Pela Princesa - Interativa
20 O Que Elas Acharam Na Floresta
Notas iniciais
t e r r a s f l u v i a i s
Diferente do que Erinya imaginou, não conseguiram viajar com rapidez.
As estradas estavam lamacentas e cobertas de poças, ou até pequenos riachos foram se formando para desaguar nos três ramos principais que formavam o Tridente. Os animais se fatigavam mais rápido e não conseguiam se locomover depressa com terreno tão ardiloso, fazendo com que um galope lento fosse o máximo que conseguiam em momentos de garoa leve. Porém, a chuva nunca parava. Aquilo era o pior, o grupo não via verdadeiro sol quente há dias, com uma aura azulada tomando conta do céu e terra.
Todos estavam cansados.
Por conta disso, ela mesma ordenou que esperassem por alguns dias até que o tempo melhorasse. O acampamento foi levantado em um êxtase letárgico ocasionado pela moral baixa da comitiva Arryn. Todos eles já esperavam estar bebendo boa cerveja e tendo uma cama em Porto Real, dessa forma a perspectiva de mais dias dormindo em sacos desconfortáveis e comendo apenas o que a floresta proporcionava era realmente decepcionante.
Erin passou por tendas azuladas, desviando das poças escuras nos caminhos que se formavam entre as grandes lonas. Havia uma pequena fogueira lutando contra o clima aguado e frio, um dos escudeiros dos Portões da Lua tentava com fracasso cobrir as tímidas chamas com um pequeno telhado de galhos e folhas que não estavam secas o suficiente.
— Deixe-me lhe ajudar com isso! — Ela mais ralhou do que pediu com o pobre menino franzino, que recuou em seus pés ansiosos. — Traga peles que vamos usar como esteiras, já temos demais daquelas, não vamos precisar de todas.
O garoto obedeceu correndo para dentro de uma das tendas e voltando com a pele de veado em mãos. A Arryn a pegou em um giro, enquanto segurava sua pequena adaga entre dentes e enrolava uma corda entre duas estacas. Repetiu o processo do outro lado, enquanto pedia para que o rapaz segurasse com firmeza a primeira parte e impedisse que tudo desabasse.
— Pronto! — Ela disse limpando o pouco de suor da testa, por conta do calor das labaredas, e olhando para a pequena proteção que permitiria que eles assassem alguma coisa mais tarde. — Não teremos que comer apenas carne seca e queijo esta noite.
— Não sabia que tínhamos uma artesã dentro da nossa comitiva. — Gertyn Harding comentou e ela se virou para notar sua face de desdém.
Tinha a longa, pesada e deslumbrante espada prateada apoiada no joelho. Enquanto uma mão segurava o punho do objeto com a maior delicadeza que aqueles dedos calejados conseguiam, a outra passava a pedra de amolar com rapidez e precisão. O som metálico fazia com que Erin se arrepiasse, mas não mostrou isso ao cavaleiro.
— Você não sabe nem metade de minhas habilidades, Harding. — A mulher respondeu guardando a adaga de volta ao punhal na cintura e lançando um olhar com a mesma intensidade de desdém, deixando claro que não se sentia nem um pouco intimidada com suas palavras.
Não que houvesse nada mais do que genuína brincadeira ali, por mais que Gertyn nunca fosse admitir tal coisa.
A gargalhada de Gregor chamou a atenção de Erinya.
O cavaleiro mais novo tinha as duas mãos cobertas por luvas marrons e elas seguravam uma caneca de madeira. Por mais que Erin nunca fosse admitir, ele fora também um dos grandes motivos dela ter ordenado a parada da comitiva. O Harding menos ranzinza havia pego um resfriado por conta da chuva e ventos frios constantes, fazendo com que estivesse sempre com o nariz vermelho e uma tosse cheia de catarro. Ela já havia visto e ouvido sobre pessoas morrendo com a doença dos pulmões, também sabia que poderia tirar a vida do mais atlético dos jovens. Não achariam um meistre tão rapidamente, então Erin resolveu não arriscar, não com uma pessoa tão especial…
Cerrou os punhos enquanto observava o riso alegre sair de Gregor, esperando estar controlando bem as expressões faciais e não estar corando.
— Pois bem, nem eu sabia que você era tão habilidosa na arte das construções, Erinya. — Ele respondeu após parar de rir e levando a caneca à boca, com uma leve careta ao engolir devagar o que quer que fosse.
— O que está bebendo?
— Chá. — O rapaz comentou olhando intrigado para o líquido amarelado. — Ao menos foi o que Liliana me disse que era.
