junto dos outros de sua espécie nas entranhas cavernas de Pedra do Dragão.
O fim da tarde já tinha cara de noite por conta das nuvens escuras que cobriam o céu e a chuva formava poças nos buracos entre os tijolos de pedra no chão. O som das botas contra a água fez o herdeiro de Solarestival se virar. Martyn caminhava rapidamente em sua direção.
— Milorde! — O homem exclamou oferecendo uma capa para o Targaryen que aceitou, seguindo o intendente de seu pai para debaixo de uma cobertura. — Uma baita tempestade, não?
— Sim. — Daeron comentou olhando para o céu rapidamente, o temporal não parecia pronto para partir logo. — Apenas não pior do que os que estou acostumando nas Terras da Tempestade.
— O senhor vosso pai me avisou que estava vindo, já mandei prepararem seus aposentos. — Disse prestativo e bom em cumprir seu trabalho. — É o mesmo em que ficou há anos atrás, ainda sabe o caminho? Ou gostaria que lhe acompanhasse?
Ele ignorou os dois pedidos com um aceno. Realmente estava com frio, fome e sono, mas antes precisava cuidar da missão a qual lhe havia sido emcubida. Uma conversa rápida com o capitão da guarda não o mataria, depois disso poderia mergulhar em água quente.
— Me leve até o capitão primeiro.
Martyn concordou e mostrou o caminho que dava até o grande salão, esculpido em formato de um grande dragão deitado. Dentro do lugar pessoas comiam e bebiam, inertes a confusão que acontecia no resto de Westeros. As conversas animadas e risadas ficaram mais controladas nas mesas com guardas, serviçais e pessoas de cabelos platinados devido sua entrada. Daeron sabia que causava um rebuliço por chegar na fortaleza, por mais que todos ali já soubessem de sua vinda.
Ele ignorou os olhares e cochichos, caminho até Balon.
O homem possuía a confiança do Rei Aegon, disso Daeron sabia do tempo que havia vivido naquela ilha, e era um Targaryen menor que havia ganhado o posto com muita bajulação. Os cabelos platinados eram ralos e quase sumindo da cabeça por conta da calvície, não havia olhos violetas ou púrpuras, apenas dois pares cinzentos observando o herdeiro se aproximar. No passado poderia ter sido um jovem robusto, mas hoje os músculos deram lugar a gordura e os membros pareciam ainda mais roliços enquanto arrancava uma coxa de galinha da travessa.
Daeron não gostava dele.
— Então o filho da Mão finalmente retornou! — O homem disse enquanto dava mordidas rápidas na carne gorda. — Gostaria de um assento à mesa?
Ele recusou o pedido com mais um aceno, já querendo sair daquele lugar.
— Preciso que responda algumas perguntas.
O glutão bufou sem qualquer formalidade ou respeito.
Os anos como chefe naquela ilha tinham surtido efeito em seu ego e Daeron tinha pouca paciência naquele momento específico para começar um briga desnecessária.
— Mais perguntas? Eu já respondi a todas! — Exclamou deixando a coxa de lado e limpando os dedos melados com a boca. — A Princesa sumiu! Simplesmente assim! Não deixou qualquer pista, fio de cabelo ou pegada nessa ilha. Já fomos em todas as casas e vimos cada canto, até mesmo perto da cova dos dragões. Todos os navios no porto que estavam aqui na época que ela sumiu foram revistados. A garota foi dormir como sempre e na manhã seguinte ninguém mais soube sobre ela. Isso é tudo o que sei, milorde.
As palavras rígidas foram suficientes e o Targaryen sabia que não conseguiria nada de útil daquele homem, não importando de quantas maneiras fizesse suas perguntas. Por isso deu as costas ao capitão da guarda com a mesma falta de decoro que havia direcionado a ele e seguiu para seu quarto sonhando com um banho quentes e roupas que não estivessem encharcadas.
O quarto de Alyssana parecia intocado.
