Pela Princesa - Interativa

14 A Dama e Sua Cavaleira


Notas iniciais
hey! primeiro, gostaria de agradecer a todo mundo que comentou no último capítulo e que continuou acompanhando a história mesmo depois de todo o problema que me impediu de postar regularmente. segundo, algumas coisas que eu gostaria de esclarecer do último capítulo e comentários. a alysanna não é tão jovem assim kkkkkkk ela tem 25 anos, lembrem-se que ela é a prima mais velha do daeron e ele tem 23; a rowena NÃO VAI PARA BRAAVOS! eu reli aquela cena muitas vezes e percebi que ficou meio estranha, mas o navio que vai para essos, ela vai ficar em Vila Gaivota. terceiro, esse capítulo temos uma personagem bem especial aparecendo pela primeira vez e gostaria de deixar claro que ela sofre de autismo e esquizofrenia, por isso qualquer coisa que vocês possam ver como um problema me avisem. quarto, o primeiro conto já foi postado no tumblr, uhuuuuu, então dois capítulos para vocês kkkkkk o conto foi escrito pela holtz e vocês podem deixar comentários por lá para a gente debater, ou pelo comentários daqui também, vcs que sabem. acho que é isso. boa leitura :)

t e r r a s f l u v i a i s

O grupo havia saído do Vale de Arryn fazia alguns dias.

O clima fora das montanhas era diferente, mais úmido e chuvoso nos últimos dias, ainda mais naquelas terras banhadas pelo Tridente onde Erinya havia pisado poucas vezes. Olhava para tudo como se fosse a primeira vez, ignorando os conselhos dos outros membros de sua comitiva e cavalgando a frente sempre que podia. Ela sentia-se livre depois de tanto tempo presa dentro das muralhas do lugar que deveria ser sua própria casa, mas que havia sido maculada pelas mãos sedentas de Havennna.

A Arryn apenas temia pelo irmão mais velho que havia deixado para trás.

Ela nunca poderia contrariar as ordens de Arthur e fazer o que bem entendia, levando o Harrion consigo. E duvidava de que nem mesmo ele teria ido se ela implorasse, não com a recompensa que ela tinha pedido ao primo sendo apenas possível caso ela mantivesse sua parte no acordo e fosse para a capital como havia sido planejado, sem espaço para os eventuais impulsos dela. Teria de segurar a inquietação e saudade do irmão para seguir em frente com a cabeça focada em um objetivo.

Erinya talvez pela primeira vez tivesse que fazer algo por sua casa que dependesse quase totalmente dela. Não tinha sonhos lúdicos que conseguiria encontrar a Princesa Alyssana estando tão atrasada na busca, enquanto outros já se mantinham abrigados na Fortaleza Vermelha pelo que o primo dela havia contado. Porém, ainda teria que representar um papel de enviada Arryn na Corte Targaryen e estava se preparando para fazer aquilo com o mesmo afinco que teria caso estivesse totalmente confiante de que estaria indo achar a nobre perdida. Aquela missão incumbida a ela poderia ser a passagem de Erinya para a verdadeira liberdade, longe de todas as regras impostas por seus títulos e posição.

Faria aquilo para que seu irmão não temesse mais por sua vida.

Para que Havenna nunca mais fosse uma ameaça.

Faria por ela mesma.

— No que está pensando, Erin? — Ela se virou com a voz serena e calma de Gregor Harding.

O cavaleiro era mais novo do que ela dois anos, com seus vinte dias de seu nome vividos. Tinha uma aparência diferente dos Arryn, por mais que fossem parentes em algum nível, com seus cabelos loiros cacheados, queixo quadrado e olhos escuros. Era bem esguio, por mais que fosse alto e atlético, mas Erin acreditava que ela mesma tinha mais músculo do que o rapaz que a acompanhava em sua comitiva.

— Em como todos vocês são lerdos! — Respondeu com algo engraçado e não que fosse seus verdadeiros dilemas pessoais, tirando um sorriso divertido do outro. — Já deveríamos ter percorrido muito mais caminho. Seremos os últimos em Porto Real!