— Ela quem fez? — A cavaleira Arryn perguntou com uma sobrancelha castanha erguida.
— Sim, me disse que vai me ajudar a melhorar, eu não acreditei muito a princípio, mas meu nariz já parou de escorrer. — Confessou tomando outro gole e mostrando outra careta. — Apenas tem gosto bem ruim!
Gertyn murmurou algo que nenhum dos dois conseguiu distinguir o significado, enquanto continuava em sua missão de deixar sua espada pronta para qualquer conflito. Apenas perceberam algo como bruxaria e desconfiar.
— Onde ela está? — Erinya perguntou por fim.
— No limite do acampamento, perto do norte da floresta.
A Arryn assentiu, deixando os irmãos Harding para trás e indo em direção a ela.
Liliana era um enigma, não só para ela, mas para todos ao seu redor. Não se misturava com Erin ou os outros cavaleiros e escudeiros, detinha sempre um olhar contemplativo e uma melancolia ao redor de seus movimentos. Nunca falava mais do que o necessário e não demonstrava suas emoções a eles, era como uma estátua parada ao meio do tempo, apenas observando.
Erinya gostaria de conhecê-la melhor e mais do tudo, saber o motivo de estar tão longe de casa.
Caminhou saindo do amontoado de pavilhões. Olhou por entre as copas das árvores, tentando encontrar alguns vestígios do amarelo do sol, mas apenas encontrou o cinza das nuvens e o azul do céu. Seus arredores eram carregados com barulhos de orvalho caindo no chão da floresta, em um ritmo natural, além do ruído distante da garoa. Suas botas sujas de lama raspavam o terreno, fazendo um leve barulho grudento, o que fez com que a Tully virasse para si antes mesmo delas estarem próximas uma da outra.
A Arryn ficou ao lado dela, ambas observando o verde da mata.
Permaneceram assim por alguns segundos, sem falar nada, apenas ouvindo, presas nas próprias mentes. Erin tinha menos paciência e serenidade em seu interior, por isso que para ela foi mais fácil quebrar a calmaria com a própria voz.
— Gregor me disse que o chá está ajudando! — Ela exclamou mais alto do que pretendia, assustando sua companhia que retraiu os ombros.
— Que bom… — Liliana deixou a frase sumir ao ar, como um pedido silencioso para que as bocas fossem fechadas mais uma vez.
Todavia, a cavaleira do Vale não iria se calar tão facilmente agora.
— Por que está aqui sozinha?
A jovem Tully levantou os braços em uma pose quase mística, apontando para a floresta ao redor e ao nada. Levantou a cabeça ao céu e uma gota caiu em sua bochecha, escorrendo por sua mandíbula até sumir novamente pelo tapete de folhas secas e recém caídas.
— Para pensar, ficar longe da multidão, do espaço pequeno nas tendas, das conversas sem fim.
Erin olhou para ela com um misto de confusão e receio.
— Você não gosta de ficar perto de outras pessoas?
Liliana suspirou, se virando rapidamente, as mechas negras e agora úmidas por conta da chuva se viraram com ela. Observou atentamente as feições de Erinya Arryn, ainda não a entendia completamente, mas sentia por ela um grande sentimento de confiança e segurança. O que era incomum quando ela se afastava da grande maioria dos desconhecidos, eles nunca a entendiam, nunca fizeram um esforço. Mas, ali estava aquela mulher, lhe perguntando.
Se importando.
— São elas que normalmente não gostam de estar próximas de mim, eu as assusto.
— Por que?
Liliana se irritou, para ela parecia óbvio o quão estranha ela era num mundo onde tudo era esperado de uma pessoa nobre como ela. Achava que a outra estava caçoando dela, como muitos fizeram durante toda sua vida. Por isso, se afastou em um instinto amedrontado.
Erinya também se precipitou, segurando uma das mãos dela e a impedindo de fugir.
— Por que? — Retornou a perguntar com mais precisão em seu tom.
— Você não percebe o quão sou diferente? Estranha? Uma aberração! — Repetiu as mesmas coisas que ouviu as pessoas cochichando ao seu redor quando pensavam que ela não ouvia, ou que sua tia esbravejava quando o pai dela não estava por perto, o que viu as pessoas repetirem em Correrio desde que elas nasceu.
Um punho se fechava ao redor da garganta dela, sentindo as emoções reprimidas e inflamadas emergindo à superfície.
— Você não é estranha, muito menos uma aberração. — Erin murmurou, olhando para os olhos dela, sem quebrar o contato.