Ele foi direto para os aposentos da prima assim que tinha terminado de comer, já em roupas mais confortáveis e macias contra o vento frio da tempestade que ainda açoitava o mundo do lado de fora. A princípio se questionou caso houvesse algum problema em entrar em um lugar tão privado e demorou poucos segundos parado a frente da porta. Porém, logo recuperou seus sentidos, sabendo que descobrir o paradeiro dela era mais importante do que se preocupar com privacidade.
Daeron nunca havia entrado ali, por mais que as línguas ácidas afirmassem que o filho da Mão e a filha do Rei haviam se deitado juntos na época em que viveram juntos. O que era uma completa mentira e um equívoco criado por pessoas sem qualquer outra preocupação além de se intrometer na vida alheia. Ele e Alyssana apenas compartilharam risadas, dias bons e amizade. Ele se lembrava dela rindo dele nas primeiras vezes que havia tentando montar em seu dragão recém-domado, como ela sempre queria apostar corridas pelo céu, como adorava roubar vinho dos banquetes e ficar observando as estrelas enquanto dizia coisas bobas por conta do álcool.
Tudo isso eram coisas que eles dois haviam compartilhado juntos, porém agora tudo parecia mais sombrio sem ela ali.
Precisou ele mesmo acender as lamparinas e velas com a chama que havia trago consigo, foi um trabalho lento sem ajuda de criados, mas duvidava que qualquer um deles tivesse entrado naquele ambiente fazia dias por conta de toda a poeira acumulada. A cama estava arrumada, como se esperando sua dona a qualquer momento, porém o resto mostrava indícios de mãos sedentas. Daeron conseguiu observar isso com algumas gavetas mal fechadas e roupas bagunçadas no baú e roupeiro da prima, percebeu enquanto procurava por qualquer coisa no meio daquele ambiente já revistado antes por outras pessoas.
Depois de minutos gastos sem nenhum resultado ele sentou-se sobre a cama.
Os dedos longos se mexiam incessantemente pela colcha enquanto sua mente trabalhava com a mesma rapidez. Não havia encontrado absolutamente nada e de forma alguma poderia sair dali sem resultados, seu pai ficaria decepcionado e toda sua vida sempre fora moldada para aplacar as expectativas de Aemond Targaryen. Por isso continuou pensando e pensando.
Meu pai me mandou pois eu a conhecia melhor do que os outros.
O que todas aquelas pessoas não sabiam e haviam deixado passar naquela história? Alys havia fugido? Sido raptada como todos haviam dito? Ela era tão infeliz a ponto de fugir? Se sim, porque ele não havia percebido tal fato na correspondência que trocavam? Ou então quem teria sido poderoso e esperto o suficiente para tirá-la dali por cima de tantas pessoas?
Você teria deixado algo para trás Alys?
As perguntas martelavam em sua cabeça e ele ficou ainda mais inquieto. A ansiedade o levou a se levantar e olhar para o quarto novamente, percebendo como uma grande revelação que a prima não havia deixado nada ali. Pois, as lembranças haviam lhe voltado como uma dádiva e se recordou do grande esconderijo de Alyssana, quando nem ele era bem-vindo ao seu redor por conta de seu pior humor envolvendo tristeza e pesar. Daeron correu pegando sua lamparina e precisando achar uma capa para protegê-lo da chuva ainda forte.
Tinha um último lugar para ir.
t r ê s i r m ã s
Já haviam se passado duas semanas inteiras desde sua partida de Porto Branco e Rowena ainda sentia um aperto em seu coração inquieto toda vez que olhava ao horizonte, sem poder ver as terras do Norte, de sua antiga casa. O mar estava agitado naquela região da Dentada, porém a segurança do pequeno porto naquelas ilhas pacatas impedia que qualquer estrago acontecesse enquanto os marujos tiravam cargas e traziam outras para o resto da viagem.
Ela já sentia uma extrema falta de sua família com tão pouco tempo, mesmo aos chiliques mais irritantes de Arrana ou o andar rígido do senhor seu pai. E precisava se lembrar a quase todo momento que o motivo de sua partida era para o bem deles e o bem de todos. A única parte restante do Norte que sentia ao seu lado era Regnar e Talorvaar, embora o primeiro estivesse mais quieto do que o normal nos últimos dias, estando tão angustiado quanto ela por partir e o segundo mais feroz do que nunca por se ver enclausurado a todo momento.