— Poderíamos ter feito tal coisa, levando os cavalos até a exaustão e então demorarmos mais ainda. — O Harding rebateu olhando para ela de cima da cela de seu cavalo nevado. Tinha um sorriso nos lábios quase que fixo na face sempre amigável, mesmo quando estava em uma discussão boba com ela. — Ainda mais com esse terreno lamacento e traiçoeiro. Por que é que está chovendo tanto?

Erinya olhou para o céu nublado e cinzento, procurando pelo sol que estava meio escondido entre as brechas nas nuvens. Deveria estar ficando mais frio no Vale também e ela esperava estar longe das estradas quando começasse a chover forte novamente.

Ainda havia um bom caminho a ser percorrido.

— E então? — A mulher guerreira voltou sua atenção para o companheiro de viagem mais uma vez com a pergunta feito por ele. — Qual o plano? Ainda não nos disse muito do que faremos quando alcançarmos a capital.

A Arryn abriu a boca para responder, mas foi cortada.

— Você acha que essa aí preparou algum plano?! — Os dois se viraram quando Gertyn Harding, o irmão mais velho de Gregor, se aproximou com seu alazão de grande porte, feito para a guerra. Ele parecia ainda mais robusto em tal animal, um homem feito e transformado pelo treinamento com a espada. E muito rabugento, apesar de não ter chegado aos quarenta dias de seu nome. — Ela vai nos mandar fazer todo o trabalho sujo, nunca fez nada além de brincar com essa lança idiota.

Erinya tirou a arma das costas, apontando a ponta afiada e polida para o grande homem, tão diferente do irmão mais novo em tantas maneiras.

— Repita o que disse, caso tenha coragem. — A face dela assumiu um brilho divertido, com a mente já longe dos problemas que havia deixado no Vale.

— Ha! — Gertyn exclamou rindo e fazendo toda a comitiva que estava um pouco atrás dos três se assustar com o barulho cortante no meio da floresta. — Tire essa arma boba da minha fuça, parece uma dornesa andando com esse espeto de um lado para o outro.

Ela não pôde deixar de rir, observando que Gregor também se divertia com a situação.

Os dois eram uma boa companhia no fim do dia e o mais importante, lutariam ao lado dela até o fim. Ela confiava nos dois, pois os conhecia desde que era pequena e ambos viveram nos Portões da Lua como protegidos em treinamento para serem cavaleiros. Os irmãos Harding haviam crescido ao lado dela e de Harrion, inclusive treinando e ajudando ela a ser tão habilidosa quanto era hoje.

Erinya tinha sorte de ter conhecido aqueles dois.

— Uma corrida? — Ela sugeriu ao Harding que cavalga ao seu lado, após guardar a lança de volta às suas costas e se sentir entediada.

— O que eu vou ganhar?

— Já está achando que vai ganhar?

— Eu sou um cavaleiro melhor do que você, admita isso, Erin.

Ela sorriu com o comentário olhando para um ponto elevado na frente.

— Quem chegar primeiro até rochedo ganha! — Ela avançou em disparada incitando o cavalo, sendo seguida por Gregor.

Gertyn ignorou a corrida dos dois com um riso e se perguntando quando acabariam com as motivações ainda infantis, continuando com seu galope lento e dando sinal para que o resto da comitiva avançasse.



Os galhos secos pareciam mãos esqueléticas que tentavam a todo custo prender Liliana Tully.

Ela se segurava com força na crina do cavalo e usava as coxas para manter-se nas costas do animal, já que não tinha sela ou qualquer outra coisa que a prendesse no equino veloz. Ele estava tão assustado quanto a filha de Lorde Tully, com as narinas dilatadas e olhos inquietos, correndo como se a vida dependesse disso. O que realmente era o caso, vultos sombrios perseguiam a mulher de cabelos pretos tão distintos ao ruivo das trutas de Correrio. Liliana olhava a cada segundo para trás, vendo as sombras sem rosto perseguindo ela em cães com mil bocas, prontas para prendê-la e fazer coisas maléficas. A floresta, sua costumeira amiga e confidente, no momento era sua maior fonte de problemas, a deixava presa e sem rumo, a única opção era continuar a fugir e esperar que pudesse achar uma escapatória.