Liliana viu apenas verdade naquelas palavras e se sentiu bem por estar com ela naquele momento, mostrando enfim um sorriso tímido. Erin também abriu um leve sorriso, segurando a outra mão dela e a trazendo para mais perto.
— A vida toda me disseram que eu não devia me vestir como me visto, lutar ou saber portar uma lança, que não deveria falar abertamente como falo e que deveria ser como as outras ladys do Vale. — Um sorriso mais sarcástico se formou com tais palavras, enquanto ela levantava o queixo delicado em um movimento vitorioso. — Mas eu sempre mandei eles se foderem ou irem procurar outra mulher, iriam achar muitas do jeito que queriam.
Liliana gargalhou levemente, olhando para o par de mãos unidas e então para a mulher à sua frente.
Ela lhe fazia sentir-se acolhida e em um lugar sem restrições. Em que poderia ser ela, nunca havia encontrado alguém assim. A proteção para ser ela mesma sempre foram as mesmas paredes fechadas da pequena biblioteca de Correrio ou a liberdade da floresta, mas nunca uma pessoa. Nunca ninguém que soubesse o que ela passava. Que poderia entender.
Talvez devesse realmente confiar nela.
As duas soltaram as mãos, Erinya se colocou na frente de Liliana, protegendo ela quando ambas observaram o homem surgindo do meio da mata.
Vinha se escorando nas arvores, tinhas os cabelos negros e longos grudados a face, junto de cortes inflamados escorrendo sangue. Nenhuma das duas haviam visto ser mais pálido antes, como papel fino e que se rasgaria a menor pressão de uma unha. Cambaleava pela lama escorregadia, com as botas sujas até o topo e a roupa feita da farrapos do que já fora seda nobre.
E havia os olhos.
Duas íris púrpuras, as únicas coisas vivas naqueles ser. Quase como se fossem brilhantes contra o branco do olho, flamejantes. As pupilas se dilatavam e voltavam ao normal, em um ciclo contínuo, insano e cansativo. Ele também murmurava algo, como uma prece importante, elas não conseguiram ouvir até ele cair de pé diante delas.
— Rowena… — Ele dizia com a voz rouca e língua inchada, pois não parava de falar desde a caverna. — A resposta é Rowena…
Foi tudo o que disse antes de desmaiar.
Ele ainda ardia em febre.
Liliana constatou enquanto colocava outra toalha úmida na testa do rapaz sem nome.
— Ele só pode ser um Targaryen. — Gertyn comentou com sua voz dura de seu canto da tenda, tinha a espada em mãos, com um sentimento ruim desde a ponta dos pés a cabeça, o fazendo se irritar com tudo e com todos.
— Não temos como comprovar isso. — Gregor respondeu enquanto tentava pensar numa hipótese plausível. — Existem muitos bastardos por aí, muitos com olhos violetas, muitos dizem que é até comum encontrar pessoas assim hoje em dia na capital.
— Não com essas roupas! — Erinya rebateu agoniada por logo Gregor duvidar dela, ela mostrou os botões prateados e o símbolo do dragão no meio das manchas de lama. — Deve ser da nobreza.
— Olha, ele até pode ser, mas…
Liliana calou a todos, elevando sua voz, coisa que surpreendeu os três.
— O que importa é que ele vai morrer.
Um silêncio seguiu a frase, deixando o ambiente mais sombrio.
— Você não consegue ajudá-lo? — Erin questionou abaixando-se perto dela e do homem na maca improvisada. — Não pode fazer algum chá ou algo do tipo?
A Tully olhou para ela contrariada, mas conteve seu desgosto.
— Existe um limite com o que posso fazer e com o que a natureza pode oferecer. — Ela explicou e Gertyn murmurou algo de novo, o que todos ignoraram. — Além de que está escurecendo, não vou conseguir encontrar nada na escuridão ou na luz de uma chama. Teríamos que esperar até a manhã e não sei se ele teria todo esse tempo.
— Não deveríamos levá-lo até um meistre, a coisa mais correta a se fazer ao invés de deixar… ela cuidando dele?
Erinya se levantou, pronta para brigar por Liliana.
Gregor calou os dois, sempre apaziguando quando as implicâncias de ambos chegavam ao ponto da discussão e então briga. Liliana apenas continuou cuidando do rapaz, ignorando as palavras ofensivas como havia feito sempre.
— Onde acharíamos um meistre?
— Vila de Lorde Harroway fica ao norte da estrada e Harrenhal a sudoeste. — A Tully respondeu sem pensar, sabendo de sua terra natal perfeitamente.