Rowy havia tentando discutir com o capitão a deixar seu lobo perambular pelo navio, nem mesmo que nos andares inferiores, para que não ficasse tão preso e ansioso. Porém, o homem fora irredutível, mesmo após Talorvaar ter se mostrado calmo e não ter machucado ninguém. Havia dito que os marinheiros não iriam gostar, além de acrescentar outro milhão de poréms e ela podia apenas se contentar com o fato dele ter aceitado trazer o animal junto. Respirou o ar salgado, tão diferente do de Winterfell, e esperou que a última parte de sua jornada estivesse próxima de acabar.
A mão foi até o cabelo para enrolar uma mecha nos dedos, porém não encontrou nada.
Ela balançou a cabeça, se esquecendo do recente corte feito por Regnar. Fora difícil para ela abrir mão das longas madeixas castanhas, entretanto fora importante para que ninguém a reconhecesse no futuro. Agora o cabelo antes preservado com exímio cuidado não passava de um corte torto e mal feito na altura dos ombros. Outra coisa que ela teve de abandonar para concluir aquela difícil empreitada que poderia levar a lugar algum ou a salvação de muitos, as duas opções ainda pareciam sombrias demais para ela meditar em cima.
Assim, sua atenção passou de seus pensamentos para a chegada de seu melhor amigo.
Ele escorou-se na embarcação, inclinando o grande porte para o mar e o céu límpido. Mais do que nunca tinha ficado mais calado e se mantido mais reservado, mesmo para ela que sempre fora sua maior confidente. Rowena sabia que ele tinha tantas dúvidas quanto ela, talvez ainda mais, afinal não havia sido ele a encontrar uma selvagem no meio da floresta que lhe dissesse seu futuro. Naquilo ele poderia apenas confiar nela, como havia feito até agora.
— Está bem? — Ela questionou dando um empurrão nele com seu ombro, o que não o fez se mover nem um pouco.
Ele concordou com um aceno antes de acrescentar mais.
— Apenas inseguro. — Uma resposta sucinta para uma pessoa sucinta, parecia ideal.
Ela comprimiu os lábios, levando os olhos para o céu assim como ele.
— Eu também, os deuses sabem como. — Confessou o que ela achava e que o Reed já devia saber. — Já sinto tanta saudade de casa e nem sei como vou fazer passar toda minha existência sem sentir o frio de onde nasci.
Levou um tempo até que Regnar saísse de seu silêncio comum.
— Eu acho que não vou sentir. — Confessou quase em um sussurro.
Quando virou o rosto ela já estava olhando para sua face.
— Não?
— Eu sempre me senti deslocado no Gargalo, tanto em aparência e porte, quanto em personalidade, a minha vida lá não era boa. — Continuou voltando a atenção para longe do rosto dela. — Foi só quando cheguei a Winterfell que percebi o que era ser realmente feliz, ter pessoas com quem me importo ao meu redor. Eu sempre julguei o lugar onde eu nasci como o problema, mas nunca foi isso.
Ele voltou o olhar para ela, dessa vez com um sorriso estampado na boca.
— Eram as pessoas, eu me senti acolhido com as pessoas e especialmente com você.
Rowena também sorriu, passando os braços ao redor do pescoço dele.
— Obrigada, obrigada por ter vindo comigo, por me ajudar quando…
— Não precisa agradecer, é claro que eu sinto falta de Winterfell e das pessoas de lá, quase tanto quanto você. Porém, eu faria tudo de novo por você e também por mim. — Ele a cortou. — Vamos conseguir te manter escondida e ver aonde os deuses irão nos levar.
Ela concordou com um aceno, os dois voltando para observar o mar e o céu que se tornavam um ao longe. Logo estariam voltando para as ondas e o vento forte ajudaria as velas a seguirem mais rápido. Ela já havia fugido, não havia mais volta e esperava que a profecia não conseguisse lhe perseguir mais tão longe de Winterfell. Sabia que teria Regnar até o final e seu lobo gigante também, os três iriam descer em Vila Gaivota, o último desembarque daquele navio em Westeros e de lá escolheriam seu próximo destino.