Sua mente afiada percorria o mapa daquelas terras que ela havia estudado tantas vezes antes, a Tully gostava de mapas e sabia os das terras de sua família de cor em sua memória exemplar. Havia viajado a pé por três dias seguindo a Estrada do Rio, fugindo de Correrio em sua missão arriscada e secreta a todos que não ela. Tinha comprado o bom cavalo numa pequena vila no meio do caminho às pressas, sem nem mesmo ter comprado um arreio, tendo então cavalgado até Vila de Lorde Harroway, dormido em uma estalagem e então sido perseguida depois de sair do pequeno vilarejo por aqueles vultos malignos. Só lhe restavam duas opções, continuar até a Estrada do Rei ou subir para o Ramo Vermelho do Tridente.

Nenhuma das duas era viável sem ela saber como controlar o cavalo para levá-la até onde queria.

Puxou a crina cor de avelã do animal com uma dor no coração por machucar tal ser já assustado e cansado, porém aquela situação a obrigava a ser cruel. Sendo que havia funcionado quando o cavalo começou a seguir para o Sul, ela olhou por entre as nuvens chuvosas em busca do sol da tarde novamente, confirmando sua rota. Os seres terríveis continuavam a persegui-la com sons guturais e berros que pareciam xingamentos contra ela. Liliana escutava tudo sem foco algum por conta do vento que assobiava em seus ouvidos e os barulhos do cavalo trotando a toda sua força.

As árvores em sua frente começaram a se abrir como um véu da noite dando espaço para a luz cintilante do deus sol. Ela notou uma clareira e uma elevação rochosa, poderia seguir para mais ao Sul e continuar com um caminho livre ou virar para Norte e até outra parte da floresta.

Entretanto, não houve tempo, estava cercada contra o rochedo.

Liliana fez o cavalo se virar entre relinchos e coices, mais assustado agora que estava acuado junto dela, enquanto ela se segurava com toda a força em seus braços e pernas. As sombras e delírios rodeavam a truta longe do cardume, fazendo ela se debater como se tivesse sido presa por um anzol cortante. Os vultos ao seu redor diziam coisas que ela não entendia e a faziam ficar mais eufórica, queria parar de escutar suas vozes terríveis e alucinantes, estava batendo ao lado da cabeça com as mãos para afastar o sons.

Batia, batia e batia.

Uma pedra tirou-a de seu transe e suas mãos desceram para o lado do corpo, o pedregulho havia sido jogada em seu ombro. Ela estava bem, mas sentia que o local ficaria escuro depois. Percebeu que o pedregulho estava sendo jogado e pego no ar por uma mão hábil, não a mão de um espectro, entretanto a de uma homem de nariz grande e rosto de doninha. Não havia mais seres malignos e sombrios, haviam homens malignos e sombrios em seus cavalos ao invés de cães tenebrosos.

— Para de fugir, milady! — O homem disse a última palavra entre risos que lembravam barulhos de porcos e com seu sotaque rústico dos campos fluviais. — Olha pra ela! — Um dedo acusador que passou do rosto até os pés de Liliana. — Nem parece da nobreza, com a fuça suja de lama e cortes de galhos na cara, vestido rasgado e folhas nos cabelos.

O homem de rosto de doninha se virou para outro alto e careca.

— Tem certeza que essa aí é filha do lordezinho, Don?

Um movimento de cabeça do comparsa fez ele rir ainda mais.

— Eu já espiei ela no castelo Tully, tenho certeza absoluta, Ron!

O tal Ron mostrou mais dos dentes podres e amarelados.

— Venha querida, vamo levar você pro seu pai, pode para de corre.

Liliana fechou a face numa carranca e se segurou mais no cavalo.

— Vocês não irão impedir minha missão! Sumam daqui homens corruptos! — As palavras dela apenas tirou risos de Don, Ron e de seus comparsas que estavam ao redor.

— Ou então o que a sinhora vai fazer? — O “doninha” disse se inclinando a frente. — Tu vai vir com a gente e iremos ganhar uma boa recompensa que o lordezinho deu pra quem te acha e te leva de volta.