— Levaria a noite toda e ele não está em condições para cavalgar, teria que ser carregado na sela. — Gregor comentou ainda pensativo, com uma mão apoiando o queixo e a outra batendo contra a espada na cintura inquietamente.
— Acho que ele não aguentará. — Liliana murmurou novamente.
Eles pararam de pensar no assunto quando um escudeiro entrou na tenda ofegante. Estava sujo dos pés a cabeça como o rapaz jogado na maca, além de estar encharcado por conta da chuva forte que caia agora, alagando os arredores do acampamento.
— Milady! — Ele disse e a Arryn torceu o nariz perante o título. — Um grupo vem do norte, todos montados, estão em grande número, o nosso batedor disse que observou os dois mesmos salteadores que tentaram pegar Lady Tully dias atrás!
Os quatro trocaram olhares surpresos com o que o escudeiro vomitou diante deles com a voz amedrontada.
Gertyn murmurou novamente com sua alma de velho ranzinza mais ativa do que nunca, já tinha a espada em punhos, então não precisou a tirar da bainha.
— Não podemos ir ao norte, decidam se vão levá-lo ao sul. — O Harding disse apontando para o enfermo. — Eu cuido desses vagabundos impertinentes.
Então o acampamento acordou repentinamente com os gritos que Gertyn soltou ao sair da tenda. Os pés contra as poças, aljavas sendo cheias e pessoas tentando entender o que estava acontecendo. Os três permaneceram ali, observando uns aos outros e tentando chegar a um consenso.
— Rowena...
Liliana se aproximou, ouvindo com atenção e observando a boca roxa pelo frio se movimentar ritmicamente.
— Eu a vejo, ela está chegando… — Nenhum deles conseguia entendê-lo bem, a voz rouca e distante também não ajudava. — Rowena…
— Do que ele está falando? — Erin questionou já inquieta para sair dali e ir atrás de Gertyn, onde haveria ação e algo que ela poderia fazer de verdade.
Liliana colocou o ouvido perto de sua boca, tentando distinguir as sílabas e palavras atentamente.
Se afastou rapidamente, ele estava se levantando. Os olhos vidrados correndo pela tenda e procurando um rosto que ainda não estava ali, se encontrava em seus sonhos apenas. Gregor se apressou, o colocando de volta na cama e Erinya tirou Lily de perto dele.
— Ele está alucinando. — Gregor falou tentando contê-lo, porém o desconhecido continuava se debatendo e murmurando coisas que nenhum dos três entendia.
Os gritos do lado de fora da tenda pareciam aumentar, sons de batalha já eram audíveis e isso fez com Erin quisesse ainda mais sair dali. Liliana já se encontrava inquieta com a outra melhor lhe pressionando e os barulhos de carnificina emergindo do campo de batalha recém formado.
Espadas contra espadas, as cordas dos arcos sendo esticadas, pele sendo cortada.
Todo o acampamento e a luta parou quando um rugido maior do que todo o barulho ali prevaleceu. Todos ali já haviam ouvido histórias sobre dragões e como os gritos de suas gargantas acovardavam os mais bravo dos homens, mas ainda assim o som parecia algo de outro mundo, como algo que não era real. E estava ali, estava próximo, vindo até eles.
Um dragão.
— O que foi isso? — Liliana comentou cobrindo os ouvidos à medida que outro rugido gutural foi ouvido, dessa vez mais perto.
— Vamos sair daqui! Gregor pegue ele!
O Harding mais novo obedeceu, colocando o rapaz nas costas com dificuldade já que ele ficava cada vez mais inquieto.
O mundo fora da tenda já era um breu coberto de chamas no meio da torrente de água, fosse do dragão ou das tochas nas mãos dos homens que tentavam superar a tempestade. Erinya teve que se conter para não perder tempo observando a besta, o fogo saia de seu peito iluminado o acampamento como se fosse dias e ela correu imediatamente, quando viu os grandes olhos como gelo cristalino se focarem nela.
Levou Lily pelas mãos, enquanto ela tentava se soltar, agora tão inquieta como o homem carregado por Gregor.
Não conseguiu arrastá-la quando outro barulho da besta fez perceber que estavam sendo perseguidos. A Tully se jogou ao chão, batendo contra cabeça, tentando abafar os sons das espadas, da chuva, dos homens, do dragão…
Ela sentiu os braços finos de Erinya a cobrir. O peso dela contra o seu, a protegendo e a guardando de todo mal. Ainda tinha medo, ainda se sentia perdida, como se o mundo fosse desabar sobre ela, os barulhos não paravam, ela estava sendo sufocada por todos os lados. Porém, ela estava ali, estava cuidando dela, não deixaria que nada lhe acontecesse.