Saíram dali não muito depois, descendo para ir dormir. Aquela noite Rowena sonhou com dragões, fogo e carmesim. Mas na manhã seguinte não se lembrou de nada.
p e d r a d o d r a g ã o
O chão rochoso e inclinado fazia com que a água escorresse montanha abaixo, deixando as botas de Daeron molhadas. A lamparina estava protegida da chuva por vidro, entretanto ainda não lhe era muito útil quando apenas conseguia iluminar alguns palmos à frente. Por isso que o jovem tinha de tomar cuidado dobrado ao se aproximar do covil de dragões.
Ele não conseguia ver nenhuma calda espinhenta ou asas cartilaginosas, embora algumas vezes achava que conseguia distinguir ruídos no meio dos sons da tempestade incessante. A prima nunca tivera medo deles, sempre se dera melhor com os dragões do que com qualquer outro animal e até melhor do que com algumas pessoas. Fazia sentindo que guardasse bens preciosos ali, assim como as antigas lendas diziam que as feras cuspidoras de fogo protegiam tesouros nas cavernas de Valíria.
No momento Daeron precisava ter toda a coragem de Alyssana para entrar mais uma vez na casa daqueles animais.
Havia mais de uma entrada para aquele sistema complexo de cavernas. Os mais velhos diziam que se descesse muito chegaria até a lava que um dia iria consumir a ilha como consumira o antigo Império Valiriano. Ele nunca dera ouvido a tais coisas, sabendo que eram coisas para dizer às crianças numa noite da lareira, mas não deixou de sentir um calafrio ao passar pela borda que mais parecia a grande garganta de uma das criaturas que ele montava a todo momento.
Encontrou o primeiro dragão rapidamente, deitado na entrada da caverna. Era jovem, menor do que Stormcloud e mais esguio, embora já pudesse ser montado por um cavaleiro magro. O grande ser apenas moveu a cabeça e piscou os grandes olhos cor de carvão antes de voltar a cochilar. Ele se lembrou do que Alys lhe disse na primeira vez que havia subido aquela montanha atrás de seu próprio dragão. Não os incomode e eles não vão incomodar você, a voz da prima veio como se ela mesmo estivesse ali ao seu lado e ele precisou mover a lamparina ao redor para ter certeza que não estava tendo mais um de seus sonhos estranhos, mesmo que com os olhos abertos.
Piscou ajustando a vista ao quase breu e continuou a caminhar.
Seus passos e pingos de água eram as únicas coisas audíveis, além de rápidos movimentos que ele acreditava ser dos dragões ali contidos, embora não tivesse ido verificar nenhum. O ar ali era seco por conta do calor sempre emanado pelas montarias Targaryen e pelo calor que vinha do fundo da ilha, nem parecendo que estava chovendo tão forte do lado de fora. Ele apenas sabia para onde estava indo exatamente por conta dos pequenos riscos na pedra escura iluminados por sua lamparina, quase impossíveis de se achar caso não fossem observados por alguém que já soubesse de sua existência. Foram minutos descendo e descendo, até que ele conseguiu achar o que tanto queria.
Uma pedra menor do que um cachorro e leve, ele a empurrou com o pé, revelando um buraco raso escavado por mãos pequenas e com uma caixa de madeira dentro.
Ele se abaixou, deixando a lamparina ao lado e se abaixando com os joelhos no chão. Pegou o pequeno objeto com cuidado e animado, afinal tinha a chance de não haver mais nada ali. Porém, sua suspeita era real, a prima havia deixado aquela pequena caixa para trás. Era tão errado colocar as mãos naquilo quanto invadir o quarto dela e bisbilhotar tudo, entretanto a situação era drástica e ele achava que poderia ter alguma resposta com aquilo, já que era ali onde a prima guardava suas coisas mais preciosas ou ele imaginava que fosse assim. Daeron sabia disso pois havia achado ela ali uma vez, antes de partir da ilha depois de ter domado Stormcloud totalmente. Alyssana estava chorando enquanto mexia na caixa, escondendo a mesma assim que o viu chegando.