— Se me levarem de volta vou dizer que me perseguiram e que jogou uma pedra em mim! — Ela rebateu, olhando ao redor na busca de uma solução, mas não havia nenhuma. Ainda continuava cercada. — Deixem-me ir.

O homem não sorria mais, na verdade parecia pensar com os olhos semicerrados, enquanto seus comparsas trocavam sussurros preocupados por conta das últimas palavras dela.

— Ron, se ela dedurar nois mesmo, vamo ter problemas! Presos até!

Ele lançou um último olhar para ela, com ódio, então sorriu novamente.

— Ora, então vamo ter de sequestrar a dama e pedir ainda mais dinheiro se os nobres querem ter ela sem nenhum arranhão. — Ron gargalhou alto, enquanto seus homens pareciam concordar com a escolha, mesmo que com receios. — Ou pelo menos nenhum arranhão que dá pra ver.

Ele avançou e os que estavam ao redor dele o seguiram, a deixando novamente angustiada. Precisava sair dali e continuar com sua jornada, era seu dever encontrar a Princesa Alyssana. Mas, eles a levariam dali, de volta até Correrio e ela ficaria presa para sempre.

Precisava de uma escapatória.

— Ei! Se afastem dela!

Todos os rostos se viraram para o barulho de cascos e para a mulher que estava à frente.

Ela vestia roupas masculinas, feitas sob medida e estampado as cores azul-celeste e prata, que Liliana reconheceu como ser da Casa Arryn, mas não fazia ideia de quem fosse aquele ser distinto. Ao lado dela um rapaz alto e esguio levou a mão até o cabo da espada, já pressentindo que ali havia problema. A Tully olhou ao redor, percebendo que atenção não era mais nela, porém uma forma de escapar ainda não existia.

— E quem tu pensa que é, garota?! — Ron exclamou virando o cavalo na direção dos dois recém chegados.

— A garota que vai te dar um murro na cara se não sair de perto dela! — Erinya respondeu já sabendo que pessoas eram aquelas e quais deveriam ser suas índoles, havia lidado com elas no Vale e sabia que não eram boas pessoas apenas por sua intuição.

Tirou a lança das costas assumindo posição defensiva em cima do cavalo como Gregor.

— Sai logo daqui antes que eu o faça! — A Arryn ameaçou novamente, girando a arma na mão em uma demonstração de habilidade que impressionou os homens mais atrás do grupo.

— Ou podemos fazer o contrário! — O homem com cara de doninha rebateu indicando seu grupo que avançou mais. Eram em torno de sete, ela e Gregor sozinhos não dariam conta de todos ao mesmo tempo, não eram tão habilidosos assim. — Vamo te ensinar uma lição, garota estupida!

Ele não teve chance de cumprir com sua palavra quando o resto da comitiva Arryn deu a volta no rochedo, em grande número e com o forte Gertyn na frente. Era uma visão imponente, Erynia sabia disso e por isso sorriu consigo mesma, feliz por ver o medo na face de seus mais novos inimigos. Ela queria ver se algum deles teria coragem de avançar, agora que não tinham mais a vantagem.

Aquele dilema pareceu também se passar pela face dos saltimbancos, não demorou muito para os que estavam mais afastados darem meia volta e fugirem a galope rápido. Dois ficaram ainda por mais alguns segundos após ver que não havia chance de conseguir nada, estava acabado. Ron cuspiu no chão em desprezo e fugiu também com seu companheiro careca, deixando o grupo de Erynia para trás e a Tully que haviam perseguido também.

Gertyn veio para o lado do irmão e da Arryn.

— Devemos seguir atrás deles? — Questionou sem qualquer pressa, mas pronto para partir com a primeira ordem.

Ela negou com a cabeça.

— Perderemos muito tempo lidando com algo que não é nossa missão, a capital ainda nos aguarda.

Erinya virou para a mulher alta de cabelos negros que a encarava com expressivos olhos azuis. Machucada e assustada, suja e sangrando. Ela que precisava de ajuda e a mulher não demoraria mais um segundo para fazer o que podia.

— E primeiro temos de cuidar dela.



Já era noite.