— Vamos, o dragão! — Gregor murmurou.
Erinya olhou para ele, não tinha mais o homem, o ser misterioso estava de joelhos na lama com chuva batendo contra o rosto. Olhava para todos os lados, ainda procurando por algo, por alguém, por ela, por Rowena. E ela apareceu, ela finalmente apareceu do meio da floresta da mesma forma que ele. Vinha na frente de uma carroça, com um grande homem ao seu calcanhar.
Erin olhou para todos os lados, perdida, sem foco.
Do outro lado do acampamento vinha outra pessoa por entre as chamas das tendas queimadas pelo fogo do dragão.
Um homem com uma espada pingando sangue e água.
Era Ron, o homem com rosto de doninha.
Tinha voltado atrás de uma recompensa e de uma vingança, junto de um pequeno exército de pobres coitados, mendigos e saltimbancos sonhado com a recompensa de Lorde Tully e os espólios da comitiva Arryn. Sorria sadicamente com seus dois maiores prêmios a frente, o dinheiro por Liliana e a vida de Erinya por ter enfrentado ele.
Queria muito se vingar, queria muito ter dinheiro para gastar.
Entretanto, não teve nada disso quando Talorvaar pulou e cortou sua garganta.
O homem só teve tempo de grunhir com o sangue esguichando antes de morrer.
A última coisa que viu foi um fucinho negro pintando de sangue e dentes amarelos prontos para o dilecerar.
Erinya ainda estava agarrada a Lily, que tremia dos pés a cabeça, ainda tentando bater na própria cabeça. Em completo terror e desespero, precisava ajudá-la, precisava saber se Gertyn estava bem. O que iria ser dela após aquela noite? Pensou em confusão.
— O que está acontecendo aqui? — O grande homem se aproximou acompanhado da moça de cabelos curtos. Os dois trocaram olhares preocupados e Erin não soube o que responder, nem ela sabia como a situação havia mudado tão repentinamente. Ela só deveria estar indo para Porto Real, apenas isso.
O grito do dragão chamou a atenção de todos. Menos deles dois.
Rowy se aproximou dele, quase como se uma linha invisível levasse um para perto do outro.
Ele a observava como se fosse o sol ardendo no meio da noite, a luz que o trouxe até ali. Que o manteve de pé caminhando por tantos dias sem comida ou água. A razão de seus sonhos, do futuro e do presente. Rowena era seu destino e ele o dela.
Um filho, uma criança e a destruição.
A voz da bruxa voltou para a cabeça dela enquanto observava os olhos violetas fixos nela.
A Stark sentia que estava selando seu destino quando pegou na mão dele.
O Norte ou a felicidade? Os deuses ainda a ouviam, o que será que eles diriam vendo ela levantar ele? Será que a crucificavam como demônio ou a exaltavam como santa? A salvação de apenas um reino ou de todos os sete?
Aquelas dúvidas existiam no universo, mas não na mente de Rowena.
Não quando ela encontrava ele e o mundo parecia parar.
O dragão se deitou ao lado deles, colocando a asa de lado para que eles pudessem subir e ela soube o que fazer instintivamente.
— Rowy? — Regnar murmurou e ela olhou para o melhor amigo, sem saber se o veria novamente ou que se passava em sua cabeça, mudando todos seus planos por aquela pessoa que nem sabia o nome. De qualquer forma, não parou.
Seu lobo grunhiu, se aproximando dela e cheirando a pessoa que ela segurava.
— Cuide dele. — Ela pediu a Talorvaar e o lobo gigante entendeu, se colocando ao lado do Reed. — Não se preocupe…
O pedido dela não impediu que Regnar a olhasse como se fosse louca ao subir nas costas de um dragão na companhia daquele estranho.
Ela o colocou com cuidado contra seu corpo, o cobrindo com seu manto, aquecendo ambos contra a pele quente da criatura alada. Segurou nas escamas pontudas com uma das mãos e na outra nele, o grande dragão azulado abriu as grandes asas de couro. Bateu elas contra o chão, levantando ar e as tendas, fazendo o pequeno grupo ao redor deles recuar em medo e admiração.
E então eles voaram.
Acima do acampamento, da floresta, da estrada, da chuva e das nuvens.
Rowena e Daeron, finalmente juntos.
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