Agora ele poderia saber o motivo de seu choro e se aquilo o levaria até algum lugar.
Ele obviamente não tinha a chave, por isso usou uma pedra pontuda para arrombar a fechadura.
Pegou a lamparina para observar o conteúdo com cuidado.
Havia um pequeno rubi, do tamanho de uma unha pequena, que enfeitava um cordão dourado. Ele nunca havia visto a prima usando aquilo. Um cacho de cabelo prateado, pequeno e enrolado numa fita vermelho sangue, poderia ser de muitas pessoas ou dela mesma. Ainda nada que o levasse a lugar algum. Um pequeno bordado, tinha as cores e o símbolo Targaryen, além das inicias L T, ele também nunca havia visto aquilo. Por fim, duas cartas. Pegou a primeira e abriu mais perto do fogo, a caligrafia não era de Alyssana, havia sido assinado pela rainha. E pela tinta seca, podia saber que há muito tempo.
Minha amada filha,
eu não pensei que as coisas chegariam a tal ponto, onde você seria banida da própria casa.
Eu fiz o que pude, você tem de saber disso, consegui até demais considerando tudo o que o seu pai queria e ainda quer. Eu sei como deve estar angustiada, mas o Rei não deve ser mais questionado, não com o tanto que você fez debaixo do trono dele.
Ele está medonhamente furioso.
Quem sabe daqui a alguns meses a situação fique mais branda e Aegon deixe você voltar. Continuarei tentando fazer o que posso daqui.
Espero que um dia possa tê-lo consigo novamente.
Te amo, te amo, te amo.
Rhaerys.
Ele leu todo o conteúdo novamente, curioso e com a mente embaralhada.
Foi para a segunda rapidamente.
Meu amado primo,
me perdoe pela demora em responder sua correspondência. Não sei mais ao certo como trocar cartas contigo quando tudo parece desabar, ou melhor, ainda irá desabar.
Eu não sei se posso te pedir ajuda, é tão perigoso e não quero te deixar em perigo.
Você já perdeu tanto, ainda sofre por sua mãe e seu pai lhe deixa sozinho com um castelo para administrar. Não é justo jogar meus tormentos contra você, por mais que possam custar minha vida.
Agora nem sei mais se posso lhe mandar esta carta…
As palavras paravam ali.
Ele sentia um nó se formar na garganta, percebendo que ela poderia ter lhe contado tudo antes de desaparecer, mas não o fez. Daeron nunca havia colocado as mãos naquela carta até aquele dia. Alys estava em perigo, mas por quê? Quem lhe queria fazer mal?
Mais perguntas, nenhuma resposta.
O barulho estranho tirou seu foco.
Guardou tudo novamente na caixa e a jogou no buraco, colocando a pedra mais uma vez no lugar, pronto para quem quer que fosse. Todavia, encontrou apenas uma mulher se aproximando a passos lentos com os pés descalços. Tinha um cabelo grisalho e longo, segurava um balde com uma mão e a outra pressionava um cordão no pescoço. Daeron percebeu que um rubi estava no pingente.
Como o de Alyssana.
— Você demorou. — A desconhecida comentou calmamente com a voz arrastada e rouca. — Te esperei desde que a princesa partiu.
Ele cerrou o cenho.
— Partiu? O que sabe sobre Alyssana?
— Mais do que você. — Respondeu e então gargalhou como se aquele tivesse sido a frase mais engraçada dita em toda sua vida.
Ele e a encarou abismado, levantando a lamparina para ver a mulher com mais clareza.
As rugas eram profundas e os olhos pareciam tão cansados quanto os dele. Era magra e tinha as bochechas encovadas, o cabelo longo e grisalho estava pingando.
— Veio na chuva? — Ele se apiedou rapidamente. — Não quer meu casaco?
Ela o parou antes que ele pudesse tirar a peça.
— O frio não vai me matar, a minha morte virá pelo calor, não pela chuva.
Daeron continuou encarando tal mulher até recuperar a fala.