Estava escuro naquele canto da floresta, sem o brilho do luar que estava escondida no breu noturno, apenas com a luz da grande fogueira iluminando os rostos cansados da comitiva. Pelo menos não estava chovendo e obrigando eles a ficarem dentro das pequenas tendas do acampamento, era o que Erinya pensava enquanto observava sua “convidada”. A mulher cuidava do guisado de coelho que estava cheirando muito bem no grande caldeirão, ela mesma havia preparado tudo jogando ervas e cogumelos que havia achado pelo chão da clareira.

— E então, o que faremos com ela?

A voz de Gregor a tirou de seus pensamentos e ela virou o rosto para ele. Havia lavado o rosto e os cabelos encaracolados num riacho próximo, tinha um pano de se secar ao redor do pescoço e sua postura era descontraída, embora ela conseguisse perceber o cansaço da viagem que abatia a todos ali.

— Não sei, poderia muito bem dispensar dois homens para levá-la de volta a Correrio. — Começou explicando as possibilidades que havia dito antes. — Ela diz ser Liliana Tully e eu acredito em suas palavras, afinal por que estariam perseguindo ela se não fosse uma pessoa importante?

Gregor concordou com um aceno.

— E o que uma Tully de Correrio está fazendo correndo pelo meio da floresta?

A pergunta também martelava na cabeça da Arryn.

— É o que vou tentar descobrir. — E assim saiu de perto do amigo.

Um tronco caído e meio coberto de relva havia sido movido para perto da fogueira, onde Liliana se sentava enquanto mexia o guisado com uma colher de pau.

Ela observou a cavaleira Arryn cochichar sobre ela e se incomodou com isso, fazendo ela ficar ainda mais desconfiada. Seus instintos conturbados diziam para que não confiasse nela, mas ao mesmo tempo tinha sido aquela mulher a primeira a lhe defender em seu momento de necessidade. Uma dualidade tomava conta dela, fazendo-a ficar mais ansiosa a medida que a outra se aproximava a passos firmes.

Erinya se sentou sem um pedido e começou a olhar para a comida.

— Onde aprendeu a cozinhar? — Questionou tentando começar uma conversa e não partir até o ponto que mais lhe interessava. — A maioria das damas não coloca a mão na massa.

— Eu não sou como a maioria das damas. — Liliana rebateu imediatamente, embora não tivesse sido totalmente grossa, apenas fria e evasiva, sem tirar os olhos do guisado. — Aprendi com o tempo, cozinhar me ajuda a focar a cabeça.

— E onde aprendeu sobre ervas?

— Tinha muitos livros de botânica na coleção do meistre de Correrio, além de eu passar muito tempo nos bosques. — A Tully explicou um pouco mais amigável, afinal gostava muito daquele ponto em específico. — Mas, na grande parte é apenas uma regra básica, se é muito colorido, vai ser venenoso, se parece feio, vai ser gostoso.

Erinya riu levemente, colocando uma mecha do cabelo bagunçado para detrás da orelha.

— Vou tentar me lembrar disso no futuro.

O silêncio se abateu sobre as duas e sobre o acampamento. O canto ritmado das cigarras tomava conta do ambiente, além do crepitar da madeira sendo consumida pelas chamas e o som distante de sapos que habitavam o córrego próximo.

A Arryn do Portão da Lua se virou novamente para sua companhia, notando nos detalhes intrínsecos. O cabelo negro tinha sido preso frouxamente e estava até mais bagunçado do que os dela, o que era um grande feito. As roupas deveriam ser trocadas logo, pois a perseguição com certeza tinha feito seu estrago nos panos antes refinados. O rosto ainda estava vermelho com riscos de cortes, por isso Erinya pegou um pano limpo e um pouco de água de seu cantil.

— Quer que eu limpe isso?

Liliana tirou os olhos da refeição e prestou atenção nas mãos dela. Ainda tinha muita desconfiança, porém sentia que deveria ao menos tentar se gentil com a pessoa que ainda tentava lhe ajudar. Piscou duas vezes, virando o rosto para que ela pudesse trabalhar e deixando a colher de lado.

— Os galhos me atacaram. — Liliana explicou enquanto Erin limpava os ferimentos leves com calma.