— Sabe algo sobre a Princesa Alyssana? A conhece? Falou como se conhecesse!
— Eu a conheço, ela é uma grande mulher, será uma grande rainha e você precisa ajudá-la.
— Ajudar? Como?
— Sonhando.
A boca do Targaryen se comprimiu.
— Você precisa parar de lutar contra o dom que R'hllor lhe deu, dom tão grande lhe permite ver sem precisar das chamas. — Exclamou com a boca cheia para dizer o nome da divindade que ele conhecia apenas superficialmente. — Mas eu irei te ajudar, serei um sacrifício para que possa ver.
Ele ainda não a respondeu, sem reação e tentando criar qualquer lógica para aquele encontro.
— O que você quer dizer? Seja mais clara! — Respondeu em um tom mais irritado.
— Não preciso dizer mais nada, você verá por si próprio.
Então ela pediu que ele se calasse, levando um dedo até a boca. Levantou o balde sobre a cabeça e ele percebeu o sangue lambuzar a mulher por inteiro. Daeron se afastou a passos trêmulos enquanto ela começava a proclamar uma cantiga estranha, numa língua estrangeira e dançar com as sombras como se fosse parte da escuridão que habitava aquela caverna e por um segundo ele acreditou que houvesse mais vultos trêmulos rodeando a desconhecida. Ela parou por fim, sorrindo como se estivesse a um passo de um dos sete paraísos. A boca retorcida em pura felicidade e júbilo por cumprir um último papel naquela terra. Apontou para o Herdeiro de Solarestival com firmeza por um segundo e então abriu os braços, olhando para o teto da caverna como se estivesse sob as estrelas.
— Dracarys!
Os dragões acordaram, o fogo saindo de seus peitos e iluminando a extensão da caverna.
A mulher queimou.
Daeron começou a sonhar.
Daeron estava de volta em Solarestival.
A princípio acreditou nunca ter saído de casa, sem nem ao menos saber do desaparecimento de Alyssana. Entretanto, aquilo não era o presente, mas um passado distante há muito esquecido por ele. Uma pessoa não deveria se lembrar de coisas tão distantes.
Fazia sol, com o vento leve balançando o cabelo dele, de seus irmãos e da prima. Estavam os quatro juntos no jardim, ainda crianças, sem saber do que viria pela frente e o que realmente significava ser um Targaryen. Aelor se balançava num galho, enquanto Daeron dizia que ele iria se machucar caso caísse, mas o mais novo não se importava. Daerys estava sentada em um tronco colhendo flores silvestres para um buquê que entregaria a mãe mais tarde. Alyssana estava de pé, com o belo vestido vermelho claro e dourado arrastando pelo chão esverdeado, a prima deles estava incomodada.
— Aqui está chato, Daeron. — Reclamou com o primo novamente enquanto andava de um lado para o outro inquieta. Os olhos violetas eram dois grandes orbes pidões e o cabelo trançado dava a ela um ar angelical, que não combinava com sua personalidade alegre e brincalhona. — Gostaria de ir até o lago! Aqui está tão quente quanto em Porto Real.
— Não podemos, teremos que voltar logo, Lorde Baratheon virá jantar conosco e temos de estar apresentáveis.
O primo mais velho comentou responsavelmente, desde tenra idade.
Alyssana se jogou no chão em uma cena dramática, levando uma mão a testa numa falsa tentativa de mostrar indignação. Aelor sorriu com a cena, apontando um dedo para a princesa. Daerys não sorriu, ela não gostava quando a prima vinha nos verões, apenas continuou com sua tarefa bucólica.
Daeron a tirou do chão, ajudando ela a limpar a barra do vestido agora suja de grama e com carrapichos.
— Podemos brincar lá dentro. — Ele recomendou tirando uma mecha do cabelo da frente do rosto. — Não iremos nos sujar.
— Lá dentro está mais quente ainda! — A Princesa de Pedra do Dragão rebateu novamente em um gesto mimado.
— Bom, podemos fazer isso ou não brincar de nada. — O Targaryen disse já um pouco irritado com a atitude da prima, sendo que os argumentos dele eram óbvios.
Alyssana pareceu pensar e decidir que era melhor brincar dentro do palácio de verão do que não fazer nada. Os quatro correram juntos de volta por uma entrada lateral, fugindo dos criados que passavam com bandejas. Alyssana teria de achá-los e os primos sabiam muito bem como se esconder na própria casa.
Daeron voou novamente.
Memórias, sonhos, dragões e lobos gigantes.
Um rapaz de cabelos prateados tocava uma harpa e repetia inúmeras vezes sobre um príncipe prometido. Uma mulher olhava para três dragões, os três ovos que chocara, ela fora uma grande rainha. Havia um homem, com chifres de veados, ele lutava na lama e na chuva. Uma águia com uma truta na boca, as duas voavam para longe das montanhas do Vale.
Ele voltou para outra lembrança.
Ela nunca irá me achar aqui.
Daeron pensou enquanto olhava pela fresta do armário onde estava escondido.
A porta da pequena sala se abriu e ele se empertigou, imaginando que fosse a prima. Entretanto, conseguiu vislumbrar duas figuras adultas. Ele não teve coragem de sair dali de dentro ao perceber que se tratava do Rei e da Rainha. Ele segurava o pulso dela com força, ela se soltou com um puxão.
— Nunca mais ouse me tocar assim!
— Eu poderia fazer pior! — Ele esbravejou dando um murro na mesa de centro que rangeu. — Eu vi vocês dois conversando como dois adolescentes! Rhaeyrs, não ouse me desafiar correndo para cima de Aemond!
— Eu não fiz nada! Não sou indecente igual Vossa Graça para sair me envolvendo com outras pessoas ou levar amantes para minha cama, não sou infiel! — A Rainha respondeu com o tom mais irritado que Daeron já havia visto na voz sempre calma da mulher.
— Ah é?
O Rei se aproximou fazendo ela recuar um pouco amedrontada.
— Que garantias eu não tenho que isso acontece sempre que viemos aqui? — A voz dele esvaziava veneno e ressentimento, mas a cabeça jovem do garoto percebia apenas raiva. — Quem garante que Alyssana não é uma bastarda de vocês dois e…
A mão dela impediu que Aegon continuasse a falar. O rosto dele virou de lado, tamanha fora a força do tapa. A face dele se avermelhou tanto quanto a da Rainha, que estava furiosa com a fala do marido e nem se importou com a ira que o Rei emanava, agora ela o fazendo recuar.
— Nunca repita tal coisa! — A voz dela era severa e régia, impedindo que o Rei de Westeros pudesse rebater qualquer coisa. — Alyssana é sua filha, a Princesa dos Sete Reinos e herdeira ao Trono de Ferro, e você nunca mais duvide disso!
Ele sorriu, mostrando todos os dentes numa risada sádica que assustou o pequeno Daeron, fazendo ele se encostar ainda mais no fundo do armário pequeno e agora sufocante. Queria sair e correr até a mãe, mas tinha medo, especialmente do Rei.
— Eu faço o que quero e como quero, você não tem nenhum direito sobre nada. — Ela suspirou, virando a face para o marido e indo se sentar numa cadeira com o semblante abatido. — Você é fraca, não conseguiu me dar um herdeiro em tantos anos, apenas aquela garota irritante e dispensável. Que ela fosse filha de Aemond, assim poderia matar ela e vocês dois sem remorsos.
O Rei partiu, deixando Rhaerys com seu choro e Daeron preso por muitos minutos até a Rainha finalmente partir.
Daeron fugiu daquela lembrança que parecia um pesadelo.
Viu um lobo correndo pelo meio do fogo, mas seu pelo não queimava. Na verdade o animal estava protegido e se sentindo seguro no meio do fogo. As rosas se enrolavam nos muros da Fortaleza Vermelha e a leoa se enrolava nos espinhos. Uma segunda águia saia de seu ninho. Mais chuva e um navio pulando pelas ondas. Um rei e um servo, voando até um cair.
Uma morte e um destino.
Um dragão indo até o outro.
Daeron acordou e sabia onde encontrar Alyssana.
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