— Eu consigo imaginar, também tenho sempre machucados dos treinos que faço. — A de cabelos castanhos comentou mudando para a outra parte do rosto.

— Por isso que é tão boa em cuidar deles?

Erinya sorriu.

— Sim, a prática leva a perfeição, não é assim que dizem?

Liliana concordou com um aceno leve e voltou a sentar em frente ao fogo quando a Arryn terminou.

O silêncio voltou e as duas se calaram por minutos. Erin esperou que a outra dissesse alguma coisa, que criasse uma brecha, mas nada veio. Até que a impaciência da garota fosse maior que sua habilidade de fechar a boca, por isso perguntou sem rodeios.

— Por que está aqui? Não deveria estar com sua família? No seu castelo?

Liliana comprimiu os lábios, contrariada ou talvez chateada, a guerreira não a conhecia o suficiente para deduzir com precisão.

— Deveria, mas não estou. — Uma resposta curta e evasiva.

— Não vai me contar o motivo?

Liliana continuava encarando o caldeirão e a comida que estava perto de ferver. Não poderia falar para ela sobre suas reais intenções, ela a acharia louca e mentirosa como muitos já haviam feito, poderia até mesmo a levar a força de volta até Correrio. E aquela opção era desoladora quando seu objetivo estava ao Sul, na sua busca para achar a Princesa Alyssana, não se importava com as recompensas ou prêmios, apenas em sua missão pois aquele era seu dever.

Apenas era!

O silêncio obrigou Erinya a falar novamente.

— Bom, eu imagino que você não vai querer voltar para casa, certo? — O movimento negativo da cabeça foi a única resposta que recebeu.

A Arryn suspirou, um pouco cansada da falta de palavras da outra, mas segurou sua inquietação. Achava ela uma pessoa diferente, uma única no meio de muitas e também que não poderia deixá-la a sorte de si mesma. O que poderia acontecer se deixasse ali sozinha e continuasse em sua jornada? Existia a chance dela ser pega por aqueles seres medíocres, ou coisa pior. Se a levasse de volta para Correrio e ela fugisse novamente? Eram muitas opções.

— Eu estou indo para a capital. — Erinya disse cruzando os braços contra o peito e pensando se a proposta que estava prestes a fazer era realmente um ideia razoável, ou quem sabe estava se deixando levar por mais um de seus impulsos. — Antes de concordar em passar a noite conosco você disse que estava indo ao Sul, não é mesmo?

A atenção de Liliana pareceu ser fisgada.

— Sim.

— Bom, por que não vem comigo e meu grupo?

A proposta parou no ar.

Liliana não conhecia aquela mulher e nem os homens que aparentemente seguiam ela, mas sentia que ela era uma boa pessoa. Havia salvado ela e ainda queria ajudá-la, sem ao menos pedir nada em troca. E ela sabia que sua aventura ainda estava longe de acabar, que seria difícil e que uma ajuda extra não lhe seria ruim no caminho até Porto Real. Porém, ainda assim tinha suas desconfianças e por isso não a respondeu sobre aquele assunto.

— O guisado está pronto, pegue sua tigela. — A Tully disse se levantando.

Erinya suspirou mais uma vez e deixou que ela pensasse no assunto.

Todos comeram bem aquela noite e até repetiram o guisado delicioso. Liliana aceitou todos os elogios a comida de maneira quieta e contida, se sentando separada do bando de homens e da outra mulher. Todos foram dormir depois de estarem com as barrigas cheias. Erinya deitou-se com a cabeça focada na pessoa que dormia na tenda ao lado e Liliana na proposta que não havia fugido de sua cabeça.

Na manhã seguinte o acampamento foi levantado e Liliana Tully seguiu junto da comitiva.

Notas finais
espero que tenham gostado! e perdão por qualquer erro. não esqueçam de passar no tumblr para ler o primeiro conto! próximo capítulo será da kyra e do arthur. também tenho uma recomendação sobre outra história no universo de got, escrita pela mesma pessoa que fez a capa lindíssima: https://fanfiction.com.br/historia/795964/Sands_of_Time/ obrigada por tudo :) beijocas ♥